quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A dura matéria do pensamento

"Estar sola me hace pensar
en el realismo de las cosas quietas

soy objetiva:
                             las cosas están quietas
porque nadie las mueve

son obedientes y serviles.

*

Me siento en la cocina en un banquito
como si me sentara en una piedra
y me sostengo la cabeza con el puño de una mano
pero no soy el hombre que piensa:

tenso el cuerpo es tiempo de la fruta
que madura se deja caer como una idea:

si hubiera una justa medida del peso
la cabeza pesaría menos."

**

Estar só me faz pensar
no realismo das coisas paradas

sou objetiva:
                          as coisas estão paradas
porque ninguém as move

são obedientes e servis.

*

Sento na cozinha em um banquinho
como se me sentasse em uma pedra
e me sustento a cabeça com o punho de uma mão
mas não sou o homem que pensa.

tenso o corpo é tempo da fruta
que madura se deixa cair como uma ideia:

se houvesse uma medida exata do peso
a cabeça pesaria menos.


Liliana García Carril
Tradução: Ellen Maria

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

so sorry

Minha pele resiste
gritam contraídos também os músculos
insisto, fecho os olhos,
contrariado voluntariamente
movimento o esqueleto em direção a ela
um caos -flecha/versus- uma calma
a receber meu corpo
qualquer corpo meu, velha cara
eu ainda/já/não sou o mesmo de antes
claro que ela nota
seu corpo inspira expira dilata expande
me estiro envergonhado-envergado na cama
ela não diz nada, só sorri
parece feita de água, madeira e pedra
o ar condicionado do quarto também (so sorry) parece começar a funcionar
o que será que ela viu/vê? que será que sente?
um gesto delicado (guardar imagem mental) anuncia o desfecho:
ela toca meu braço
e levanta.


Ellen Maria

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

descartando a possibilidade do baralho de fazer mágica
sobra o macete do truque:
a maioria do público dá meia volta
enquanto
um homem de sapatos apertados não chora
e janta só
guarda tupperwares na geladeira
e certo brilho refleti(n)do naipes
quando olha pela janela.

Ellen Maria

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

uma viagem

Noite estrelada sobre uma velha colcha de retalhos
visito o oriente entre gotas de ebriedade
e lambidas de consciência    
me perco       em meio a cangurus e meridianos
caminho       e caio em temperos         peregrino outros fusos 
encontro com folhas de louro        e quando 
um sol alaranjado se apresenta,
estou de volta à américa.
Meus olhos se abrem antes de se porem.
Assim na terra, praia grande,
uma imagem não termina de clarear
liquidando para sempre
qualquer possibilidade de vida em vão.

Ellen Maria

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Os sentidos

Para Mila Dias

nós sempre nos encontramos de vez em quando em restaurantes baratos. o abraço sempre cheira a ervas, camomila, capim limão, uns matos que eu não sei o nome, ela me ensina. somos só duas amigas que se querem de imediato como tomate cereja e berinjela cozida. costuma durar três horas em média, o fogo é lento, porque assim podemos observar também a paisagem: as pessoas aqui não jantam com tanta pressa, sobra gentileza pelos funcionários, o dinheiro mal pesa no bolso, ninguém reclama. todos e nós nadamos borboleta em uma piscina de águas claras à vista enquanto conversamos. há cumplicidade no gesto líquido de ouvir a outra. tem ciscos no olho caindo como chuva de coentro e orégano na salada, gosto de choro, enquanto bocas se abrem como quem descasca um alho, o riso solto. o coração é de alcachofra e tem sabor a vinho e sopa quente no inverno, sanduíche de shitake no verão. é uma delícia. a fome é sincera, mais que a saciedade. ninguém sente que a noite chega. nós temos que ser avisadas. "já encerramos o expediente". é, sem dúvida, o pequeno fim do melhor das horas e das folhas do calendário. as palavras de sobremesa acabam sendo na porta da entrada. e não há saída: ficamos entre nós por muitos dias seguintes. é que a amizade é assim como um doce que nunca enjoa.

Ellen Maria

domingo, 6 de dezembro de 2015

Quer pagar quanto?

"Quantos likes merece esse lindo sorriso?
E essa selfie com o pessoal do trampo?
Esse domingo no parque com meu amor?
Quantos likes merece esse vídeo engraçadinho?
E essa notícia, quantos?
Esse filé ao molho madeira?
Meu candidato, quantos likes?
Minha geladeira nova?
Meu casamento?
Quantos merece minha cadelinha?
Minhas noites de aventura?
A trilha sonora da tarde?
A minha cara de inteligente?
E essa citação tão bonita, diz aí?
Quantos likes merece esse poema da Clarice Lispector?
Minha determinação, minha atitude?
Minha alegria de viver?
Vai dizendo.
A mensagem na camiseta deve valer alguma coisa.
O placar da última rodada?
E a minha família sempre unida?
Minha última viagem para a praia?
Minha vida passada a limpo?
Quantos? Quantos?
Deve valer alguma coisa.
É claro que deve valer alguma coisa."

Bruno Brum

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Un círculo imaginado

Magia.
Una pareja de manos se dibuja
y se adora infinitamente
al sonido de cuartetos y boleros.
Él debe saber a azúcar quemado,
como la voz del cantante que me envía
Una verdad no se escribe con versos,
balbucia, es un baile entorpeciente
contieniendo dosis flameantes al oído.
Te huelo salado en mis sueños, susurra,
contando los pasos que empiezo a dar
hacia ti, lejano poema,
que me toma tímido con vermut,
y después desea los ojos a besos
el cuerpo vibra solo
y me invita a la errancia que ronda
el explote del sol y el temblor de la tierra
No se despierta ni envidia
lo tiene todo en su palabra
por hora caramela mañana
quién sabe
como el alcohol evapora.


Ellen Maria

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

declama e ouvido

teu texto não fragmento
não fujo ainda que agora
doa, é sofrimento
ausência 
de um bocado de explicações
escuto
tua língua afila
mas é um manto de feltro
verde que me cobre
um rio doce que chora e lava
e
meu olho suga 
um pedaço de outra dimensão

que se sustenta

meu sorriso te anuncia
não estou mais só
teu olhar afirma
desadoeceu um buraco negro 
por dentro
a natureza devora
tudo que brilha
e devolve em silêncio
tempo
tempo que implora
um pouco mais de tempo (respira)
dentes em parassintética sintonia
isto é, poesia em expansão.


Ellen Maria

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Psycho Killer

"Ese mosquito que maté
- y que vos bautizaste Psycho Killer,
por la acritud de su aguijón y la temeridad
con que logró eludir las palmas de la muerte
en la hora lenta en que la noche se recorta
inmóvil en su cima
antes de despeñarse con callada furia
contra la madrugada
y nos sopló al oído el cuerno del insomnio
hasta dejar, al fin,
sobre el revoque blanco de ese cuarto prestado
una gota escarlata - era el vehículo para un pacto de sangre

          que prometía que
- a pesar del nomadismo,
el pánico a deshoras,
la alergia desgranada entre las sábanas,
los ciclos del deseo,
la división social del trabajo doméstico,
los breves ramalazos
de la felicidad- habría para nosotros,
en la deriva del amor, un techo,
unos tabiques:
       límites precisos

donde apilar en sucesión los días."

**

Esse mosquito que matei
- e que você batizou de Psycho Killer,
pela acritude de seu ferrão e a temeridade
com a que conseguiu esquivar das palmas da morte
na hora lenta em que a noite se recorta
imóvel em seu cume
antes de despencar-se com calada fúria
contra a madrugada
e nos soprou ao ouvido a trombeta da insônia
até deixar, enfim,
sobre o reboco branco deste quarto precário
uma gota escarlate- era o veículo
para um pacto de sangre

          que prometia que
-apesar do nomadismo,
o pânico a desora,
a alergia debulhada entre os lençóis,
os ciclos do desejo,
a divisão social do trabalho doméstico,
os breves surtos
de felicidade- haveria para nós,
na deriva do amor, um teto,
uns tapumes:
            limites precisos

onde empilhar, em sucessão, os dias."


Ezequiel Zaidenwerg
Tradução: Ellen Maria

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Aún es temprano

miro al cielo buscando algo
me escapa el nombre de aquello que sobra del cigarro
sea lo que sea
                                  lo tiro lejos
estoy en tierra nueva de cincuenta estrellas
hace frío pero no tiemblo
y no conozco a nadie más que veinticuatro horas
un rostro
                sin embargo
                                       en el humo que soplo se vuelve
con cierta familiaridad
que siento tener en situaciones de tímida desesperación
blando (alguna vez te pasó eso?)
y cuando me veo incapaz de seguir
lo miro
y aún es temprano
falta más música
                el baile
                               unos sorbos
               canciones en guitarras
el cuerpo aguanta mucho sin filtro
hasta que la noche sea solo de los gatos
lo miro sin excusa
(te tuve ahí por unos segundos en pause)
y de súbito, vino:
               pucho,
                                colilla
(cómo será que se dice en tu otra lengua?)
y ya es hora
           de regresar
                 al punto de partida.



(entre herejías & piqueniques)

Ellen Maria

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A la pintura abstracta

"Estaba aprendiendo de ti cómo desarrollar
Cierto tipo de entusiasmo hacia los no-objetos,
Y entonces te fuiste.
Me reí de ti y contigo.
Los pintores se deshicieron por ti y se fliparon
Y cegaron en montones de rojo y azul. Ahora cualquiera que intenta apresarte
Encuentra otra cosa.
Prometiste que había un significado dentro del significado
Que excedía el significado o que incluso traería uno nuevo
Que todo el mundo vería.
Eso no sucedió. Pero está el anhelo
Creado en aquellos que dejas atrás
Cuya impresión permanece en los lienzos
En lienzo tras lienzo tras lienzo
Gracias por enseñarmelos.
Los que te crearon han enevejecido. La mayoría ha muerto.
Tú sobrevives, perduras como algo fuera
De nuestro tiempo, al que le dices
"La belleza es abstracta, belleza abstracta. Esto es lo que
Los cuadros sabemos y que puede que tú nunca sepas." Te coleccionamos.
Puede que no sepamos qué estamos viendo al verte-
Pero hay algo-
En tu despliegue rojo y verde. Un practicante dice
"Odio esos colores!" Usa blanco y azul.
Pero no es la bandera de Grecia lo que surge, sino tú."

Kenneth Koch

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Los dinosaurios

"Esperando que la aspirina empiece a trabajar,
que acomode los cuartos, que revuelva el café
y que traiga a mi madre, fresca
a esta tarde de agosto
hojeo revistas estúpidas, escucho discos viejos
me pregunto en qué momento
los dinosaurios sintieron
que algo andaba mal."

**

Esperando que a aspirina comece a trabalhar,
que arrume os quartos, que mexa o café
e que traga minha mãe, fresca
a esta tarde de agosto
folheio revistas estúpidas, escuto velhos discos
me pergunto em que momento
os dinossauros sentiram
que algo não cheirava bem.


Fabián Casas
Tradução: Ellen Maria

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Eu sou o cara que você ama odiar

"eu sou o cara
que você ama odiar
morando numa das favelas
da cidade fantasma
trenchtown
back o'wall
sem roupas
para esconder minha nudez
sujeiras e mosquitos cheirando
mordendo 400 anos de carne negra
marcada por açoite e vara
eu sou o cara
trancado a cadeado
nos seus pesadelos
de medusas e górgones
crenças religiosas insustentáveis
que perfuram a lateral
do seu jesus no céu
seu vinagre virou sangue
sua água virou lodo
crucifixo
estrangulando a sua vida
de posturar neocoloniais
é, eu sou o cara
que saiu da
fumaça da ganja
te sufocando ao limite
sem te matar
meus olhos
vendo um deus negro
pondo em dúvida
o que você pensa
desse seu ser espiritual escondido
sombras negras
lançando imagens claras
de uma existência
afogada em
falsas realidades
o negro era belo
até o dia que andei
com meus pés descalços
por essas suas ruas de asfalto
calor sádico

você teria me aceitado
se me reconhecesse pela
time
ou vogue
se você experimentasse
a vida
além dos
portões da classe média
eu sou o cara
que você ama odiar
olha
eu sou agora
o seu novo vizinho de porta."

Mutabaruka.
Tradução: Thadeu C. Santos

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Elegia

"Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan."

Carlos Drummond de Andrade, 1938.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Aceitarás o amor como eu o encaro?

"Aceitarás o amor como eu o encaro?...
... Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas."

Mário de Andrade

domingo, 15 de novembro de 2015

Hoy cumplís otra vez cincuenta y cuatro, como hace siete años

"En un rincón de mi cuarto tengo un altar
con piedras de cuarzo rosa, una vela azul
la frase escrita sobre un fondo de acuarelas
y esa foto que te saqué en un jardín florido de Salta.
Estás ahí, en el lugar de la protección
donde todo se filtra de una memoria imperfecta.
Ayer al mediodía almorzamos con papá.
Agus se acordó de la canción que hacían a dúo;
yo me acordé de la que vos cantabas, y la canté
entre los gritos de tus nietos que correteaban por la cocina.
Afuera llovía, adentro también, un poco por las goteras
otro tanto por los ojos. Hicimos sonar las copas con vino.
Alguien puso la filmación de tu último cumpleaños
en el que vos elegiste homenajearnos a nosotros.
Fue necesario verlos juntos de nuevo. Verte
sonriente, agradecida, luminosa, enamorada.
Cumplías cincuenta y cuatro y te estabas yendo.
Yo no sé qué queda en el lugar de lo ausente
pero hay algo atávico en la palabra madre
que marca el cuerpo y marca la memoria
en dorado y para siempre. Por favor, creeme
porque acaba de salir el sol."

María Folatelli

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Carta-Resenha

"Aracaju, 8/11/2015.

Minha cara Ellen Maria,

Acabo de ler, neste domingo ensolarado de Aracaju, o seu 'Chacharitas & gambuzinos' e, de fato, me 'foi leve a sua leitura', como desejara você no autógrafo que foi dado no dia 29/10 lá naquele bar na cabeça da av. Paulista que o Eduardo Lacerda converte em animado escritório da Patuá.

Minha prezada, é tão bom quando a gente encontra poesia num livro de poemas. Não me estranhe a afirmação com cara de óbvia. É que as coisas nem sempre têm sido como manda a obviedade: há muitos poemas, e livros de, que se apartam enormemente da poesia - e não me tome também por afetado, elitista ou coisa que o valha.

Diferentemente de quem escreve 'poemas sem poesia' - uns meros pastiches de fenos verbais -, você tem prumo. Senta muito bem à beira deste penhasco. Tem sal, pimenta, olho de lince, grude bom. Maneja o verbo, as emoções, os sentimentos e, gera, como me disse a mim quando era eu adolescente neste negócio o CDA, um grave sentimento de mundo'. Ou, como diz o Gullar, flerta com o espanto eterno em face da vida. Das coisas dela.

E, no seu caso, com um dado mais saliente e plenamente gratificante: você cospe na cara da monotonia. Não é uma poeta protocolar, com tabela de cossenos, carta ao senhor diretor. Ao contrário, tem verve-viva. Sempre revelada em sua iconoclastia que queima feijão, que guarda dinheiro nos tênis, que peida, que fode, que bate punheta, que rememora a família, a casa em que se nasce, que caminha por essa cidade-mundo que é SP, onde há amor e olor de medo e de alegria.

Desde o bar, diante da leitura apressada de 'Teoria do Cansaço' e da 'Insustentável delicadeza do ser', eu já manifestara o meu prazer em lhe ver enunciando o que era pra ser 'sentido com sentido' - você segurou a mesma pisada no resto do livro.

Sim, porque perdoem-me alguns poetas, aqueles 'Brotos de coxa flava e verso manco' e os 'poetas de barba-colar e velutínea' de que fala o mesmo CDA em seu 'Apelo aos meus dessemelhantes em favor da paz', um poema tem que dizer. É da sua natureza: nasce condenado a dizer. Um poema é o carbono do poeta, da vida.

Tem de dizer mesmo que 'o nada', mas no 'nada' ele deve bater na titela do leitor com a lógica do 'sentir' do interlocutor de que fala Octávio Paz - e entender não é o axial. Senti-lo, sim. E você nos faz, mais do que 'sentir', 'entender', e muito, em sua visão, sempre incômoda, irônica, abusada. Diria lírica, do ato de existir.

De um lirismo ácido-moleque que toma pé na tradição jocosa dos 70. Dos 70 de Cacaso, de Ledusha, de Waly Salomão. Leminski? Vom o sabor de o sê-lo via uma guria de pouca barba. Nem prestei atenção em seus flertes com outras línguas para além do espanhol. Vi o que de lusitanamente me disse, e me disse bem. Achei que deveria ter mais cuidado na pontuação de alguns poemas, e senti falta de um índice.

Isso não é uma resenha. É um rascunho de leros para a uma colega 'de profissão', se escrever poesia fosse uma profissão. Daí que eu não saia a catar verso a verso os momentos mais altos da sua poesia. O livro está disponível na Patuá, este grande laboratório do Eduardo. Quem quiser pode beber direto da fonte. Adquiri-lo e lê-lo.

Sem kkks, diria que para ser uma poeta maior e mais completa, só lhe faltaria chamar-se Ellen Maria Martins de Vasconcellos.

Ao ler o poema 'A casa', me chamou a atenção como você e eu tratamos de um mesmo tema com olhar diferente, e lhe passo o que escrevi aqui, no dia 5/6/2014, e que está no meu quinto livro, 'Ainda os Lobos', que a Patuá pretendo publicar. Um beijo, e escreva mais e sempre mais.

Jozailto Lima.

CARPINTARIA

preso à casa; aos olhos
dela. soterrado sob
o caixão da porta principal.

sinto os pregos. a força
dos martelos, a ação
dos homens da carpintaria
e de seus serrotes. o espirro
do barro; os oleiros.

ali, a vida flui e não passa.

as diversas luas e sóis
vão e vêm - e eu lá,
no fundo da madeira, do barro.

cada vez que a casa abre
e fecha, abro e fecho
com ela. movo-me parado.

junto a mim, no fundo do barro
ao calor dos adobes
ao cheiro das madeiras
ao azinhavre dos pregos,
afago a memória
e a anatomia de todas as coisas
que vieram antes,
as que haverão de vir

sem que ninguém jamais
sonhe que naquela portada
há um alguém
que é e está entre argila,
pregos.entre madeiras.

e nada apodrece. tudo
persiste. tudo vivifica,
dá nome a todos os seres
e não distingue a muda das estações.

e ninguém sabe que esse alguém
que sou, emparedado, jamais serei eu."

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Temporada de caça

O I-ching prevera
o golpe das katanas
a revolta dos tambores
o levante das flechas
Mas a revolução lusitana
                           & gambuzina
não fora esperada.

Escuta!
Este é o terceiro sinal
Finalmente, a guerra começa.

Sangue no olho
                         faca nos dentes
foto na lapela
(utilidade da lapela em uniforme de batalha)
Armados de anzóis e arpões
baionetas e guilhotinas
naus e canhões
tomam as espadas do açougueiro
                                              e anunciam:
Está aberta a temporada de caça
aos poetas.

Explosões espantadas
Tsunamis de estilhaços
Não há tempo para Meca
Não há fado ou manifesto
                                     que os contenha.
Poetas mortos,
seus sobrenomes ficarão computados
em fichas catalográficas
                        em bibliotecas
                                     e em ordem alfabética.


Ellen Maria

O encontro

Uma voz me grita espera e eu finjo que não ouço. Aves solitárias. Um homem se aproxima
e balbucia qualquer coisa que afasto com as pernas em outra direção. Olhos abertos.
Ele me chama de menina revoltada, entendo  claramente, e penso nessas duas
palavras enquanto ele  segue gritando. Asas abertas. Estou de pé,
suas garras sobre meus braços, água salgada vindo de sua
boca. Um pássaro voa sobre o mar e mergulha.
Agarra o peixe. Eu achava que era
o pássaro, mas não era
nada.

Ellen Maria

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Uma cena

você analisa o poema sentado na cama
como quem faz um ditado
tece um discurso sobre a originalidade sintática
a potência dos últimos versos
o léxico, que léxico!
seus olhos pendem desde a página do livro
a algum lugar entre minha boca e nariz
escuto sua voz atentamente
como um aluno recém alfabetizado
escrevo a imagem primeiro com meus olhos
e sem que você se dê conta
os fecho pausadamente
a cada ponto final deste texto
penso que eles se desfalecerão
alguns anos antes ou depois
desse poema
dessa memória.

Ellen Maria

O sonho do prefeito

a via expressa flui a cinquenta
há tempo para olhar a margem do rio
há tempo para olhar
nem precisam lembrar de mudar a marcha
duas mãos se entrelaçam.

Ellen Maria

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Marasmo

(La escusa ou natureza)

e eu fico
forçada
a partir
sempre
depois
que alguém me pede
pra ficar
nasci no mar destinada
a morrer
na praia.

(como quase todos
os caiçaras
não somos muito de fugir
do barco).

Ellen Maria

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Comida para los ojos

No sé si caigo en mí
o en tus encantos viscerales
con posible añoranza o más curiosidad.
Leo esos retortijones
arabescos enchilados
con hambre y alguna pasión prometeica.
Me busco en los ángulos rectos
de tu escritura
aunque sé que a todo tragas muy lento
y quizás yo aún no esté dando vueltas
en tu estómago de acero.
De cualquier forma te traigo un té de tilo
y sorbo lo frío de tu dedicada melancolía
corriendo poco o ningún riesgo
de una patada igual de certera
como en la primera vez.
Pero no tengo cabellos suficientes
para seguir arrancándolos
sin que yo también necesite
entrar en la fila de donaciones
por un nuevo hígado.
Muerto Asclepio, abandono la lectura.
No vaya que deshidraten o mueran
hidrofóbicos mis ojos de jade.


Ellen Maria

domingo, 8 de novembro de 2015

Dança ou Luta (girl power)

Eu já tenho o não antecedido
a indiscrição da inércia
o "privilégio" da derrota
o enunciado aceso que impõe o passo
e a verdade herege do tablado
que teima em tentar me controlar.

Mas eu também tenho
a possibilidade ainda que reprimida do sim
a força que desacata o fracasso
a vingança que corta a memória
o movimento entre o improviso
e o fandango que insisto, delicada e furiosa, em bailar.

Ellen Maria

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Signes des dieux

C'est une nuit de cadeaux,
je touche tes grains de bauté
avec les bouts de mes doigts
durant ton rêve.
Je marche parmi eux
et tu te réveilles,
et tu me manges toute
avec ta bouche sèche.
Le ciel est dégagé,
mais dedans moi, il pleuve.

Tradução: Julio Romano
Texto: Ellen Maria

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

La posmo

Hay un índice de presencia en su acto performativo. Hambre. La palabra del público, Provecho. La forma con la que mueve la boca provoca la abertura de envases. Una acidez vigilante suspende el gesto. Antes de la muerte de la sed, el poeta dice que/y se va. Empiezan los aplausos. Como brújulas. No hay servilleta. Para unos el poema goza. Ya otros se desafían, pero no logran. Después de un rato de dolor, se dirigen todos a la caja registradora. Cambian la cara de contenido por un choripán.

Ellen Maria

morte e medo

"Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno."

Cecilia Meireles

Ifigenia/Polixena/Casandra

"No esperes comprender la poda
ni añores
que la raíz te atraviese vertical como un tentáculo,
te penetre viole(n)ta.
Túmbate.
Piensa en el sexo de las mutiladas y las brujas
las débiles las retrasadas las caídas
piensa en las ciegas las locas las mudas
las lisiadas las cojas las tullidas
las lerdas y las lelas
las enanas
piensa en el sexo de las tardes
que no llegan nunca."

Jamila

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Qué es deseo:

se hincha el algodón de sangre antes de la sangre
antes
antes de caer
una sola gota se hincha el algodón
de sangre.

Ellen Maria

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Do que eu falo quando falo sobre tênis

Saí para comprar um tênis daqueles que possuem fissuras para não derrapar, lona impermeável, cores da terra, sabendo que ia gastar uma fortuna, mas que valeria muitas trilhas, caminhadas, ilhas desertas. Um tênis que sempre quis ter, quase um ser vivo que acompanharia minhas aventuras, quase um livro de histórias. Um tênis que passei anos dizendo que um dia compraria. Faltava grana e coragem. Até que juntei tudo, saí e encontrei. Encontrei e era perfeito. E encontrei também um bem mais barato, preto e rosa, semi permeável, com umas fissuras diferentes, um outro estilo, mas que igualmente parece servir para o objetivo. É, serve. Comprei esse. Não é exatamente como eu queria, mas comprei. Ainda não usei, mas é lindo. E não consigo parar de pensar porque eu não pedi o meu número, porque pedi um número maior, este é um número maior. E cada vez que vou usá-lo, penso que é um número maior. E não o calço, fico olhando pra ele como se ele fosse me dizer alguma coisa, como se estivesse também olhando pra mim, e acabo indo fazer outra coisa, o deixo sem prova. Mas isso também foi antes. Hoje estou saindo para uma trilha nova, uma viagem daquelas. Vou caminhar quilômetros, encontrar cachoeiras, muita terra, mato, serras. Estou ansiosa. Estou ansiosa para estreá-lo na viagem perfeita. Ele é um número maior, é semi permeável, tem umas fissuras diferentes. Mas não tem nenhum problema. Porque entendi uma coisa. Comprei um tênis que vai me lembrar que às vezes quando a gente espera muito tempo para encontrar o que quer, quando encontra, a gente já quer outra coisa.

Ellen Maria

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

ritual

Prende o cabelo
e solta os pés
descalços buscam
qualquer bossa nova
Velha ama da própria casa
ilumina o laminado
Hoje é dia de faxina.

Ellen Maria

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Vamos por partes

"No hay totalidad del cuerpo, no hay unidad sintética. Hay piezas, zonas, fragmentos. Hay un pedazo después del otro, un estómago, una ceja, una uña del pulgar, un hombro, un seno, una nariz, un intestino delgado... la anatomía es interminable, antes de terminar por tropezar con la enumeración exhaustiva de las células. Pero esta última no constituye una totalidad. Por el contrario, es necesario recomenzar de inmediato toda la nomenclatura para encontrar, si se puede, la huella del alma impresa sobre cada pedazo. Pero los pedazos, las céulas, cambian mientras que el recuento enumera en vano."

Jean-Luc Nancy

cronometro

después de la puerta
una hora
y tiempo y sobra
en veinte se hace mucho
se desarma la vida cuadrada en tres, dos, uno
cabeza hombro miembros pies
cuarenta alcanza para multiplicar
lengua en el vientre, agua, descanso
sin perder la consciencia ducha, ojos secos
cincuenta y siete
compartimos la cuenta
dos minutos para fumar
y la mirada que no termina de decir
un
hasta la próxima.

Ellen Maria

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

para los segundos

in media res
tú te deformas
me calienta el rostro
las piernas se ponen duras
las manos hormiguean
a la vez blandas
los pelos del brazo se enchinan
se me hincha, húmeda y abro la boca
mojo mi espalda
con una gota que brota de la cabeza
vuelca en la curva
me aprieto y relajo
en frecuencia rpm
sudo por los ojos
los cierro para que no salten
pezones flechas
hago una involuntaria torción en los dedos
soy un charco errante
una piedra que se disuelve
mordo los labios
estoy
hasta que me muero.

Ellen Maria

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

sobre frigideiras e tapiocas

uma coisa é uma coisa
um poema
é outra coisa.

Ellen Maria

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

cercanía como búsqueda, que nunca llega o encuentra

La puerta oxidada
                                la llave también    
las ventanas sucias llenas de marcas  
son dedos
un bautismo antes del nacimiento es prefigurar la muerte
compro flores
pago en efectivo
                       acá sigue el invierno
ellas que vienen de afuera    
del país donde    
tampoco duran mucho
                                                                 no conocen la maña
hay tanta cosa sobre la cama que a veces me duermo encima
otras en el sillón
hasta que el sol me cubra de polvo o explote
escribo.


Ellen Maria

domingo, 4 de outubro de 2015

Bienvenida

"Sin embargo, no te engañas: esos ojos fluyen, se transforman, como si te ofrecieran un paisaje que sólo tú puedes adivinar y desear".

Aura, Carlos Fuentes.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Estes dias

"Há estes dias em que pressentimos na casa
a ruína da casa
e no corpo
a morte do corpo
e no amor
o fim do amor
estes dias
em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo
e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde
não são coisas que se expliquem
apenas são dias em que de repente sabemos
o que sempre soubemos e todos sabem
que a madeira é apenas o que vem logo antes
da cinza
e por mais vidas que tenha
cada gato
é o cadáver de um gato"

Ana Martins Marques

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

ébrio caminhante

não precisa significar
somente ser
um poema que
com forma humana
sem nome divulgado
mastiga os dilemas
entre sentir e recalculando a rota    
não estanca
mas decide o destino na roleta
o ponto cego correspondente grita
a resposta:
ninguém disse qual era o final do verso!

somente ser e acabou sendo
rearranjou as reticências
uma em cada gaveta
no armário ao lado da cama

ou será que fincou terra
batendo os pés
e seguiu molhando as plantas
que já garantiram frutos?

mas isso é significar demais
gentilmente o contrário
do que ficou
pedido
desde a primeira linha da leitura.


Ellen Maria

domingo, 13 de setembro de 2015

Nouvelle Vague

a superfície líquida do desejo
olhos fixos na imagem que também
fixa mas um par de dedos ágeis 
avisa smile piscadinha coração cuidado
cinco canções abertas armadilha
nenhuma perna recebe
quarenta toques por minuto
numa noite centena de pixels iluminam
o rosto trêmulo frio na barriga crise de abstinência
cada página recebe
dezessete segundos seguidos de atenção
registro congelado da calentura
somos só dois querendo um
banho café dança encontro isso
tudo começa (ou será que termina)
quando a janela fecha.


Ellen Maria

sábado, 12 de setembro de 2015

cuándo llegamos

la vaca nos guiaba por la ruta
ruido de pasos sobre el pasto
tierra sin luna
haría el amor allá mismo
si no fuera la promesa 
de que me darías tu vida
primero mirándome a los ojos
un pacto de sangre
sabor a mango
y olor a lluvia lejana
casi caigo pero fuimos de la mano
no olvido esa noche
lleva cierto tiempo aprender el camino de casa
cuando falta luz.

Ellen Maria

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

la experiencia de abrir la heladera y cerrarla

una forma de nacer es hibernar
en tu pereza mi antifaz de hija
la panza no empieza a crecer
pero ya sé por donde vienes
arranco mis cascaritas
rasco espaldas con las uñas
mientras flores se abren en el jardín vecino
no me importo en esperarte
la obligación de vivir es sólo mía.

Ellen Maria

my foolish heart

mi chico me envía una canción de chet baker y dice es para vos
no, no es cierto, no tengo chico
te mandé yo la canción
firma: chet
chez moi


Ellen Maria

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

inconsciencia en la playa

lúcida tu barba brilla al sol
con tus lentes me miras
posas el brazo sobre el mío
y otras partes frescas
la sonrisa en picardía
arena por todos los lados
hay una casa en el fondo del paisaje
que no es la tuya
buen día.


Ellen Maria

Nota

buscándote en cada barba sucia
que cae y se mezcla con el polvito de arena
que vino de algun lugar es mugre me dicen
buscándote en cada lugar posible
chiquitito una posibilidad de verte
en cada canción que conozco         no son muchas
hay una nota para ti
y cuando tomo agua el sonido de garganta
que te engulle un juego de niño que termina
soy una niña in media res buscando el padre
que no existe.

Ellen Maria

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Noticia

As acácias

Passeando já faz uns anos
Por uma rua cheia de acácias em flor
Soube por um amigo bem informado
Que você tinha acabado de se casar.
Respondi acertadamente
Que eu não tinha nada a ver com isso.
Mas mesmo nunca tendo te amado
- Isso você sabe melhor do que eu -
Cada vez que florescem as acácias
- Imagina só -
Sinto de novo o que senti
Quando me atiraram à sangue frio
A notícia mais desoladora
De que você tinha se casado com outro.

***

"Los aromos

Paseando hace años
Por una calle de aromos en flor
Supe por un amigo bien informado
Que acababas de contraer matrimonio.
Contesté que por cierto
Que yo nada tenía que ver en el asunto.
Pero a pesar de que nunca te amé
- Eso lo sabes tú mejor que yo -
Cada vez que florecen los aromos
- Imagínate tú -
Siento la misma cosa que sentí
Cuando me dispararon a boca de jarro
La noticia bastante desoladora
De que te habías casado con otro."

Nicanor Parra
Tradução: Ellen Maria

Metonímia

em SP
dia de cão
trabalho tráfego trava
nuvem cinza em prantos
eu chuvo
falta energia para a vida
em casa
ninguém me espera
mas à luz de velas
dou like no perfil alheio.


Ellen Maria

domingo, 6 de setembro de 2015

O movimento das coisas paradas

não foi neste domingo
que encarei a morte
encarnada em um carro
que choca contra o meu
nessa curva chuvosa
não foi neste domingo
que me assaltaram
e me roubaram o relógio
e minha pequena vida
não foi neste domingo
que um bando de sequestradores
fugitivos me encontraram
e fizeram de mim
tudo o que queriam
não foi neste domingo
que me picou uma aranha venenosa
e me fez desmaiar e cair
em um sono sem fim
não foi neste domingo
não foi nesta semana
amanhã começa outra semana
com medo
de não durar até domingo
amanhã começa um novo dia
e eu farei minhas coisas como se eu fosse durar
mais do que alguns dias
amanhã eu compro uma nova peça de queijo
que dura quase sempre uma semana
e um cacho de quase sempre
meia duzia de bananas
não como bananas aos domingos
elas nunca duram até lá.


Ellen Maria

como não falar poesia

Ressentimento alheio
não é ter perdido
meu melhor amigo (de sempre)
para o tempo
mas ele ter encontrado
uma melhor vida
se perdendo de mim
(...).


Ellen Maria

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

É sempre bom lembrar

os melhores conselhos
palavras do avô
que nunca conheci.


Ellen Maria

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Chega uma hora que cansa

o machista nosso de casa
saía planejando distúrbios
uma vida que embaça
o passo em falso
e lá vinha
aos assobios e bombas
aos gritos e sombras
causando estar
-dalhaços
não podia passar         um dia
não cabia deixar          uma
até que
falou ouviu
tomou levou
ficou no chão
e nunca mais se levantou.


Ellen Maria

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Setembro

Mês de agosto
arrancar a folha
aguardar a flor.

Ellen Maria

domingo, 30 de agosto de 2015

El guión ausente

pitacos do avô
O seguro
morreu de tédio.


Ellen Maria

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Estar estando

"A impressão de estar, o lento
espanto que se repete. Aqui e onde, eis como
povoo ao mesmo tempo dois espaços
ou, mais que isso, passo a noite inteira
vivendo as sensações de um fragmento
que me é próprio, ou é-me o corpo todo,
e de repente vai sem deixar marca
entre o que foi e o há de ser. Deslizo
nessa fronteira vã que não separa
nada e ninguém, passado nem presente, simples
e uniforme
faixa de areia da qual jorram palavras,
visões, retratos, intenções. É sempre agora
e nunca, sempre sono e manhã, sempre uma coisa
que num jogo dual se nulifica
para sobrar de nós sempre esse caldo
de frustração e medo - ou de esperança."

Leonardo Fróes

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

As máquinas

"A técnica de influenciar os homens assustando-os com o que ainda não existe é antiga. É isso que sucede mais uma vez. Fala-se de armamento militar que avança com apetite; é este o termo: apetite. Como se as armas tivesse estômago, organismo. Uma espécie de saliva grotesca, metálica. As fábricas mantém os barulhos atentos que correspondem aos movimentos previstos das máquinas pacíficas, e posteriormente surgem os produtos necessários. [...] As máquinas de guerra vêm aí. O problema não são as máquinas que se aproximam da cidade, são as máquinas que já aqui estão. As diferentes gerações mecânicas, Walser: progridem. Tal como as nossas ideias. Mas as máquinas começam a ter autonomia, as ideias não. As máquinas interferem já na História do país e também na nossa biografia individual. Têm também uma História do espírito, um caminho já realizado no mundo do invisível, no mundo daquilo que se sente e se pensa. Acredita-se até que as máquinas levam o Homem a sítios mais próximos da verdade."

Gonçalo M. Tavares

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Las máquinas

"Invento una máquina
para ocultar mi deseo.
E invento otra máquina
para ocultar esa máquina. Es un sistema
de dos máquinas y suena como
risas. Invento
una máquina para ocultar su sonido. Me dices: "Por qué
estás ocultando la belleza de tu mpaquina?" Cada máquina
es más bella que la anterior,
todo aquello que tine el objeto
de ocultar parece volverse,
al final, signo
de lo que oculta. Y
ahora lo que sonaba como risas
parece más bien un sollozo o
risas ocultando un sollozo.
Todas mis invenciones son un
completo desastre. No es ocultar mi deseo, es
hablar sobre mi deseo
para ocultarlo, como
la voz en la contestadora
que dice: "Hola. Acerca del
deseo me gustaría decir una
o dos cosas. No tus ojos,
no tus palabras, no
tu voz quejumbrosa.
Todo lo que deseo
es tu aprobación." Es dificil no
escuchar lo que el mensaje está
diciendo, también es dificil
abstenerme de inventar
escucharlo. Así que inventaré
una máquina para desinventar.
Será la última máquina
que invente, y su
único propósito será convertir
mis otras máquinas en mierda.
No más inventos (para mí).
- Qupe lástima. Alguna vez fue un
prodigio de máquina; ahora
es más bien un desastre.
- Creo que dejó una nota...
- Estás equivocado: sólo ha dejado un caos."

Aaron Kunin
Traducción: Luis Eduardo García

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Una filología de la imagen

El despliegue de un tanque de guerra
cuando escribo
y después traduzco

La aflicción de la palabra
que puede ser vista
y no se pronuncia

Dos renglones en paralelo
que se cortan en el infinito.


Ellen Maria

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

amores homéricos

ela admira nucas informes
em viagens subterrâneas
altera diversas vezes seu trajeto
sem desviar o destino
elabora finais extraordinários
sem um timbre
ou dois acordes mitológicos

descobre nuncas
quando a porta abre
não se importa
caminha como quem ganhara
a história como se chegara
a ítaca.


Ellen Maria

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

otro

(aunque)                 extraño
(aunque)                 fuiste
(aunque)                 algo más
(aunque)                 de mucho menos
(aunque)                 hoy no cabe
(aunque)                 miedo
(aunque)                 solos
(aunque)                 en lo nuestro


Ellen Maria

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

pó & cia.

isso não é um poema
é uma tampa de caneta bic
cheia de farinha
com aspirina moída.

"a salvação é pelo risco
sem a qual a vida
não vale a pena".

Ellen Maria

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Como un juguete

"me gustaría
no encuentro otra palabra
tomar mates con vos
muchos días
especialmente de mañana
de domingo
aunque a estas alturas a cualquier hora
del día de la noche o de la semana
estaría bien
y con la misma simpleza tomarte de un brazo
o de los dos
llevarte a la cama
o no
jugar a la lluvia
tener un amor de juguete
divertirnos como niños
con él
y no llorar
si el juguete se rompe
porque nosotros lo rompimos
jugando
jugando hasta que
lo rompimos."

Franco Rivero

terça-feira, 18 de agosto de 2015

corpo

"Podemos atear fogo
à memória da casa
desaprender um idioma
podemos esquecer uma cidade
suas ruas pontes armarinhos
armazéns guindastes teleféricos
e se ela tiver um rio
podemos esquecer o rio
mesmo contra a correnteza
mas não podemos proteger com o corpo
um outro corpo do envelhecimento
lançando-nos sobre a lembrança dele."

Ana Martins Marques

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Volta à poesia

"Vou voltar à poesia! Assim como quem não quer nada! Um triunfo" Uma armadilha" Uma boca de esperança" Vou voltar à poesia e que se dane a prosa toda que fiz, o teatro, a televisão e o cinema... Voltarei à poesia craseada assim como à fada que a gente vê ao longe e não pode cumpri-la. Voltarei à poesia porque a filosofia anda perdendo pra técnica e a sociologia não cumpriu o seu papel de ser mais que tudo. Pra onde foi a semiótica? Em que estado está a transcriação? O que pode a História? Voltarei à poesia no meio dessa gente que suplica por água, que foge do tiro, que nunca soube o que morrer direito."

Paulo Lins

sábado, 15 de agosto de 2015

El movimiento

Yendo a Nayarit
leo sobre un cuerpo flotando
mis ojos miran a las letras
que miran a un cuerpo
que mira a sus pies
y los pies 
norteados 
eternamente 
mirando hacia adelante
mi cuerpo flotando
leo otros ojos
que miran otros sentidos
mientras todos esperamos
furtivamente
llegar a Nayarit.


Ellen Maria

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O que faz um poema ser um poema?

"[Minha leitura se chama
O que faz um poema ser um poema?
e vou ligar o cronômetro]

Não é a rima das palavras no fim da linha
Não é a forma
Não é a estrutura
Não é a solidão
Não é o espaço
Não é o céu
Não é o amor
Não é a luminosidade
Não é o sentimento
Não é a metrificação
Não é a época
Não é a intencionalidade
Não é o desejo
Não é a temperatura
Não é a esperança
Não é o assunto escolhido
Não é a morte
Não é o nascimento
Não é a paisagem
Não é a relação de palavras
Não é o que há entre as palavras
Não é o cronômetro
Não é o...
É o tempo."

Charles Bernstein
Tradução: Marília Garcia

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Para uma leitura

falar de línguas
de como aprender uma língua através de suas letras
lendo-a
através de sua poesia
depois aprender a escrevê-la
traduzindo-a
falar pouco, recitar
abrir o braços e
falar de si
de como escrever um poema em outra língua
e um pouco do outro
aprender através do outro
seus gemidos depois de
seus olhares
aprender a falar com o outro
com suas próprias palavras
torná-lo parte tornar-se parte
do outro
através de suas palavras
e outros gemidos
entender a identidade
da língua
e de um
aprender que a língua
já é parte
do todo
e ver-se estranha falando a própria língua
qual língua?
qual língua é minha?
sentir-se estrangeira falando de algo que não seja
a poesia
e transliterá-la
a uma terceira
língua.


Ellen Maria

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Para una lectura

hablar de lenguas
de cómo aprender una lengua a traves de sus letras
leyéndola
a traves de su poesía
después aprender a escribirla
traduciéndola
hablar poco, recitar
abrir los brazos y
hablar de sí
de cómo escribir un poema en otra lengua
y un poco del otro
aprender a traves del otro
sus gemidos después de
sus miradas
aprender a charlar con el otro
con sus propias palabras
tornarlo parte formarse parte
del otro
a traves de sus palabras
y otros gemidos
entender la identidad
de la lengua
y de uno
aprender que la lengua
ya es parte
del todo
y verse rara hablando la propia lengua
cuál lengua?
cuál lengua es mía?
sentirse extranjera hablando de algo que no sea
la poesía
y transliterarla
a una tercera
lengua.


Ellen Maria

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Sobre pedras e dormir

Não vou a lugar algum
e imóvel observo
que não passo um segundo só
parada e sinto
que sou tocada pelo ar que entra
e toco o ar que sai
minhas pernas se enroscam
na areia milenar da praia e escorre
por dentro delas água salgada
e volta pro mar
eu vou a lugar nenhum
e não sei
nem penso
em quanto devo ficar ou demorar
a estrutura se parte ou se entrega?
já aviso:
estou pronta
mas nada nunca é
ou foi ou será
preciso
Impossíveis relatos de fora do corpo.

Ellen Maria

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Ocaso íntimo

Quando chega a estação dos cheiros
é tempo de decifrar enigmas
às vezes um nariz não basta
às vezes é mais que suficiente
e das flores da noite
corto o talo e broto no vaso da sala
para contagiar a casa de respostas incontestáveis
pétalas caídas em manhãs seguintes.


Ellen Maria

sábado, 8 de agosto de 2015

Previsão

Como uma nave espacial
ele é lançado
o seguem uma multidão
de bocas abertas, olhos
dentes e óculos escuros
Garrafas de sidra se acumulam.
Como um astronauta, ela dorme atada.
E depois disso, quê?
Cachorro quente por um dólar,
uma passagem de subte, três reais e cinquenta.
Ninguém deixou de ser seu próprio sol
ninguém sente o peso da maçã ou vê
a volta do Columbia à terra
A corda arrebenta
e o livro toma seu lugar na estante.


Ellen Maria

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Erro de principiante

Perseguir um poema
e dar com os burros n'água
Então os traduzo
Quem secou toda esta água?


Ellen Maria

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

angle of yaw

Aquela fileira pública de dentes
permitia que cada um a interpretasse
de acordo com sua capacidade de experiência estética
Quem provou da fruta sabe
que melancia não se come a casca
Você está dormindo?
O tempo verbal influencia a direção do sonho
e a posição do pescoço, inerte no travesseiro.
Nada que uma gramática non revele
ou o status do facebook.
Parece mesmo estar feliz, não é?
Secretamente busca sentir ciúmes
da ex do ex e de quem é aquele dedo no canto na foto.
Lançará um livro e pensa na dedicatória
Viajará ao país onde a salsicha se vende a peso bacon extra
Pensará outra vez em fuga e abstenção
Essa fotografia é antiga
Em liquidação, um travesseiro da NASA.
Para a tradução/revisão no meio e enfia mais um pedaço na boca
Ladies and gentleman, já é permitido desabrochar os cintos
Entre pela última vez na página de citações
Valendo: partir é viver excessivamente.


Ellen Maria

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Pedazo de estática

No hay verdades que no partan cabezas
Sin embargo,
cuánto silencio cabe
en una despedida

No hay lágrima para tanta caída
o Sería lo contrario

Las hormigas siguen preparándose
para el invierno
recogiendo llaves
y cerraduras

de donde ya se escuchan
chácharas
quizás este año no lleguen las flores

Por las dudas
también almacenan pilas
No vayan a quedar sin la radio.



Ellen Maria

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O peso da matéria da sobra

Era a vitória da síntese sobre aquele discurso
que durara todas as horas dos três meses
que ficaram juntos
não, ele não tinha alma
(houvera Deus, não o perdoaria)
isso ela já soubera antes mesmo da convivência
não, há memória, ele completava
(e livros, quantos livros)
ela terminou rindo
ao lembrar que tudo também começou com a leitura de um não poema.


Ellen Maria

domingo, 2 de agosto de 2015

Ciências & letras II

Por favor,
público leitor,
colete seus dejetos aqui
defeque seus desejos ali
pá e cal atrás do acento
qualquer mescla de gêneros
altera o Resultado
dos poemas em sete dias
novos testes só poderão ser
realizados na próxima edição
Não esqueça:
o autor colhe e a crítica cimenta
ou vice-versa.

Ellen Maria

sábado, 1 de agosto de 2015

Lista de presenças

Desprender da leveza
do gozo matutino
recebido carinhosamente
por ele
tão fluido
quanto o peso
do suor tenso
que escorre
em certas noites
nas ruas com medo
do outro

Despedir da lágrima
de saudade de quem nunca
pertenceu e esperar que a saliva
preencha o vazio da fome
(ainda não é hora de correr
nem comer)

Habitar a nuvem
que dissipa e se condensa
proporcionalmente à
quantidade de água
acumulada

Ser setenta por cento
líquido
e outros trinta por cento
carne encharcada
secando ao sol

Reconhecer a alteridade
e o caos na composição
que há em cada gota
milenar do corpo
e desistir de todo e qualquer
preconceito

já que eu também sou você.


Ellen Maria

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Enter Magazine

resumo do fim de semana:
sábado de picuinhas
domingo de picanhas


Ellen Maria

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Divorciados

peleas que duran
más que caños
amores que curan
años
el hijo que no ve
juntos los padres
cree
en hogares
que hurtan
la espera
o sabe
que
el tiempo no cierra
nada
y solo
cesa
cuando la muerte
los separa.

**

brigas que duram
mais que canos
amores que curam
anos
o filho que não vê
juntos os pais
crê
em lares
que furtam
a espera
ou sabe
que
o tempo não cerra
nada
e só
cessa
quando a morte
os separa.


Ellen Maria

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Divagações em estantes

da bibliotecária
do sovaco eu vi
a curva pro seio
uma escadaria
pra cova
e de rolimã
solto o cinto
me lembro duns braços
de Machado
e um desejo adolescente
me comove
acabo desviando
no final
a lágrima não escorre
por pouco
é questão de panos
maduros
e de respeito
Sou eu a casada.


Ellen Maria

terça-feira, 28 de julho de 2015

"O Big Bang Nunca Existiu"

Nascemos na mesma cidade
crescemos no mesmo bairro
explodimos na mesma rua
e espero que eu nunca mais te encontre
que você frequente outra órbita
procure outras estrelas
viaje a outros planetas
crie outra lua
porque o que era nosso e terrestre
Eu peguei tudo pra mim
também mudei de rotação
rotina e alguns hábitos
até certos satélites antigos
recuperados de algum velho ex
voltei a sentir
Mas não não
o sol de ilha grande é meu
o mar de parati é meu
e qualquer outro elemento
solo fogo fé memória expectativa
descobrimento sexto sentido os dois polos de um
o instante antes do gozo amor-adia etc
eu deixei ancorado numa boia inflável
numa praia de Kepler 452b.
O plano era esse.


Ellen Maria

segunda-feira, 27 de julho de 2015

A duração do deserto

O óvulo se transporta
com um espermatozoide dentro
flutua como se incompleto
e é
agarra toda a vida possível
depois desenvolve
zigoto mitose meiose cromossomos
os nomes todos científicos
que traduzindo
é poesia.
Dias seguem
o poema em construção se transforma
sem querer
e quer

e cai.

Sou um útero vazio
com um corpo em volta.


Ellen Maria

sábado, 25 de julho de 2015

Su teoría ha detectado un problema y debe cerrarse

"Ayer quise escribir un poema llamado "Las margaritas mutantes de Fukushima"
justo antes de dormir.

Me mordió la música
y luego la imagen
capaz de construir cientos de escenarios
poblados con belleza deforme
y peligrosa. Una metáfora perfecta
de la poesía (pensé).

Tenía ya la estructura del texto cuando descubrí que su extrañeza no se debía a la
radiactividad
"sino una condición del crecimiento llamada fasciación, por la que el meristema apical del tallo se alarga de forma perpendicular en vez de crecer en un solo punto para generar las habituales formas
circulares".

Entonces todo se arruinó.

Quizás hay ciertas cosas de las cuales es mejor no escribir
porque no dan para tanto
o las metáforas son máquinas inservibles.

Sólo sé que ahora mismo
las margaritas mutantes de Fukushima escriben un poema
sobre un humano monstruo
y encuentran justamente lo que quieren decir."

**

Sua teoria detectou um problema e deve ser finalizada

Ontem eu quis escrever um poema chamado "As margaridas mutantes de Fukushima"
um pouco antes da hora de dormir.

Me fisgou a música
e logo a imagem
capaz de construir centenas de cenários
povoados com beleza deformada
e perigosa. Uma metáfora perfeita
da poesia (pensei).

Tinha já a estrutura do texto quando descobri que sua estranheza não se devia à
radioatividade
"mas sim a uma condição de crescimento chamada fasciação, pela qual o meristema apical do talo se
alonga de forma perpendicular em vez de crescer em um só ponto para gerar as habituais formas
circulares".

Então tudo se arruinou.

Talvez haja certas formas as quais é melhor não escrever
porque não dão para tanto
ou as metáforas são máquinas inservíveis.

Só sei que agora mesmo
as margaridas mutantes de Fukushima escrevem um poema
sobre um humano monstro
e encontram justamente o que querem dizer.


Luis Eduardo García
Tradução: Ellen Maria

sexta-feira, 24 de julho de 2015

mindscapes

"sylvia é mucisista. em 2003, ela sofreu uma perda de audição aguda. um ano depois, passou a escutar músicas em sua cabeça, em looping, o tempo todo. como sylvia tem ouvido absoluto, pode transcrever e gravar suas canções internas. ela fez a primeira gravação de alucinações musicais do mundo.
ph é o primeiro humano conhecido a ouvir o que as pessoas dizem antes de perceber os lábios delas se moverem. ele sofre de um distúrbio em que o cérebro registra o som da fala antes do movimento da boca. a vida de ph é uma dublagem fora de sincronia.
depois de um derrame, tommy mchugh, um expresidiário, passou a pintar e esculpir compulsivamente, além de ter começado a falar em rimas. incapaz de machucar uma formiga, tommy sente seu cérebro como "infinitos, infinitos corredores".
sandra experimenta um prazer intenso a cada vez que tem uma crise de epilepsia. ela descreve a sensação como a de um orgasmo, a que se chega progressivamente. acredita-se que dostoiévski sofria do mesmo tipo de distúrbio.
o transtorno de identidade da integridade corporal foi descrito pela primeira vez no século 18, quando um inglês ameaçou um cirurgião francês com uma arma para que serrasse uma de suas pernas.
em 2004, graham acordou e descobriu que estava morto. ele tinha a síndrome de cotard, condição em que os portadores acreditam que seu cérebro, ou partes do seu corpo, faleceram. 
heather sellers não consegue reconhecer nenhum rosto, nem mesmo o próprio. ela se vale de outros atributos, como a voz e as roupas, para identificar as pessoas.
a d. parece que, quando precisa escrever de forma analítica, está pensando pelo avesso.
a poesia é um defeito de recepção."

Jeanne Callegari

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O bairro da minha infância

"Não são as criaturas que morrem.

É o inverso:
só morrem as coisas.

As criaturas não morrem
porque a si mesmas se fazem.

E quem de si nasce
à eternidade se condena.
Uma poeira de túmulo
me sufoca o passado
sempre que visito o meu velho bairro.

A casa morreu
no lugar onde nasci:
a minha infância
não tem mais onde dormir.

Mas eis que,
de um qualquer pátio,
me chegam silvestres risos
de meninos brincando.

Riem e soletram
as mesmas folias
com que já fui soberano
de castelos e quimeras.

Volto a tocar a parede fria
e sinto em mim o pulso
de quem para sempre vive.

A morte
é o impossível abraço da água."

Mia Couto, Tradutor de chuvas.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Guia

"A poesia me salvará.
Falo constrangida, porque só Jesus
Cristo é o salvador, conforme escreveu
um homem - sem coação alguma -
atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança
de Congonhas do Campo.
No entanto, repito, a poesia me salvará.
Por ela entendo a paixão
que Ele teve por nós, morrendo na cruz.
Ela me salvará, porque o roxo
das flores debruçado na cerca
perdoa a moça do seu feio corpo.
Nela, a Virgem Maria e os santos consentem
no meu caminho apócrifo de entender a palavra
pelo seu reverso, captar a mensagem
pelo arauto, conforme sejam suas mãos e olhos.
Ela me salvará. Não falo aos quatro ventos,
porque temo os doutores, a excomunhão
e o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão Sua Face atingida
da brutalidade das coisas?"

Adélia Prado

terça-feira, 21 de julho de 2015

O deus abandona Antônio

"Quando, pela meia noite, de improviso ouvires
passar, invisível, um tíasos
com música soberba e cânticos,
a sorte que afinal te abandona, tuas obras
falidas, teus planos de vida
- tudo ilusório - com nênias vãs não lastimes.
Como um bravo que, há muito, já se preparava,
saúda essa Alexandria que te está fugindo.
Não, não te deixes burlar, dizendo: "foi sonho",
ou: "meus ouvidos me enganaram";
desdenha essa esperança vã.
Como um bravo que, há muito, já se preparava
como convém a quem é digno desta pólis,
aproxima-te - não hesites - da janela
e escuta comovido, porém
sem pranto ou prece pusilânime,
como quem frui de um último prazer, os sons,
os soberbos acordes do místico tíasos:
e saúda Alexandria, enquanto a estás perdendo."

Konstantinos Kaváfis
Tradução: Haroldo de Campos

**

Quando, à meia-noite, de súbito escutares
um tiaso invisível a passar
com músicas esplêndidas, com vozes -
a tua Fortuna que se rende, as tuas obras
que malograram, os planos de tua vida
que se mostraram mentirosos, não os chores em vão.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
diz adeus à Alexandria que de ti se afasta.
E sobretudo não te iludas, alegando
que tudo foi um sonho, que teu ouvido te enganou.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
como cumpre a quem mereceu uma cidade assim,
acerca-te com firmeza da janela
e ouve com emoção, mas ouve sem
as lamentações ou as súplicas dos fracos,
num derradeiro prazer, os sons que passam,
os raros instrumentos do místico tiaso,
e diz adeus à Alexandria que ora perdes.

Konstantinos Kaváfis
Tradução: José Paulo Paes

(dos meus poemas preferidos no mundo...
Paes que me desculpe, mas prefiro a tradução do Campos)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Justificação de Deus

"o que eu chamo de deus é bem mais vasto
e às vezes muito menos complexo
que o que eu chamo de deus. Um dia
foi uma casa de marimbondos na chuva
que eu chamei assim no hospital
onde sentia o sofrimentos dos outros
e a paciência casual dos insetos
que lutavam para construir contra a água.
Também chamei de deus a uma porta
e a uma árvore na qual entrei certa vez
para me recarregar de energia
depois de uma estrondosa derrota.
Deus é o meu grau máximo de compreensão relativa
no ponto de desespero total
em que uma flor se movimenta ou um cão
danado se aproxima solidário de mim.
E é ainda a palavra deus que atribuo
aos instintos mais belos, sob a chuva,
notando que no chão de passagem
já brotou e feneceu várias vezes o que eu chamo de alma
e é talvez a calma
na química dos meus desejos
de oferecer uma coisa."

Leonardo Fróes
(dos meus poemas preferidos no mundo)

sábado, 18 de julho de 2015

Vietnã

"Mulher, como você se chama? - Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? - Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? - Não sei.
Desde quando está aqui escondida? - Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? - Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? - Não sei.
De que lado você está? - Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. - Não sei.
Tua aldeia ainda existe? - Não sei.
Esses são teus filhos? - São."

Wislawa Szymborska.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Prato do dia

Eaí eu quero escrever
mas fico preocupada se não vou começar
me entusiasmar como sempre passa
e esquecer o feijão no fogo
outra vez
como tantas outras vezes
mas dessa vez
vem visita jantar comigo
e se queimo o feijão
porra
vai ser pizza de novo
Todos meus melhores textos têm gosto de feijão queimado.


Ellen Maria

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Precária síntese

Na minha sala enquanto eu esmalto com vitaminas minhas unhas das mãos
penso que divido com o planeta apenas alguns anos
e não adianta negar a indiferença com que o trato
que ficará mais aliviado quando eu for embora
ainda relutante
porque diabos também acho que devo permanecer nessa forma insistente de vida

esmalto com vitaminas
alimento com vitaminas
obsessão destes anos com vitaminas
a população inteira obcecada por estar viva
e o alívio do planeta quando eu e nós finalmente for

no fundo
não há nada que o faça mudar de ideia.


Ellen Maria

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Eleição na/de terra natal

um pôr-do-sol me escreve
em outubro
e vaza espuma
pelos poros
da praia

Santos pra que te quero
São Vicente te espero
verde
lágrima salgada
geral espera
pra ver
se a onda leva
o nome

pelos canais
abaixo

avenida prefeito
presidente
fica areia em tudo
quanto é lado

sobra memória
papeis de voto
nos esgotos de qualquer
cidade

e vontade de voltar
sempre
que der voz
foz
segundo turno
declaração na tevê
em primeiro de janeiro

te quero mais que
(a) eles.


Ellen Maria

terça-feira, 14 de julho de 2015

Prólogo

" Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho..."
Luís Vaz de Camões

Quando as noites ganharam patas
e deixaram de rastejar pela beira
respirando cada vez menos dentro d'água
enfiando seu focinho gelado pelo lodo
e abrindo a boca atrás de outras criaturas
que, como elas, já sobreviviam fora do rio
eu deixei de amar você.
Isso foi quando estas já não discutiam se os homens
eram seres inteligentes ou somente os predadores mais ferozes dos últimos tempos
capazes de causar tempestades químicas com a mesma paixão
que aplaudiam um teatro de fantoches
quando às religiões convinham conter a verdade ou à natureza das coisas
e era patrimônio imaterial da humanidade a cultura da memória
Depois, tudo foi epílogo.


Ellen Maria

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Cómo perder un trabajo

"Dia 10

el final está cerca:
lo sabemos.
somos casi vacas
viajando en un camión jaula
pero hacia el desempleo,
enfrentemos esto como adultos
"límpiense las lágrimas
antes de bajar del ascensor".


Día 8

engañé al cajero automático
que me dio 400 pesos
y no lo registró

comemos sentados
en el patio del shopping
agarro una aceituna
muerdo hasta llegar al carozo
mientras miro a una chica que tiene un buzo que le tapa el short
y parece que no tiene nada
pienso en un poema que diga
que nos hacemos grandes cuando empiezan a gustarnos las aceitunas
como me dijo alguien que no recuerdo.

soy la vieja chota de mi vecina

"sabes cuál es la diferencia entre estos pibes y nosotros cuando
teníamos 15?
que estos cogen."


Día 3

qué voy a hacer con el despertador
después del miércoles
cuando ya no lo necesite?
es probable que lo extrañe,
made in china
color marrón, muy chiquito
perturbador y profundo
para fichar ocho en punto

perturbador y profundo,
como perder un trabajo."

Rosina Lozeco (1989)

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Cierta edad

"Cuando se llega a cierta edad, uno deja de ser el protagonista de sus acciones: todo se ha transformado en puras consecuencias de acciones anteriores. Lo que uno ha sembrado fue creciendo subrepticiamente y de pronto estalla en una especie de selva que lo rodea por todas partes, y los días se van nada más que en abrirse paso a golpes de machete, y nada más que para no ser asfixiado por la selva: pronto se descubre que la idea de practicar una salida es totalmente ilusoria, porque la selva se extiende con mayor rapidez que nuestro trabajo de desbrozamiento y sobre todo porque la idea misma de 'salida' es incorrecta: no podemos salir porque al mismo tiempo no queremos salir, y no queremos salir porque sabemos que no hay hacia donde salir, porque la selva es uno mismo, y una salida implicaría alguna clase de muerte o simplemente la muerte. Y si bien hubo un tiempo en que se podía morir cierta clase de muerte de apariencia inofensiva, hoy sabemos que aquellas muertes eran las semillas que sembramos de esta selva que hoy somos. Sin embargo hoy vi, hacia la caída del sol, el reflejo de unos rayos rojizos del sol en unos ladrillos de cerámica barnizada, y me di cuenta de que aún estoy vivo, en el verdadero sentido de la palabra, y de que aún puedo llegar a situarme en mí mismo: todo es cuestión de encontrar cierto punto justo, mediante cierta voltereta espiritual; no puedo evitar la maraña de consecuencias, no puedo pretender ser el protagonista, otra vez, de mis acciones, pero sí me es posible rescatarme dentro de esas nuevas pautas, aprender a vivir otra vez, de otra manera. Hay una forma de dejarse llevar para poder encontrarse en el momento justo, y este 'dejarse llevar' es la manera de ser el protagonista de las propias acciones - cuando uno ha llegado a cierta edad." 

Mario Levrero

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Once de septiembre

"El once de septiembre del dos mil uno
mientras las Torres Gemelas caían,
yo estaba haciendo el amor.
El once de septiembre del año dos mil uno
a las tres de la tarde, hora de España,
un avión se estrellaba en Nueva York,
y yo gozaba haciendo el amor.
Los agoreros hablaban del fin de una civilización
pero yo hacía el amor.
Los apocalípticos pronosticaban la guerra santa,
pero yo fornicaba hasta morir
-si hay que morir, que sea de exaltación'.
El once de septiembre del año dos mil uno
un segundo avión se precipitó sobre Nueva York
en el momento justo en que yo caía sobre ti
como un cuerpo lanzado desde el espacio
me precipitaba sobre tus nalgas
nadaba entre tus zumos
aterrizaba en tus entrañas
y vísceras cualesquiera.
Y mientras otro avión volaba sobre Washignton
con propósitos siniestros
yo hacía el amor en tierra
-cuatro de la tarde, hora de España-
devoraba tus pechos tu pubis tus flancos
hurí que la vida me ha concedido
sin necesidad de matar a nadie.
Nos amábamos tierna apasionadamente
en el Edén de la cama
-territorio sin banderas, sin fronteras,
sin límites, geografía de sueños,
isla robada a la cotidianidad, a los mapas
al patriarcado y a los derechos hereditarios-
sin escuchar la radio
ni el televisor
sin oír a los vecinos
escuchando sólo nuestros ayes
pero habíamos olvidado apagar el móvil
ese apéndice ortopédico.
Cuando sonó, alguien me dijo: Nueva York se cae
ha comenzado la guerra santa
y yo, babeante de tus zumos interiores
no le hice el menor caso,
desconecté el móvil
miles de muertos, alcancé a oír,
pero yo estaba bien viva,
muy viva fornicando.
"Qué ha sido?", preguntaste,
los senos colgando como ubres hinchadas.
"Creo que Nueva York se hunde", murmuré,
comiéndome tu lóbulo derecho.
"Es una pena", contestaste
mientras me chupabas succionabas
mis labios inferiores.
Y no encedimos el televisor
ni la radio el resto del día,
de modo que no tendremos nada que contar
a nuestros descendientes
cuando nos pregunten
qué estabamos haciendo
el once de septiembre del año dos mil uno
cuando las Torres Gemelas se derrumbaron sobre Nueva York."

Cristina Peri Rossi

quarta-feira, 8 de julho de 2015

mulher terra em transe

É frio
de trincar anseios
joanete morde meias
rasga segunda pele
dilata couro
arrebenta botas
escancara seu tamanho
(contido)
osso que faz doer
abrochar a pressa
tesa
trocar qualquer caminho
pelo esticar do dedo

Desatados os nós,
não semeia gritos

aponta:

vermelha
roxa
branca
e preta

descalça,
minha joanete é metonímia
um corpo em expansão.


Ellen Maria

quinta-feira, 2 de julho de 2015

medo de morrer

"eu tinha medo de morrer tímida mordia a ideia
tinha medo do suicídio sendo tão tímida
outras noites já batiam meu queixo
outras dicções
e eu ainda com medo de morrer tímida
mudei os móveis de lugar
encontrei uma agulha perdida tinha anos
e ainda o medo de morrer tímida
abocada numa quina da casa
a boca tão perto do segredo
tímida
lembrando a uma poltrona torta
lembrando a uma boca morta
um peixe sem boca
uma poltrona sem braços".

Carla Diacov, Amanhã alguém morre no samba.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

En elogio de mi hermana

"Mi hermana no escribe poemas
y es improbable que de pronto se ponga a escribir poemas.
Le viene de mi madre, que no escribió poemas,
y de su padre, que tampoco escribió poemas.
Me siento a salvo bajo el techo de mi hermana:
nada pondrá al esposo de mi hermana  a escribir poemas.
Y aunque la cosa suena a poema de adam Macedonski,
a ninguno de mis parientes le da por escribir poemas.
En el escritorio de mi hermana no hay poemas viejos
ni poemas nuevos en su bolsa.
Y cuando mi hermana  me invita a comer,
sé que no es con la intención de leerme poemas.
Cocina sopas soberbias con facilidad,
y su café no se derrama sobre manuscritos.
En muchas familias nadie escribe poemas,
pero cuando no es así, rara vez es uno solo.
A veces la poesía fluye en cascadas de generaciones,
lo cual instala temibles remolinos en las relaciones familiares.
Mi hermana cultiva una decente prosa hablada,
toda su producción literaria está en tarjetas postales
que prometen lo mismo cada año:
que cuando vuelva,
nos va a contar todo,
todo,
todo."

Wislawa Szymborska.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Formas comuns

Algodão e
                         o
dente é arrancado
d ó i
mais arrancar o pedaço da raiz

que não            quer
               sair

sangue
gaze
buraco
água

parece que preso
no osso
a língua não se acostuma/
até que               (a tinta) seca

estanca

fin  ca

fica a moldura
sem quadro

incomoda
mas faz (p) arte
perder

mesmo antes da h
                                ora

o que nunca foi
pra ser
permanente.


Ellen Maria

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Cebolas

"são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia."

Benedicte Houart

sábado, 27 de junho de 2015

Lagar

"Achar um lugar para guardar os pratos
achar um lugar para escrever a carta
achar um lugar para honrar o pacto
achar um lugar para o salto
os colares os sapatos
os ossos os sentimentos deslocados
achar um lugar
uma janela uma relva
uma prateleira
achar um lagar".

Micheliny Verunschk

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Trompo el tiempo

"Eternity is in love with productions of time", cierto
ningún eterno de hoy en día entra en la eternidad
eternos de hoy en día los que escriben en eterno
trompo el tiempo gira sobre sí mismo hasta salirse
eje de mi carreta, mojada carretilla
sola, roja, a la intemperie
la lluvia platea su pintura

giró, se detuvo en un cubo de agua de cuero
pozo de centro de patio de estancia de abuela, Itacuatiá
de-de-de-de dados tirados al piso
el tartamudo mira el suelo sin pecado, sin culpa
pies descalzos de la niñez

nombre tupí o guaraní, Itacuatiá".

Eduardo Milán

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Poca cosa en el mundo

"Poca cosa en el mundo con utilidad
todavía: la luna, María. Una
sobre otra con su luz vacía, el cuarto
menguante cada vez con menos cosas, los
muslos menguantes cada vez con menos manos, el
óvalo del rostro que rueda por la sombra. "Espérame
un año y verás: será distinto por la estrella el
destino". Luna de estío, estilo de brillar barroco, el
hueco de la noche se hace día, dices. Pero lo que no
dices y tal vez deberías es que no hay talismán que
frene el maleficio de no estar contigo, aquí
en la maleza de sonidos voló el ave que consuela."

**

Pouca coisa no mundo com utilidade
ainda: a lua, Maria. Uma
sobre a outra com sua luz vazia, o quarto
minguante cada vez com menos coisas, as
coxas minguantes cada vez com menos mãos, o
óvalo do rosto que roda pela sombra. "Espera por mim
um ano e verá: será distinto pela estrela o
destino". Lua de estio, estilo de brilhar barroco, o
oco da noite se faz dia, diz. Mas o que não
diz e talvez deveria é que não há talismã que
freie o malefício de não estar com você, aqui
na maleza de sons voou a ave que consola.

Eduardo Milán
Tradução: Ellen Maria

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Mudar de casa

"É bom mudar de casa, de janela,
arrumar de outra maneira as ilusões,
tratar de coisas puras como tintas
e sofás, pôr ordem entre os livros
e a vida, simular a liberdade.
Parece-nos possível voltar a acreditar
na mão que nos estende um pé de salsa,
na pechincha da beleza, quando passa
no poente da razão.
Apetece cometer uma loucura,
comprar um telescópio, decorar
o canto nono dos Lusíadas,
subir umas escadas do avesso,
pensar que nunca mais teremos frio."

**

Hace bien mudarse de casa, de ventana,
arreglar de otra manera las ilusiones,
tratar de cosas puras como tintas
y sillones, poner el orden entre los libros
y la vida, simular la libertad.
Nos parece posible volver a creer
en la mano que nos extiende un pie de perejil,
en la bargaña de la belleza, cuando pasa
en el poniente de la razón.
Nos apetece cometer una locura,
comprar un telescopio, memorizar
el canto noveno de los Lusíadas,
subir unas escaleras al revés,
pensar que nunca más tendremos frío.


José Miguel Silva, Ulisses já não mora aqui, 2002.
Traducción: Ellen Maria

terça-feira, 23 de junho de 2015

Sobre um filme de Wong Kar-Way

"O corpo e seus possíveis.
O dentro que, na pele,
vira flor.
Os cheiros, a memória
do que, de tão breve,
não fica
senão como sombra
líquida
quase cítrica
desse amor."


Maria Esther Maciel

segunda-feira, 22 de junho de 2015

 um elefante na corda bamba

a instabilidade
ao sustentar
toda a bagagem do ser
...

domingo, 21 de junho de 2015

Islands

silêncio
um voo rasante
bang-bang

não necessariamente nessa ordem
e poderia ser um filme

americano
oriental
europeu

mas cor de burro quando foge
cheiro de cachorro molhado
gosto de cabo de guarda-chuva

e ninguém tem dúvida
de que indústria estamos falando.


Ellen Maria

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O alarme:

acordo
com a cor do seu peito
inspiro

vem o cheiro da sua mão
que abranda instantâneo
sobre meu cabelo ondulado
um pouco desse mar da noite
boa e salgada que tivemos

dia após dia

durmo outros mais cinco minutos
só para acordar de novo
com a cor de quem nasce

para sentir em cheio
todo seu amor.


Ellen Maria

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Céu de Tomie Ohtake

"Que azul são azuis e não são
algo azul como um lago
como um vago,
ou vertigem,
na fuligem do céu

Que azuis serão istos, então:
como um mata-borrão
sobre um mar congelado,
como blue note em blues
como o rastro dos astros
matizes do breu.

Que azuis seão estes, em vãos,
como lapsos da mão
sobre o negro,
como um antes azul...
como um toldo ex-
azul que des-
ceu."

Expedito Ferraz Jr, Poheresia.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Take my breathe away

Turning and returning
To some secret place inside
(In: Top Gun Soundtrack, Berlin, 1986)
"respiração
compartilhada boca
à boca sem que sequer
tenham os lábios voltados

ah
vida assistida
eh

nem
porque vivida
já já ela tá de volta

leva todo meu ar
embora
seja depois quem o retorna"


Ricardo Escudeiro

terça-feira, 16 de junho de 2015

Generación

"La madurez?
- esa posibilidad de acertar en lo correcto
comprender que ya basta de equivocarse-:
no es posible."

***

A maturidade?
- essa possibilidade de acertar em cheio
compreender que já chega de se equivocar - :
não é possível.

Carlos Martínez Rentería
Tradução: Ellen Maria

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Mitmit

Agora somos dois. Nem tão livres nem tão presos. Há alguma coisa que nos liga e outra que nos deixa a vontade para voar sozinho. Não há obrigações, nenhum de nós precisa prestar contas ou dizer para onde vai. Mas ainda não atravessei a rua sem querer ligar e chamá-lo para atravessar a rua comigo. Não há juras nem promessas. Há confiança. Queremos testemunhar a vida um do outro, e não só isso: queremos ser cúmplices, ser comparsas amigos. Não há contrato. Não temos que seguir regras ou fazer coisas cínicas para agradar o outro. Não temos que necessariamente dividir as contas. Sabemos pouco um do outro, e acho que se ficarmos cinquenta anos juntos, continuaremos sabendo pouco um do outro, Talvez daqui um tempo eu saiba o que ele vai dizer antes mesmo de pensar, talvez eu saiba completar uma piada dele ou saiba qual lado da cama ele prefere dormir, mas conhecê-lo mesmo, isso já é mais complexo. Se vai durar para sempre, não sabemos. E o que é para sempre? Ontem mesmo fui parar no hospital e pensei que ia morrer. Ele ficou preocupado, mas está tudo bem agora.

Ellen Maria (2009)

microfilme

Medusa
vaidosa
pra ver cabelo
usou espelho
meu deus!
virou pedra.

Ellen Maria

quarta-feira, 10 de junho de 2015

El Banquete (o La última cena)

(inspiraciones: "Time" &
"Confortably Numb" - Pink Floyd)

No creo en venganzas cruyentes
en la espera del efecto de la levadura
no creo en botellas vacías llenas de aire
en el agua que evapora o se convierte en vino
de lejos veo noctilucas y ojos brillantes
Baco en fiesta
tu sangre es leve, fertil y tiene olor a fruta
por alguna señal
también parto
es el pan de la madurez.


Ellen Maria

Exercício

como se o irreversível fosse tecido transitivo
costuro
um seguinte verso no fim do poema
alheio
brincando de dar uma segunda voz
ao sobrenome morto na língua daquele
que ainda nem nasceu e
texto nascido
estende os fantasmas desalinhados
buscando passar a ferro
alguma
identidade própria.


Ellen Maria

segunda-feira, 8 de junho de 2015

só o som permanece

"Por que eu deveria deter-me, por quê?
os pássaros partiram em busca
da direção azul.
o horizonte é vertical, certical
e o movimento uma fonte;
e nos limites da visão
planetas brilhantes giram.
a terra elevando-se alcança a repetição,
e poços de ar
tornam-se túneis de conexão;
e o dia é uma vastidão,
que não cabe na mente estreita
de vermes de jornal.

por que deveria deter-me?
a estrada passa pelos capilares da vida,
a qualidade do ambiente
na nau do útero da lua
matará as células corrompidas.
e no espaço químico após a aurora
há som apenas,
som que atrairá as partículas do tempo.
por que me deter?

o que pode ser um pântano?
o que pode ser um pântano senão campo de fermentação
de insetos corruptos?
cadáveres inchados rabiscam os pensamentos do necrotério,
o impotente esconde
sua falta de virilidade em escuridão,
e o besouro...ah,
se o besouro fala,
por que eu me deteria?
cooperação em letras de chumbo é fútil
eu não salvarei o pensamento baixo.
sou descendente da casa de árvores.
respirar esse ar velho me deprime.
um pássaro morto aconselhou-me
guardar o voo para a memória.
o âmbito final dos poderes é a união,
unindo-se ao princípio luminar do sol
e derramando-se na compreensão da luz
é natural que moinhos desmoronem.

por que me deter?
eu aperto contra o peito
os feixes verdes de trigo
e os amamento.

som, som, só som,
o som do desejo límpido
da água em fluir,
o som da queda de luz em estrela
no muro da feminilidade da terra,
o som dos laços do esperma do sentido
e a expansão da mente do amor em partilha.
som, som, som,
apenas o som permanece.

na terra de anões,
os critérios de comparação
sempre viajaram a órbita do zero.
por que me deter?
eu obedeço os quatro elementos
e a tarefa de delinear
a constituição do meu coração
não é negócio
para o governo local dos cegos.

e o que é o selvagem e longo gemido
dos órgãos sexuais de animais para mim?
o que para mim é o movimento humilde
do verme em seu vácuo carnal?
a ancestralidade que sangra das flores
comprometeu-me com a vida.
você tem familiaridade com o que sangra
da ancestralidade das flores?"

Forough Farrokhzad (Irã - 1935-1967)
Traduzido desde o inglês por: Ricardo Domeneck

terça-feira, 2 de junho de 2015

fimn(ã)ocomeço

arma quando erra a mira
o alvo também perde

perseguiram a morte
pensando que a vida
mãe à procura da linguagem do filho

depois, desaprenderam
tudo o que um dia
em um dia
dois três treze vinte quatro por sete
acreditaram saber

menos que
joelho de cão é/
foi sempre mais osso

que meia vida
a meia noite
é inteira noite

que
não há verbo de ligação que dê conta
a perda do elo
o fin-do intransitivo
o princípio nunca foi/
é inato

e repetiram e repetiram e repetiram:
não há programa de crack

que
me sirva

uma dose
mais forte.


Ellen Maria

domingo, 31 de maio de 2015

Faço, fuço, forço

(truly, madly, deeply)

Conservo meu medo
de morrer de amor
e a dificuldade de ser morta
de medo
Liberto meu amor
do medo da morte
e da dificuldade de mantê-lo
aceso.


Ellen Maria

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Ai se sesse

Quis fazer um poema que jorrasse
areia e pedra
e entupisse
o teu canal estreito
e sem saída
o gozo entrasse
e melasse
as tuas artérias
até que vazasse
pelo ouvido
e dessa maneira
cheio
de si
e sem fome
tu entendesse
o meu recado:
Eu nunca fui
pro teu bico.


Ellen Maria