domingo, 29 de março de 2015

Nada demais

"Amor é um coelho branco 
que gritasse é tarde, é tarde, 
é tarde, Inês é morta".
(Leandro Durazzo)
Amor eu dizia
é um par de joelhos
com cara de recém nascidos
e uma boca babando
com cara de mãe 
de primeira viagem.

Amor eu dizia
é um corpo boiando no mar
os pés salgados, as mãos salgadas
os cabelos, as costas
e a boca sugando o sal do sol 
sorrindo.

Amor eu dizia
é o instagram apagado
o facebook bloqueado
e a frase do twitter que reacende
a líquida esperança.

Amor eu dizia é a unha
que cresce rosa, branca e torta
e o dente que arranca a cutícula
até sangrar.

é raiz oleosa e pontas duplas
e o creme que adere
e hidrata o cabelo
por inteiro.

é a planta do pé cheia de terra
e o cheiro de chuva
que fica adormecido nela.

é o requeijão estragado de manhã
a indigestão a tarde
e o vômito calmante da noite.

é uma canção de Molly Drake
num videokê sujo
no bairro da Liberdade.

é a lágrima do olho
que não cai
quando o corpo inteiro chora.

é uma criança aos berros
no chão do supermercado
e o mundo ignora.

é a impressão digital que fica
no espelho do banheiro do motel
de propósito.

é um deus bêbado dançando tango
e um poeta com câimbra
dando ré num trator.

Amor eu dizia
hoje eu sinto
tanto sono
e não espero nada
além de dormir.

Ellen Maria

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