terça-feira, 31 de março de 2015

A quem possa interessar

Precisa-se de precipícios
reservatórios privativos
preservativos provisórios
perigosos vícios
antigos princípios
ativos príncipes
que saibam aliterar.

Ellen Maria

Isto é uma matriz


segunda-feira, 30 de março de 2015

Além do dicionário

Segundo recentes pesquisas
de universidades e institutos de notabilidade
já há provas que as palavras também pensam
podem se comunicar
se multiplicar
sentir dor, emoção
possuem memória
sistema nervoso e digestivo
são inteligentes e rancorosas
inclusive choram.
Um grupo conceituado de astrólogos franceses também as analisa
e considera que há um grande número de palavras
com a lua e vênus em câncer,
o que provoca este tipo de comportamento.
Sua lágrima está sendo estudada
em duas faculdades tecnológicas nos Estados Unidos
e presumem que a palavra tem o poder de curar
uma somatória ainda não limitada
de doenças contagiosas.
"Estamos surpresos e entusiasmados com o resultado".
A reprodução delas ainda não foi completamente desvendada
mas em uma fundação não governamental russa
especialistas acreditam que esta atividade ocorre
por muitas vias e posições diferentes.
"Há uma predileção pela via oral,
mas já encontramos ao menos outras quinze formas.
Todas elas têm potencial para sentir prazer e reproduzir".
Segundo analistas japoneses,
as palavras possuem uma amostra de subespécies e gêneros
infinitamente maior que a espécie humana
e chegaram a essa declaração somente avaliando as vivas.
Por causa disso, agentes alemães de diversas áreas constataram
que, assim como os homens,
as palavras também apresentam características violentas e preconceituosas
em relação a seus pares.
"As palavras possuem consciência de suas diferenças
e, por essa razão, algumas escravizam ou sacralizam as outras.
Nestas últimas semanas, observamos um crescimento de bulling
das palavras mais conservadoras em relação as irônicas,
satíricas e também as libidinosas.
Estão passando por uma etapa desalumiada".
revela um erudito angolano convidado a formar parte da equipe.
Um biólogo grego considerou que as novas descobertas irão revolucionar
o mercado farmacêutico, alimentício e inclusive cultural.
Já há comunidades no leste europeu e na Índia
nas quais as palavras são consideradas os novos deuses do século XXI.
"As mais raras estão sendo guardadas em redomas e altares
e em alguns cantos do mundo são mantidas em cativeiro
para garantir o futuro da espécie".
Seu encontro com o papel (celulose) produz uma enzima
que acalma a palavra,
conjecturam cientistas poloneses
depois de uma infinidade de testes.
"É uma reação química que a permite resistir e sobreviver a diversas condições:
de stress, movimento, combustão, e até mesmo ambientes aquáticos.
No papel, ela se liberta".
explicou o professor chefe,
um sul-africano que dedicou à vida ao estudo das palavras.
E continua:
"Sua resposta à tecnologia foi um pouco agressiva
mas quando envolvíamos outras subespécies no processo
apesar de certa objeção, elas se tranquilizavam".
Já há casos de pessoas que deixaram de consumi-la
após os primeiros resultados das pesquisas.
A chamada Dieta da Letra é rejuvenescedora 
quando se trata de poucos dias ao mês.
No entanto, aderindo à dieta ovo-lacto-verbum-vegetariano
por tempo indeterminado
a consequência foi um alto índice de depressão
e transtornos obsessivos compulsivos.
Houve um caso de morte
e outro caso de internação psiquiátrica:
uma mulher de trinta anos, na Argentina, desconfia que é uma pedra.

Ellen Maria

Censura

" I- Les escribí lleno de precauciones. Pero todo cuanto no podía decirles creció como un globo y voló, flota afuera, en el cielo nocturno.

II- Mi carta pasa a manos del censor. Él enciende su lámpara. Bajo su mirada, las palabras saltan como monos contra las mallas, traquetean y, cuando se detienen, le enseñan los colmillos.

III- Es preciso que lean entre líneas. Volveremos a juntarnos dentro de doscientos años, cuando los micrófonos de las paredes del hotel se encuentren olvidados - cuando duerman al fin, convertidos en fósiles."

Tomas Transtömer

A vida apenas

Não posso com essa falta de lirismo
que tampouco é libertação
com essa falsa presença
essa ausência de ritmo
Estou farta
exausta do silêncio desmedido
da pouca poesia que se une
à vida
Não andamos de mãos dadas
Nunca vestimos semi-deuses
mas esse comedimento de riso
de choro, de vocábulo
está acabando comigo
Nem manuel nem carlos
eles estão paralisados
eles estão dormindo
nem os contadores e os engravatados
esses estão fora de si
ao pé da fogueira acesa
tabela caduca de co-senos
estão todos mortos
A noite costuma dissolver os homens
(as vozes se confundem)
O presente é tão grande
e eu me perdendo em palavras
as lembranças escorrem
confissões patéticas
Quero suspiros ao anoitecer
quero entorpecentes, músicas na sacada
a enorme realidade
Não serei a poeta de um mundo
não vivido
quero ser raptada por um serafim
de carne e osso e sem asas
e levada para uma ilha
depois cobri-lo no inverno
e pagar as contas
Estou presa à uma grande esperança
às minhas mãos
e meu coração de dez metros.
Esta não é uma carta suicida.
Não adianta morrer.
Espero penetrar surdamente
a superfície intacta.
Há de amanhecer.
Há de amanhecer logo.

Ellen Maria

domingo, 29 de março de 2015

Entre o real e a ficção

Quem luta em silêncio
debaixo das cobertas
de olhos fechados
ainda que sonhe com a vitória
confundirá a realidade
com o pior pesadelo.

Ellen Maria

Nada demais

"Amor é um coelho branco 
que gritasse é tarde, é tarde, 
é tarde, Inês é morta".
(Leandro Durazzo)
Amor eu dizia
é um par de joelhos
com cara de recém nascidos
e uma boca babando
com cara de mãe 
de primeira viagem.

Amor eu dizia
é um corpo boiando no mar
os pés salgados, as mãos salgadas
os cabelos, as costas
e a boca sugando o sal do sol 
sorrindo.

Amor eu dizia
é o instagram apagado
o facebook bloqueado
e a frase do twitter que reacende
a líquida esperança.

Amor eu dizia é a unha
que cresce rosa, branca e torta
e o dente que arranca a cutícula
até sangrar.

é raiz oleosa e pontas duplas
e o creme que adere
e hidrata o cabelo
por inteiro.

é a planta do pé cheia de terra
e o cheiro de chuva
que fica adormecido nela.

é o requeijão estragado de manhã
a indigestão a tarde
e o vômito calmante da noite.

é uma canção de Molly Drake
num videokê sujo
no bairro da Liberdade.

é a lágrima do olho
que não cai
quando o corpo inteiro chora.

é uma criança aos berros
no chão do supermercado
e o mundo ignora.

é a impressão digital que fica
no espelho do banheiro do motel
de propósito.

é um deus bêbado dançando tango
e um poeta com câimbra
dando ré num trator.

Amor eu dizia
hoje eu sinto
tanto sono
e não espero nada
além de dormir.

Ellen Maria

quinta-feira, 26 de março de 2015

Desexistir

"Quando eu desisti
de me matar
já era tarde.

Desexistir
já era um hábito.

Já disparara
a auto-bala:
cobra cega se comendo
como quem cava
a própria bala.

Já me queimara.

Pontes, estradas,
memórias, cartas,
toda saída dinamitada.

Quando eu desisti
não tinha volta.

Passara do ponto,
já não era mais
a hora exata."

Frederico Barbosa

quarta-feira, 25 de março de 2015

Morte sem mestre

"Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água, música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo saldo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trêmulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicarizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega"

Herberto Helder

stay

It's not just something
it's given
(In: Unapologetic, Rihanna, 2012)

sobre margens desbordadas

"mergulho num sono
lento navegado
falar contra fronteiras
dizer tua boca
pela matéria que é a minha
deixar escorrer teu nome
dá na mesma

não me assustam mais naufrágios
não quero mais vestir coletes
à prova de últimos abraços
o sonho

fica

dito assim
será que é algo
pedido ou confessado
ou na mesma medida"


Ricardo Escudeiro

segunda-feira, 23 de março de 2015

Dois poemas para Noemi Jaffe

A necessidade urgente da regra

Enquanto eu ruo
você rua
ela rima
Nós erramos
Eles riem de tudo.

**

Rien de Rien

Quando nada parece estar acontecendo
as nuvens brincam de mímica
polícia e ladrão
esconde esconde
no céu cinza de São Paulo.

Quando nada está acontecendo
elas condensam
e chovem no molhado.


Ellen Maria

domingo, 22 de março de 2015

Entre (ou além)

Para ler ouvindo:
Zero 7 - Destiny

Te escuto falar
com voz       de aquarela
a linguagem das florestas
um íntimo despertar da natureza
entre a cor e o lápis
bicho de seda       seringueira
de boca aberta me exílio
na tua fronteira
Rio estrias
um mapa e seus
afluentes teu corpo    fissura
líquida meu olfato
A ponta de um dedo que caminha
sem pressa
no traço bem feito
sem      Norte
porque perdida
te toco        onde quero
perfume de rosa
dos ventos
A cartografia da tua pele
tem gosto           de papel novo.

Ellen Maria

Samburá

Um peixe nasce pela boca.

Ellen Maria

sábado, 21 de março de 2015

Não existe amor em SP

Lambi seus dedos
feito paleta mexicana
na rua Augusta as duas
da tarde.
Devorei seus beijos
entre um mar de gente
sedenta
na Praça da República.
Mordi suas costas
enquanto cantávamos
ao som independente
num centro cultural.
Traguei seu hálito
como um sanduíche de pernil
no final de um clássico
no Pacaembu.
Bebi seu suor
no meio de um passeio ciclista
numa manhã de sábado
no Ibirapuera.
Mastiguei seus olhos
enquanto esperávamos na fila
do teatro
no Sesc Pompéia.
Comi suas pernas
com pipoca
assistindo um filme antigo
da Mostra.
Engoli seu leite
enquanto ardia
verde
na Praça Pôr do Sol.
Provei seu ventre
enquanto o trem partia
na estação da Luz.
Guardei seus restos
em um tupperware azul
no fundo do meu
freezer.
Doei a geladeira
com tudo dentro
pelo facebook.


Ellen Maria

Ângulo de guinada II

"VALORIZAVA A PINTURA ATÉ O PONTO de renunciá-la. Valorizava a renúncia até o ponto de seguir pintando. A figura até o ponto de abstraí-la. A abstração até o ponto de insinuar o busto. O busto até o ponto de pedir a modelo que se retire. Mas eu vivo aqui, disse a modelo. Eu valorizo isso, disse o pintor. Mas valorizo o valor até o ponto de insistir. A insistência até o ponto de oferecer a outra face. A outra face até o ponto de oferecer também a outra. Daí até que pareça que estou dizendo Não com a cabeça."

Ben Lerner
Tradução: Ellen Maria

sexta-feira, 20 de março de 2015

Ângulo de Guinada I

"O PRIMEIRO CONSOLE DE JOGOS foi a chama domesticada. Os videogames contemporâneos permitem selecionar o ângulo desde onde se vê a ação, inspirando uma sucessão de massacres escolares. Os jogos novos, que usam pequenas pinceladas para simular o reflexo da luz, resultam quase ininteligíveis para os jogadores de mais idade. Em nossos simuladores, abstraímos o aeroplano com a esperança de manipular o voo como tal. Os macetes, códigos secretos que transformam o personagem em invisível ou rico, mudam o clima ou permitem pular de fase, são ao videogame o que é a prece ao mundo real. As crianças, chegada a hora, tentarão aplicar os macetes ao mundo fenomênico. Aperta pra cima, pra baixo, pra cima, pra baixo, esquerda, direita, esquerda, direita, a, b, a, para que saia o sol. Esquerda, esquerda, b, b, para manter-se aquecido."

Ben Lerner
Tradução: Ellen Maria

quarta-feira, 18 de março de 2015

Toda ella

para Melba Sonderegger
Ella me hizo mirar para dentro
por unos segundos
lo que tengo 
y me olvido
pasaron tres años
ella me dice
qué lindo
no perdiste tu capacidad de asombro
y la miro
sorpresa
sí, yo decía eso a todos
verdad?
cómo la quiero
volví a callarme
mirando el grandioso árbol
que nos surgió en el camino
parecía vivo
estaba vivo
el viento lo movía las ramas
y lo hacía recordar
Todo cambia y no cambia nunca.

Ellen Maria

De cifras e outros papéis

No teatro grátis de terça,
no palco, cenário egípcio
a luz fraca incide sob
a atriz de segunda
que interpreta Cleópatra
Na bandeja
frutas de cera sem sementes
não tem brilho
não tem cheiro
estrela descascada numa peça transgênica
faz caras de disputa e gestos de esnobes
enquanto esgueira
quem está na plateia.

Nas noites de terça,
eu sou mais uma atriz falida
no teatro quase deserto
de pulgas e mendigos
Não há enigma
não há amantes
nem cachos de uva
Só um gosto amargo
por ter sido devorada
pela personagem
Tampouco há nada para ver lá fora.


Ellen Maria

Papo furado

para Diego Moraes

Você me disse que as coisas explodem
por alguma coisa,
de ódio, de tédio, de gás, de ordem
e até de felicidade
que é quando aparece outra coisa no lugar
Você me disse que podia ser até medo
um revólver, uma droga, um novo desejo, um outro beijo
É que tudo fode tudo
ou ao menos pode
Depende do que está prestes
a última gota
Nisso a gente concorda.
Já no resto,
às vezes eu não escuto, sabia?

Ellen Maria

segunda-feira, 16 de março de 2015

Un río vivo

Llueve en la ciudad
y pido un paraguas que no me alcanza
una casa seca que está lejos
Estoy corriendo por las calles
quiero un jazz con mi nombre
mojan mi mochila plumas libros las hojas se pegan
las letras se borran mis ropas empapan
escucho bocinas de los autos sobre mis auriculares
subo el volumen
bajo la lluvia corro
entre los autos y las gotas
parezco que huyo pero no puedo
Vuelve el refrán
mis medias se disuelven
los mensajes en la billetera
la materia de mis dedos se arruga
dentro de los bolsillos
busco escapar de lo imposible
pero no hay otro camino sino el agua
Una banda sonora con mi nombre
camino rápido respiro en el ritmo
de la música el agua
por dentro y por fuera mi cuerpo
miro los dos lados y donde piso
ahora todo es uno
mi cabeza los pies
la gente seca espera en las tiendas
las ventanas de los autos cerradas
pienso vapor también es agua
no llegar al destino también es llegar a algún lado
el agua no para
la distancia disminuye
los pasos ahora más lentos
mi espera de la casa acompaña la caída de la lluvia
hoy habrá silencio
aún no ahora
ya no tengo nombre y
sigo
hay un momento en que uno sabe
todo se calma
correr o caminar no cambia nada.


Ellen Maria

quinta-feira, 12 de março de 2015

Self-service

No restaurante Resta Um,
o prato do dia:

stop
go
on
off

(de carne ou de frango)
batata palha
assada a parte

a R$ (risos)
um e noventa e nove
delivery grátis.


Ellen Maria

O processo

Plano
Estou querendo ficar pelada

Projeto
Me despir de algumas coisas

Esboço
Jogar várias ideias fora

Rascunho
Roupas

Croqui
E certos gestos

Produção
Depois de umas conversas,

Edição
acabei reaproveitando tudo

Montagem
em novos planos,

Obra
em outra língua.


Ellen Maria

quarta-feira, 11 de março de 2015

Ciências e Letras

Vejo um poema distante
que desmorona
na mesma proporção
em que me aproximo
quando chego a um palmo dele
o poema não passa de um rastro
de um triz
de fiapo
agarrado
numa célula
de ameba
num microscópio
de um cientista renomado
ganhador do prêmio Nobel
do ano passado.

Ellen Maria

quinta-feira, 5 de março de 2015

Lugares onde não estou

Eu leio
o blog
os poemas da Paloma
sempre sem comentários
e penso
Ela não está sozinha

o gato
as camisetas das pessoas
as gotas da chuva
as árvores de Palermo
certas imagens
eu também sou uma leitora anônima.

Ellen Maria