sábado, 30 de abril de 2016

Envidia de los poemas ajenos

"En una versión de la leyenda las sirenas no saben cantar.
Que sepan hacerlo era solo una historia de marineros.
Así que Odiseo, atado al mástil, sufre el tormento
de una música que no oye - el chapoteo del mar,
el cambio del viento, el apetito costero de las aves -
y las calladas mujeres que recogen algas para abonar su jardín,
al verle forcejear con el cordaje, al ver en sus ojos
tan tremendo deseo, quedan transformadas para siempre
en el badío rocoso de su isla por lo que imaginan
que él imagina que es la canción que no han cantado nunca."

Robert Hass
Traducción: Andres Catalán

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Soneto 29

"Cuando, castigado por la fortuna y los hombres,
en soledad lamento mi condición de paria,
y con mi llanto en vano molesto al sordo cielo,
y me paro a mirarme, y maldigo mi suerte,

y deseo el futuro de alguún afortunado,
y su punto de fama, y su copia de amigos,
y ansío de este el arte y de aquel sus recursos
con lo que más disfruto aún menos satisfecho;

mas cuando al borde me hallo ya des desdén propio,
pienso felizmente en ti, y me ánimo, entonces,
parecido a la alondra que con el alba se alza
de la tierra, canta himnos a las puertas del cielo;

recordar tu tierno amor supone tal fortuna
que ni el lugar de los reyes cambio por el mío."

William Shakespeare
Traducción: Andres Catalán

quinta-feira, 28 de abril de 2016

A propósito

Não sem mim
a dizer ao ouvido
de quem julgara
preparado
o avião de papel

uma lista de desejos
só voa quando
a janela é aberta.


Ellen Maria

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Alforria blues

"Espero a hora de dizer: o jeito que te vejo vivo em mim como um cavalo derrubando as paredes pelas escadarias.

O mar guardado em tuas gavetas."

**

"Espero la hora de decir: el modo que te veo vivo en mí como un caballo derribando las paredes por las escaleras.

El mar guardado en tus cajones."


Julia Hansen
Traducción: Ellen Maria

terça-feira, 26 de abril de 2016

Parto

Um tempo só
habitável
entre o engasgado
e o olho cheio d'água
grita o indizível:
O inefável nasce na entropia
de ao menos duas vidas.

Um rasgo
natural ou artifício
e apesar da chance
existência de algum amor
a luminosidade cega:
uma mulher será mãe
e a outra, algemada.


Ellen Maria

segunda-feira, 25 de abril de 2016

astronauta

o luto
daquilo que matei
não é mais brando
e do mesmo amargo
é o café
só 
ou com açúcar.

há coisas e gestos
pessoas e corpos

tempos de foguetes
em que tudo se despedaça
menos o que se despede
este permanece
quente
no espaço.


Ellen Maria

domingo, 24 de abril de 2016

Metereopatia

Noite de chuva,
pergunto às horas
e a forra me desapossa:
twent'and-tears nem é meia
noite ainda e me desfaleço em
choro
água
água
água água.

Ellen Maria

sábado, 23 de abril de 2016

"El humor es algo parecido a la felicidad, a la revolución y al amor."

Roberto Bolaño

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Vero Nome

"Chamarei deserto a este castelo que tu foste.
Noite à tua voz, ausência à tua face,
E quando caíres sobre a terra estéril,
Chamarei nada ao raio que te trouxe.

Morrer é um país que tu amavas. E eu venho
Eternamente por teus sombrios caminhos.
Destruo teu desejo, tua forma, tua memória,
Sou teu inimigo que não terá piedade.

Chamar-te-ei guerra e sobre ti
Tomarei as liberdades da guerra. Terei então
Em minhas mãos o teu rosto, obscuro e traspassado,
E em meu coração o país que acende a tempestade.

Da crepitação noturna de uma terra supliciada,
Necessita a luz para surgir
E é de bosques tenebrosos que a flama salta.
O próprio verbo sonha a essência
Uma plácida margem além do canto.

Para que vivas, precisarás transpor a morte.
A mais imácula presença é um sangue entornado."

Yves Bonnefoy
Tradução: Lenilde Freitas

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Pedido

receba um pouco
deste peso da armadura, este corpo
defeituoso, olhos vermelhos, marcas de catapora,
inúmeras aftas, inflamações, sobrante ácido lático,
fantasmas em linhas tortas em pele calejada,
mas nada falta
nem uma unha, um punho, um dente, um queixo, um cacho,
deixa eu cair nuns braços por ao menos
mais um pouco
depois escorra o que resta,
joga no ralo, não se despeça,
este corpo só quer
fim de disputa.


Ellen Maria

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Son(h)o

Não seria discussão
mas manha
na hora de dormir
um pouco mais, diria
e eu fechando os olhos
concordaria
um pouco mais
até que a respiração mais profunda
fizesse soprar
é noite, é noite
minha mão em seu rosto sente
você a colocou aí
e também fechou os olhos.

Ellen Maria

terça-feira, 19 de abril de 2016

Indobrável

saudade dos dedos enrugados
dos remendos possíveis
e da velhice longínqua

passou o tempo
das piscinas de plástico
abre um vão
e a enxurrada no quintal
olho o céu
parece que ele não vem
também não tem
nem uma nuvem.


Ellen Maria

segunda-feira, 18 de abril de 2016

TV (ou marcas de poder)

veja com atenção:
eles homens sábios e sérios
estalam os dedos
pressionam as falanges assim
produzem um barulho que não se escuta
e as bordas das unhas contra a pele
desenham meia luas como chagas
agora levam um destes extremos à boca
mordem a beira do calo
com a ponta do dente
calmamente
e um movimento linguístico
lança o ínfimo excluído
pedaço de carne
para longe.

a câmera grava
e você
viu?
toda sua atenção em quase nada.


Ellen Maria

domingo, 17 de abril de 2016

El problema del duelo

"Una hormiga muere y nadie la llora
Un pájaro muere y nadie lo llora, salvo que se trate de un ibis nipón
Un mono muere, los monos lo lloran
Un mono muere, los hombres le levantan la tapa de los sesos
Un tiburón muere, y otro tiburón sigue surcando el agua
In tigre muere, un hombre lo llora, llorándose a sí mismo
Un hombre muere, hay quienes lloran y quienes no
Un hombre muere, hay quienen lo lloran y quienes aplauden
Una generación muere, y la próxima básicamente no la llora
Un país muere, y a menudo deja apenas historias controvertidas
Un país que no deja historias controvertidas no es un verdadero país
A menos que se trate de un verdadero país, un país muere y nadie lo llora
Nadie lo llora, quiere decir que el viento sopla en vano
Quiere decir que el río corre en vano, que en vano embiste las rocas
En vano brilla su oleaje, en vano produce espuma
El río muere, no corresponde a los hombres llorarlo
El viento y el río corren juntos hacia el océano, un océano vasto como en Zhuangzi
El océano vasto muere, y vos también tenés que morir
El rey dragón muere, vos también tenés que morir
La luna no se lamenta, porque en la luna no hay nadie
Las estrellas no se lamentan, no son de carne y hueso."

Xi Chuan, 1963.
Traduc. Miguel Angel Petrecca

sábado, 16 de abril de 2016

hoy

"Hoy que el dolor se empeña en ser caricia
en mi ciega costumbre de esperarte
siempre
como a escondidas
en este rincón húmedo
de tanta madrugada
viviendo en un reloj
que no se calla;
ahora que la luna se ha cansado
de buscarnos en abrazo y sin normas
-como también yo-
me atrevo a confesarte
que llorar no era un lujo para mí
ni todas estas tardes de diciembre,
tan largas.
Ahora he comprendido que es posible
tu boca sin la mía
y me retiro
antes de que conquistes nuevamente mi espalda
y a mí no me parezca suficiente."


Marianne Ruiz, España, 2014.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Piada pronta

e depois da piada
disse o português
ao brasileiro
na língua dele:

- pois
vai
estar
tendo
troco.

Ellen Maria

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Despedida (ou sistema anti-circular)

tem ar
e tem outra coisa
um vazio

que não faz eco
porque não tem voz
que entre

mas tem
também
mil gritos apertados
qual é mesmo a palavra

sufoco

não não
é mais esganado
se engana quem pensa que tem
não tem

não é presença
nem ausência
de som
só é

silêncio

expiro quando corro
sem voltar
escuto a caixa
no ouvido
não tem
pálpebras
nem cílios

inspiro

o que não é visto não existe
ou insiste
em ser lembrado
é isto
e aquilo
às vezes persiste mais

e sibila
acentuado
rouco
zumbido
e ressoa
até o infinito

mas às vezes nada.

um sistema anti-circular.


Ellen Maria

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Silêncio, agora

não se define
saudade
dizem que é impossível habitar
dois espaços ao mesmo tempo
ma(i)s que fumar no deserto
é isso.


Ellen Maria

terça-feira, 12 de abril de 2016

Terapia de choque

"A verdadeira escolha com relação ao trauma histórico não está entre lembrar-se ou esquecer-se dele: os traumas que não estamos dispostos a ou não somos capazes de relembrar assombram-nos com mais força. É necessário então aceitar o paradoxo de que, para realmente esquecer um acontecimento, precisamos primeiramente criar a força para lembrá-lo. Para responder a este paradoxo, devemos ter em mente que o contrário da existência não é a inexistência, mas insistência: o que não existe continua a insistir, lutando para passar a existir."

Slavoj Zizek.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Desejo e experiência

"O desejo, ao contrário, pertence à categoria da experiência. 'Aquilo que desejamos na juventude, recebemos em abundância na idade madura', escreveu Goethe. Na vida, quanto mais cedo alguém formular um desejo, tanto maior será a possibilidade de que se cumpra. Quanto mais se protege um desejo distante no tempo, tanto mais se pode esperar por sua realização. Contudo, o que nos leva longe no tempo é a experiência que o preenche e o estrutura. Por isso o desejo realizado é o coroamento da experiência. Na simbólica dos povos, a distância no espaço pode assumir o papel da distância no tempo; esta a razão porque a estrela cadente, precipitando-se na infinita distância do espaço, se transformou no símbolo do desejo realizado. A bolinha de marfim rolando para a próxima casa numerada, a próxima carta em cima de todas as outras, é a verdadeira antítese da estrela cadente. O tempo contido no instante em que a luz da estrela cadente cintila para uma pessoa é constituído da mesma matéria do tempo definido por Joubert, com a segurança que lhe é peculiar: 'O tempo - escreve - se encontra mesmo na eternidade; mas não é o tempo terreno, secular... É um tempo que não destrói; aperfeiçoa, apenas.'"

Walter Benjamin.

domingo, 10 de abril de 2016

pesadelo

no grito pelado
acordo
mão na testa:
a febre é interna.

Ellen Maria

sábado, 9 de abril de 2016

proustiana

"e eis que
por falta de microondas
você requenta
um café com leite
numa panelinha
e seus avós
mortos
saem voando
pela cozinha
junto com a fumaça
açucarada
e pousam
aqui
bem
sobre
este
teclado."

Paloma Vidal

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Conejo

"La soledad se escribe
cuando uno de los pies
vuela hacia delante del otro
cómo iremos a ese lugar
si sólo existe cuando sueñas
si no hay conejos en la calle
si los niños aprenden
          a sacarse el corazón."


Hanna Figueroa

quinta-feira, 7 de abril de 2016

dentes

"sonhei com dentes. de manhã perguntei ao grande oráculo o que quer dizer sonhar com dentes. leio: em serra leoa, kadhiatu abkar faz esculturas em dentes. pequenas paisagens, caveiras, animais, castelos. não em dentes caídos, em dentes vivos, ainda na boca. como se um elefante permanecesse com seu marfim esculpido. assim, ela diz, os sorrisos são mais frequentes. é como cortar os cabelos para mostrar brincos novos, exibir o corpo onde pousam novas tatuagens. fotos anônimas mostrando os sorrisos com as esculturas de kadhiatu foram expostas em 2011 num pequeno museu de makeni. kadhiatu, que perdeu todos os seus dentes ainda na adolescência, nunca sorri."

veronika paulics

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Realidade

e eu metida as piras das catástrofes
neta de quem sou
filha de quem diz
não vejo programa sensacionalista na tv
nem ouço rádio patrulha
mas penso
que se morrer na esquina
contra o poste do posto de gasolina
qualquer dia desses
vou deixar minha tese pela metade
nenhum filho no mundo
graças a deus
e no último segundo de sanidade
ou consciência
que deve ser a mesma coisa
minha cabeça vai explodir
de alegria
ufa! até aqui sobrevivi
como virgindade de vagalume.


Ellen Maria

terça-feira, 5 de abril de 2016

ou procrastinação

preparar a lista com esmero
e não cumpri-la
pela emoção de transgredir
e se arrepender
daquilo que
(sem querer querendo)
viveu
não vivendo.

Ellen Maria

segunda-feira, 4 de abril de 2016

retenidos y perdidos

cuando recuerdo no recuerdo
invento
una lista de cosas
yogurt
arvejas congeladas
cactus
libros
compu
balones
aguas
calefón
polvo
no me acuerdo del sexo
solo de los bailes
y las cahuamas
y las series con pizza
el diario en la radio
poesía poesía poesía
y nada
dos viajes
explosión de fuego
luna
medicinas
cafés
no me acuerdo del beso
lágrimas
fiebre
a veces creo que no hubo
más que esa lista
hasta que me acuerdo.

domingo, 3 de abril de 2016

Crer-Sendo

"Preciso amar de menos
de menos a mim e mais atento
preciso amar atento
atento pra não ceder por dentro

por dentro que está
por dentro que palpita aqui por dentro
amar jamais será demais
e equilibrar

não há
não há porque viver
se não pra crer e ser crescendo sendo
não há
não há porque amar
se não pra semear conhecimento

preciso amar sabendo
sabendo que às vezes só eu só e só
preciso amar eu só
que é só que só me encontro dentro

por dentro que está
por dentro que walkie talkie por dentro
amar
e equilibrar."

Lucas Castello Branco

sábado, 2 de abril de 2016

O vento

"E o esforço pra lembrar 
é vontade de esquecer."


sexta-feira, 1 de abril de 2016

Preguntas

"Ya que navegas por mi sangre
y conoces mis límites,
y me despiertas en la mitad del día
para acostarme en tu recuerdo
y eres furia de mi paciencia para mí,
dime qué diablos hago,
por qué te necesito,
quien eres, muda, sola, recorriéndome,
razón de mi pasión,
por qué quiero llenarte solamente de mí,
y abarcarte, acabarte,
mezclarme en tus cabellos
y eres única patria
contra las bestias del olvido."


Juan Gelman