quinta-feira, 30 de junho de 2016

Olhos elétricos

"ponta de pedra aguda
faces rasgadas, bétulas amargas

você me diz psiu, violência
no jeito de piscar as pálpebras

pássaros tristes entre cães aprisionados
enfim vivemos num cenário

onde crianças com olhos elétricos
vasculham os bolsos de lady solidão

musas sádicas me acariciam
com unhas de gilete

lábios em carne-viva, mil beijos
de medusa - strippers que após a roupa
arrancam a própria pele

e você vira as costas, arrasta-se
como um mamute pelo corredor

arremessando um "boa noite"
que me acerta em cheio na testa."

Ademir Assunção

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Sozinhez

"Não importa qual seja a resposta, o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira. A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: 'Estou tão cansada de estar aqui sozinha!' O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta."

Paulo Mendes Campos

terça-feira, 28 de junho de 2016

qué es qué es

"Los hombres (occidentales, al menos) [y las mujeres masculinizadas] no aman amar, sino vencer. Reina entre ellos el desprecio y la ironía por las cosas del cuerpo sensual: los olores, el tacto, las secreciones, las músicas; llaman 'artistas' a quienes de entre ellos se interesan. Pero los artistas son mujeres. Los hombres se sienten derrotados cuando aman. Prefieren las prostituas cuya impasibilidad les protege. El gozo de una mujer es para ellos un enigma, porque no han encontrado los medios técnicos de producirlo de modo previsible y garantizado. (...) La gran asociación viril de la guerra y el sexo esá ya en los Tratados de erótica chinos, que son igualmente Manuales de estrategia. para el hombre el amor es un combate y lo que está en juego es su virilidad, es decir la cultura."

F. Lyotard "Feminidad en la metalengua"

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A resistência do impossível

não altera a ordem
dos cacos
a quantidade de lados
também é a mesma
a profundidade do corte
um ângulo parece que grita
enquanto
outro se cala
não há mais nada lá
um jarro completo
cheio de eco, um oco
o vazio de dentro
se espalha agora
pela
casa inteira.

Ellen Maria

domingo, 26 de junho de 2016

tangerina

faz
da face jovem
clássica antifaz
mulher

olha no espelho
e não enxerga
nem ela
nem outra

qualquer coisa
também não é melhor
do que isso

o tempo não fez
ainda
sua foice
ou faca

mas fincará
basta
um pouco mais de calma
do lado de dentro
e fora da cáscara

miolo sempre demora
mais
para amadurecer.


Ellen Maria

sábado, 25 de junho de 2016

Parte do Entropé

"o violinista do telhado
on the other hand
a secreta vida de walter mitty mais naquela partinha
que toca space oddity
as duas partes das relíquias
da morte
a caminhada solitária pra estação que nunca
mais é sem seu passo
a letra de canção que tem uma única frase lembrada
e o resto só murmúrio de voz incediada
o apito de madeira de um avô à mão
entalhada herança repassada
o livro artesanal à quatro braços costurado
biblioteca comunitária entre dois
a trilha sonora do top gun no pen drive contaminado
cavalo de troia e presente de dia dos namorados
a partida de uma e da outra o aniversário
avós compartilhadas
a queda de patins que nem rola
apoio e pernas e braços únicos em corpos distintos
o tapete de sala o chuveiro apertado as camas de cada
na carne de um o cobertor que ao outro faltava
pode ser uma lista
mas também pode ser a palma
da mão da namorada
aberta
encostada aqui na face
linha da vida escancarada
como quiromancia dissesse pra aquele
que nela inacredita
na sua cara
mas também pode ser uma ambiguidade
tipo luneta
ter ou não ter a lua
mas também pode ser rever
o filme de ficção
científica que diz
não estamos sós
e reentender o recado
tá ali o astronautinha
pendurado me lembrando.

(...)
Ricardo Escudeiro

sexta-feira, 24 de junho de 2016

11

pintar um pouco vida
de sanduíche feliz
já tão novo tão
copiando
a invenção cotidiana
por que não

se como na criação universal
um pedaço desaparece no caos

o show deve continuar e
os elefantes não param
de dançar quando
o riso é aplauso
da sobrevivência.


Ana Martins Marques

quinta-feira, 23 de junho de 2016

a última parte de HP

O primeiro é situar-se. Depende do planeta inimigo, a escolha da arma. É preciso traçar um método eficaz de sobrevivência, ainda que temporário. Todo ato surpresa acarreta uma recalculação do plano e um arsenal à postos de instrumentos mortíferos para ataque e defesa.
Às vezes não há lugar mais hostil na Terra que o terminal rodoviário.
Faço o possível para tornar-me invisível. Não é preciso ter visão raio-x ou microscópica para sentir que as milhões de bactérias e vírus, que habitam todo e qualquer elemento naquelas centenas de metros quadrados, não são o pior que posso temer. Não é preciso ter um quociente de inteligência elevado ou um poder sobrenatural para compreender que aquelas dúzias de homens parados ali querem me comer e já pensaram em coisas bem piores pra fazer que esperar um ônibus chegar para partir. O bilheteiro faz questão de tocar minha mão enquanto me entrega o ticket da passagem. Um sabre de luz cortante me caía bem. (Ou a ele). Não é cortês ou acidente, é intenção. Eu poderia matá-lo também com um simples rodopiar da minha varinha mágica. Avada Kedavra. O vendedor da padaria armada arma o teatro da gentileza em um tom que causaria inveja aos apresentadores veteranos de tv. Meu bem querer, o que você vai querer hoje? (Desaparecer). Ele olha para meus peitos enquanto me serve um pão na chapa, toca meu ombro depois de me trazer o café com leite. 38, AK-47, chumbinho ou um tiro de borracha no seu pau. Pode escolher. Todos os outros me olham e fazem seu papel de meros figurantes. Uma bomba relógio presa no meu cinto apita a contagem regressiva. Não me escondo atrás da mulher maravilha. Sou ela. (Só que não). Quase desabafo de ódio, derreto meio pão no copo americano, ponho pra dentro e fujo dali. A fila de taxistas com suas camisas celestes de botões abertos cochicham qualquer coisa que meu ouvido de tuberculoso não me permite distinguir mais que gostosa. Uma granada na garganta de cada um deles. Um desintegrador de espermas.
Meu ônibus chega. O motorista anuncia a hora e o destino, e os ansiosos se encaminham para subir e se esconder cada quem em sua caverna-poltrona. Minutos depois, o que parece ser o último passageiro sobe; o motorista recolhe minha passagem enquanto ainda reluto para entrar. Enquanto permaneço ali, ele lê atentamente e em voz alta meus dados escritos a caneta, caso haja um acidente, telefone, identidade e puxa um assunto de mas você vai viajar sozinha, linda? Um raio fulminador de cérebro e língua. Pela minha afirmativa congelante, ele sabe que não devia ter falado nada. Eu volto minha observação para a porta de saída do terminal. Ele agora sabe que estou esperando aquele homem que está vindo em minha direção. Ele se afasta para fazer alguma coisa burocrática e observar os próximos movimentos do homem que se aproxima. Três segundos. Não nos olhamos nos olhos. Nos abraçamos com força. Sou eu. Ele nem precisa dizer. Absorvo tudo o que eu posso pelo olfato, pelo tato. Pelas partes que me tocam. Barriga, braços, rosto, pedaços de pernas. Minha pedra filosofal. Três segundos de antídoto. De derretimento da armadura para a fabricação do mais sublime afeto. Não falamos mesmo nada. Era só isso. Me despeço entrando no ônibus sem olhar para trás. O motorista liga o motor, parte e pronto. Volto a ser a heroína que sempre sou. Exceto nesses três segundos de imortalidade.


Ellen Maria

quarta-feira, 22 de junho de 2016

tel.

tá certo.não estou morrendo.
e se tivesse, ligaria para outra pessoa. meu pai e mãe. que são duas pessoas.
é justamente porque não estou morrendo que estou ligando.
porque é a vida que me faz enfiar o orgulho pela goela dezenas de vezes, as palavras todas já ditas não voltam para o livro branco, mas ainda há tantas páginas a preencher. de palavras. é.
quem sabe. ligo uma, ligo duas. ninguém atende.
penso que você está vivendo também.
e no fundo sei que está certo em não atender.
é isso.
você está certo em não atender. eu estou certa em tentar.
porque no fundo ambos sabemos. de tudo. sem precisar falar nada um pro outro.
cada um na sua tentativa de viver.

Ellen Maria

terça-feira, 21 de junho de 2016

it

acontece o susto.
falta ar
acelera coração
eriça pelos
treme mãos
bambeia pernas
dilata pupilas.
e passa.

acontece o amor.
quando passa, assusta.
quando não passa, acontece o susto outra vez.


Ellen Maria

segunda-feira, 20 de junho de 2016


há quem ama 
em silêncio
e quem faz escândalo
mês sim
mês não

domingo, 19 de junho de 2016

uma flor de buquê

"A flor parece despetala
por mais bela que se apresente
falta um pedaço
o homi não soube regar
as pétalas já caíram
Culpa da sombra
desprezo egocêntrico do sol
tão preocupado em se iluminar
que rejeitou as pétalas
sorte das formigas
Cada pétala perde seu substantivo feminino
alimento do receio
gatilho do medo
medo do sol."

Daniel Bastos

sábado, 18 de junho de 2016

para meio entendedor...

Foi quando você foi levantar e dizer ah...
que eu achei que era ...mor o que você ia... deixa pra lá
e também não foi ...deus,
de despedida, nem nada
nem nenhuma outra palavra
que pensei, poxa!
um bocejo a gente não diz
sem se espreguiçar junto
pra não confundir o outro
que tá esperando
esperando...
nada, não.

Ellen Maria

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Las cebras y la muerte

"Éramos ciento cincuenta y siete cebras
corriendo por la llanura seca
y yo iba detrás del veinticuatro,
del veinticinco y del veintiséis,
delante del sesenta y del sesenta y uno,
y de pronto saltando nos adelantaron el ciento dieciocho, el ciento diecinueve
y el viento veinte diciendo "río", "río",
y el veinticinco repitió "río", "río"
y de pronto nos alcanzó el ciento treinta
y también nos adelantó saltando,
y el veinticinco giró hacia la izquierda
por delante del veinticuatro y del veintiséis,
y de pronto vi el sol en el agua del río
brillando con brillantes salpicaduras,
y el ocho y el nueve pasaron a mi lado
corriendo en dirección contraria
con la boca llena de agua y las patas
mojadas y el pecho mojado
y diciendo "adelante", "adelante"
y me crucé de pronto con el cinco y el siete
que también corrían en dirección contraria
pero diciendo "cocodrilos", "cocodrilos",
y luego pasaron el seis, el treinta y el doce
y todos dijeron a coro "cocodrilos",
y bebí agua, bebí agua brillante
de brillantes salpicaduras,
"un cocodrilo" gritó el veinticinco,
"un cocodrilo", repetí reculando
y corriendo en dirección contraria,
y me crucé de pronto con el ciento cincuenta
y el ciento cincuenta y uno,
"cocodrilos", "cocodrilos" dije
con la boca llena de agua y las patas
mojadas y el pecho mojado
y seguí corriendo por la llanura seca
detrás del ceinticuatro y del sesenta y uno,
y había de pronto un huevo
entre el veinticuatro y el veintiséis,
y de un salto de pronto ocupé el hueco.
Éramos cienta cuarenta y nueve cebras
corriendo por la llanura seca,
y delante de mí iban el doce, el trece
y el catorce, y detrás de mí
el cuarenta y tres y el cuarenta y cuatro."

Bernardo Atxaga

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Paixão

"porque o olho tentando perfurar a imagem
porque a voz tentando perfurar o limite
porque a escuta tentando perfurar o sentido
porque a intuição tentando a lógica
porque o vazio tentando
o abismo
porque o corpo nunca
nunca
cede

então o punho
e o nada."

Geruza Zelnys

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Lo que hay

"recibe este rostro mío, mudo, mendigo
recibe este amor que te pido
recibe lo que hay en mí que eres tú".

Alejandra Pizarnik

terça-feira, 14 de junho de 2016

timbre

quem não deve
me chama atendo
sabendo que não devo
desculpas pra mim mesma e ela
que deve saber também
por que é que ele depois de tanto
tempo me chama tem chama que não cessa
do lado de lá do lado de cá
o vento apagou e eu ainda em tempo
cobrei juízo e desliguei na cara
dele.

Ellen Maria

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Royal Enfield

"Si pudiéramos permanecer
en el abrazo desmedido que exige una moto
pensás mientras cruza
el asfalta un perro
como una mancha negra,
la cabeza acostada
a ver cómo suena en su espalda
la velocidad, van quedando atrás
las copas de los árboles y apretás con más fuerza
ahora que te persigue
una idea: a la sombra de esos árboles
dejarán el cuerpo de la moto
cromado que resiste la corrosión
y caminarán
cada uno aferrando a su propio casco."

Silvina Lopez Medin

domingo, 12 de junho de 2016

pasado

"aunque sé que a veces me escuchan pensando que soy
el mausoleo de una generación
cuyas reivindicaiones ahogó la dureza de estas décadas
y se asombran de que aún emprenda animosa el viaje
hacia corazones y lenguajes jóvenes
siga hablando del color con que vi el mundo
y lea con más gusto a unos desconocidos que a viejos compañeros
debo decirles
aprendí hace mucho
que no hay nada más patético
que la canción del verano la canción del momento
pasado ese verano pasado ese momento."

Juana Bignozzi

sábado, 11 de junho de 2016

Cavaleiros

"Kanon, o Imortal:
Espere, Milo. Eu não sei como você não se preocupa em deixar Atena a sós com um inimigo como eu.

Milo de Escorpião:
Já não existe inimigo algum aqui. Não há ninguém aqui além de um companheiro. Trata-se de Kanon de Gêmeos, ou seja, um cavaleiro de ouro."

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Seiva veneno ou fruto


"Sólido é o vento que leva as coisas embora."
Júlia Hansen

quinta-feira, 9 de junho de 2016

gps

e eu busco outros caminhos buscando o mesmo destino
um caminho que me diga depois
você chegou ao seu destino
sem que eu tenha que recalcular a rota
cada vez que meu gps interno localizar
perigo
de duas pernas.

Ellen Maria

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Depois de você

"Depois de você, eu vou cair de amor por alguém
duzentos ou trezentos anos mais velho. O coração dele/dela
será um buraco
no teto da igreja. Para ele/ela, cair
será como cortar o fio de um telefone e vê-lo rolar
rua abaixo. Se fizermos amor, eu tirarei
umas férias anuais
e armarei nosso prazer como quem prepara
um jogo de xadrez, e ele/ela deixará uma maçã cair
no chão
para limpar todo o horizonte.
Ele/ela logo se cansará do meu nervosismo,
do meu sangue apressado. A coisa não vai acabar bem.
Minha/meu amante cortará outro fio, e talvez você
me encontre
novamente, perambulando o toco de um século, meus olhos
abertos
como um coco partido, meu coração o último buraco que o seu laço
atravessa.

Jack Underwood
Tradução (provisória): Cide Piquet

terça-feira, 7 de junho de 2016

Ídolos

"He buscado tantos ídolos
me he fascinado por tantos ascetas
he soñado con sus imágenes duras rechazantes
esa pureza que humilla
la conianza en el juicio de los pocos
y sigo desconociendo la puerta única
el día único
el momento único
poco los esperé y ya no lo hago
al igual que siempre debí irme me quedé
no puedo dejar de buscarlos
aun rota de cansancio
aun perdido el deslumbramiento."

Juana Bignozzi

segunda-feira, 6 de junho de 2016

recitante

"o governador voltou ao seu palácio;
e a trincheira era uma cilada,
e o pato estava depenado, assado
e o pato nunca foi comido,
e meio-dia não era mais a hora do banquete,
meio-dia era a hora da morte."

Bertolt Brecht
tradução: Manuel Bandeira

domingo, 5 de junho de 2016

O reverso das pedras

me insistem na terapia
na regressão ou hipnose
- pra você descobrir o que foi que causou isso
isso chamam aquilo
que não dizem
histeria
(ou a desconfiança que nutro por todos os homens)
me culpam
& meus pais & minha infância &
todos os homens
me dizem isso
desconfiam que eu já sei a resposta
e insistem
- mas o que foi que causou isso
(reticências e não interrogação)
percebo que eles têm medo
da resposta
será que têm medo que eu aponte o dedo
para o pau deles
e cruzam as pernas
em um movimento inconsciente.

penso em alguns cães que atacam
porque sentem o cheiro do medo
e também cruzo as pernas
mas eu sei
que eles já perceberam
tudo
desconversamos
temos uma lista pronta de amenidades
falamos de prêmios literários e autoexílios
o inseto como alimento e a tecnologia do gps
caímos em poços escuros
por sorte
acendo um cigarro
com minha caixa de fósforos
são lugares comuns que sempre voltamos
porque não temos mais
nada
(seguro? em comum?)
em volta.


Ellen Maria

sábado, 4 de junho de 2016

Dandelion

Não posso pegar a veia
sem treinar os olhos
sem a gema dos dedos
turvas as águas
ou as cores
do fundo?
mergulho
e às vezes nem assim
descubro
tem mistérios que são o que parecem:
mistérios.


Ellen Maria

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Maçã mal cabida

"faz já dois candelabros que ela não olha para trás
uma mulher de olhar para trás
mas então agora é o parto chinês
os ossinhos do pato no canto perto
da mão esquerda
o garfo com seus dentes virados
para o quadro onde um cavalo e sobre ele
uma garotinha forçando o rosto num
raio de sol muito mal pintado num
tom de maçã mal cabida ali
pobre
pobre beleza pobre mal cabido ali
faz já umas três ou quatro eternidades que ela não olha para trás
metodologia de sondar sem ver
uma faca no assoalho de cupins
uma vaca bordada no guardanapo novo
uma mulher e um homem e uma roda de tortura
uma vaca bordada na cara da mulher
onde o homem maria de deus
uma propaganda de desodorante e uma cachoeira e a torradeira quebrada
uma vaca bordada na cara dela
e se ela se botasse a cantar e se
se ela botasse a querer lamber um peito marinho
e se ela se botasse
a pensar num estupro supracoreografado
uma vaca e três ou quatro búfalos que ela não
ela usa um terno cinco tamanhos maiores
faz treze luas que ela não
faz treze náuseas que ela não olha para trás
uma sala escura bordada no estofo da cadeira vazia
uma mesa tão longa que ninguém deu-se a bordar
um tipo incerto de deus que fez da incerteza da mulher
coisa bordada no quadro com a maçã sobre o rosto mal chaveado
cavalo sob menina rija sobre raio de sol fruto de fruta mal cabida ali
se ela se bota a voltar a olhar para trás
se ele se bota a pensar em sexo com talheres de azar
se ela se bota a criar uma boa superstição com taças
já uma colisão de ângulos entre a janela e o espelho que ela não olha para trás
se ela se bota a querer o tórax a devolver a coxa e a asa
se ela se bota a entortar o quadro
uma maçã e uma rigidez infantilizada e uma cor de tortura
uma carcaça bordada na cara da mulher
onde o homem maria de deus onde o homem
se ela se bota a cruzar os ossos
essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca
se ela se bota a entranhar os milagres ali sobre a mesa sob as unhas
se ela se bota a pentear a franja com o garfo
se ela se bota a cruzar os ossos ou os dedos ou as pernas
se ela se bora a contrair o útero se ela se bota a relaxar o útero
essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca
se ela se bota a contrair o útero entre o primeiro e o último sopro fatal
faz onze moscas que ela não olha para trás."


Carla Diacov

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Partida

"Já sentiu a angústia durante o gozo, antes mesmo da última gota? O sufocamento. Como se o líquido espesso tapasse a garganta, escorresse pelo lado de dentro do peito, escorando paredes em desalinho.
Tuas mãos na minha garganta. Esse, o acolhimento. Crispadas. Busco teus olhos e os encontro envergados para o bilhete sobre o criado-mudo. Único. Teu nome do meio abreviado, como se perdido num soluço. Talvez o pouco da tua identidade que vai ficar nesse quarto.
Aos poucos o relaxamento. Conformismo. Deglutição. O ar volta a circular, carregado dos cheios de pau e boceta já solitários. Como antes, como antes de tudo, como antes do primeiro adeus. Que era o do primeiro encontro, tudo já começando por terminar. Com um cheiro de morte. Por isso os passeios no cemitério, as flores, a tua mão tapando a minha boca quando a sangria era verborrágica. Não havia tempo.
Não havia tempo.
Não houve tempo.
Há um cadeado sombrio na porta, triste. Entreaberto. Como se senhor da liberdade que ocultamos, um do outro, entre promessas vazias de encantamento. Como o desenlace do pau, um salto para trás, para o entendimento.
Tua boca sem batom. Os olhos esbugalhados, presos na passagem. O nome do meio comido. Um resto de choro que não vale mais a pena.
Já estou vestido. Acabar logo com isso. O corpo, recomposto, dentro das roupas que já me pertenciam, antes de tudo.
O aeroporto, o que é mesmo o aeroporto? O voo do que já vinha distante. Sumir no horizonte qualquer significado, os cabelos armados em um encosto de assento e não mais desalinhados no aconchego.
Um último adeus como promessa de reencontro. Nunca se sabe, retornos são tão plausíveis quanto nascimentos, e olha que nem gozei dentro, ou talvez sim, não sei ao certo porque havia algo de mim que já tinha viajado.
Depois anestesiado, alheio, errático, perdi o tíquete do estacionamento, perdi o carro no estacionamento, lembrei que queria dizer mais alguma coisa, mas já era tarde. Outro filme já devia ter começado, ou talvez estivéssemos apenas ainda dormindo, tuas mãos no meu cabelo.
Qualquer coisa de mim deu partida no carro. Alguém precisa voltar, no caso. Fingindo-se inteiro. Mas com um quê, um tanto de reconhecimento abreviado no meio.
Meu nome, agora? Algum eu, incompleto, entre o que foi e o que ficou, rodando como etiqueta de bagagem na esteira."

Edson Valente R. Maria

quarta-feira, 1 de junho de 2016

ma(i)sturvação

a mão que cai
é a mesma mão
mas depois que cai
já não é a mesma.


Ellen Maria