21.1.18

Apesar de não originais, se bastavam
tantas vezes decepcionados pela previsível repetitividade do mundo
hoje se surpreendiam com a textura de uma pele
ora, todas as peles não são apenas células mortas?
eles já não enxergam o contato entre elas ou o que as agarram ainda
a outras camadas mais profundas
mas de fato, também não há nada de original nelas
uma pele, um pouco queimada, da mesma cor que tantas outras
com pelos e pintas e pontos possivelmente preocupantes
além de pequenas cicatrizes, marcas de obstruções de poros e picadas
apesar de não originais, velhos e cansados
e necessitados de uma camada não muito fina de vidro, lente de aumento
armação de aço que até começara a perder a tinta
enxergam essa pele
como se nunca houvesse nenhuma antes
pele retida por essas retinas, como se nunca houvera nenhuma imagem
e ainda que datassem mais de quarenta anos de vida,
luz, sombra, poeira e lágrimas,
aquela pele ademais histórica
e impregnada de memória
e atos falhos de outras miradas
refúgio de alguns corpos e comida para ácaros,
recebia o presente de ser admirada, recém descoberta
pelos olhos deste homem.

18.1.18

El equilibrio

Así esta mañana
bebo en un dedo
de tu mano
y nado en un hueso
de tu brazo
en un sol desollado con
cabeza de muerto
Así esta mañana pesco
el pez inseparado
que separa el
cerebro
Peyote de la flor
hambrienta
que se come la primera
mosca
Yo me baño en ti
y en el tiempo
Yo pesco en ti y en tiempo
Yo bebo en ti y en tiempo
Yo florezco al primer
equilibrio

Serge Pey

17.1.18

A vida moderna

Sempre tenho tanto medo        de perguntar        a verdade
como        o que foi        qual doença        sofreu?
quando foi        eu sei        quais os pêsames
conto até        a postagem feliz        outra notícia        outra foto        festa
há três ou quatro dias        que partiu
será que        o algoritmo mostrou
isso de dois        três        meses
agravou        hospital         família        amigos
três ou quatro anos desde        que o vi
a máquina me mostra        fim de ano        frio
mercado natalino        quentão para dois        uma esquina perdida
ruas londrinas         fim de semana
três ou quatro dias em        Londres        desde então
sem tempo        com pena        eu soube
um amigo        a janela        vinte horas antes de ir embora
estava doente        outra doença        eu acho
tinha tantos        e-mails a mandar na        cabeça
sempre tenho tanto         medo        de saber a verdade
Rob Packer

15.1.18

Diante

Dizem que todas as lembranças 
e todas as células dos nossos corpos 
couberam na cabeça de um alfinete
antes de se misturarem na luz 
quando, ao redor de nós, ferro e ouro
se fundiram pela primeira vez.
Às vezes me lembro do calor,
da parte de nós que chamejava 
na noite e penso na distância,
no vento que despenteia nosso 
pelo na pele e levará nossa matéria 
daqui. Mas ainda que seja verdade,
que de novo seremos fogo nas estrelas,
segure o que puder de mim
para nos proteger no vento
mais à frente.

Rob Packer

5.1.18

Um animal passeia nas montanhas.

Arranha a cara nos espinhos do mato, perde o fôlego

mas não desiste de chegar ao ponto mais alto.

De tanto andar fazendo esforço se torna

um organismo em movimento reagindo a passadas,

e só. Não sente fome nem saudade nem sede,

confia apenas nos instintos que o destino conduz.

Puxado sempre para cima o animal é um ímã,

numa escala de formiga, que as montanhas atraem.

Conhece alguma liberdade, quando chega ao cume.

Sente-se disperso entre as nuvens,

acha que reconheceu seus limites. Mas não sabe,

ainda, que agora tem de aprender a descer.

Leonardo Froes

4.1.18

tenho medo...

tenho medo de matar
as plantas
construí pra elas um pequeno deck
do lado da janela
mas talvez o sol 
não seja suficiente aqui
explico pra elas que a palavra
“mudança”
em português
tem um sentido duplo
concreto e metafórico 
que roland barthes diria
que isso é uma sorte
uma “boa disposição”
essa mesma que nós
elas e eu
devemos ter 
os meninos sobreviverão 
o gato sobreviverá 
mas elas
elas precisam me ajudar

Paloma Vidal

3.1.18

Ah, a frescura...

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora…
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte… Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

Álvaro de Campos

1.1.18

Optimismo

“Abrumado por el tabaco y la cultura
y convertido en un engaño por su propia clase
estaba esperando la revolución
por la desnuda, terrible acción de los otros en la calle.
Pero detrás de los cristales
a cubierto del viento social donde toda culpa
entra en crisis con sus razones podridas,
resolvió que el cambio acontecía en las pequeñas mutaciones
permanentes del cielo y el polvo,
en el giro de la cuchara en la taza de té,
en las decepciones periódicas del hígado,
en la muerte de papá y de las moscas”.“Abrumado por el tabaco y la cultura
y convertido en un engaño por su propia clase
estaba esperando la revolución
por la desnuda, terrible acción de los otros en la calle.
Pero detrás de los cristales
a cubierto del viento social donde toda culpa
entra en crisis con sus razones podridas,
resolvió que el cambio acontecía en las pequeñas mutaciones
permanentes del cielo y el polvo,
en el giro de la cuchara en la taza de té,
en las decepciones periódicas del hígado,
en la muerte de papá y de las moscas”.
“Abrumado por el tabaco y la cultura
y convertido en un engaño por su propia clase
estaba esperando la revolución
por la desnuda, terrible acción de los otros en la calle.
Pero detrás de los cristales
a cubierto del viento social donde toda culpa
entra en crisis con sus razones podridas,
resolvió que el cambio acontecía en las pequeñas mutaciones
permanentes del cielo y el polvo,
en el giro de la cuchara en la taza de té,
en las decepciones periódicas del hígado,
en la muerte de papá y de las moscas”.
“Abrumado por el tabaco y la cultura
y convertido en un engaño por su propia clase
estaba esperando la revolución
por la desnuda, terrible acción de los otros en la calle.
Pero detrás de los cristales
a cubierto del viento social donde toda culpa
entra en crisis con sus razones podridas,
resolvió que el cambio acontecía en las pequeñas mutaciones
permanentes del cielo y el polvo,
en el giro de la cuchara en la taza de té,
en las decepciones periódicas del hígado,
en la muerte de papá y de las moscas”.

Giannuzzi

3.12.17

oi?

El mejor truco para sobrevivir es la transparencia. 
Dilo todo y nadie sabrá nada de ti, porque nadie escucha. 

José Kozer

2.12.17

pre gui

preguiça
substantivo concreto
que se perde num labirinto
sem porta de saída

1.12.17

promoção

Não dê a vista
o que precisa ser comprado a prazo.

14.11.17

Haja

Tem poucos hojes como hoje... na verdade, nunca um hoje é igual ao outro... e esse ano, os hojes têm sido quase sempre assim... tão movimentados que se não fico esperta, perco o bonde. E olha que os ouvidos não tem pálpebra e tão sempre abertos, muito mais que a boca. Calma. Mantém a calma e o silêncio. Hoje e sempre. Não fale mais que a... 
Hoje, só faz o teu.
Mesmo quando parece que nada acontece, hoje é sempre gastura, riso e lágrima... rojão e luto... e hoje, além de tudo isso e mais um pouco, teve até conselho de mãe: teu tempo não é teu tempo, calma... que teu tempo vai chegar.
Se achar que essa é conversa de doido, não tem problema. Talvez amanhã você entenda. 
Essa mensagem hoje é mesmo só pra mim.

13.11.17

Impaciente

"El impaciente se ríe de sí mismo porque no aparece
lo real. Cuando se le aparezca, reirá?
La enloquecida por falta de mirada,
no de amor: de mirada, porque ser amado
es ser mirado, hoy por hoy, hay miradas,
se diría que es todo lo que hay. O nos miran
o morimos no mirados, sin ser vistos
en la vastedad que no distingue miradas,
ciudad o no ciudad, sin cuidados.
La mirada, imagen gen-
era, hería en los ojos, heráldica de casa real,
erinia, erinia, caza mayor."

Eduardo Milán.

(no hay mayor)

12.11.17

metonimia

"quando o último leitor morrer deus deixará de existir"

11.11.17

cirugía de invierno

Lo dicho queda, cala,
corroe la leve pulpa que otro construye a solas,
como en la fronda que el otoño ataca.
Porque el otoño seca las hojas
de manera bellísima:
deja en el aire las puras nervaduras,
ésas casi invisibles
en las que reparábamos apenas
y evapora esa verde sustancia que era,
para nosotros, hoja.
Así de pronto terminan los verdores.
Hay que arrastrar cadáveres amados
y consentir el lujo
de la infinita dilación indecisa
y el filo que mutila la voz, la tolerancia.

Ida Vitale
(puta poema)

10.11.17

- você sabe
que a gente
é o sonho
de alguém?
- é impossível
ter certeza.

paloma vidal

9.11.17

escarcha

Es justo allí
a mitad de camino entre
el huerto desnudo
y el huerto verde,
cuando las ramas están a punto
de estallar en flor,
en rosa y blanco,
que tememos lo peor.
Pues no hay región
que a cualquier precio
no elija ese tiempo
para una noche de escarcha.
Robert Frost

8.11.17

libro de horas

Desde la ventana observo la plaza: a los plátanos
les quedan cuatro hojas exhaustas que no
se deciden a emprender el último vuelo. Cuatro
son también los días que cuelgan del calendario,
a punto para caer cuando nadie mire. Todo
acaba desprendiéndose y volviendo a tierra
con la fría ventada de la estación
desfavorable. El proceso es lento, casi
imperceptible. Hay que estarse noches enteras
acostumbrando la mirada a la quietud
antes de advertir cómo la vida pierde los pétalos,
pierde los días, pierde el oxígeno, pierde las aves,
pierde los cuerpos y pierde las respuestas. También los muertos
celebran la Navidad, sentados alrededor
de los juguetes. Tras la ventana pienso
en ellos, que es una manera de pensar en mí.
Y la vida pierde las hojas, indiferente
a todo, como un inmenso árbol caducifolio.
Gemma Gorga

7.11.17

segunda vez

En el acto ingenuo
de tropezar dos veces
con la misma piedra
algunos perciben
tozudez
Yo me limito a comprobar
la persistencia de las piedras
el hecho insólito
de que permanezcan en el mismo lugar
después de haber herido a alguien.
Cristina Peri Rossi

6.11.17

poema idiota 162


la vida
es una mezcla
de nimiedades
chocolate y muerte

Ismael Velazquez Juarez

5.11.17

tpm

você, que me faz deletar postagens novas apenas postadas
postagens velhas que possam me lembrar o quanto são velhas
mensagens sem que eu fosse realmente destinatária
ou às vezes correntes em que eu era incoerentemente incluída
você, que me faz excluir fotos de toda e qualquer rede social
você, que me faz destruir recordações por não deixar restar nenhuma carta
você, que me faz odiar-me por tantas noites
você, que também te odeia
eu também te odeio
eu também te odeio

4.11.17

Caso lluvioso

La lluvia me irritaba. Hasta que un día
descubrí que era maría que llovía.

La lluvia era maría. Y cada pringo
de maría empapaba mi domingo.

Y mis huesos mojando, me dejaba
como tierra que la lluvia labra y lava

Yo era todo barro, sin verdura...
maría, ¡lluviosísima criatura!

Ella llovía en mí, en cada gesto,
pensamiento, deseo, sueño, y el resto.

Era lluvia finita y lluvia copiosa,
matinal y nocturna, activa…¡Qué cosa!

No me lluevas, maría, más que lo justo
llovizna de un momento, apenas susto.

No me inundes de tu líquido plasma,
¡No seas tan acuático fantasma!

Yo le decía en vano -ya que maría
cuanto más yo rogaba, más llovía.

Y chaparreando atroz en mi camino.
lo dejaba bañado en triste vino.

que no calienta pues el agua de lluvia
mosto es de ceniza, no de buena uva.

¡Lluviadera maría, lluviadona,
lluvinienta, lluvil, pluvimiedona!

Yo le gritaba:¡Pará! Y ella seguía lloviendo,
Charcos de agua helada iba tejiendo.

Y hubo tanta maría en mi casa
que la correntada creó alas

y un río se formó, o mar, no sé,
Sé apenas que en él me anegué.

Y cuanto más las olas me llevaban,
las fuentes de maría más lluviaban,

de suerte que con poco, y sin recurso,
las cosas prosiguieron su curso,

y aquí es el mundo mojado y sumido
bajo aquel siniestro y oscuro llovido.

Los seres más extraños juntándose
en la misma acuosa pasta quejándose

contra esa lluvia estúpida y mortal
catarata (jamás hubo otra igual).

Cantos anti-ad petendam se oyeran.
¡Nada! Las cuerdas de agua más enloquecieran,

y maría, canilla desatada,
más deja salir la correntada.

Los navíos sozobran. Los continentes
sucumben con todos los vivientes,

y maría lloviendo. Fue que a esa altura,
diluida y fluida la humana estructura,

y la tierra no sufriendo tal lluviencia,
se conmovió la Divina Providencia,

y Dios, piadoso y enérgico, bramó:
¡No llueva más, maría! - y ella paró.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Brasil, 1902-Río de Janeiro, Brasil, 1987), Antologia poética. Organizada pelo autor, Companhia Das Letras, São Paulo, 2012
Traducción: Silvina Elena Guala y Carles Tàvec

3.11.17

Quando um ex-amor se casa

Parece bobagem, mas quando um ex-amor se casa, com outra pessoa, meu olho enche d'água.
Não de ciúme, inveja ou desafeto. Mas porque me transborda um impedimento já não mais disposto a suportar grades. Ou bolsas impermeáveis. A boda, como se sabe, é a celebração do amor, uma festa. E quando um ex-amor se casa, em alguma parte, eu me sinto casando também. Faz-se presente à face um pouco de dentro. O terno, o laço, o nó da gravata, a aliança. E incapacitada de poder abraçá-lo, felicitá-lo, e desejar que seja imortal, posto que é chama, a lágrima fornece o sal eterno, o sal sagrado, meu presente de casamento. O matrimônio, como se fia, é um tanto difícil de mantê-lo. Mas se fica um amor de ontem na lembrança, finca mais ainda o amor celebrado hoje. E escorre para todos os lados.

2.11.17

não fala pra não atrair.

não fala para não trair.

1.11.17

"Porque sua camiseta secou ao sol ela tem a cor do sol
porque seus cabelos secaram ao vento seus pensamentos têm
a velocidade do vento
porque você disse “noite” sua boca 
terá o gosto do mar noturno
porque você não conheceu meu avô você me amará menos
porque não te conheci quando criança eu te amarei mais
porque você conheceu os meus livros antes de me conhecer
você nunca vai me conhecer"

ana martins marques

31.10.17

"vamos colocar isso 
em termos de natação.
é como se na vida eu estivesse 
nadando, nadando, nadando 
enfrentando ondas muito altas
a piscina me salva 
de muitas situações opressoras
tem situações que são 
enlouquecedoras
se a gente sabe nadar 
é só nadar 200, 300 metros 
que aí já não sente mais nada 
não fica triste, não precisa chorar 
é como se tivesse lavado 
o cérebro por dentro"

(nora ronai)

30.10.17

um dia alguém vai me pedir em casamento e não vai ser zueira
e não vai ser até que uma parede de madeira nos separe
e não vai ser até que a bipolaridade nos separe
e não vai ser até que a cocaína nos separe
e não vai ser efeito do álcool
e não vai ser efeito do sexo
e não vai ser perfeito
e talvez eu hesite
ou talvez eu aceite.

29.10.17

nada do que eu disser vai dar conta

o efeito quer o excesso

mas só tem falta

faz acontecer a sua

mas como

tem volta a volta

ou só preenche os cantos

sem desborde

que o desenho é de outro

se não disparo

morro na praia

espremo o cisto

tímido

e tremo

a arte de explodir

por estagnação

ao menos na minha cabeça.

28.10.17

"ontem eu tive esse sonho
nele encontrava com você
não sei se sonhava o meu sonho
ou se o sonho que eu sonhava era seu
um sonho dentro de um sonho
eu ainda nem sei se acordei
desse sonho que era imagem e som
pra saber o que foi que aconteceu"

27.10.17

contrição de nascença

as pessoas acham tudo que eu sei o que tou fazendo.
mas só quem sabe mesmo é Ernesto. desde o dia em que eu o conheci, toda vez que a gente se fala,
ele me diz:
tá fazendo merda.
nunca achei ofensa.
sempre baixei os olhos como quem diz:
no fundo, é verdade.

26.10.17

a gente fica tudo na procura do botão do reset.
e às vezes nem lembra que a gente aperta esse botão todo dia de manhã, quando acorda.
e pede no mínimo mais uma soneca de cinco minutos.

25.10.17

a veces recordamos y nos tornamos otra vez quienes somos.
al menos hasta dormir
y no despertar el día siguiente cuando salimos a trabajar.

24.10.17

dar vazão a vazão

mesmo que signifique

mais um pouco

de vazio

em minha cesta de vime.

23.10.17

Persona non protagona

Até quando vou sentir-observando?

uma ação a distância
que vive-e-vê
duvide-o-dó.

22.10.17

imersa em uma ilha esquizofrênica
a tradutora benze portas
com o mesmo cutelo
que pica cebolas

21.10.17

"tenho por princípio
nunca fechar portas
mas como
mantê-las abertas
o tempo todo
se em certos dias
o vento quer
derrubar tudo"

12.10.17

Sintoma

qual o nome
disso
festa despertando
o cheiro
que ainda
não sentido
confinado na minha
teu hálito  pré dormido
assim um
nome   não dito
um lábio semi
vai chegando
dois
teu dedo cru
saindo do bolso
ardia suor 
antes    de cair
e do lado de dentro,
a espera
qual o nome disso?
a carne cheia
de desejo amanhecido:
esta noite vou te ver.

11.10.17

Exercício de mendicância

(de Um caderno e tanto) - Agota Kristof

Nos vestimos com roupas sujas e rasgadas, tiramos os sapatos, emporcalhamos o rosto e as mãos. Vamos para a rua. Ficamos parados, esperando.
Quando um oficial estrangeiro passa na nossa frente, levantamos o braço direito para cumprimentar e estendemos a mão esquerda. Quase sempre, o oficial passa sem se deter, sem nos ver, sem nos olhar.
Finalmente, um oficial para. Diz qualquer coisa numa língua que não compreendemos. Ele nos faz perguntas. Nós não respondemos, quedamos imóveis, um braço levantado e o outro estendido. Então ele remexe nos bolsos, coloca uma moeda e um pedaço de chocolate em nossas mãos sujas e vai embora balançando a cabeça.
Continuamos esperando.
Passa uma mulher. Estendemos a mão. Ela diz:
- Pobres meninos. Não tenho nada para dar a vocês.
Ela nos faz uma carícia na cabeça.
Nós dizemos: 
- Obrigado.
Uma outra mulher nos dá duas maçãs e uma outra, ainda, biscoitos.
Uma mulher passando. Estendemos a mão. Ela para e diz:
- Não têm vergonha de mendigar? Venham à minha casa que eu tenho uns trabalhinhos fáceis para vocês. Rachar lenha, por exemplo, ou limpar o terraço. Já são grandinhos e fortes para isso. Depois, se trabalharem bem, eu dou sopa e pão.
Nós respondemos: 
- Não temos vontade de trabalhar para a senhora, nem queremos comer sua sopa, nem seu pão. Nós não temos fome.
Ela pergunta:
- Então, por que estão mendigando?
- Para saber qual é o efeito que isso faz e para observar a reação das pessoas.
Ela vai embora gritando:
- Vagabundinhos de merda! E impertinentes ainda por cima!
Na volta para casa, atiramos nas touceiras que ladeiam a estrada as maçãs, os biscoitos, o chocolate e as moedas.
A carícia nas nossas cabeças é impossível jogar fora.

10.10.17

"e Júpiter — o maravilhoso — entrou agora pouco no signo de Escorpião. adeus equanimidade libriana! nós agora vamos aprofundar no intenso, denso e aquático viver da regeneração. é tempo de transformação psíquica, espiritual e emocional — coisas que podem doer, mas é pra expurgar os venenos. afinal, Escorpião enfrenta qualquer coisa que for podre pra purificá-la em poder vital.
a última vez que Júpiter esteve em Escorpião foi entre o fim de outubro de 2005 e o fim de novembro de 2006, mas a configuração era muito mais restritiva do que agora, já que na época tal Júpiter quadrava Saturno em Leão e Netuno em Aquário.
pessoas com fortes presenças em signos de água tendem a ser beneficiadas pela sorte e também a desaguar os mundos fecundos que existem em si. pra todo mundo as intensidades psíquicas e emocionais se tornam os lugares pra gestar as transformações. paixões, pulsões e desejos vão se amplificar — nem que seja pra nos fazer morrer e nascer de novo. é tempo de excessos emocionais. quem gosta de emoções e sentimentos leves vai ter um longo ano pela frente...
Júpiter em Escorpião sabe que há algo de enigma e mistério em tudo e a gente se aproxima com paixão: e essa aproximação não desfaz o enigma, pelo contrário, é tempo de viver com força o que não será necessariamente e nem precisa ser revelado.
Júpiter desta vez fica em Escorpião até o dia 8 de novembro de 2018 — quando adentra sua morada sagitariana.
— quem tem desejo tem coragem."

Julia Hansen

9.10.17

Jamais se perde aquilo que não se possui.
Assim é dito, assim se passa, em todos os quadrantes,
nas dez mil direções.
Jamais se ilude quem assim se instrui.
(Excerto do Cânone Médio de Yi-huá)

8.10.17

A arte de perder

Elizabeth Bishop

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério. ”

3.10.17

Ele não vai parar de regressar.

2.10.17

fatou

Parece um jogo
uma dança
uma prosa
um filme

ainda que não pareça
o que é

é o que sobra das horas
no tempo das catástrofes

sereno apocaliptico
um frio
que afoga

apenas um escasso intento
de manter-se.

1.10.17

Pequeno tratado de estética indígena

aquele que vê um índio
à luz de um outro luar
a pele exposta ao fogo
traçados de muitas cores
cocares, penas de aves
adornos por todo o corpo
os guizos e os maracás
a música que o envolve
e pensa: ele está nu
não tem olhos para ver
não tem ouvidos que ouçam
aquele que vê um índio
e pensa onde estão as roupas
não sabe o que são as coisas
vestindo este mundo infindo

Leandro Durazzo

20.9.17

o dom de existir

desejando nós
gastando o mar
por-do-sol
postal
...


19.9.17

Mil platôs

exatamente aqui
olhando pra você

12.9.17

“De verdad esto no nos lleva a ningún lado. Si supieras lo que de verdad vale el tiempo no lo usarías para esto”

Samanta Schweblin

7.9.17

Manter

Que difícil que é pedir
um ato de presença.
Um ato que dure depois da representação.
Um homem performa de vestido longo
diante de duas pessoas
que já disseram muito.
Agora se observam marotos,
tímidos e emocionados.
Podia ser teatro da baixa Augusta,
podia ser ficção de escritores personas
(publicada pela Patuá),
mas é real. Um matrimônio
sem parcimônia. Também é político,
mas sem golpe dessa vez.
Em um presente que muda tanto
e tantas vezes,
o que fazer para manter?
A palavra, o silêncio, a presença. Se intacto
pouco permanece,
será a velha receita do liberalismo,
laissez-faire,
que dá jogo?
Eu não sei. Só sei que manter
é mais difícil que vencer
- sozinho morreu o dono
do banco imobiliário -
Cartas de sorte ou revés
aparecem com ainda mais frequência
(cardíaca)
Mas desejo que mantenham
a chama acesa, a surpresa
o amor com respeito
o convênio médico
o fair play e a ternura.


5.9.17

"Somos esto que somos. No abandonamos nada en el camino. Es el camino el que acaba cuando quiere."

Miguel Gaona

1.9.17

sábado depois de sexta

esconder o rosto das manhãs
e as gemas dos dedos
quando a noite se faz clara
depois virar-se no travesseiro
e dormir com o real
o viço e o riso leve,
a barganha de não levantar
quando as vassouras
já estão trabalhando.


Ellen Maria