sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A mor ao rés do chão

(poema pra ler sentado)

Quero um homem que me coma
(e olha nos olhos do leitor)
em várias línguas dubladas
e me frite um bife acebolado
cada vez que eu ler em voz alta
não me interrompa
(grite!)
e me belisque sempre
pra eu voltar a sonhar desperta
e diga a coisa certa
no momento errado
pra eu lembrar que faz falta
as vírgulas, (cara de vários pontos de exclamação),
rir pelo leite derramado.
Quando o amor nasce
ao rés do chão
se multiplica mais rápido.

Ellen Maria

Libertar demonios y agonías literarias.

La ventaja de hacer poesía con todo el cuerpo es el vacío incondicional del momento siguiente. 
Como un hormigueo en la nariz que tarda en transformarse en estornudo, 
pero una vez fuera, ya no molesta, 
ya no es parte de mí.

Ellen Maria

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

per omnia saecula

Te juro, amor
não te deixar sozinho
quando os corpos passarem
não desfiar a memória
quando os relógios pararem
não me perder no caminho
quando as pedras rolarem
Teu amanhecer comigo
nunca será mais noite que a noite.

Para Carlos Drummond,
que não era deste mundo.

Ellen Maria

Soneto da pós modernidade

O soneto? foi sonegado,
por falta de pagamento
de impostos E aposto
que não duraria o sentimento
pelo número de versos, sabe?
fidelidade? ah...
vaidade, Vinicius,
virou cartão de viagens.
Passagens de amor eterno
custam mais caro que promessas
à praia deserta.

Ellen Maria

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Do claustro a pia

Não dá pra por o filho de novo no ventre
Não dá pra por o vômito de novo pra dentro
Não dá pra expor o íntimo e sair isento
Tinha que sair, saiu a tempo:
o filho morto, o gosto fétido, o sentimento.

Ellen Maria

Aviso

Caro leitor
não se sinta ofendido
nem adulado
se um poema meu
estiver a você destinado
meu eu-lírico
às vezes pudico
às vezes tarado
só diz o que diz
porque no papel
se sente liberto
pra mentir certo
pra falar errado
Levar a sério poesia
é coisa de perturbado.

Ellen Maria

Té para tres

Y si te escribo un poema que hable de amor
oirás vos?
al menos un poema
ya que me falta voz.

Cena:
Y cuando al maíz le falta sal
lo echamos a la olla con sazón
Después lo comemos con más ganas
La espera produce más salivación.

Entrada:
Corazón pendejo se enamoró otra vez
Y de un buen tipo que habla portugués
Por suerte escribo en español fluido
Ya que amar quien ama otra
no tiene ningún sentido.

Primer plato:
Es verdad que no me gusta estar en esta situación
Mejor que me vaya, antes que haya traición
La hora es ahora: sin dar ninguna explicación
Pero el punto es (como decía la canción)
Uno no elige de quién se enamora.

Segundo plato:
Que tu novia no me escuches
Aunque te prefiero soltero
Pero antes la mitad
que pa' ella tú entero.

Vino para acompañar:
No me alcanzarás la mano para este baile?
una valsa que termina en olvido
A las doce, cenicienta vuelta al barrio
y tú vuelves solo... a ser mi amigo.

Postre:
Y pensar que esta historia sólo existe en mi cabeza
y después de la comida ya está todo acabado
miércoles que viene en la misma mesa
Escenas inventadas de un romance destrozado.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Lavando a salada

minhas ações
abjeções
abstenções
correções
cogitações
criações
declarações
doações
exceções
frustrações
implicações
limitações
meditações
menstruações
negações
orações
ovulações
ponderações
rejeições
ops, preocupações:
meu feijão, no fogo.

chute no útero

Ser desejada
ser calada
ser lambida
ser tomada
ser querida
ser ouvida
ser falada
ser amiga
mas ao mesmo tempo não ser 
digna de ser
amada. 

Sentimento ruim esse
que começa na vulva 
e termina no cérebro.

Amizade colorida é 
sem dúvida
a pior invenção do século.


Ellen Maria

domingo, 18 de agosto de 2013

arroubamento

Se tem mais fora que dentro
se o de dentro é o mais de fora
se tudo acontece ao mesmo tempo
agora não tem mais dentro:
botei pra fora meu sentimento.

(para Paulo Leminski
que não tem cabimento)


Ellen Maria

sábado, 17 de agosto de 2013

La cosa

"Ando con una fijación: la cosa. 
ya dije muchas veces que no hablo de la cosa esa que tienen ahí dentro del pantalón algunos, ni la cosita que tenemos nosotras.
tampoco de la cosa en sí kantiana que, a decir verdad, qué mierda nos importa si es incognoscible. yo ya abandoné a kant, al cielo y demases.
la cosa es que me pregunté cuál era la cosa qué más quiero en el mundo, y cuando me respondí me di cuenta de que no eran cosas sino seres humanos o inhumanos, porque vamos, ¿acaso no amamos también a los faltos de humanidad? Digo, yo a los ropes los re quiero, sacan lo mejor de mí y ponen lo mejor en mí. Pero volviendo, uno siempre dice cosas como STOP: uno dice cosas? Bueno, uno siempre dice: tengo un montón de cosas para contarte. ¿Pero son cosas las que uno cuenta? 
"Estaba pensando entonces en las cosas que me pasan con vos, como si me pasaran colchones, camas y hojas; o las cosas que hacemos juntos, como si hiciéramos estantes, manzanas y camperas; o las cosas que tenemos en común que recién recuperan su sentido de objeto cuando hay que dividirlas: mía la mesa, tuyo el sillón. qué hacemos con el perro?"


Natalia Rozenblum

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Torres

"Não pensem que as torres desaparecem assim, que nos livramos delas. Inquietam-nos. Caem sobre as nossas cabeças ou contemplam-nos, imóveis, implacáveis. E imaginava eu que mal reparara nela. É assim: estamos diante das coisas; não as vemos. Só mais tarde, absurdamente, sabemos que apenas fizemos isso: vê-las e possuí-las. E ser apanhado por elas. Era julho. Um clarão de luz caía sobre a cidade, vinha por trás e batia-me nas costas, despenhando-se no quarto como uma onda de água. Quarto ascético. Paredes nuas, cama de ferro, uma prateleira para livros, a cadeira, a mesa. No chão, a minha mala ainda por abrir. Teria eu uma vocação? Qual seria? Que fazia eu nesse quarto? Que significava tudo isso?"


Herberto Helder.