terça-feira, 30 de junho de 2015

Formas comuns

Algodão e
                         o
dente é arrancado
d ó i
mais arrancar o pedaço da raiz

que não            quer
               sair

sangue
gaze
buraco
água

parece que preso
no osso
a língua não se acostuma/
até que               (a tinta) seca

estanca

fin  ca

fica a moldura
sem quadro

incomoda
mas faz (p) arte
perder

mesmo antes da h
                                ora

o que nunca foi
pra ser
permanente.


Ellen Maria

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Cebolas

"são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia."

Benedicte Houart

sábado, 27 de junho de 2015

Lagar

"Achar um lugar para guardar os pratos
achar um lugar para escrever a carta
achar um lugar para honrar o pacto
achar um lugar para o salto
os colares os sapatos
os ossos os sentimentos deslocados
achar um lugar
uma janela uma relva
uma prateleira
achar um lagar".

Micheliny Verunschk

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Trompo el tiempo

"Eternity is in love with productions of time", cierto
ningún eterno de hoy en día entra en la eternidad
eternos de hoy en día los que escriben en eterno
trompo el tiempo gira sobre sí mismo hasta salirse
eje de mi carreta, mojada carretilla
sola, roja, a la intemperie
la lluvia platea su pintura

giró, se detuvo en un cubo de agua de cuero
pozo de centro de patio de estancia de abuela, Itacuatiá
de-de-de-de dados tirados al piso
el tartamudo mira el suelo sin pecado, sin culpa
pies descalzos de la niñez

nombre tupí o guaraní, Itacuatiá".

Eduardo Milán

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Poca cosa en el mundo

"Poca cosa en el mundo con utilidad
todavía: la luna, María. Una
sobre otra con su luz vacía, el cuarto
menguante cada vez con menos cosas, los
muslos menguantes cada vez con menos manos, el
óvalo del rostro que rueda por la sombra. "Espérame
un año y verás: será distinto por la estrella el
destino". Luna de estío, estilo de brillar barroco, el
hueco de la noche se hace día, dices. Pero lo que no
dices y tal vez deberías es que no hay talismán que
frene el maleficio de no estar contigo, aquí
en la maleza de sonidos voló el ave que consuela."

**

Pouca coisa no mundo com utilidade
ainda: a lua, Maria. Uma
sobre a outra com sua luz vazia, o quarto
minguante cada vez com menos coisas, as
coxas minguantes cada vez com menos mãos, o
óvalo do rosto que roda pela sombra. "Espera por mim
um ano e verá: será distinto pela estrela o
destino". Lua de estio, estilo de brilhar barroco, o
oco da noite se faz dia, diz. Mas o que não
diz e talvez deveria é que não há talismã que
freie o malefício de não estar com você, aqui
na maleza de sons voou a ave que consola.

Eduardo Milán
Tradução: Ellen Maria

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Mudar de casa

"É bom mudar de casa, de janela,
arrumar de outra maneira as ilusões,
tratar de coisas puras como tintas
e sofás, pôr ordem entre os livros
e a vida, simular a liberdade.
Parece-nos possível voltar a acreditar
na mão que nos estende um pé de salsa,
na pechincha da beleza, quando passa
no poente da razão.
Apetece cometer uma loucura,
comprar um telescópio, decorar
o canto nono dos Lusíadas,
subir umas escadas do avesso,
pensar que nunca mais teremos frio."

**

Hace bien mudarse de casa, de ventana,
arreglar de otra manera las ilusiones,
tratar de cosas puras como tintas
y sillones, poner el orden entre los libros
y la vida, simular la libertad.
Nos parece posible volver a creer
en la mano que nos extiende un pie de perejil,
en la bargaña de la belleza, cuando pasa
en el poniente de la razón.
Nos apetece cometer una locura,
comprar un telescopio, memorizar
el canto noveno de los Lusíadas,
subir unas escaleras al revés,
pensar que nunca más tendremos frío.


José Miguel Silva, Ulisses já não mora aqui, 2002.
Traducción: Ellen Maria

terça-feira, 23 de junho de 2015

Sobre um filme de Wong Kar-Way

"O corpo e seus possíveis.
O dentro que, na pele,
vira flor.
Os cheiros, a memória
do que, de tão breve,
não fica
senão como sombra
líquida
quase cítrica
desse amor."


Maria Esther Maciel

segunda-feira, 22 de junho de 2015

 um elefante na corda bamba

a instabilidade
ao sustentar
toda a bagagem do ser
...

domingo, 21 de junho de 2015

Islands

silêncio
um voo rasante
bang-bang

não necessariamente nessa ordem
e poderia ser um filme

americano
oriental
europeu

mas cor de burro quando foge
cheiro de cachorro molhado
gosto de cabo de guarda-chuva

e ninguém tem dúvida
de que indústria estamos falando.


Ellen Maria

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O alarme:

acordo
com a cor do seu peito
inspiro

vem o cheiro da sua mão
que abranda instantâneo
sobre meu cabelo ondulado
um pouco desse mar da noite
boa e salgada que tivemos

dia após dia

durmo outros mais cinco minutos
só para acordar de novo
com a cor de quem nasce

para sentir em cheio
todo seu amor.


Ellen Maria

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Céu de Tomie Ohtake

"Que azul são azuis e não são
algo azul como um lago
como um vago,
ou vertigem,
na fuligem do céu

Que azuis serão istos, então:
como um mata-borrão
sobre um mar congelado,
como blue note em blues
como o rastro dos astros
matizes do breu.

Que azuis seão estes, em vãos,
como lapsos da mão
sobre o negro,
como um antes azul...
como um toldo ex-
azul que des-
ceu."

Expedito Ferraz Jr, Poheresia.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Take my breathe away

Turning and returning
To some secret place inside
(In: Top Gun Soundtrack, Berlin, 1986)
"respiração
compartilhada boca
à boca sem que sequer
tenham os lábios voltados

ah
vida assistida
eh

nem
porque vivida
já já ela tá de volta

leva todo meu ar
embora
seja depois quem o retorna"


Ricardo Escudeiro

terça-feira, 16 de junho de 2015

Generación

"La madurez?
- esa posibilidad de acertar en lo correcto
comprender que ya basta de equivocarse-:
no es posible."

***

A maturidade?
- essa possibilidade de acertar em cheio
compreender que já chega de se equivocar - :
não é possível.

Carlos Martínez Rentería
Tradução: Ellen Maria

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Mitmit

Agora somos dois. Nem tão livres nem tão presos. Há alguma coisa que nos liga e outra que nos deixa a vontade para voar sozinho. Não há obrigações, nenhum de nós precisa prestar contas ou dizer para onde vai. Mas ainda não atravessei a rua sem querer ligar e chamá-lo para atravessar a rua comigo. Não há juras nem promessas. Há confiança. Queremos testemunhar a vida um do outro, e não só isso: queremos ser cúmplices, ser comparsas amigos. Não há contrato. Não temos que seguir regras ou fazer coisas cínicas para agradar o outro. Não temos que necessariamente dividir as contas. Sabemos pouco um do outro, e acho que se ficarmos cinquenta anos juntos, continuaremos sabendo pouco um do outro, Talvez daqui um tempo eu saiba o que ele vai dizer antes mesmo de pensar, talvez eu saiba completar uma piada dele ou saiba qual lado da cama ele prefere dormir, mas conhecê-lo mesmo, isso já é mais complexo. Se vai durar para sempre, não sabemos. E o que é para sempre? Ontem mesmo fui parar no hospital e pensei que ia morrer. Ele ficou preocupado, mas está tudo bem agora.

Ellen Maria (2009)

microfilme

Medusa
vaidosa
pra ver cabelo
usou espelho
meu deus!
virou pedra.

Ellen Maria

quarta-feira, 10 de junho de 2015

El Banquete (o La última cena)

(inspiraciones: "Time" &
"Confortably Numb" - Pink Floyd)

No creo en venganzas cruyentes
en la espera del efecto de la levadura
no creo en botellas vacías llenas de aire
en el agua que evapora o se convierte en vino
de lejos veo noctilucas y ojos brillantes
Baco en fiesta
tu sangre es leve, fertil y tiene olor a fruta
por alguna señal
también parto
es el pan de la madurez.


Ellen Maria

Exercício

como se o irreversível fosse tecido transitivo
costuro
um seguinte verso no fim do poema
alheio
brincando de dar uma segunda voz
ao sobrenome morto na língua daquele
que ainda nem nasceu e
texto nascido
estende os fantasmas desalinhados
buscando passar a ferro
alguma
identidade própria.


Ellen Maria

segunda-feira, 8 de junho de 2015

só o som permanece

"Por que eu deveria deter-me, por quê?
os pássaros partiram em busca
da direção azul.
o horizonte é vertical, certical
e o movimento uma fonte;
e nos limites da visão
planetas brilhantes giram.
a terra elevando-se alcança a repetição,
e poços de ar
tornam-se túneis de conexão;
e o dia é uma vastidão,
que não cabe na mente estreita
de vermes de jornal.

por que deveria deter-me?
a estrada passa pelos capilares da vida,
a qualidade do ambiente
na nau do útero da lua
matará as células corrompidas.
e no espaço químico após a aurora
há som apenas,
som que atrairá as partículas do tempo.
por que me deter?

o que pode ser um pântano?
o que pode ser um pântano senão campo de fermentação
de insetos corruptos?
cadáveres inchados rabiscam os pensamentos do necrotério,
o impotente esconde
sua falta de virilidade em escuridão,
e o besouro...ah,
se o besouro fala,
por que eu me deteria?
cooperação em letras de chumbo é fútil
eu não salvarei o pensamento baixo.
sou descendente da casa de árvores.
respirar esse ar velho me deprime.
um pássaro morto aconselhou-me
guardar o voo para a memória.
o âmbito final dos poderes é a união,
unindo-se ao princípio luminar do sol
e derramando-se na compreensão da luz
é natural que moinhos desmoronem.

por que me deter?
eu aperto contra o peito
os feixes verdes de trigo
e os amamento.

som, som, só som,
o som do desejo límpido
da água em fluir,
o som da queda de luz em estrela
no muro da feminilidade da terra,
o som dos laços do esperma do sentido
e a expansão da mente do amor em partilha.
som, som, som,
apenas o som permanece.

na terra de anões,
os critérios de comparação
sempre viajaram a órbita do zero.
por que me deter?
eu obedeço os quatro elementos
e a tarefa de delinear
a constituição do meu coração
não é negócio
para o governo local dos cegos.

e o que é o selvagem e longo gemido
dos órgãos sexuais de animais para mim?
o que para mim é o movimento humilde
do verme em seu vácuo carnal?
a ancestralidade que sangra das flores
comprometeu-me com a vida.
você tem familiaridade com o que sangra
da ancestralidade das flores?"

Forough Farrokhzad (Irã - 1935-1967)
Traduzido desde o inglês por: Ricardo Domeneck

terça-feira, 2 de junho de 2015

fimn(ã)ocomeço

arma quando erra a mira
o alvo também perde

perseguiram a morte
pensando que a vida
mãe à procura da linguagem do filho

depois, desaprenderam
tudo o que um dia
em um dia
dois três treze vinte quatro por sete
acreditaram saber

menos que
joelho de cão é/
foi sempre mais osso

que meia vida
a meia noite
é inteira noite

que
não há verbo de ligação que dê conta
a perda do elo
o fin-do intransitivo
o princípio nunca foi/
é inato

e repetiram e repetiram e repetiram:
não há programa de crack

que
me sirva

uma dose
mais forte.


Ellen Maria