segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Setembro

Mês de agosto
arrancar a folha
aguardar a flor.

Ellen Maria

domingo, 30 de agosto de 2015

El guión ausente

pitacos do avô
O seguro
morreu de tédio.


Ellen Maria

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Estar estando

"A impressão de estar, o lento
espanto que se repete. Aqui e onde, eis como
povoo ao mesmo tempo dois espaços
ou, mais que isso, passo a noite inteira
vivendo as sensações de um fragmento
que me é próprio, ou é-me o corpo todo,
e de repente vai sem deixar marca
entre o que foi e o há de ser. Deslizo
nessa fronteira vã que não separa
nada e ninguém, passado nem presente, simples
e uniforme
faixa de areia da qual jorram palavras,
visões, retratos, intenções. É sempre agora
e nunca, sempre sono e manhã, sempre uma coisa
que num jogo dual se nulifica
para sobrar de nós sempre esse caldo
de frustração e medo - ou de esperança."

Leonardo Fróes

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

As máquinas

"A técnica de influenciar os homens assustando-os com o que ainda não existe é antiga. É isso que sucede mais uma vez. Fala-se de armamento militar que avança com apetite; é este o termo: apetite. Como se as armas tivesse estômago, organismo. Uma espécie de saliva grotesca, metálica. As fábricas mantém os barulhos atentos que correspondem aos movimentos previstos das máquinas pacíficas, e posteriormente surgem os produtos necessários. [...] As máquinas de guerra vêm aí. O problema não são as máquinas que se aproximam da cidade, são as máquinas que já aqui estão. As diferentes gerações mecânicas, Walser: progridem. Tal como as nossas ideias. Mas as máquinas começam a ter autonomia, as ideias não. As máquinas interferem já na História do país e também na nossa biografia individual. Têm também uma História do espírito, um caminho já realizado no mundo do invisível, no mundo daquilo que se sente e se pensa. Acredita-se até que as máquinas levam o Homem a sítios mais próximos da verdade."

Gonçalo M. Tavares

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Las máquinas

"Invento una máquina
para ocultar mi deseo.
E invento otra máquina
para ocultar esa máquina. Es un sistema
de dos máquinas y suena como
risas. Invento
una máquina para ocultar su sonido. Me dices: "Por qué
estás ocultando la belleza de tu mpaquina?" Cada máquina
es más bella que la anterior,
todo aquello que tine el objeto
de ocultar parece volverse,
al final, signo
de lo que oculta. Y
ahora lo que sonaba como risas
parece más bien un sollozo o
risas ocultando un sollozo.
Todas mis invenciones son un
completo desastre. No es ocultar mi deseo, es
hablar sobre mi deseo
para ocultarlo, como
la voz en la contestadora
que dice: "Hola. Acerca del
deseo me gustaría decir una
o dos cosas. No tus ojos,
no tus palabras, no
tu voz quejumbrosa.
Todo lo que deseo
es tu aprobación." Es dificil no
escuchar lo que el mensaje está
diciendo, también es dificil
abstenerme de inventar
escucharlo. Así que inventaré
una máquina para desinventar.
Será la última máquina
que invente, y su
único propósito será convertir
mis otras máquinas en mierda.
No más inventos (para mí).
- Qupe lástima. Alguna vez fue un
prodigio de máquina; ahora
es más bien un desastre.
- Creo que dejó una nota...
- Estás equivocado: sólo ha dejado un caos."

Aaron Kunin
Traducción: Luis Eduardo García

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Una filología de la imagen

El despliegue de un tanque de guerra
cuando escribo
y después traduzco

La aflicción de la palabra
que puede ser vista
y no se pronuncia

Dos renglones en paralelo
que se cortan en el infinito.


Ellen Maria

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

amores homéricos

ela admira nucas informes
em viagens subterrâneas
altera diversas vezes seu trajeto
sem desviar o destino
elabora finais extraordinários
sem um timbre
ou dois acordes mitológicos

descobre nuncas
quando a porta abre
não se importa
caminha como quem ganhara
a história como se chegara
a ítaca.


Ellen Maria

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

otro

(aunque)                 extraño
(aunque)                 fuiste
(aunque)                 algo más
(aunque)                 de mucho menos
(aunque)                 hoy no cabe
(aunque)                 miedo
(aunque)                 solos
(aunque)                 en lo nuestro


Ellen Maria

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

pó & cia.

isso não é um poema
é uma tampa de caneta bic
cheia de farinha
com aspirina moída.

"a salvação é pelo risco
sem a qual a vida
não vale a pena".

Ellen Maria

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Como un juguete

"me gustaría
no encuentro otra palabra
tomar mates con vos
muchos días
especialmente de mañana
de domingo
aunque a estas alturas a cualquier hora
del día de la noche o de la semana
estaría bien
y con la misma simpleza tomarte de un brazo
o de los dos
llevarte a la cama
o no
jugar a la lluvia
tener un amor de juguete
divertirnos como niños
con él
y no llorar
si el juguete se rompe
porque nosotros lo rompimos
jugando
jugando hasta que
lo rompimos."

Franco Rivero

terça-feira, 18 de agosto de 2015

corpo

"Podemos atear fogo
à memória da casa
desaprender um idioma
podemos esquecer uma cidade
suas ruas pontes armarinhos
armazéns guindastes teleféricos
e se ela tiver um rio
podemos esquecer o rio
mesmo contra a correnteza
mas não podemos proteger com o corpo
um outro corpo do envelhecimento
lançando-nos sobre a lembrança dele."

Ana Martins Marques

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Volta à poesia

"Vou voltar à poesia! Assim como quem não quer nada! Um triunfo" Uma armadilha" Uma boca de esperança" Vou voltar à poesia e que se dane a prosa toda que fiz, o teatro, a televisão e o cinema... Voltarei à poesia craseada assim como à fada que a gente vê ao longe e não pode cumpri-la. Voltarei à poesia porque a filosofia anda perdendo pra técnica e a sociologia não cumpriu o seu papel de ser mais que tudo. Pra onde foi a semiótica? Em que estado está a transcriação? O que pode a História? Voltarei à poesia no meio dessa gente que suplica por água, que foge do tiro, que nunca soube o que morrer direito."

Paulo Lins

sábado, 15 de agosto de 2015

El movimiento

Yendo a Nayarit
leo sobre un cuerpo flotando
mis ojos miran a las letras
que miran a un cuerpo
que mira a sus pies
y los pies 
norteados 
eternamente 
mirando hacia adelante
mi cuerpo flotando
leo otros ojos
que miran otros sentidos
mientras todos esperamos
furtivamente
llegar a Nayarit.


Ellen Maria

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O que faz um poema ser um poema?

"[Minha leitura se chama
O que faz um poema ser um poema?
e vou ligar o cronômetro]

Não é a rima das palavras no fim da linha
Não é a forma
Não é a estrutura
Não é a solidão
Não é o espaço
Não é o céu
Não é o amor
Não é a luminosidade
Não é o sentimento
Não é a metrificação
Não é a época
Não é a intencionalidade
Não é o desejo
Não é a temperatura
Não é a esperança
Não é o assunto escolhido
Não é a morte
Não é o nascimento
Não é a paisagem
Não é a relação de palavras
Não é o que há entre as palavras
Não é o cronômetro
Não é o...
É o tempo."

Charles Bernstein
Tradução: Marília Garcia

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Para uma leitura

falar de línguas
de como aprender uma língua através de suas letras
lendo-a
através de sua poesia
depois aprender a escrevê-la
traduzindo-a
falar pouco, recitar
abrir o braços e
falar de si
de como escrever um poema em outra língua
e um pouco do outro
aprender através do outro
seus gemidos depois de
seus olhares
aprender a falar com o outro
com suas próprias palavras
torná-lo parte tornar-se parte
do outro
através de suas palavras
e outros gemidos
entender a identidade
da língua
e de um
aprender que a língua
já é parte
do todo
e ver-se estranha falando a própria língua
qual língua?
qual língua é minha?
sentir-se estrangeira falando de algo que não seja
a poesia
e transliterá-la
a uma terceira
língua.


Ellen Maria

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Para una lectura

hablar de lenguas
de cómo aprender una lengua a traves de sus letras
leyéndola
a traves de su poesía
después aprender a escribirla
traduciéndola
hablar poco, recitar
abrir los brazos y
hablar de sí
de cómo escribir un poema en otra lengua
y un poco del otro
aprender a traves del otro
sus gemidos después de
sus miradas
aprender a charlar con el otro
con sus propias palabras
tornarlo parte formarse parte
del otro
a traves de sus palabras
y otros gemidos
entender la identidad
de la lengua
y de uno
aprender que la lengua
ya es parte
del todo
y verse rara hablando la propia lengua
cuál lengua?
cuál lengua es mía?
sentirse extranjera hablando de algo que no sea
la poesía
y transliterarla
a una tercera
lengua.


Ellen Maria

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Sobre pedras e dormir

Não vou a lugar algum
e imóvel observo
que não passo um segundo só
parada e sinto
que sou tocada pelo ar que entra
e toco o ar que sai
minhas pernas se enroscam
na areia milenar da praia e escorre
por dentro delas água salgada
e volta pro mar
eu vou a lugar nenhum
e não sei
nem penso
em quanto devo ficar ou demorar
a estrutura se parte ou se entrega?
já aviso:
estou pronta
mas nada nunca é
ou foi ou será
preciso
Impossíveis relatos de fora do corpo.

Ellen Maria

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Ocaso íntimo

Quando chega a estação dos cheiros
é tempo de decifrar enigmas
às vezes um nariz não basta
às vezes é mais que suficiente
e das flores da noite
corto o talo e broto no vaso da sala
para contagiar a casa de respostas incontestáveis
pétalas caídas em manhãs seguintes.


Ellen Maria

sábado, 8 de agosto de 2015

Previsão

Como uma nave espacial
ele é lançado
o seguem uma multidão
de bocas abertas, olhos
dentes e óculos escuros
Garrafas de sidra se acumulam.
Como um astronauta, ela dorme atada.
E depois disso, quê?
Cachorro quente por um dólar,
uma passagem de subte, três reais e cinquenta.
Ninguém deixou de ser seu próprio sol
ninguém sente o peso da maçã ou vê
a volta do Columbia à terra
A corda arrebenta
e o livro toma seu lugar na estante.


Ellen Maria

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Erro de principiante

Perseguir um poema
e dar com os burros n'água
Então os traduzo
Quem secou toda esta água?


Ellen Maria

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

angle of yaw

Aquela fileira pública de dentes
permitia que cada um a interpretasse
de acordo com sua capacidade de experiência estética
Quem provou da fruta sabe
que melancia não se come a casca
Você está dormindo?
O tempo verbal influencia a direção do sonho
e a posição do pescoço, inerte no travesseiro.
Nada que uma gramática non revele
ou o status do facebook.
Parece mesmo estar feliz, não é?
Secretamente busca sentir ciúmes
da ex do ex e de quem é aquele dedo no canto na foto.
Lançará um livro e pensa na dedicatória
Viajará ao país onde a salsicha se vende a peso bacon extra
Pensará outra vez em fuga e abstenção
Essa fotografia é antiga
Em liquidação, um travesseiro da NASA.
Para a tradução/revisão no meio e enfia mais um pedaço na boca
Ladies and gentleman, já é permitido desabrochar os cintos
Entre pela última vez na página de citações
Valendo: partir é viver excessivamente.


Ellen Maria

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Pedazo de estática

No hay verdades que no partan cabezas
Sin embargo,
cuánto silencio cabe
en una despedida

No hay lágrima para tanta caída
o Sería lo contrario

Las hormigas siguen preparándose
para el invierno
recogiendo llaves
y cerraduras

de donde ya se escuchan
chácharas
quizás este año no lleguen las flores

Por las dudas
también almacenan pilas
No vayan a quedar sin la radio.



Ellen Maria

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O peso da matéria da sobra

Era a vitória da síntese sobre aquele discurso
que durara todas as horas dos três meses
que ficaram juntos
não, ele não tinha alma
(houvera Deus, não o perdoaria)
isso ela já soubera antes mesmo da convivência
não, há memória, ele completava
(e livros, quantos livros)
ela terminou rindo
ao lembrar que tudo também começou com a leitura de um não poema.


Ellen Maria

domingo, 2 de agosto de 2015

Ciências & letras II

Por favor,
público leitor,
colete seus dejetos aqui
defeque seus desejos ali
pá e cal atrás do acento
qualquer mescla de gêneros
altera o Resultado
dos poemas em sete dias
novos testes só poderão ser
realizados na próxima edição
Não esqueça:
o autor colhe e a crítica cimenta
ou vice-versa.

Ellen Maria

sábado, 1 de agosto de 2015

Lista de presenças

Desprender da leveza
do gozo matutino
recebido carinhosamente
por ele
tão fluido
quanto o peso
do suor tenso
que escorre
em certas noites
nas ruas com medo
do outro

Despedir da lágrima
de saudade de quem nunca
pertenceu e esperar que a saliva
preencha o vazio da fome
(ainda não é hora de correr
nem comer)

Habitar a nuvem
que dissipa e se condensa
proporcionalmente à
quantidade de água
acumulada

Ser setenta por cento
líquido
e outros trinta por cento
carne encharcada
secando ao sol

Reconhecer a alteridade
e o caos na composição
que há em cada gota
milenar do corpo
e desistir de todo e qualquer
preconceito

já que eu também sou você.


Ellen Maria