domingo, 20 de agosto de 2017

...
não como unhas
nem cutículas
mas me ajoelho
até que o dia
em que a alforria
deixo de colher milho.



Ellen Maria

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"La experiencia más dolorosa, la más triste y aterradora que imaginarse pueda,
es sin duda la experiencia del alcohol.
Y está al alcance de cualquier mortal.
Abre muchas puertas.
Es un verdadero camino de conocimiento, quizá el más humano, aunque peligroso en extremo.
Y tan atroz y temible se muestra, en un recorrido de espanto y de miseria,
que uno quisiera quedarse muerto allá.
Pues el retorno del otro lado de la noche es en realidad un milagro,
y únicamente los predestinados lo logran.
A tu retorno, el mundo te mira con malos ojos;
Eres un extraño, eres un intruso, y sientes en lo hondo que el mundo no quiere que lo contemples;
lo que quiere es que te vayas y desaparezcas —lo que quiere es que ya no estés aquí.
Y como al fin y al cabo el mundo eres tú,
Imagínate, tendrás que tener mucha fuerza, mucha humildad, mucho gobierno,
Para enfrentarte contigo mismo
—vale decir, con el mundo."
Jaime Saenz

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

"Y esta es cosa que no te causa el menor asombro, acostumbrado como estás a los prodigios:
en efecto, el poema se halla en tu bolsillo; y lo sacas, y lo miras y lo lees.
Y de pronto te preguntas quién habrá sido su autor,
como si no supieras que aún no ha nacido."
Jaime Saenz

terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Tienes que aprender tu cuerpo. Y tu cuerpo, a su vez, tiene que aprender.
Poco a poco, a lo largo de interminables días y noches, comienzas a aprender.
De hecho, surge una cuestión absolutamente importante: tienes que tener humor, y tienes que tener aplomo.
Pues deberás mirar de reojo —nunca de frente. No podrías.
El que hubieras estado toda tu vida en contigüidad con la muerte no te sirve de nada, 
y solo te infunde de una falsa seguridad y te pierde,
en momentos de supremo terror, que son momentos decisivos en el aprendizaje,
cuando miras de cerca a la muerte y cuando de pronto la identificas físicamente y ves la clase de persona que es,
en momentos en que precisamente no existe defensa alguna, como no sea el humor y el aplomo."
Jaime Saenz

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"¿Qué es la noche? —uno se pregunta hoy y siempre.
La noche, una revelación no revelada.
Acaso un muerto poderoso y tenaz,
quizás un cuerpo perdido en la propia noche.
En realidad, una hondura, un espacio inimaginable.
Una entidad tenebrosa y sutil, tal vez parecida al cuerpo que te habita,
y que sin duda oculta muchas claves de la noche."

*

"Y yo me pregunto:
¿Qué es tu cuerpo? Yo no sé si te has preguntado alguna vez qué es tu cuerpo.
Es un trance grave y difícil.
Yo me he acercado una vez a mi cuerpo;
y habiendo comprendido que jamás lo había visto, aunque lo llevaba a cuestas,
le he preguntado quién era;
y una voz, en el silencio, me ha dicho:
Yo soy el cuerpo que te habita, y estoy aquí, en las oscuridades, y te duelo, y te vivo, y te muero.
Pero no soy tu cuerpo. Yo soy la noche."
Jaime Saenz

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

queima de arquivo

"minha avó tinha uma ilha/ nada para se vangloriar/ dava-se uma volta nela numa hora/ ainda assim era um paraíso/ um verão fizemos uma visita e descobrimos que o lugar estava infestado por ratos/ chegaram num barco de pesca e passaram a se alimentar de coco/ minha avó me ensinou como se livrar dos ratos de uma ilha/ enterramos um barril e o deixamos aberto/ depois colocamos um coco como isca/ os ratos foram em busca do coco e caíram no barril/ depois de um mês prendemos todos os ratos/ mas não jogamos o barril no oceano nem o queimamos/ deixamo-lo ali/ os ratos começaram a sentir fome/ e um a um passaram a se devorar/ até que só restaram dois/ os dois sobreviventes/ pegamos e os soltamos nas árvores/ mas agora eles não comem mais coco/ agora eles só comem ratos"

Evelyn Blaut-Fernandes

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Carta a Otto

"Meu velho, como se torna difícil explicar as coisas quando a liberdade instala em nós seu reino de incertezas.
Agora, eu preciso distinguir cada céu, conseguir de cada um a intimidade singular, de cada vento devo arrancar o segredo, a confidência, de cada alegria é preciso que eu estabeleça os limites, organizando as paisagens que a compõem, que lembranças me vivem na alma, que tonalidade de luz me cerca, que momentos de tédio ou ansiedade precederam o prazer de colecionar conhecimentos. Agora, irmão, tudo é diferente e nada se repete. E não sei que irremediável fatalidade de conhecer, de distinguir, de aprender a tudo amar ou tudo odiar em sua fase distinta me leva para frente, sempre mais para frente até a incerta fronteira em que o pudor desmente a intimidade das coisas, obrigando as palavras a se dirigirem para os domínios da poesia.
Escute irmão: sou de índole fragmentada e dispersa. Quando não me engole a tragédia, me apaixono a todo instante: uma lembrança, um rosto, uma faixa de areia branca suavizando a visão de edifícios e quintais. A entrega, entretanto, jamais humanizou meus amores. Eu me apaixono pelas possibilidades, isto é, as nuanças, as entregas arrependidas, indecisas ou inconscientes, isso que promete negando ou nega prometendo, tudo isso me encanta e reclama.
Ora, frequentemente acontece que eu tome um ar de imparticipação e ausência. As criaturas costumam acusar em mim o frio, o impassível, o árido. Devo aceitar isso na extensão total de seus compromissos? Devo explicar que atrás do impassível eu me apodero das coisas com voluptuosidade, com paixão? E que, de certo modo, me comprometo e vou ao extremo de tudo quanto me convoca, criando para minha vida um sem-número de derrotas singulares? Olhe, irmão, o que me interessa nas coisas é o que elas poderiam ser. O que me atrai nas criaturas é a disponibilidade, essa linda e trágica espera incessante, esse constante vigiar das tentações, como se torcêssemos pela circunstância, pela pessoa, pelo demônio que viesse (que sempre parece vir) nos arrancar dos trilhos para as cambalhotas da vida. Você há de ter observado, meu velho, um rosto, um olhar disciplinado e intimidado por séculos de civilização burguesa, você há de ter notado que nesses rostos costuma brilhar de vez em quando um anseio esquisito, uma luz que é bem uma sede de pecado, de desconhecido, de desastre. Instantes em que se revela em nós o pagão – o selvagem, o homem que deseja perder a própria vida e não ganhar. Vinte séculos de cristianismo não extinguiram em nós o gosto ácido do desprendimento, o amor impensado pelas coisas do mundo: sol, frutos, fêmea subjugada sobre a relva. Bem, irmão, esses momentos são tudo pra mim.
Quando conheço uma criatura qualquer, meu caro, fico a espiá-la de meu canto, brinco de provocá-la a ver até onde vai e até onde poderia ir. A contemplação do limite em que essa criatura se pertence e deixa de se pertencer, o limiar entre a unidade e a dispersão, a crista que a separa do pecado, a linha divisória que distingo entre o domínio de si mesma e mil possibilidades de ser diferente, enfim, essa fabulosa região limítrofe é o que poderosamente me afasta de pensar em mim mesmo, me afasta de sofrer. Conversando com mulheres me obstino em saber até que ponto me pertencem, ou permanecem ou me odeiam. Quanto de entrega existe entre mim e as pessoas que me rodeiam? Que porcentagens extraio das almas que me escutam? Que espécie de vida viveríamos se ousássemos mais um pouco? Talvez essa lucidez minha seja triste. Mas, mermão, a lucidez é também paixão, e a mais irremediável que eu conheço."
Paulo Mendes Campos
(a Otto Lara Rezende)

sábado, 5 de agosto de 2017

Quanto ao amor
talvez seja grave
o que vou dizer talvez
não seja
Este ano não é teu ano
Dedica-te a botar corpo
fora
da sombra sobre
teus pés

não o perca de vista.

Ellen Maria

domingo, 30 de julho de 2017

"Sei o que quero fazer da minha vida, e tudo isso é tão simples, mas era tão difícil para mim no passado. Quero dormir com muitas pessoas - quero viver e ter ódio de morrer - não vou lecionar, nem fazer o mestrado depois da graduação... Não pretendo deixar que o meu intelecto me domine e a última coisa que quero é cultuar o conhecimento ou pessoas que têm conhecimento! Não dou a mínima para o acúmulo de fatos de ninguém, exceto quando se trata de uma reflexão sobre a sensibilidade elementar, de que eu de fato preciso... Quero fazer tudo... Ter um modo de avaliar a experiência - se me causa prazer ou dor, e tenho de ser muito cuidadosa quanto a rejeitar a dor - tenho de perceber a presença do prazer em toda parte e encontrá-lo também, pois ele está em toda parte! Quero me envolver completamente... Tudo é importante! A única coisa a que renuncio é a capacidade de renunciar, de recuar: a aceitação da mesmice e do intelecto. Eu estou viva... Eu sou linda... O que mais existe?"

Susan Sontag

sexta-feira, 28 de julho de 2017

catodo do cateto

juro por deus que um dia
vou me vingar desse clichê
que é não ser amada:
queria escapulir da hora dos justos
mas para escalpar a desgraçada
das gentes acabei dando
com burros n'água.


Ellen Maria

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Wireless

"wireless

o medo de se perder, mundo
punk, desenhando à faca na água suas dúvidas, você
conversa consigo pelo espelho oxidado em terceira
pessoa, rasurando à unha o nitrato, comendo grama
por grama o retrato que lhe vem na prata
quando rói os dedos entre os campos
minados, o medo
de se perder [“converse comigo”], nada
mais pode ser dito depois
que o chão desaparece, mundo
junkie, jungle, os hipopótamos são os únicos
que atravessam a rua sem esmagar
as flores no asfalto, linces e gazelas
não, você está
solto no espaço e nenhum céu
desaba, antes
permanece imóvel em aparência no instante
em que você escorre a esmo pelas trilhas
e deleta arquivos antigos [“converse
comigo”], menos laços, odiar
as lembranças, o medo
de se perder, mas é justo
pra onde você
vai."

Nuno Rau

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Rede

"siga pelas galerias, boca
que lhe devora, sede
contínua da esfinge
cocainômana suportando o peso
da pureza
em suas narinas brancas enquanto
você olha de frente a crise
das metáforas, o rol
dos vilipêndios, a carne
do ato e a carne do sentido, os lugares
que agora são
restos da sua melhor
parte enquanto você
está prestes
a se perder
de vez seguindo as galerias
de fibras subterrâneas, não
sob a pele, “se você quer mesmo
enlouquecer vou
lhe contar toda a verdade que está por baixo
da verdade que está por baixo
da verdade”, ela disse
sem saber que sua cabeça já estava
a prêmio, um dado
rolando sobre os lençóis, se virando
em espasmos enquanto murmurava

eu já sei
"

Nuno Rau

terça-feira, 25 de julho de 2017

Touch pad

"a dor, dispersa como a luz,
o amarelo secreto
por baixo da evidência
do amarelo [a variedade
interminável de formas
com que destroçamos
a nós mesmos], você se olha
no espelho quando tira a máscara
e vê o rosto igual
àquilo que o escondia
sem saber quem
deformou quem, dois
lados da moeda cunhados
na mesma forma banal, neste jogo
de azar você é o dado
viciado."

Nuno Rau

segunda-feira, 24 de julho de 2017

década

"se você tem, de fato, algo a escrever
sobre o tempo, perceba que ainda uma outra
vez ele passou de vez sem que você
soubesse que a chance de dizer as poucas
coisas que parecem claras, na esperança
vaga de que tais palavras sustentadas
pelo poema possam, na sua dança,
tatuar em outro corpo a mesma marca,
está perdida: o mundo segue algum
desvio, desesperos portáteis, vãos,
gomorras sem o olhar de um deus, distopia
e corrosão do século vinte e um,
dessublimações, falsa anunciação
que lhe afunda em soul, sexo e melancolia."

Nuno Rau

domingo, 18 de junho de 2017

O pacto

Alfonso Brezmes
Tradução de Norma de Souza Lopes
Se me acende, não aguardes
de mim conversa fiada,
os desgastados ritos do amor,
as consabidas normas,
os regulamentos mais toscos
que matematicamente predizem
como tudo se tece e destece.
Se me prendes,
não me venha com lenha para um dia
que acaso nunca haverá de chegar,
não me venha brincar o jogo proibido,
se ignora a aritmética e o cálculo.
Não te cubras, não conserves:
organize tua vida para o fogo.
Este é o pacto: se me incendeias,
arde comigo.

sábado, 17 de junho de 2017

Catorze

A alma dum rapaz é naturalmente
fascista. Não se deixa levar
pelo brado da justiça. Conhece bem
as pedras e a força que as anima.
Sabe a que distância um insulto fere bem.
Não precisa de estudar o ADN, a lei
do mais feroz. Esmurra quem lhe foge,
conjuga sempre os verbos no presente,
acende numa sarça o cigarro inicial.
Vista para um Pátio seguido de Desordem Relógio D’Água, 2003, p. 26.
José Miguel Silva 

domingo, 4 de junho de 2017

fartam-me o armário casacos usados poucas vezes
para cada tipo de frio tenho um
o frio fresco
chuvoso
com riscos de tempestade
o frio que me é familiar
e aquele que vem do estrangeiro
para aqueles dias de nevasca que aqui nem cai guardo um especial
provo todos os invernos
em todas as estações
depois guardo-os e observo
entre todos
sempre me parece faltar
o casaco perfeito
ideal para o dia
ou para a noite
em que me despirei dele
e do resto,
aos poucos
também.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

- ¿Existe alguna vinculación -interrogó Will- entre lo que ha estado diciendo y lo que vi en el templo de Siva*? [ Refiriéndose a un rito comunitarió bajo los efectos de los hongos moksha que nuestro protagonista Will presenció]
- Por supuesto -admitió ella-. La medicina moksha lleva al mismo sitio al que se llega por la meditación.
- Y entonces, ¿para qué molestarse en meditar?
- Lo mismo daría preguntar: "¿Para qué molestarse en cenar?".
- Pero según ustedes en este caso la medicina m
oksha es la cena.
- Es un banquete -replicó la señora Rao con énfasis-. Y precisamente por eso hace falta la meditación. No se pueden hacer banquetes todos los días. Son demasiado suculentos y duran demasiado. Aparte de que los banquetes son proporcionados por un proveedor; uno no participa para nada en su preparación. Para la dieta cotidiana, en cambio, tiene que cocinar uno mismo. La medicina moksha es un festín ocasional.
- En término teológicos -dijo Vijaya-, la medicina moksha lo prepara a uno para la recepción de las gracias gratuitas: las visiones premísticas o las plenas experiencias místicas. La meditación es una de las formas en que uno colabora con esas gracias gratuitas.


Huxley, mais uma vez.

domingo, 21 de maio de 2017

(…) haveria algo como o silêncio, ou como a gagueira, ou como o grito, algo que escorreria sob as redundâncias e as informações, que escorraçaria a linguagem, e que apesar disso seria ouvido. Falar, mesmo quando se fala de si, é sempre tomar o lugar de alguém, no lugar de quem se pretende falar e a quem se recusa o direito de falar. O sindicalista Séguy é boca aberta quando se trata de transmitir ordens e palavras de ordem. Mas a mulher com a criança morta também é boca aberta. Uma imagem se faz representar por um som, como um operário por seu sindicalista. Um som toma o poder sobre uma série de imagens. Então, como chegar a falar sem dar ordens, sem pretender representar algo ou alguém, como conseguir fazer falar aqueles que não têm esse direito, e devolver aos sons seu valor de luta contra o poder? Sem dúvida é isso, estar na própria língua como um estrangeiro, traçar para a linguagem uma espécie de linha de fuga.(conversações, p.56) (…) Às vezes se age como se as pessoas não pudessem se exprimir. Mas de fato, elas não param de se exprimir. Os casais malditos são aqueles em que a mulher não pode estar distraída ou cansada sem que o homem diga: “O que você tem? Fala … “, e o homem sem que a mulher … , etc. O rádio, a televisão fizeram o casal transbordar, dispersaram-no por toda parte, e estamos trespassados de palavras inúteis, de uma quantidade demente de falas e imagens. A besteira nunca é muda nem cega. De modo que o problema não é mais fazer com que as pessoas se exprimam, mas arranjar-lhes vacúolos de solidão e de silêncio a partir dos quais elas teriam, enfim, algo a dizer. As forças repressivas não impedem as pessoas de se exprimir, ao contrário, elas as forçam a se exprimir. Suavidade de não ter nada a dizer, direito de não ter nada a dizer; pois é a condição para que se forme algo raro ou rarefeito, que merecesse um pouco ser dito. Do que se morre atualmente não é de interferências, mas de proposições que não têm o menor interesse. Ora, o que chamamos de sentido de uma proposição é o interesse que ela apresenta, não existe outra definição para o sentido. Ele equivale exatamente à novidade de uma proposição. Podemos escutar as pessoas durante horas: sem interesse … Por isso é tão difícil discutir ‘ por isso não cabe discutir, nunca. Não se vai dizer a alguém: “o que você diz não tem o menor interesse”. Pode-se dizer: “está errado”. Mas o que alguém diz nunca está errado, não é que esteja errado, é que é bobagem ou não tem importância alguma. É que isso já foi dito mil vezes. As noções de importância, de necessidade, de interesse são mil vezes mais determinantes que a noção de verdade. De modo algum porque elas a substituem, mas porque medem a verdade do que digo. Mesmo em matemática: Poincaré dizia que muitas teorias matemáticas não têm importância alguma, não interessam. Não dizia que eram falsas, era pior) Se se trata de reconstituir transcendências ou universais, de restabelecer um sujeito de reflexão portador de direitos, ou de instaurar uma intersubjetividade de comunicação, não estamos diante de uma grande invenção filosófica. Quer se fundar um “consenso”, mas o consenso é uma regra ideal de opinião que nada tem a ver com a filosofia. Dir-se-ia que se trata aí de uma filosofia-propaganda .(…) Toda criação tem um valor e um teor políticos. Mas o problema é que ela se concilia mal com os circuitos de informação e de comunicação, que são circuitos inteiramente preparados e degenerados de antemão. Todas as formas de criação, inclusive a eventual criação na televisão, encontram aqui seu inimigo comum. É sempre uma questão cerebral: o cérebro é a face oculta de todos os circuitos, que podem fazer triunfar os reflexos condicionados mais rudimentares, tanto quanto dar uma oportunidade a traçados mais criativos, a ligações menos “prováveis”. O cérebro é um volume espaço-temporal: cabe à arte traçar nele novos caminhos atuais. A filosofia não é comunicativa, assim como não é contemplativa nem reflexiva: ela é, por natureza, criadora ou mesmo revolucionária, uma vez que não pára de criar novos conceitos. A única condição é que eles tenham uma necessidade, mas também uma estranheza, e eles as têm na medida em que respondem a verdadeiros problemas (…) os professores pagam suas viagens com palavras, experiências, colóquios, mesas-redondas, falar, sempre falar. Os intelectuais têm uma cultura formidável, eles têm opinião sobre tudo. Eu não sou um intelectual, porque não tenho cultura disponível, nenhuma reserva. O que sei, eu o sei apenas para as necessidades de um trabalho atual, e se volto ao tema vários anos depois preciso reaprender tudo. É muito agradável não ter opinião nem idéia sobre tal ou qual assunto. Não sofremos de falta de comunicação, mas ao contrário, sofremos com todas as forças que nos obrigam a nos exprimir quando não temos grande coisa a dizer. Viajar é ir dizer alguma coisa em outro lugar, e voltar para dizer alguma coisa aqui. A menos que não se volte, que se permaneça por lá. Por isso sou pouco inclinado às viagens; é preciso não se mexer demais para não espantar os devires.(…) me parece interessante nas vidas, os buracos que elas comportam, as lacunas, por vezes dramáticas, mas às vezes nem isso. Catalepsias ou uma espécie de sonambulismo por vários anos, é isto que a maioria das vidas comporta. É talvez nesses buracos que se faz o movimento. A questão é justamente como fazer o movimento, como perfurar a parede para não dar mais cabeçadas. Talvez não se mexendo demais, não falando demais: evitar os falsos movimentos, residir onde não há mais memória. Escreve-se em função de um povo por vir e que ainda não tem linguagem. Criar não é comunicar mas resistir.(…) O que para mim substitui a reflexão é o construcionismo. E o que substitui a comunicação é uma espécie de expressionismo.(…) E quais verticalidades, as que nos dão algo para contemplar, ou então as que nos fazem refletir ou comunicar? Ou não será preciso justamente suprimir toda e qualquer verticalidade como transcendência, e nos deitarmos sobre a terra e abraçá-la, sem olhar, sem reflexão, privados de comunicação? E temos ainda conosco o amigo ou já estamos sós, Eu=Eu, ou somos amantes, ou ainda outra coisa, e quais os riscos de trair a si mesmo, de ser traído ou de trair? Não há um momento em que é preciso desconfiar até do amigo?(…) Creio que à filosofia não falta público nem propagação, mas ela é como que um estado clandestino do pensamento, um estado nômade. A única comunicação que poderíamos desejar, como perfeitamente adaptada ao mundo moderno, é o modelo de Adorno, a garrafa atirada ao mar, ou o modelo nietzscheano, a flecha lançada por um pensador e recolhida por um outro.(…) Talvez a fala, a comunicação, estejam apodrecidas. Estão inteiramente penetradas pelo dinheiro: não por acidente, mas por natureza. É preciso um desvio da fala. Criar foi sempre coisa distinta de comunicar. O importante talvez venha a ser criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle.(…) É difícil “se explicar” – uma entrevista, um diálogo, uma conversa. A maior parte do tempo, quando me colocam uma questão, mesmo que ela me interesse, percebo que não tenho estritamente nada a dizer. As questões são fabricadas, como outra coisa qualquer. Se não deixam que você fabrique suas questões, com elementos vindos de toda parte, de qualquer lugar, se as colocam a você, não tem muito o que dizer. A arte de construir um problema é muito importante: inventa-se um problema, uma posição de problema, antes de se encontrar a solução. Nada disso acontece em uma entrevista, em uma conversa, em uma discussão. Nem mesmo a reflexão de uma, duas ou mais pessoas basta. E muito menos a reflexão. Com as objeções é ainda pior. Cada vez que me fazem uma objeção, tenho vontade de dizer: “Está certo, está certo, passemos a outra coisa.” As objeções nunca levaram a nada. O mesmo acontece quando me colocam uma questão geral. O objetivo não é responder a questões, é sair delas. Muitas pessoas pensam que somente repisando a questão é que se pode sair delas (…) é preciso falar com, escrever com. Com o mundo, com uma porção de mundo, com pessoas. De modo algum uma conversa, mas uma conspiração, um choque de amor ou de ódio. Não há juízo algum na simpatia, mas conveniências entre corpos de toda natureza. “Todas as sutis simpatias da alma inumerável, do mais amargo ódio ao amor mais apaixonado.” É isso agenciar: estar no meio,sobre a linha de encontro de um mundo interior e de um mundo exterior. Estar no meio: “O essencial é tornar-se perfeitamente inútil, se absorver na corrente comum, tornar-se novamente peixe e não bancar os monstros (…)
GDCP

quarta-feira, 22 de março de 2017

me nomeiam morta sem pranto
sepultura sem epitáfio
uma cova no breu
buraco
me nomeiam aquilo que sempre
fui uma fossa
fácil de cavar
um vácuo
buraco negro que suga
entrópica
aquela que faz
escrever poemas
de ódio
em looping
você ainda me ama que eu sei
eu também.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

lluvia

hoy llueve mucho, mucho,
y pareciera que están lavando el mundo
mi vecino de al lado mira la lluvia
y piensa escribir una carta de amor/
una carta a la mujer que vive con él
y le cocina y le lava la ropa y hace el amor con él
y se parece a su sombra/
mi vecino nunca le dice palabras de amor a la
mujer/
entra a la casa por la ventana y no por la puerta/
por una puerta se entra a muchos sitios/
al trabajo, al cuartel, a la cárcel,
a todos los edificios del mundo/ pero no al mundo/
ni a una mujer/ni al alma/
es decir/a ese cajón o nave o lluvia que llamamos así/
como hoy/que llueve mucho/
y me cuesta escribir la palabra amor/
porque el amor es una cosa y la palabra amor es otra cosa/
y sólo el alma sabe dónde las dos se encuentran/
y cuándo/y cómo/
pero el alma qué puede explicar/
por eso mi vecino tiene tormentas en la boca/
palabras que naufragan/
palabras que no saben que hay sol porque nacen y
mueren la misma noche en que amó/
y dejan cartas en el pensamiento que él nunca
escribirá/
como el silencio que hay entre dos rosas/
o como yo/que escribo palabras para volver
a mi vecino que mira la lluvia/
a la lluvia/
a mi corazón desterrado



Juan Gelman

domingo, 12 de fevereiro de 2017

ainda tenho o guardanapo
um par de livros
meia dúzia de cartas
poemas em duo fotos
e alguns outros papeis
de boba cantando nunca mais que dois
versos da mesma música
o resto era nananá
ou fim do ato
corte pra cena do
perdi seu número
perdi parte do meu nome.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

ESSE OLHAR QUE VARA O CRISÂNTEMO
(In: "Ciclópico olho", de Horácio Costa - Selo Demônio Negro, 2011)
esse olhar é meu.
Esse olhar que vara o amarelo
esse olhar é meu.
Esse olhar que de noite
perpassa
a noite
o amarelo
o crisântemo
o olhar mesmo
esse é meu olhar.
Vem embebido
do dono
mas é seu próprio
é sozinho.
Esse olhar não tem
dono ou base:
o Monte Ajusco
a Cordilheira do Atlas.
Esse olhar vara
por si:
a flor varada
depois dele
desfolha-se.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Não vamos ao enterro do amor
Não vamos
Não vamos ao velório, não há velas
não há horas, não há lágrimas possíveis
que me façam acreditar que tal falecimento seja possível
Não vamos sentar na poltrona mais confortável
em frente a um espelho que me faça gorda e mais inchada
que me faça ter vergonha de demonstrar minha tristeza
não vamos receber condolências de estranhos
familiares e parentes solitários que esperaram a vida inteira
por este momento
aquele segundo de vitória, eu reconheço, de eu vim, vi e venci, eu fui mais forte
que o amor
sempre tão débil e prepotente esse seu viver
não vamos, já disse, não vamos
não vamos receber abraços frios de pessoas frias
nem abraços quentes de pessoas quentes que deveriam estar em outro lugar
que gostariam de estar em outro lugar
me recuso a acreditar que deixaram de ir
para vir aqui
por que? por que se ele nunca te amou, se ele nunca
por que

não vamos
não vamos esperar as moscas chegarem
não vamos esperar mais flores
não vamos aumentar o ar condicionado aumentar o chumaço de algodão nas narinas aumentar o tule
não vamos ouvir a missa não vamos ouvir eu sinto muito
por sua perda
não queremos ouvir mais um pio
não vamos nos agachar nos rebaixar a isso tomar um punhado de pedras
e terra não vamos selar o selado
atire você a primeira pedra
não vamos chorar
pelo leite derramado
dar outros passos em direção ao caixão e dizer adeus
não nos despediremos
não
eu digo que não vamos
eu me recuso a dizer fim.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"Resumindo, você sofre porque não é o diálogo o que busca, e sim um ouvinte passivo para seu monólogo. Você não sabe muito bem o que pensa e sente até exteriorizar. E ao fazer diante do outro, pela primeira vez, percebe que não está certo do que pensa, sente ou exterioriza. Está inseguro, indefeso, e se arrepende do dito, quase sempre, no segundo seguinte, mas já é tarde para regressar a palavra à boca. Prove conversar sozinho diante de um espelho, a olhar em seus olhos. O quanto você se conhece? Quando você deixar de encenar enquanto fala, e passar a se enxergar apenas como o emissor de seu enunciado, estará curioso o bastante para querer enxergar e conhecer o outro em todas as suas particularidades, e não como uma cópia de si mesmo. Quando o outro é verdadeiramente o outro, as suas possibilidades de respostas e reações são infinitas, e logo, além da frustração praticamente desaparecer por você não buscar mais ouvir aquilo que esperaria somente de você mesmo, o diálogo passa a fluir, como sede e água."

domingo, 5 de fevereiro de 2017

um trecho de fernanda, de ernesto sampaio

Para se viver no presente, e para que esse presente contenha alguns germes de futuro,
 é preciso esquecer.
 Não digo perder a memória, mas seleccioná-la, distanciá-la, acomodá-la à necessidade
 que todos temos de
 saborear o presente, de manter indemnes as possibilidades de novos começos. Mas
 quando a memória nos
 cai em cima como um dilúvio, quando o passado nos submerge e afoga, estamos perdidos.
 Sobrevivemos
 entre sombras, somos almas penadas, entregues ao desespero e à cólera. Vivemos no inferno,
 pois inferno é
 a ausência de quem amamos.
É disso que este livro trata. Disso e da passagem da saudade à solidão.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

patuá

conheci um cara

um fica que o acusa
luvas e sapatilhas

no dia em que a conheci
vestígios de lágrimas, lenços
saudações & serpentinas

eu vestia branco e verde e ela
vermelho e cinza

até hoje(

dragões serpentes entrelaçados
quadros emoldurados
espada que voa

sinto que ainda não o conheço
nem isso

para tudo um começo e um
nem precisa pedir

mas vai além
valer-se de um símbolo
é pouca matéria
mais vale levar dentro um
mútuo
todas as cores se encontram num ponto perfeito depois do preto e)
infinito


Ellen Maria

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

verdes azuis cinzas pratas
uma cor no céu
outra no mar
outra no chão
outra na unha
franze os olhos e vê
o nada que pode ser.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Zygmunt Bauman (19 November 1925 – 9 January 2017)
"Tal como señaló Ralph Waldo Emerson, cuando uno patina so­bre hielo fino, la salvación es la velocidad. Cuando la calidad no nos da sostén, tendemos a buscar remedio en la cantidad. Si el “compromiso no tiene sentido” y las relaciones ya no son confia­bles y difícilmente duren, nos inclinamos a cambiar la pareja por las redes. Sin embargo, una vez que alguien lo ha hecho, sentar ca­beza se vuelve aún más difícil (y desalentador) que antes —ya que ahora carece de las habilidades que podrían hacer que la cosa fun­cionara-. Seguir en movimiento, antes un privilegio y un logro, se convierte ahora en obligación. Mantener la velocidad, antes una aventura gozosa, se convierte en un deber agotador. Y sobre todo, la fea incertidumbre y la insoportable confusión que supuestamente la velocidad ahuyentaría, aún siguen allí."

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

encher o pensamento de calma
e desarmá-lo

domingo, 14 de agosto de 2016

...

não abre não abre não abre
certifica inclusive
que a chave está bem posicionada
dada as voltas
olha pela fresta
debaixo da porta
luz sombra caverna
não sabe
se se protege ou a quem protege
se se esconde ou a quem esconde
já não é medo
não abre não abre
gato mia miau
não sei quem é
não sei mais
quem eu sou

tira a chave
não abre não abre
dada as voltas
tira a chave e olha
pelo buraco da fechadura
gato mia
miau
desfaz uma das voltas
miau
olha mais
bisbilhota
coloca o dedo na fechadura
sente o gelado do metal velho
gato mia não mia miau
esse gato não mia nem quer que
não desfaço a outra volta

bota a chave
não pergunta
nem fazdesfaz a volta
abandona a porta
até outra hora não
volto ao meu quarto
de Schrodinger.

sábado, 13 de agosto de 2016

atemporal

um milésimo de cada segundo
às vezes dois
o último ar aspirado
antes da primeira palavra pronunciada
de todo poema

é pra ninguém
alguém

faz tempo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Fim de luta

como não me oponho
desde a lona vejo
sua reverência.

Ellen Maria


quinta-feira, 11 de agosto de 2016

hum/or/amor

aquilo que
temos
de mais nosso
não é
nosso
se sustentará

como deus
o elo que pendura
a mágica que perdura
torto
todo e qualquer
quadro
sem moldura.

Ellen Maria

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Ella

"[...]
Entre nós e as personagens que inventamos, que nossa fantasia lânguida consegue apesar de tudo inventar, nasce uma relação peculiar, terna e quase maternal, uma relação quente e umedecida de lágrimas, de uma intimidade carnal e sufocante. Temos raízes profundas e dolorosas em cada ser e em cada coisa do mundo, do mundo que se tornou repleto de ecos, de soluços e de sombras, ao qual somos ligados por uma devota e apaixonada piedade. Nosso risco então é naufragar num escuro lago de águas mortas e estagnadas, arrastando conosco as criaturas do nosso pensamento, deixando-as perecer conosco no abismo tépido e escuro, entre ratos mortos e flores apodrecidas. Diante das coisas que escrevemos, há um perigo na dor, assim como há um perigo na felicidade. Porque a beleza poética é uma mistura de crueldade, de soberba, de ironia, de ternura carnal, de fantasia e de memória, de clareza e de obscuridade e, se não conseguirmos obter todo esse conjunto, nosso resultado será pobre, precário, escassamente vital. 
E vejam bem, não é que se possa esperar da escrita um consolo para a tristeza. [...]"

Natalia Ginzburg

terça-feira, 9 de agosto de 2016

La materia de este mundo

"Mientras cepillo frente al espejo el pelo
sedoso de nuestra hija
veo los destellos grises del mío,
la sirvienta canosa detrás de ella. Por qué será
que justo cuando empezamos a irnos
ellas empiezan a llegar, que el pliegue en mi cuello
se hace más visible cuando los bellos huesos de sus
caderas se afilan? Cuando mi piel muestra
sus cicatrices secas, ella se abre como una flor
húmeda y precisa en la punta de un cactus;
cuando mis últimas oportunidades de concebir un hijo
se sueltan de mi cuerpo, entre ellas las fallidas,
su pequeña cartera llena de huevos, redondos y
firmes como emas, está a punto de
desabrocharse como un chasquido. A la hora de dormir,
cepillo su pelo enredado y fragante. Es una vieja
historia - la más vieja del mundo -
la historia de la sustitución."

Sharon Olds

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

La primera

"La primera pesadilla lejos de tu casa y de tu familia, tu primera noche en la academia, todo eso ha existido siempre: el sueño es que te despiertas de un sueño  profundo, te despiertas de repente sudando y aterrorizado y te sientes abrumado por la sensación imprevista de que a tu lado hay una destilación de mal absoluto en esta residencia desconocida y a oscuras, esa esencia y centro de mal está aquí mismo, en esta habitación, ahora mismo".

David Foster Wallace - La broma infinita

domingo, 7 de agosto de 2016

Desjejum

e foi então no café
da manhã
a notícia do dia que diz que nada
permaneceria intacto
uns gaguejos me disseram como quem não quer
um breve adeus e sem desculpas
tomaram um copo d'água
misturado com açúcar
o sal das lágrimas
manteiga derretida
nem mexeu no pão
e a mão afasta o queijo como quem diz
acabou
a festa anunciada fica
para daqui uns anos, tá?
como quem fecha
a porta pra sempre

o nosso amor, uma porta
anti-fogo
mas que não adianta
forçar a barra

quanto aos ovos cozidos no prato
no centro da mesa
estes sim fincaram aí.


Ellen Maria

sábado, 6 de agosto de 2016

Destiempos

"Recuerdo tus ojos,
esa furia rápida
con que aquellos
canarios imposibles
devoraron mis manos.

No tuve cómo retenerte.
En vano muñones
y tendones trataban
de asir tu presencia
a la materia sin tiempo,

a ese espacio este
en que devoras
el dorso de mi tacto
y en los poemas
siempre partes".

Manuel Colina

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

season #

são dois controles
um em cada casa
e uma sorte de zapping
espaço e tempo
os fazem parar
no mesmo canal.
assistimos ao mesmo fim de série
mas ouvi falar
em outra temporada.

Ellen Maria

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

sob o sol


no outro dia,
abandonou a casa e voou sobre o mar
sem mais derramar
mar.

Ellen Maria

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Obvious child

Recitar um poema como uma prece para qual não se espera resposta.
"Existe algo que não ama o muro. Que envia ondas geladas sob ele, que esparrama os pedregulhos ao sol. Avisei meu vizinho além monte. Um dia nos encontraremos para caminhar e para erguer o muro entre nós de novo. Antes de erguer o muro, eu me perguntarei se eu estou me fechando, ou fechando o outro e a quem eu poderia ofender. Existe algo que não ama o muro e quer derrubá-lo."

(Wish I was here - dir. Zach Braff, 2014).

terça-feira, 2 de agosto de 2016

meu corpo
minha jaula
de vidro trincada
sem nenhuma
fera dentro.


Ellen Maria

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Sem atalho

"Assusto o silêncio que me é imposto
... posto após posto posto em holocausto...
de custos e medo existo assim composto
como um suposto rosto em riste e exausto

de vagar p'las ruas como se mendigo,
de contar as luas, os sóis ao relento...
eu quero é amor, este lindo abrigo,
esta linda casa; humano sentimento...

... ajusto a tristeza num riso vasto
gasto o amor em cada flor que degusto (...)
arbusto firme sou pássaro casto
no nefasto sol padrasto e injusto...

S'a moda muda, conservo o conteúdo,
me desligo num sono profundo
enquanto renasço anjo, anjo miúdo
indo e vindo no lindo findo mundo..."

Octaviano Joba

domingo, 31 de julho de 2016

Expansão da Arte

"A arte incorpora algo como liberdade no seio da não-liberdade. O fato de, por sua própria existência, desviar-se do caminho da dominação a coloca como parceira de uma promessa de felicidade, que ela, de certa maneira, expressa em meio ao desespero. mesmo nas peças de Beckett, a cortina se levanta como num cenário de Natal."

Adorno

sábado, 30 de julho de 2016

insídia

não é o tempo inimigo
senão minado
de esperança míngua
a emoção sentida
o tempo não retorna
tudo é entropia
já dizia


Ellen Maria

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Só acho que

agora em si
o ciclo fecha
tamanha redundância
amor que não se move
não move.


Ellen Maria

quinta-feira, 28 de julho de 2016

já digo

quem acredita
que vivo à moda
da lua
confia que não vou
nem fico
não sou minha
nem só sua
se muito eu fujo
se pouco eu grito
depois descanso
no sétimo dia
minto
e durmo nua
você de abrigo

Ellen Maria

quarta-feira, 27 de julho de 2016

sobre pedra

comerá as cinzas
para que nada sobre
e morrerá engasgado
com a própria saliva.


Ellen Maria

terça-feira, 26 de julho de 2016

status de relacionamento:
uma flecha invisível cai duas vezes na mesma ferida
e cicatriza milagrosamente o tendão de aquiles.


ellen maria