sábado, 23 de maio de 2015

Caiçara

Uma vara de pescar tigre
bengalês pra peixe-boi dormir
com anzol de histórias

livre porque livro
coletânea de tudo que leu
(pelas mãos, bocas
olhos, ouvidos)
ocupação da mancha
no poema alheio

O jogo é sempre
verdade ou desafio
(caiçara nunca arrega)
joga desde a primeira gota
até a última garrafa

Na recusa de passar pelo outra vez
só nada em rio profundo
de correnteza
(e de preferência
sem boia)

Na recusa de envelhecer precocemente
de sentir o abismo se formando entre as sobrancelhas
não pergunta
E se a expansão leva ao deserto?
ser contido / conteúdo é não esquecer os medos
mas fingir não saber onde deixou a chave
da gaveta na qual eles (e os pesadelos)
estão guardados
e se molhar (só) até o pescoço
Como que se ama (só) um pouquinho?

Na recusa de ser constante
constrói sonhos de areia
e rega as expectativas com água do mar
Assim pode amar para sempre
(sem descanso na lua cheia)
tudo é trabalho
tudo dá trabalho
nada dá trabalho

nada é trabalho

Imagina um castelo com vista
à constelações que ainda falta descobrir
Imagina uma casa de pedras polidas
à prova de lobo-mau fugitivo

uma vara de pescar histórias

Caiçara nunca morre.



Ellen Maria

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