domingo, 5 de novembro de 2017

tpm

você, que me faz deletar postagens novas apenas postadas
postagens velhas que possam me lembrar o quanto são velhas
mensagens sem que eu fosse realmente destinatária
ou às vezes correntes em que eu era incoerentemente incluída
você, que me faz excluir fotos de toda e qualquer rede social
você, que me faz destruir recordações por não deixar restar nenhuma carta
você, que me faz odiar-me por tantas noites
você, que também te odeia
eu também te odeio
eu também te odeio

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Quando um ex-amor se casa

Parece bobagem, mas quando um ex-amor se casa, com outra pessoa, meu olho enche d'água.
Não de ciúme, inveja ou desafeto. Mas porque me transborda um impedimento já não mais disposto a suportar grades. Ou bolsas impermeáveis. A boda, como se sabe, é a celebração do amor, uma festa. E quando um ex-amor se casa, em alguma parte, eu me sinto casando também. Faz-se presente à face um pouco de dentro. O terno, o laço, o nó da gravata, a aliança. E incapacitada de poder abraçá-lo, felicitá-lo, e desejar que seja imortal, posto que é chama, a lágrima fornece o sal eterno, o sal sagrado, meu presente de casamento. O matrimônio, como se fia, é um tanto difícil de mantê-lo. Mas se fica um amor de ontem na lembrança, finca mais ainda o amor celebrado hoje. E escorre para todos os lados.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

não fala pra não atrair.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

"Porque sua camiseta secou ao sol ela tem a cor do sol
porque seus cabelos secaram ao vento seus pensamentos têm
a velocidade do vento
porque você disse “noite” sua boca 
terá o gosto do mar noturno
porque você não conheceu meu avô você me amará menos
porque não te conheci quando criança eu te amarei mais
porque você conheceu os meus livros antes de me conhecer
você nunca vai me conhecer"

ana martins marques

terça-feira, 31 de outubro de 2017

"vamos colocar isso 
em termos de natação.
é como se na vida eu estivesse 
nadando, nadando, nadando 
enfrentando ondas muito altas
a piscina me salva 
de muitas situações opressoras
tem situações que são 
enlouquecedoras
se a gente sabe nadar 
é só nadar 200, 300 metros 
que aí já não sente mais nada 
não fica triste, não precisa chorar 
é como se tivesse lavado 
o cérebro por dentro"

(nora ronai)

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

- você sabe
que a gente
é o sonho
de alguém?
- é impossível
ter certeza.

paloma vidal
um dia alguém vai me pedir em casamento e não vai ser zueira
e não vai ser até que uma parede de madeira nos separe
e não vai ser até que a bipolaridade nos separe
e não vai ser até que a cocaína nos separe
e não vai ser efeito do álcool
e não vai ser efeito do sexo
e não vai ser perfeito
e talvez eu hesite
ou talvez eu aceite.

domingo, 29 de outubro de 2017

nada do que eu disser vai dar conta

o efeito quer o excesso

mas só tem falta

faz acontecer a sua

mas como

tem volta a volta

ou só preenche os cantos

sem desborde

que o desenho é de outro

se não disparo

morro na praia

espremo o cisto

tímido

e tremo

a arte de explodir

por estagnação

ao menos na minha cabeça.

sábado, 28 de outubro de 2017

"ontem eu tive esse sonho
nele encontrava com você
não sei se sonhava o meu sonho
ou se o sonho que eu sonhava era seu
um sonho dentro de um sonho
eu ainda nem sei se acordei
desse sonho que era imagem e som
pra saber o que foi que aconteceu"

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

as pessoas acham tudo que eu sei o que tou fazendo.
mas só quem sabe é Ernesto. desde o dia que eu o conheci ele me diz:
tá fazendo merda.
nunca duvidei de suas palavras.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

a gente fica tudo na procura do botão do reset.
e às vezes nem lembra que a gente aperta esse botão todo dia de manhã, quando acorda.
e pede no mínimo mais uma soneca de cinco minutos.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

a veces recordamos y nos tornamos otra vez quienes somos.
al menos hasta dormir
y no despertar el día siguiente cuando salimos a trabajar.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

dar vazão a vazão

mesmo que signifique

mais um pouco

de vazio

em minha cesta de vime.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Persona non protagona

Até quando vou sentir-observando?

uma ação a distância
que vive-e-vê
duvide-o-dó.

domingo, 22 de outubro de 2017

imersa em uma ilha esquizofrênica
a tradutora benze portas
com o mesmo cutelo
que pica cebolas

sábado, 21 de outubro de 2017

"tenho por princípio
nunca fechar portas
mas como
mantê-las abertas
o tempo todo
se em certos dias
o vento quer
derrubar tudo"

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Sintoma

qual o nome
disso
festa despertando
o cheiro
que ainda
não sentido
confinado na minha
teu hálito  pré dormido
assim um
nome   não dito
um lábio semi
vai chegando
dois
teu dedo cru
saindo do bolso
ardia suor 
antes    de cair
e do lado de dentro,
a espera
qual o nome disso?
a carne cheia
de desejo amanhecido:
esta noite vou te ver.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Exercício de mendicância

(de Um caderno e tanto) - Agota Kristof

Nos vestimos com roupas sujas e rasgadas, tiramos os sapatos, emporcalhamos o rosto e as mãos. Vamos para a rua. Ficamos parados, esperando.
Quando um oficial estrangeiro passa na nossa frente, levantamos o braço direito para cumprimentar e estendemos a mão esquerda. Quase sempre, o oficial passa sem se deter, sem nos ver, sem nos olhar.
Finalmente, um oficial para. Diz qualquer coisa numa língua que não compreendemos. Ele nos faz perguntas. Nós não respondemos, quedamos imóveis, um braço levantado e o outro estendido. Então ele remexe nos bolsos, coloca uma moeda e um pedaço de chocolate em nossas mãos sujas e vai embora balançando a cabeça.
Continuamos esperando.
Passa uma mulher. Estendemos a mão. Ela diz:
- Pobres meninos. Não tenho nada para dar a vocês.
Ela nos faz uma carícia na cabeça.
Nós dizemos: 
- Obrigado.
Uma outra mulher nos dá duas maçãs e uma outra, ainda, biscoitos.
Uma mulher passando. Estendemos a mão. Ela para e diz:
- Não têm vergonha de mendigar? Venham à minha casa que eu tenho uns trabalhinhos fáceis para vocês. Rachar lenha, por exemplo, ou limpar o terraço. Já são grandinhos e fortes para isso. Depois, se trabalharem bem, eu dou sopa e pão.
Nós respondemos: 
- Não temos vontade de trabalhar para a senhora, nem queremos comer sua sopa, nem seu pão. Nós não temos fome.
Ela pergunta:
- Então, por que estão mendigando?
- Para saber qual é o efeito que isso faz e para observar a reação das pessoas.
Ela vai embora gritando:
- Vagabundinhos de merda! E impertinentes ainda por cima!
Na volta para casa, atiramos nas touceiras que ladeiam a estrada as maçãs, os biscoitos, o chocolate e as moedas.
A carícia nas nossas cabeças é impossível jogar fora.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

"e Júpiter — o maravilhoso — entrou agora pouco no signo de Escorpião. adeus equanimidade libriana! nós agora vamos aprofundar no intenso, denso e aquático viver da regeneração. é tempo de transformação psíquica, espiritual e emocional — coisas que podem doer, mas é pra expurgar os venenos. afinal, Escorpião enfrenta qualquer coisa que for podre pra purificá-la em poder vital.
a última vez que Júpiter esteve em Escorpião foi entre o fim de outubro de 2005 e o fim de novembro de 2006, mas a configuração era muito mais restritiva do que agora, já que na época tal Júpiter quadrava Saturno em Leão e Netuno em Aquário.
pessoas com fortes presenças em signos de água tendem a ser beneficiadas pela sorte e também a desaguar os mundos fecundos que existem em si. pra todo mundo as intensidades psíquicas e emocionais se tornam os lugares pra gestar as transformações. paixões, pulsões e desejos vão se amplificar — nem que seja pra nos fazer morrer e nascer de novo. é tempo de excessos emocionais. quem gosta de emoções e sentimentos leves vai ter um longo ano pela frente...
Júpiter em Escorpião sabe que há algo de enigma e mistério em tudo e a gente se aproxima com paixão: e essa aproximação não desfaz o enigma, pelo contrário, é tempo de viver com força o que não será necessariamente e nem precisa ser revelado.
Júpiter desta vez fica em Escorpião até o dia 8 de novembro de 2018 — quando adentra sua morada sagitariana.
— quem tem desejo tem coragem."

Julia Hansen

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Jamais se perde aquilo que não se possui.
Assim é dito, assim se passa, em todos os quadrantes,
nas dez mil direções.
Jamais se ilude quem assim se instrui.
(Excerto do Cânone Médio de Yi-huá)

domingo, 8 de outubro de 2017

A arte de perder

Elizabeth Bishop

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério. ”

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Ele não vai parar de regressar.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

fatou

Parece um jogo
uma dança
uma prosa
um filme

ainda que não pareça
o que é

é o que sobra das horas
no tempo das catástrofes

sereno apocaliptico
um frio
que afoga

apenas um escasso intento
de manter-se.

domingo, 1 de outubro de 2017

Pequeno tratado de estética indígena

aquele que vê um índio
à luz de um outro luar
a pele exposta ao fogo
traçados de muitas cores
cocares, penas de aves
adornos por todo o corpo
os guizos e os maracás
a música que o envolve
e pensa: ele está nu
não tem olhos para ver
não tem ouvidos que ouçam
aquele que vê um índio
e pensa onde estão as roupas
não sabe o que são as coisas
vestindo este mundo infindo

Leandro Durazzo

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

o dom de existir

desejando nós
gastando o mar
por-do-sol
postal
...


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Mil platôs

exatamente aqui
olhando pra você

terça-feira, 12 de setembro de 2017

“De verdad esto no nos lleva a ningún lado. Si supieras lo que de verdad vale el tiempo no lo usarías para esto”

Samanta Schweblin

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Manter

Que difícil que é pedir
um ato de presença.
Um ato que dure depois da representação.
Um homem performa de vestido longo
diante de duas pessoas
que já disseram muito.
Agora se observam marotos,
tímidos e emocionados.
Podia ser teatro da baixa Augusta,
podia ser ficção de escritores personas
(publicada pela Patuá),
mas é real. Um matrimônio
sem parcimônia. Também é político,
mas sem golpe dessa vez.
Em um presente que muda tanto
e tantas vezes,
o que fazer para manter?
A palavra, o silêncio, a presença. Se intacto
pouco permanece,
será a velha receita do liberalismo,
laissez-faire,
que dá jogo?
Eu não sei. Só sei que manter
é mais difícil que vencer
- sozinho morreu o dono
do banco imobiliário -
Cartas de sorte ou revés
aparecem com ainda mais frequência
(cardíaca)
Mas desejo que mantenham
a chama acesa, a surpresa
o amor com respeito
o convênio médico
o fair play e a ternura.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

"Somos esto que somos. No abandonamos nada en el camino. Es el camino el que acaba cuando quiere."

Miguel Gaona

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

sábado depois de sexta

esconder o rosto das manhãs
e as gemas dos dedos
quando a noite se faz clara
depois virar-se no travesseiro
e dormir com o real
o viço e o riso leve,
a barganha de não levantar
quando as vassouras
já estão trabalhando.


Ellen Maria

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

"ruas
tocar a morte no mínimo
umas duas
ainda que dessas do tipo
num era pra ser
até reconhecer a saliva de cada bicho tocar
tambor numa rua vazia
acordar quem te faz dormir é preciso
dançar com aquele cego às duas
cegos num olham só pro próprio
escuta
uma umbigada de resistência
toca o tambor feito de pele de rua vazia
de ferocidade e simetria
e de cesuras e de sintomas
a linha a grade
a mão que em braile embala o arame a farpa
que pega pela mão e carrega
a estrada
de meio fio a meio fio de sono a sono
luz arrastada de calçada até portas
o som do fóton no tapete de boas chegadas
antes e depois
os meios os muros que dizer
as fachadas
também é perguntar isso é entrada ou isso é saída
a simples sustentação de falas cognatas

num tinha um poste aqui
bandeira de luz fincada ou uma catraca
demarcações
que nos vinculam"

Bruna Mitrano e Ricardo Escudeiro

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

   Ninguém

o mundo
que nem nós,
Ninguém
vai apreciar
o peso
de outra
mão
na nossa
mais
que nós.
Tyler Knott Gregson 

domingo, 27 de agosto de 2017

"É dito: pelo chão você não pode ficar
Porque lugar de cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
Pelas paredes você também não pode
Pelas camas também você não vai poder ficar
Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
Porque lugar de cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo"

"reino do bichos e dos animais é o meu nome,  Stela do Patrocínio.

sábado, 26 de agosto de 2017

"Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.
Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa...
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.
Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.
Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens."

CDA, Tardes de maio.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

"Não sei sentir, não sei ser humano,
Não sei conviver de dentro da alma triste, com os homens,
Meus irmãos na Terra.
Não sei ser útil, mesmo sentindo ser prático, cotidiano, nítido.
Vi todas as coisas e maravilhei-me de tudo.
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco, não sei qual, e eu sofri.
Eu vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos.
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente.
Mas para toda gente isso foi normal e instintivo.
Para mim sempre foi a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto demais ou de menos.
Seja como for a vida, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cotar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar pulos, de ficar no chão,
De sair para fora de todas as casas, de todas as lógicas, de todas as sacadas
E ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos."
Álvaro de Campos

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

"[...]
Os metais, as madeiras
já se deixam malear,
de pena, dóceis. Nada
é rude tão bastante
que nunca se apiede
e se furte a viver
em nossa companhia.
Este é de resto o mal
superior a todos:
a todos como a tudo
estamos presos. E
se tentas arrancar
o espinho de teu flanco,
a dor em ti rebate
a do espinho arrancado.
Nosso amor se mutila
a cada instante. A cada
instante agonizamos
ou agoniza alguém
sob o carinho nosso.
[...]"


CDA

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

passei o dia guardando um segredo
do condutor do trem
das pessoas apertadas no vagão
do vendedor de frutas
de meias
de casacos
de pães
do morador de rua
do segurança da loja
do porteiro da empresa
dos vinte funcionários do meu setor
da garçonete
da senhora da limpeza
da caixa da padaria
da minha vizinha
mas quando abri a porta para chegar em casa
o segredo se revelou
outra vez
esta noite.


Ellen Maria

terça-feira, 22 de agosto de 2017

"El amor tiene necesidad de realidad. ¿Hay algo más tremendo que descubrir un día que se ama a un ser imaginario a través de una apariencia corporal? Es mucho más tremendo que la muerte, porque la muerte no impide al amado haberlo sido.
Ese es el castigo consistente en haber alimentado al amor con la imaginación".
Simone Weil

domingo, 20 de agosto de 2017

...

não como unhas
nem cutículas
mas me ajoelho
até que o dia
em que a alforria
deixo de colher milho.



Ellen Maria

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"La experiencia más dolorosa, la más triste y aterradora que imaginarse pueda,
es sin duda la experiencia del alcohol.
Y está al alcance de cualquier mortal.
Abre muchas puertas.
Es un verdadero camino de conocimiento, quizá el más humano, aunque peligroso en extremo.
Y tan atroz y temible se muestra, en un recorrido de espanto y de miseria,
que uno quisiera quedarse muerto allá.
Pues el retorno del otro lado de la noche es en realidad un milagro,
y únicamente los predestinados lo logran.
A tu retorno, el mundo te mira con malos ojos;
Eres un extraño, eres un intruso, y sientes en lo hondo que el mundo no quiere que lo contemples;
lo que quiere es que te vayas y desaparezcas —lo que quiere es que ya no estés aquí.
Y como al fin y al cabo el mundo eres tú,
Imagínate, tendrás que tener mucha fuerza, mucha humildad, mucho gobierno,
Para enfrentarte contigo mismo
—vale decir, con el mundo."
Jaime Saenz

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

"Y esta es cosa que no te causa el menor asombro, acostumbrado como estás a los prodigios:
en efecto, el poema se halla en tu bolsillo; y lo sacas, y lo miras y lo lees.
Y de pronto te preguntas quién habrá sido su autor,
como si no supieras que aún no ha nacido."
Jaime Saenz

terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Tienes que aprender tu cuerpo. Y tu cuerpo, a su vez, tiene que aprender.
Poco a poco, a lo largo de interminables días y noches, comienzas a aprender.
De hecho, surge una cuestión absolutamente importante: tienes que tener humor, y tienes que tener aplomo.
Pues deberás mirar de reojo —nunca de frente. No podrías.
El que hubieras estado toda tu vida en contigüidad con la muerte no te sirve de nada, 
y solo te infunde de una falsa seguridad y te pierde,
en momentos de supremo terror, que son momentos decisivos en el aprendizaje,
cuando miras de cerca a la muerte y cuando de pronto la identificas físicamente y ves la clase de persona que es,
en momentos en que precisamente no existe defensa alguna, como no sea el humor y el aplomo."
Jaime Saenz

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"¿Qué es la noche? —uno se pregunta hoy y siempre.
La noche, una revelación no revelada.
Acaso un muerto poderoso y tenaz,
quizás un cuerpo perdido en la propia noche.
En realidad, una hondura, un espacio inimaginable.
Una entidad tenebrosa y sutil, tal vez parecida al cuerpo que te habita,
y que sin duda oculta muchas claves de la noche."

*

"Y yo me pregunto:
¿Qué es tu cuerpo? Yo no sé si te has preguntado alguna vez qué es tu cuerpo.
Es un trance grave y difícil.
Yo me he acercado una vez a mi cuerpo;
y habiendo comprendido que jamás lo había visto, aunque lo llevaba a cuestas,
le he preguntado quién era;
y una voz, en el silencio, me ha dicho:
Yo soy el cuerpo que te habita, y estoy aquí, en las oscuridades, y te duelo, y te vivo, y te muero.
Pero no soy tu cuerpo. Yo soy la noche."
Jaime Saenz

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

queima de arquivo

"minha avó tinha uma ilha/ nada para se vangloriar/ dava-se uma volta nela numa hora/ ainda assim era um paraíso/ um verão fizemos uma visita e descobrimos que o lugar estava infestado por ratos/ chegaram num barco de pesca e passaram a se alimentar de coco/ minha avó me ensinou como se livrar dos ratos de uma ilha/ enterramos um barril e o deixamos aberto/ depois colocamos um coco como isca/ os ratos foram em busca do coco e caíram no barril/ depois de um mês prendemos todos os ratos/ mas não jogamos o barril no oceano nem o queimamos/ deixamo-lo ali/ os ratos começaram a sentir fome/ e um a um passaram a se devorar/ até que só restaram dois/ os dois sobreviventes/ pegamos e os soltamos nas árvores/ mas agora eles não comem mais coco/ agora eles só comem ratos"

Evelyn Blaut-Fernandes

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Carta a Otto

"Meu velho, como se torna difícil explicar as coisas quando a liberdade instala em nós seu reino de incertezas.
Agora, eu preciso distinguir cada céu, conseguir de cada um a intimidade singular, de cada vento devo arrancar o segredo, a confidência, de cada alegria é preciso que eu estabeleça os limites, organizando as paisagens que a compõem, que lembranças me vivem na alma, que tonalidade de luz me cerca, que momentos de tédio ou ansiedade precederam o prazer de colecionar conhecimentos. Agora, irmão, tudo é diferente e nada se repete. E não sei que irremediável fatalidade de conhecer, de distinguir, de aprender a tudo amar ou tudo odiar em sua fase distinta me leva para frente, sempre mais para frente até a incerta fronteira em que o pudor desmente a intimidade das coisas, obrigando as palavras a se dirigirem para os domínios da poesia.
Escute irmão: sou de índole fragmentada e dispersa. Quando não me engole a tragédia, me apaixono a todo instante: uma lembrança, um rosto, uma faixa de areia branca suavizando a visão de edifícios e quintais. A entrega, entretanto, jamais humanizou meus amores. Eu me apaixono pelas possibilidades, isto é, as nuanças, as entregas arrependidas, indecisas ou inconscientes, isso que promete negando ou nega prometendo, tudo isso me encanta e reclama.
Ora, frequentemente acontece que eu tome um ar de imparticipação e ausência. As criaturas costumam acusar em mim o frio, o impassível, o árido. Devo aceitar isso na extensão total de seus compromissos? Devo explicar que atrás do impassível eu me apodero das coisas com voluptuosidade, com paixão? E que, de certo modo, me comprometo e vou ao extremo de tudo quanto me convoca, criando para minha vida um sem-número de derrotas singulares? Olhe, irmão, o que me interessa nas coisas é o que elas poderiam ser. O que me atrai nas criaturas é a disponibilidade, essa linda e trágica espera incessante, esse constante vigiar das tentações, como se torcêssemos pela circunstância, pela pessoa, pelo demônio que viesse (que sempre parece vir) nos arrancar dos trilhos para as cambalhotas da vida. Você há de ter observado, meu velho, um rosto, um olhar disciplinado e intimidado por séculos de civilização burguesa, você há de ter notado que nesses rostos costuma brilhar de vez em quando um anseio esquisito, uma luz que é bem uma sede de pecado, de desconhecido, de desastre. Instantes em que se revela em nós o pagão – o selvagem, o homem que deseja perder a própria vida e não ganhar. Vinte séculos de cristianismo não extinguiram em nós o gosto ácido do desprendimento, o amor impensado pelas coisas do mundo: sol, frutos, fêmea subjugada sobre a relva. Bem, irmão, esses momentos são tudo pra mim.
Quando conheço uma criatura qualquer, meu caro, fico a espiá-la de meu canto, brinco de provocá-la a ver até onde vai e até onde poderia ir. A contemplação do limite em que essa criatura se pertence e deixa de se pertencer, o limiar entre a unidade e a dispersão, a crista que a separa do pecado, a linha divisória que distingo entre o domínio de si mesma e mil possibilidades de ser diferente, enfim, essa fabulosa região limítrofe é o que poderosamente me afasta de pensar em mim mesmo, me afasta de sofrer. Conversando com mulheres me obstino em saber até que ponto me pertencem, ou permanecem ou me odeiam. Quanto de entrega existe entre mim e as pessoas que me rodeiam? Que porcentagens extraio das almas que me escutam? Que espécie de vida viveríamos se ousássemos mais um pouco? Talvez essa lucidez minha seja triste. Mas, mermão, a lucidez é também paixão, e a mais irremediável que eu conheço."
Paulo Mendes Campos
(a Otto Lara Rezende)

sábado, 5 de agosto de 2017

Quanto ao amor
talvez seja grave
o que vou dizer talvez
não seja
Este ano não é teu ano
Dedica-te a botar corpo
fora
da sombra sobre
teus pés

não o perca de vista.

Ellen Maria

domingo, 30 de julho de 2017

"Sei o que quero fazer da minha vida, e tudo isso é tão simples, mas era tão difícil para mim no passado. Quero dormir com muitas pessoas - quero viver e ter ódio de morrer - não vou lecionar, nem fazer o mestrado depois da graduação... Não pretendo deixar que o meu intelecto me domine e a última coisa que quero é cultuar o conhecimento ou pessoas que têm conhecimento! Não dou a mínima para o acúmulo de fatos de ninguém, exceto quando se trata de uma reflexão sobre a sensibilidade elementar, de que eu de fato preciso... Quero fazer tudo... Ter um modo de avaliar a experiência - se me causa prazer ou dor, e tenho de ser muito cuidadosa quanto a rejeitar a dor - tenho de perceber a presença do prazer em toda parte e encontrá-lo também, pois ele está em toda parte! Quero me envolver completamente... Tudo é importante! A única coisa a que renuncio é a capacidade de renunciar, de recuar: a aceitação da mesmice e do intelecto. Eu estou viva... Eu sou linda... O que mais existe?"

Susan Sontag

sexta-feira, 28 de julho de 2017

catodo do cateto

juro por deus que um dia
vou me vingar desse clichê
que é não ser amada:
queria escapulir da hora dos justos
mas para escalpar a desgraçada
das gentes acabei dando
com burros n'água.


Ellen Maria

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Wireless

"wireless

o medo de se perder, mundo
punk, desenhando à faca na água suas dúvidas, você
conversa consigo pelo espelho oxidado em terceira
pessoa, rasurando à unha o nitrato, comendo grama
por grama o retrato que lhe vem na prata
quando rói os dedos entre os campos
minados, o medo
de se perder [“converse comigo”], nada
mais pode ser dito depois
que o chão desaparece, mundo
junkie, jungle, os hipopótamos são os únicos
que atravessam a rua sem esmagar
as flores no asfalto, linces e gazelas
não, você está
solto no espaço e nenhum céu
desaba, antes
permanece imóvel em aparência no instante
em que você escorre a esmo pelas trilhas
e deleta arquivos antigos [“converse
comigo”], menos laços, odiar
as lembranças, o medo
de se perder, mas é justo
pra onde você
vai."

Nuno Rau

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Rede

"siga pelas galerias, boca
que lhe devora, sede
contínua da esfinge
cocainômana suportando o peso
da pureza
em suas narinas brancas enquanto
você olha de frente a crise
das metáforas, o rol
dos vilipêndios, a carne
do ato e a carne do sentido, os lugares
que agora são
restos da sua melhor
parte enquanto você
está prestes
a se perder
de vez seguindo as galerias
de fibras subterrâneas, não
sob a pele, “se você quer mesmo
enlouquecer vou
lhe contar toda a verdade que está por baixo
da verdade que está por baixo
da verdade”, ela disse
sem saber que sua cabeça já estava
a prêmio, um dado
rolando sobre os lençóis, se virando
em espasmos enquanto murmurava

eu já sei
"

Nuno Rau

terça-feira, 25 de julho de 2017

Touch pad

"a dor, dispersa como a luz,
o amarelo secreto
por baixo da evidência
do amarelo [a variedade
interminável de formas
com que destroçamos
a nós mesmos], você se olha
no espelho quando tira a máscara
e vê o rosto igual
àquilo que o escondia
sem saber quem
deformou quem, dois
lados da moeda cunhados
na mesma forma banal, neste jogo
de azar você é o dado
viciado."

Nuno Rau

segunda-feira, 24 de julho de 2017

década

"se você tem, de fato, algo a escrever
sobre o tempo, perceba que ainda uma outra
vez ele passou de vez sem que você
soubesse que a chance de dizer as poucas
coisas que parecem claras, na esperança
vaga de que tais palavras sustentadas
pelo poema possam, na sua dança,
tatuar em outro corpo a mesma marca,
está perdida: o mundo segue algum
desvio, desesperos portáteis, vãos,
gomorras sem o olhar de um deus, distopia
e corrosão do século vinte e um,
dessublimações, falsa anunciação
que lhe afunda em soul, sexo e melancolia."

Nuno Rau

domingo, 18 de junho de 2017

O pacto

Alfonso Brezmes
Tradução de Norma de Souza Lopes
Se me acende, não aguardes
de mim conversa fiada,
os desgastados ritos do amor,
as consabidas normas,
os regulamentos mais toscos
que matematicamente predizem
como tudo se tece e destece.
Se me prendes,
não me venha com lenha para um dia
que acaso nunca haverá de chegar,
não me venha brincar o jogo proibido,
se ignora a aritmética e o cálculo.
Não te cubras, não conserves:
organize tua vida para o fogo.
Este é o pacto: se me incendeias,
arde comigo.

sábado, 17 de junho de 2017

Catorze

A alma dum rapaz é naturalmente
fascista. Não se deixa levar
pelo brado da justiça. Conhece bem
as pedras e a força que as anima.
Sabe a que distância um insulto fere bem.
Não precisa de estudar o ADN, a lei
do mais feroz. Esmurra quem lhe foge,
conjuga sempre os verbos no presente,
acende numa sarça o cigarro inicial.
Vista para um Pátio seguido de Desordem Relógio D’Água, 2003, p. 26.
José Miguel Silva 

domingo, 4 de junho de 2017

fartam-me o armário casacos usados poucas vezes
para cada tipo de frio tenho um
o frio fresco
chuvoso
com riscos de tempestade
o frio que me é familiar
e aquele que vem do estrangeiro
para aqueles dias de nevasca que aqui nem cai guardo um especial
provo todos os invernos
em todas as estações
depois guardo-os e observo
entre todos
sempre me parece faltar
o casaco perfeito
ideal para o dia
ou para a noite
em que me despirei dele
e do resto,
aos poucos
também.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

- ¿Existe alguna vinculación -interrogó Will- entre lo que ha estado diciendo y lo que vi en el templo de Siva*? [ Refiriéndose a un rito comunitarió bajo los efectos de los hongos moksha que nuestro protagonista Will presenció]
- Por supuesto -admitió ella-. La medicina moksha lleva al mismo sitio al que se llega por la meditación.
- Y entonces, ¿para qué molestarse en meditar?
- Lo mismo daría preguntar: "¿Para qué molestarse en cenar?".
- Pero según ustedes en este caso la medicina m
oksha es la cena.
- Es un banquete -replicó la señora Rao con énfasis-. Y precisamente por eso hace falta la meditación. No se pueden hacer banquetes todos los días. Son demasiado suculentos y duran demasiado. Aparte de que los banquetes son proporcionados por un proveedor; uno no participa para nada en su preparación. Para la dieta cotidiana, en cambio, tiene que cocinar uno mismo. La medicina moksha es un festín ocasional.
- En término teológicos -dijo Vijaya-, la medicina moksha lo prepara a uno para la recepción de las gracias gratuitas: las visiones premísticas o las plenas experiencias místicas. La meditación es una de las formas en que uno colabora con esas gracias gratuitas.


Huxley, mais uma vez.

domingo, 21 de maio de 2017

(…) haveria algo como o silêncio, ou como a gagueira, ou como o grito, algo que escorreria sob as redundâncias e as informações, que escorraçaria a linguagem, e que apesar disso seria ouvido. Falar, mesmo quando se fala de si, é sempre tomar o lugar de alguém, no lugar de quem se pretende falar e a quem se recusa o direito de falar. O sindicalista Séguy é boca aberta quando se trata de transmitir ordens e palavras de ordem. Mas a mulher com a criança morta também é boca aberta. Uma imagem se faz representar por um som, como um operário por seu sindicalista. Um som toma o poder sobre uma série de imagens. Então, como chegar a falar sem dar ordens, sem pretender representar algo ou alguém, como conseguir fazer falar aqueles que não têm esse direito, e devolver aos sons seu valor de luta contra o poder? Sem dúvida é isso, estar na própria língua como um estrangeiro, traçar para a linguagem uma espécie de linha de fuga.(conversações, p.56) (…) Às vezes se age como se as pessoas não pudessem se exprimir. Mas de fato, elas não param de se exprimir. Os casais malditos são aqueles em que a mulher não pode estar distraída ou cansada sem que o homem diga: “O que você tem? Fala … “, e o homem sem que a mulher … , etc. O rádio, a televisão fizeram o casal transbordar, dispersaram-no por toda parte, e estamos trespassados de palavras inúteis, de uma quantidade demente de falas e imagens. A besteira nunca é muda nem cega. De modo que o problema não é mais fazer com que as pessoas se exprimam, mas arranjar-lhes vacúolos de solidão e de silêncio a partir dos quais elas teriam, enfim, algo a dizer. As forças repressivas não impedem as pessoas de se exprimir, ao contrário, elas as forçam a se exprimir. Suavidade de não ter nada a dizer, direito de não ter nada a dizer; pois é a condição para que se forme algo raro ou rarefeito, que merecesse um pouco ser dito. Do que se morre atualmente não é de interferências, mas de proposições que não têm o menor interesse. Ora, o que chamamos de sentido de uma proposição é o interesse que ela apresenta, não existe outra definição para o sentido. Ele equivale exatamente à novidade de uma proposição. Podemos escutar as pessoas durante horas: sem interesse … Por isso é tão difícil discutir ‘ por isso não cabe discutir, nunca. Não se vai dizer a alguém: “o que você diz não tem o menor interesse”. Pode-se dizer: “está errado”. Mas o que alguém diz nunca está errado, não é que esteja errado, é que é bobagem ou não tem importância alguma. É que isso já foi dito mil vezes. As noções de importância, de necessidade, de interesse são mil vezes mais determinantes que a noção de verdade. De modo algum porque elas a substituem, mas porque medem a verdade do que digo. Mesmo em matemática: Poincaré dizia que muitas teorias matemáticas não têm importância alguma, não interessam. Não dizia que eram falsas, era pior) Se se trata de reconstituir transcendências ou universais, de restabelecer um sujeito de reflexão portador de direitos, ou de instaurar uma intersubjetividade de comunicação, não estamos diante de uma grande invenção filosófica. Quer se fundar um “consenso”, mas o consenso é uma regra ideal de opinião que nada tem a ver com a filosofia. Dir-se-ia que se trata aí de uma filosofia-propaganda .(…) Toda criação tem um valor e um teor políticos. Mas o problema é que ela se concilia mal com os circuitos de informação e de comunicação, que são circuitos inteiramente preparados e degenerados de antemão. Todas as formas de criação, inclusive a eventual criação na televisão, encontram aqui seu inimigo comum. É sempre uma questão cerebral: o cérebro é a face oculta de todos os circuitos, que podem fazer triunfar os reflexos condicionados mais rudimentares, tanto quanto dar uma oportunidade a traçados mais criativos, a ligações menos “prováveis”. O cérebro é um volume espaço-temporal: cabe à arte traçar nele novos caminhos atuais. A filosofia não é comunicativa, assim como não é contemplativa nem reflexiva: ela é, por natureza, criadora ou mesmo revolucionária, uma vez que não pára de criar novos conceitos. A única condição é que eles tenham uma necessidade, mas também uma estranheza, e eles as têm na medida em que respondem a verdadeiros problemas (…) os professores pagam suas viagens com palavras, experiências, colóquios, mesas-redondas, falar, sempre falar. Os intelectuais têm uma cultura formidável, eles têm opinião sobre tudo. Eu não sou um intelectual, porque não tenho cultura disponível, nenhuma reserva. O que sei, eu o sei apenas para as necessidades de um trabalho atual, e se volto ao tema vários anos depois preciso reaprender tudo. É muito agradável não ter opinião nem idéia sobre tal ou qual assunto. Não sofremos de falta de comunicação, mas ao contrário, sofremos com todas as forças que nos obrigam a nos exprimir quando não temos grande coisa a dizer. Viajar é ir dizer alguma coisa em outro lugar, e voltar para dizer alguma coisa aqui. A menos que não se volte, que se permaneça por lá. Por isso sou pouco inclinado às viagens; é preciso não se mexer demais para não espantar os devires.(…) me parece interessante nas vidas, os buracos que elas comportam, as lacunas, por vezes dramáticas, mas às vezes nem isso. Catalepsias ou uma espécie de sonambulismo por vários anos, é isto que a maioria das vidas comporta. É talvez nesses buracos que se faz o movimento. A questão é justamente como fazer o movimento, como perfurar a parede para não dar mais cabeçadas. Talvez não se mexendo demais, não falando demais: evitar os falsos movimentos, residir onde não há mais memória. Escreve-se em função de um povo por vir e que ainda não tem linguagem. Criar não é comunicar mas resistir.(…) O que para mim substitui a reflexão é o construcionismo. E o que substitui a comunicação é uma espécie de expressionismo.(…) E quais verticalidades, as que nos dão algo para contemplar, ou então as que nos fazem refletir ou comunicar? Ou não será preciso justamente suprimir toda e qualquer verticalidade como transcendência, e nos deitarmos sobre a terra e abraçá-la, sem olhar, sem reflexão, privados de comunicação? E temos ainda conosco o amigo ou já estamos sós, Eu=Eu, ou somos amantes, ou ainda outra coisa, e quais os riscos de trair a si mesmo, de ser traído ou de trair? Não há um momento em que é preciso desconfiar até do amigo?(…) Creio que à filosofia não falta público nem propagação, mas ela é como que um estado clandestino do pensamento, um estado nômade. A única comunicação que poderíamos desejar, como perfeitamente adaptada ao mundo moderno, é o modelo de Adorno, a garrafa atirada ao mar, ou o modelo nietzscheano, a flecha lançada por um pensador e recolhida por um outro.(…) Talvez a fala, a comunicação, estejam apodrecidas. Estão inteiramente penetradas pelo dinheiro: não por acidente, mas por natureza. É preciso um desvio da fala. Criar foi sempre coisa distinta de comunicar. O importante talvez venha a ser criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle.(…) É difícil “se explicar” – uma entrevista, um diálogo, uma conversa. A maior parte do tempo, quando me colocam uma questão, mesmo que ela me interesse, percebo que não tenho estritamente nada a dizer. As questões são fabricadas, como outra coisa qualquer. Se não deixam que você fabrique suas questões, com elementos vindos de toda parte, de qualquer lugar, se as colocam a você, não tem muito o que dizer. A arte de construir um problema é muito importante: inventa-se um problema, uma posição de problema, antes de se encontrar a solução. Nada disso acontece em uma entrevista, em uma conversa, em uma discussão. Nem mesmo a reflexão de uma, duas ou mais pessoas basta. E muito menos a reflexão. Com as objeções é ainda pior. Cada vez que me fazem uma objeção, tenho vontade de dizer: “Está certo, está certo, passemos a outra coisa.” As objeções nunca levaram a nada. O mesmo acontece quando me colocam uma questão geral. O objetivo não é responder a questões, é sair delas. Muitas pessoas pensam que somente repisando a questão é que se pode sair delas (…) é preciso falar com, escrever com. Com o mundo, com uma porção de mundo, com pessoas. De modo algum uma conversa, mas uma conspiração, um choque de amor ou de ódio. Não há juízo algum na simpatia, mas conveniências entre corpos de toda natureza. “Todas as sutis simpatias da alma inumerável, do mais amargo ódio ao amor mais apaixonado.” É isso agenciar: estar no meio,sobre a linha de encontro de um mundo interior e de um mundo exterior. Estar no meio: “O essencial é tornar-se perfeitamente inútil, se absorver na corrente comum, tornar-se novamente peixe e não bancar os monstros (…)
GDCP

quarta-feira, 22 de março de 2017

me nomeiam morta sem pranto
sepultura sem epitáfio
uma cova no breu
buraco
me nomeiam aquilo que sempre
fui uma fossa
fácil de cavar
um vácuo
buraco negro que suga
entrópica
aquela que faz
escrever poemas
de ódio
em looping
você ainda me ama que eu sei
eu também.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

lluvia

hoy llueve mucho, mucho,
y pareciera que están lavando el mundo
mi vecino de al lado mira la lluvia
y piensa escribir una carta de amor/
una carta a la mujer que vive con él
y le cocina y le lava la ropa y hace el amor con él
y se parece a su sombra/
mi vecino nunca le dice palabras de amor a la
mujer/
entra a la casa por la ventana y no por la puerta/
por una puerta se entra a muchos sitios/
al trabajo, al cuartel, a la cárcel,
a todos los edificios del mundo/ pero no al mundo/
ni a una mujer/ni al alma/
es decir/a ese cajón o nave o lluvia que llamamos así/
como hoy/que llueve mucho/
y me cuesta escribir la palabra amor/
porque el amor es una cosa y la palabra amor es otra cosa/
y sólo el alma sabe dónde las dos se encuentran/
y cuándo/y cómo/
pero el alma qué puede explicar/
por eso mi vecino tiene tormentas en la boca/
palabras que naufragan/
palabras que no saben que hay sol porque nacen y
mueren la misma noche en que amó/
y dejan cartas en el pensamiento que él nunca
escribirá/
como el silencio que hay entre dos rosas/
o como yo/que escribo palabras para volver
a mi vecino que mira la lluvia/
a la lluvia/
a mi corazón desterrado



Juan Gelman