domingo, 31 de maio de 2015

Faço, fuço, forço

(truly, madly, deeply)

Conservo meu medo
de morrer de amor
e a dificuldade de ser morta
de medo
Liberto meu amor
do medo da morte
e da dificuldade de mantê-lo
aceso.


Ellen Maria

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Ai se sesse

Quis fazer um poema que jorrasse
areia e pedra
e entupisse
o teu canal estreito
e sem saída
o gozo entrasse
e melasse
as tuas artérias
até que vazasse
pelo ouvido
e dessa maneira
cheio
de si
e sem fome
tu entendesse
o meu recado:
Eu nunca fui
pro teu bico.


Ellen Maria

domingo, 24 de maio de 2015

Signo

"Cuando ya no hay qué
decir, decirlo. Dar
una carencia, un hueco en la conversación,
un vacío de verdad: la flor,
no la idea, es la diosa de ahí."

***

Quando já não há que
dizer, dizê-lo. Dar
uma carência, um vácuo na conserva,
um vazio de verdade: a flor,
não a ideia, é a deusa dali.

Eduardo Milán
Tradução: Ellen Maria

sábado, 23 de maio de 2015

Caiçara

Uma vara de pescar tigre
bengalês pra peixe-boi dormir
com anzol de histórias

livre porque livro
coletânea de tudo que leu
(pelas mãos, bocas
olhos, ouvidos)
ocupação da mancha
no poema alheio

O jogo é sempre
verdade ou desafio
(caiçara nunca arrega)
joga desde a primeira gota
até a última garrafa

Na recusa de passar pelo outra vez
só nada em rio profundo
de correnteza
(e de preferência
sem boia)

Na recusa de envelhecer precocemente
de sentir o abismo se formando entre as sobrancelhas
não pergunta
E se a expansão leva ao deserto?
ser contido / conteúdo é não esquecer os medos
mas fingir não saber onde deixou a chave
da gaveta na qual eles (e os pesadelos)
estão guardados
e se molhar (só) até o pescoço
Como que se ama (só) um pouquinho?

Na recusa de ser constante
constrói sonhos de areia
e rega as expectativas com água do mar
Assim pode amar para sempre
(sem descanso na lua cheia)
tudo é trabalho
tudo dá trabalho
nada dá trabalho

nada é trabalho

Imagina um castelo com vista
à constelações que ainda falta descobrir
Imagina uma casa de pedras polidas
à prova de lobo-mau fugitivo

uma vara de pescar histórias

Caiçara nunca morre.



Ellen Maria

sexta-feira, 22 de maio de 2015

#poesiadobrasil

poderia estar matando
mas não sou dessas
de sair matando
todo mundo
bebendo na mesa de um bar
fechado
tomo cachaça
às vezes tomo dreher
e sou descolado
leio tarot e escrevo cartas
sou desbocado
perco o rim, o fígado e a piada
sou fundador do selfie da poesia
pobre

preguiça dos que são publicados
em revistas
falando mal dos outros
que são publicados
em editoras europeias
e vice-versa

e na contra-capa, havia uma pedra
havia uma pedra
um prêmio literário
na timeline das antologias
inveja de quem dança tango
no meio do caminho

parem tudo
parem de escrever
de ler
de babar ovo e puxar saco
de limpar merda de aquários
não parem por nada

os poetas batem punheta com o poema alheio
e limpam o gozo com manuel bandeira.


Ellen Maria

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Aniversários

"Vinte Anos Depois é um romance de Alexandre Dumas
duas décadas não são nada
é a média de vida do homem primitivo do escravo romano
é a idade de um cão muito muito velho
é a média de glória de um artista maior
o tempo sem celulite de uma cortesã
o lapso de procriação depois do casamento
quatro ou cinco mandatos políticos   o auge de um império
vinte anos levou a Constantino reformar Bizâncio
vinte anos fizeram a fortuna de Frick Morgan e Du Pont
vinte anos entre a apresentação no Templo e a crucificação
vinte anos é a matéria dos memorialistas
vinte anos e o povo se cansa da Revolução
vinte anos depois Odette está casado e Mareei morto
a roda o computador pessoal a moda das perucas brancas se
popularizam em não mais de vinte anos
Quéfren e Miquerinos construíram suas pirâmides em vinte
curtos anos
vinte anos depois o cadáver está frio olvidadíssimo
vinte anos de exercício e o êxtase desce ao asceta
nada nada são duas décadas vinte vezes nada
a ponte nova entre aqui e ali está congestionada hoje
a então chamada ponde to futuro já não serve mais
agora quando estás nela também estás aqui
tinhas o cabelo solto tinhas a rédea solta
soltas tinhas as palavras
há vinte anos
entre aqui e ali".

Horácio Costa

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Diagnosis

(para Djanira e Elza)

Qual flor
desperta cedo
e sem sair do lugar
perambula por aí
respirando a curiosidade
dos que velhinhos
veem tudo como a primeira
e a última vez

Depois segue
recordando a vida
crianças pequerruchas
que se encondem debaixo da saia
da mãe e do pai
sentem medo
mas saltam no pescoço
agarrando sonhos
recolhendo os trapos e as roupas
pedaços de traumas
estendidos no varal

Caminha pela sala
o campo verde
lagos
busca o sol
dá a volta ao mundo
sem quase sair do eixo
girassol

Depois esquece
vegeta vendo televisão
repete qualquer coisa
sobre o artista da novela
parece que se alimenta de luz
pergunta sobre o que vai ter no almoço
e come pouco

Sofre arrancando os lábios
toma os remédios
morde com medo de morrer
sofre mastigando os dentes
sofre devorando o medo
e às vezes vomita
e briga com a morte
murcha

se banha vagarosamente
acariciando os infinitos lábios
que seu corpo enrugado construiu
escala montanhas com os dedos
a pele fina das pétalas

se perfuma
e cheira as costas da mão alheia
que lhe ajuda e lhe beija
veste algodão e agradece a noite
é hora das lágrimas escorrerem pela terra
hidratando os corações-sementes

dorme e sonha com os netos
imaginários
e algum fantasma

Parece que vai viver para sempre

e vai.

O candidato

Passou com nota A
na prova teórica
pedagógica
específica
física
ortográfica
psicotécnica
na entrevista
dinâmica de grupo
verificação de documentos
sequência didática
no plano de metas
mapa de carreira
caderno de contabilidades
período de experiência
foi funcionário do mês
conheceu a diretora
reunião de três horas
estabeleceram a pauta
traçaram projetos
discutiram política
contaram piadas
confiaram segredos
tomaram café
recitaram poemas
sonharam viagens
marcaram cervejas
foi demitido
era perfeito demais
nenhuma empresa
aceita
tamanha lista
de perfeição
(três dias depois F. pulou da ponte e morreu nas pedras).

sexta-feira, 15 de maio de 2015

décimo andar - térreo

as britadeiras anunciam
madrugada
obra na avenida a essa hora
e abastecimento do posto de gasolina
movimento na biqueira
sobe e desce aviãozinho
de moto cento e cinquenta
o balanço do playground do prédio só se diverte
quando um vento
(criança) perde a vergonha
formigas se escorregam
no perfume do jasmineiro
canários de apartamento insones
estremecem
faz frio
aqui e nas salas alheias
de sacadas abertas
toda uma vida
da minha janela
te mando um beijo na orelha
porque você gosta
debaixo do lençol e do cobertor
em cima do tapete
avança o ar sobre seu pescoço
e você se arrepia
sei de tudo isso de olhos fechados
há vários quilômetros de distância
todo um sonho
fecho o vidro e a cortina
essa fome que não passa
o mundo acontece lá fora
ainda bem
amanhã vou dormir com você.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Distração

queimou
outra vez
meu feijão outra vez queimou
promessa: não deixar mais queimar feijão
não deixar a vida me virar para o outro lado
oferecer a outra face e ficar nessas de esquecer o feijão no fogo
queimou meu deus queimou outra vez
panela preta
feijão torrado
abre as janelas pro vento levar o queimado para o outro lado
que frustração
jogar fora quase meio quilo de feijão
tanto tempo no fogo
tanto gás gasto
tanto
jogado fora
agora é hora de pensar em outra refeição
que demore menos pra cozinhar
que já deu fome
que já deu ânsia
já encheu de água na boca
comer feijão e arroz num prato com farofa
bife ovo salada e batata frita
almoço com tudo que tenho direito
já não tem tempo
já não dá o tempo
mas fica a promessa
não deixar mais queimar feijão
não deixar de comer feijão
não deixar de valorizar o feijão
não deixar de amar o feijão
já não estou falando de feijão.
quer saber? por que a pressa?
Morreu quem morreu,
feijão outra vez no fogo
minhas mãos cheiram a fome
de refeição completa.


Ellen Maria

terça-feira, 12 de maio de 2015

The shammer

up                                                                                                      shit
 (in                                                                                                  Chi  le)
      sh udd                                                                                    er ing  
        sh am                                                                                bl  ing
               and                                                                    shivering
                     sh                                                             e        
                          s         o          u           g          h          t
                                  and     shortly      s          h                                                          
                                                                                                                              (o)            t
                                                                                      t                   he
                                                                                                                         she(  )          riff
 
                                                                                      e .   e  .
                                                                                            c  u  m
                                                                                                        m
                                                                                                           i n g
                                  [shattering him]                                                       s
                              with                                    
                           s
                       u
                    r
                e                                  
         and
shameless



Ellen Maria

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Uma didática da invenção

"I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com a faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

II
Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

(...)

X
Não tem altura o silêncio das pedras."

Manoel de Barros

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Meu anúncio nos classificados, hoje cedo:

"troco
zona de conforto
acolchoada
por falta de gravidade,
negocio culpa."

Carmen Picos

segunda-feira, 4 de maio de 2015

entre sombras

ninguém me conhece
quando aviso aos meus medos que eles não existem
e saio a assoviar canções antigas em becos escuros
em noites escuras e chuvosas
cheios de bruxas soltas
ninguém me conhece
porque eu fecho os olhos
e depois abro e dou risada
de todas elas
quando eu digo séria
o olho brilha à pergunta que eu já sei a resposta
porque fui eu quem dá a resposta fazendo a pergunta
quer ser meu namorado?
vejo um filme de terror sozinha
e ele dorme ao meu lado
se esse tapete da sala falasse
ele diria que não houve noite mais longa
que as nossas últimas setenta e duas horas
juntos aos poucos vou reconhecendo
o que me define
entre as luzes da tv e essas pausas
no sono e nas conversas
cinema, música, literatura
as coisas vão muito bem
e um beijo de spider man faz esquecer o controle.

Ellen Maria

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Prosa Desnuda

"antes nunca hubo
o fue imposible aún

ninguna inspiración
que hiciera piedra del instante
ni siquiera un interior
de un exterior

una y otra vez
no supe algo de poco

no di la pertinente
información
-anoche tomé las pastillas
nadie lavó los platos-

en tal condición precaria
la luna me ve girar

soy yo la que funda un cielo
de fase en fase".

María Negroni