segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Psycho Killer

"Ese mosquito que maté
- y que vos bautizaste Psycho Killer,
por la acritud de su aguijón y la temeridad
con que logró eludir las palmas de la muerte
en la hora lenta en que la noche se recorta
inmóvil en su cima
antes de despeñarse con callada furia
contra la madrugada
y nos sopló al oído el cuerno del insomnio
hasta dejar, al fin,
sobre el revoque blanco de ese cuarto prestado
una gota escarlata - era el vehículo para un pacto de sangre

          que prometía que
- a pesar del nomadismo,
el pánico a deshoras,
la alergia desgranada entre las sábanas,
los ciclos del deseo,
la división social del trabajo doméstico,
los breves ramalazos
de la felicidad- habría para nosotros,
en la deriva del amor, un techo,
unos tabiques:
       límites precisos

donde apilar en sucesión los días."

**

Esse mosquito que matei
- e que você batizou de Psycho Killer,
pela acritude de seu ferrão e a temeridade
com a que conseguiu esquivar das palmas da morte
na hora lenta em que a noite se recorta
imóvel em seu cume
antes de despencar-se com calada fúria
contra a madrugada
e nos soprou ao ouvido a trombeta da insônia
até deixar, enfim,
sobre o reboco branco deste quarto precário
uma gota escarlate- era o veículo
para um pacto de sangre

          que prometia que
-apesar do nomadismo,
o pânico a desora,
a alergia debulhada entre os lençóis,
os ciclos do desejo,
a divisão social do trabalho doméstico,
os breves surtos
de felicidade- haveria para nós,
na deriva do amor, um teto,
uns tapumes:
            limites precisos

onde empilhar, em sucessão, os dias."


Ezequiel Zaidenwerg
Tradução: Ellen Maria

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Aún es temprano

miro al cielo buscando algo
me escapa el nombre de aquello que sobra del cigarro
sea lo que sea
                                  lo tiro lejos
estoy en tierra nueva de cincuenta estrellas
hace frío pero no tiemblo
y no conozco a nadie más que veinticuatro horas
un rostro
                sin embargo
                                       en el humo que soplo se vuelve
con cierta familiaridad
que siento tener en situaciones de tímida desesperación
blando (alguna vez te pasó eso?)
y cuando me veo incapaz de seguir
lo miro
y aún es temprano
falta más música
                el baile
                               unos sorbos
               canciones en guitarras
el cuerpo aguanta mucho sin filtro
hasta que la noche sea solo de los gatos
lo miro sin excusa
(te tuve ahí por unos segundos en pause)
y de súbito, vino:
               pucho,
                                colilla
(cómo será que se dice en tu otra lengua?)
y ya es hora
           de regresar
                 al punto de partida.



(entre herejías & piqueniques)

Ellen Maria

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A la pintura abstracta

"Estaba aprendiendo de ti cómo desarrollar
Cierto tipo de entusiasmo hacia los no-objetos,
Y entonces te fuiste.
Me reí de ti y contigo.
Los pintores se deshicieron por ti y se fliparon
Y cegaron en montones de rojo y azul. Ahora cualquiera que intenta apresarte
Encuentra otra cosa.
Prometiste que había un significado dentro del significado
Que excedía el significado o que incluso traería uno nuevo
Que todo el mundo vería.
Eso no sucedió. Pero está el anhelo
Creado en aquellos que dejas atrás
Cuya impresión permanece en los lienzos
En lienzo tras lienzo tras lienzo
Gracias por enseñarmelos.
Los que te crearon han enevejecido. La mayoría ha muerto.
Tú sobrevives, perduras como algo fuera
De nuestro tiempo, al que le dices
"La belleza es abstracta, belleza abstracta. Esto es lo que
Los cuadros sabemos y que puede que tú nunca sepas." Te coleccionamos.
Puede que no sepamos qué estamos viendo al verte-
Pero hay algo-
En tu despliegue rojo y verde. Un practicante dice
"Odio esos colores!" Usa blanco y azul.
Pero no es la bandera de Grecia lo que surge, sino tú."

Kenneth Koch

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Los dinosaurios

"Esperando que la aspirina empiece a trabajar,
que acomode los cuartos, que revuelva el café
y que traiga a mi madre, fresca
a esta tarde de agosto
hojeo revistas estúpidas, escucho discos viejos
me pregunto en qué momento
los dinosaurios sintieron
que algo andaba mal."

**

Esperando que a aspirina comece a trabalhar,
que arrume os quartos, que mexa o café
e que traga minha mãe, fresca
a esta tarde de agosto
folheio revistas estúpidas, escuto velhos discos
me pergunto em que momento
os dinossauros sentiram
que algo não cheirava bem.


Fabián Casas
Tradução: Ellen Maria

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Eu sou o cara que você ama odiar

"eu sou o cara
que você ama odiar
morando numa das favelas
da cidade fantasma
trenchtown
back o'wall
sem roupas
para esconder minha nudez
sujeiras e mosquitos cheirando
mordendo 400 anos de carne negra
marcada por açoite e vara
eu sou o cara
trancado a cadeado
nos seus pesadelos
de medusas e górgones
crenças religiosas insustentáveis
que perfuram a lateral
do seu jesus no céu
seu vinagre virou sangue
sua água virou lodo
crucifixo
estrangulando a sua vida
de posturar neocoloniais
é, eu sou o cara
que saiu da
fumaça da ganja
te sufocando ao limite
sem te matar
meus olhos
vendo um deus negro
pondo em dúvida
o que você pensa
desse seu ser espiritual escondido
sombras negras
lançando imagens claras
de uma existência
afogada em
falsas realidades
o negro era belo
até o dia que andei
com meus pés descalços
por essas suas ruas de asfalto
calor sádico

você teria me aceitado
se me reconhecesse pela
time
ou vogue
se você experimentasse
a vida
além dos
portões da classe média
eu sou o cara
que você ama odiar
olha
eu sou agora
o seu novo vizinho de porta."

Mutabaruka.
Tradução: Thadeu C. Santos

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Elegia

"Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan."

Carlos Drummond de Andrade, 1938.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Aceitarás o amor como eu o encaro?

"Aceitarás o amor como eu o encaro?...
... Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas."

Mário de Andrade

domingo, 15 de novembro de 2015

Hoy cumplís otra vez cincuenta y cuatro, como hace siete años

"En un rincón de mi cuarto tengo un altar
con piedras de cuarzo rosa, una vela azul
la frase escrita sobre un fondo de acuarelas
y esa foto que te saqué en un jardín florido de Salta.
Estás ahí, en el lugar de la protección
donde todo se filtra de una memoria imperfecta.
Ayer al mediodía almorzamos con papá.
Agus se acordó de la canción que hacían a dúo;
yo me acordé de la que vos cantabas, y la canté
entre los gritos de tus nietos que correteaban por la cocina.
Afuera llovía, adentro también, un poco por las goteras
otro tanto por los ojos. Hicimos sonar las copas con vino.
Alguien puso la filmación de tu último cumpleaños
en el que vos elegiste homenajearnos a nosotros.
Fue necesario verlos juntos de nuevo. Verte
sonriente, agradecida, luminosa, enamorada.
Cumplías cincuenta y cuatro y te estabas yendo.
Yo no sé qué queda en el lugar de lo ausente
pero hay algo atávico en la palabra madre
que marca el cuerpo y marca la memoria
en dorado y para siempre. Por favor, creeme
porque acaba de salir el sol."

María Folatelli

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Carta-Resenha

"Aracaju, 8/11/2015.

Minha cara Ellen Maria,

Acabo de ler, neste domingo ensolarado de Aracaju, o seu 'Chacharitas & gambuzinos' e, de fato, me 'foi leve a sua leitura', como desejara você no autógrafo que foi dado no dia 29/10 lá naquele bar na cabeça da av. Paulista que o Eduardo Lacerda converte em animado escritório da Patuá.

Minha prezada, é tão bom quando a gente encontra poesia num livro de poemas. Não me estranhe a afirmação com cara de óbvia. É que as coisas nem sempre têm sido como manda a obviedade: há muitos poemas, e livros de, que se apartam enormemente da poesia - e não me tome também por afetado, elitista ou coisa que o valha.

Diferentemente de quem escreve 'poemas sem poesia' - uns meros pastiches de fenos verbais -, você tem prumo. Senta muito bem à beira deste penhasco. Tem sal, pimenta, olho de lince, grude bom. Maneja o verbo, as emoções, os sentimentos e, gera, como me disse a mim quando era eu adolescente neste negócio o CDA, um grave sentimento de mundo'. Ou, como diz o Gullar, flerta com o espanto eterno em face da vida. Das coisas dela.

E, no seu caso, com um dado mais saliente e plenamente gratificante: você cospe na cara da monotonia. Não é uma poeta protocolar, com tabela de cossenos, carta ao senhor diretor. Ao contrário, tem verve-viva. Sempre revelada em sua iconoclastia que queima feijão, que guarda dinheiro nos tênis, que peida, que fode, que bate punheta, que rememora a família, a casa em que se nasce, que caminha por essa cidade-mundo que é SP, onde há amor e olor de medo e de alegria.

Desde o bar, diante da leitura apressada de 'Teoria do Cansaço' e da 'Insustentável delicadeza do ser', eu já manifestara o meu prazer em lhe ver enunciando o que era pra ser 'sentido com sentido' - você segurou a mesma pisada no resto do livro.

Sim, porque perdoem-me alguns poetas, aqueles 'Brotos de coxa flava e verso manco' e os 'poetas de barba-colar e velutínea' de que fala o mesmo CDA em seu 'Apelo aos meus dessemelhantes em favor da paz', um poema tem que dizer. É da sua natureza: nasce condenado a dizer. Um poema é o carbono do poeta, da vida.

Tem de dizer mesmo que 'o nada', mas no 'nada' ele deve bater na titela do leitor com a lógica do 'sentir' do interlocutor de que fala Octávio Paz - e entender não é o axial. Senti-lo, sim. E você nos faz, mais do que 'sentir', 'entender', e muito, em sua visão, sempre incômoda, irônica, abusada. Diria lírica, do ato de existir.

De um lirismo ácido-moleque que toma pé na tradição jocosa dos 70. Dos 70 de Cacaso, de Ledusha, de Waly Salomão. Leminski? Vom o sabor de o sê-lo via uma guria de pouca barba. Nem prestei atenção em seus flertes com outras línguas para além do espanhol. Vi o que de lusitanamente me disse, e me disse bem. Achei que deveria ter mais cuidado na pontuação de alguns poemas, e senti falta de um índice.

Isso não é uma resenha. É um rascunho de leros para a uma colega 'de profissão', se escrever poesia fosse uma profissão. Daí que eu não saia a catar verso a verso os momentos mais altos da sua poesia. O livro está disponível na Patuá, este grande laboratório do Eduardo. Quem quiser pode beber direto da fonte. Adquiri-lo e lê-lo.

Sem kkks, diria que para ser uma poeta maior e mais completa, só lhe faltaria chamar-se Ellen Maria Martins de Vasconcellos.

Ao ler o poema 'A casa', me chamou a atenção como você e eu tratamos de um mesmo tema com olhar diferente, e lhe passo o que escrevi aqui, no dia 5/6/2014, e que está no meu quinto livro, 'Ainda os Lobos', que a Patuá pretendo publicar. Um beijo, e escreva mais e sempre mais.

Jozailto Lima.

CARPINTARIA

preso à casa; aos olhos
dela. soterrado sob
o caixão da porta principal.

sinto os pregos. a força
dos martelos, a ação
dos homens da carpintaria
e de seus serrotes. o espirro
do barro; os oleiros.

ali, a vida flui e não passa.

as diversas luas e sóis
vão e vêm - e eu lá,
no fundo da madeira, do barro.

cada vez que a casa abre
e fecha, abro e fecho
com ela. movo-me parado.

junto a mim, no fundo do barro
ao calor dos adobes
ao cheiro das madeiras
ao azinhavre dos pregos,
afago a memória
e a anatomia de todas as coisas
que vieram antes,
as que haverão de vir

sem que ninguém jamais
sonhe que naquela portada
há um alguém
que é e está entre argila,
pregos.entre madeiras.

e nada apodrece. tudo
persiste. tudo vivifica,
dá nome a todos os seres
e não distingue a muda das estações.

e ninguém sabe que esse alguém
que sou, emparedado, jamais serei eu."

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Temporada de caça

O I-ching prevera
o golpe das katanas
a revolta dos tambores
o levante das flechas
Mas a revolução lusitana
                           & gambuzina
não fora esperada.

Escuta!
Este é o terceiro sinal
Finalmente, a guerra começa.

Sangue no olho
                         faca nos dentes
foto na lapela
(utilidade da lapela em uniforme de batalha)
Armados de anzóis e arpões
baionetas e guilhotinas
naus e canhões
tomam as espadas do açougueiro
                                              e anunciam:
Está aberta a temporada de caça
aos poetas.

Explosões espantadas
Tsunamis de estilhaços
Não há tempo para Meca
Não há fado ou manifesto
                                     que os contenha.
Poetas mortos,
seus sobrenomes ficarão computados
em fichas catalográficas
                        em bibliotecas
                                     e em ordem alfabética.


Ellen Maria

O encontro

Uma voz me grita espera e eu finjo que não ouço. Aves solitárias. Um homem se aproxima
e balbucia qualquer coisa que afasto com as pernas em outra direção. Olhos abertos.
Ele me chama de menina revoltada, entendo  claramente, e penso nessas duas
palavras enquanto ele  segue gritando. Asas abertas. Estou de pé,
suas garras sobre meus braços, água salgada vindo de sua
boca. Um pássaro voa sobre o mar e mergulha.
Agarra o peixe. Eu achava que era
o pássaro, mas não era
nada.

Ellen Maria

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Uma cena

você analisa o poema sentado na cama
como quem faz um ditado
tece um discurso sobre a originalidade sintática
a potência dos últimos versos
o léxico, que léxico!
seus olhos pendem desde a página do livro
a algum lugar entre minha boca e nariz
escuto sua voz atentamente
como um aluno recém alfabetizado
escrevo a imagem primeiro com meus olhos
e sem que você se dê conta
os fecho pausadamente
a cada ponto final deste texto
penso que eles se desfalecerão
alguns anos antes ou depois
desse poema
dessa memória.

Ellen Maria

O sonho do prefeito

a via expressa flui a cinquenta
há tempo para olhar a margem do rio
há tempo para olhar
nem precisam lembrar de mudar a marcha
duas mãos se entrelaçam.

Ellen Maria

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Marasmo

(La escusa ou natureza)

e eu fico
forçada
a partir
sempre
depois
que alguém me pede
pra ficar
nasci no mar destinada
a morrer
na praia.

(como quase todos
os caiçaras
não somos muito de fugir
do barco).

Ellen Maria

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Comida para los ojos

No sé si caigo en mí
o en tus encantos viscerales
con posible añoranza o más curiosidad.
Leo esos retortijones
arabescos enchilados
con hambre y alguna pasión prometeica.
Me busco en los ángulos rectos
de tu escritura
aunque sé que a todo tragas muy lento
y quizás yo aún no esté dando vueltas
en tu estómago de acero.
De cualquier forma te traigo un té de tilo
y sorbo lo frío de tu dedicada melancolía
corriendo poco o ningún riesgo
de una patada igual de certera
como en la primera vez.
Pero no tengo cabellos suficientes
para seguir arrancándolos
sin que yo también necesite
entrar en la fila de donaciones
por un nuevo hígado.
Muerto Asclepio, abandono la lectura.
No vaya que deshidraten o mueran
hidrofóbicos mis ojos de jade.


Ellen Maria

domingo, 8 de novembro de 2015

Dança ou Luta (girl power)

Eu já tenho o não antecedido
a indiscrição da inércia
o "privilégio" da derrota
o enunciado aceso que impõe o passo
e a verdade herege do tablado
que teima em tentar me controlar.

Mas eu também tenho
a possibilidade ainda que reprimida do sim
a força que desacata o fracasso
a vingança que corta a memória
o movimento entre o improviso
e o fandango que insisto, delicada e furiosa, em bailar.

Ellen Maria

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Signes des dieux

C'est une nuit de cadeaux,
je touche tes grains de bauté
avec les bouts de mes doigts
durant ton rêve.
Je marche parmi eux
et tu te réveilles,
et tu me manges toute
avec ta bouche sèche.
Le ciel est dégagé,
mais dedans moi, il pleuve.

Tradução: Julio Romano
Texto: Ellen Maria