quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A dura matéria do pensamento

"Estar sola me hace pensar
en el realismo de las cosas quietas

soy objetiva:
                             las cosas están quietas
porque nadie las mueve

son obedientes y serviles.

*

Me siento en la cocina en un banquito
como si me sentara en una piedra
y me sostengo la cabeza con el puño de una mano
pero no soy el hombre que piensa:

tenso el cuerpo es tiempo de la fruta
que madura se deja caer como una idea:

si hubiera una justa medida del peso
la cabeza pesaría menos."

**

Estar só me faz pensar
no realismo das coisas paradas

sou objetiva:
                          as coisas estão paradas
porque ninguém as move

são obedientes e servis.

*

Sento na cozinha em um banquinho
como se me sentasse em uma pedra
e me sustento a cabeça com o punho de uma mão
mas não sou o homem que pensa.

tenso o corpo é tempo da fruta
que madura se deixa cair como uma ideia:

se houvesse uma medida exata do peso
a cabeça pesaria menos.


Liliana García Carril
Tradução: Ellen Maria

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

so sorry

Minha pele resiste
gritam contraídos também os músculos
insisto, fecho os olhos,
contrariado voluntariamente
movimento o esqueleto em direção a ela
um caos -flecha/versus- uma calma
a receber meu corpo
qualquer corpo meu, velha cara
eu ainda/já/não sou o mesmo de antes
claro que ela nota
seu corpo inspira expira dilata expande
me estiro envergonhado-envergado na cama
ela não diz nada, só sorri
parece feita de água, madeira e pedra
o ar condicionado do quarto também (so sorry) parece começar a funcionar
o que será que ela viu/vê? que será que sente?
um gesto delicado (guardar imagem mental) anuncia o desfecho:
ela toca meu braço
e levanta.


Ellen Maria

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

descartando a possibilidade do baralho de fazer mágica
sobra o macete do truque:
a maioria do público dá meia volta
enquanto
um homem de sapatos apertados não chora
e janta só
guarda tupperwares na geladeira
e certo brilho refleti(n)do naipes
quando olha pela janela.

Ellen Maria

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

uma viagem

Noite estrelada sobre uma velha colcha de retalhos
visito o oriente entre gotas de ebriedade
e lambidas de consciência    
me perco       em meio a cangurus e meridianos
caminho       e caio em temperos         peregrino outros fusos 
encontro com folhas de louro        e quando 
um sol alaranjado se apresenta,
estou de volta à américa.
Meus olhos se abrem antes de se porem.
Assim na terra, praia grande,
uma imagem não termina de clarear
liquidando para sempre
qualquer possibilidade de vida em vão.

Ellen Maria

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Os sentidos

Para Mila Dias

nós sempre nos encontramos de vez em quando em restaurantes baratos. o abraço sempre cheira a ervas, camomila, capim limão, uns matos que eu não sei o nome, ela me ensina. somos só duas amigas que se querem de imediato como tomate cereja e berinjela cozida. costuma durar três horas em média, o fogo é lento, porque assim podemos observar também a paisagem: as pessoas aqui não jantam com tanta pressa, sobra gentileza pelos funcionários, o dinheiro mal pesa no bolso, ninguém reclama. todos e nós nadamos borboleta em uma piscina de águas claras à vista enquanto conversamos. há cumplicidade no gesto líquido de ouvir a outra. tem ciscos no olho caindo como chuva de coentro e orégano na salada, gosto de choro, enquanto bocas se abrem como quem descasca um alho, o riso solto. o coração é de alcachofra e tem sabor a vinho e sopa quente no inverno, sanduíche de shitake no verão. é uma delícia. a fome é sincera, mais que a saciedade. ninguém sente que a noite chega. nós temos que ser avisadas. "já encerramos o expediente". é, sem dúvida, o pequeno fim do melhor das horas e das folhas do calendário. as palavras de sobremesa acabam sendo na porta da entrada. e não há saída: ficamos entre nós por muitos dias seguintes. é que a amizade é assim como um doce que nunca enjoa.

Ellen Maria

domingo, 6 de dezembro de 2015

Quer pagar quanto?

"Quantos likes merece esse lindo sorriso?
E essa selfie com o pessoal do trampo?
Esse domingo no parque com meu amor?
Quantos likes merece esse vídeo engraçadinho?
E essa notícia, quantos?
Esse filé ao molho madeira?
Meu candidato, quantos likes?
Minha geladeira nova?
Meu casamento?
Quantos merece minha cadelinha?
Minhas noites de aventura?
A trilha sonora da tarde?
A minha cara de inteligente?
E essa citação tão bonita, diz aí?
Quantos likes merece esse poema da Clarice Lispector?
Minha determinação, minha atitude?
Minha alegria de viver?
Vai dizendo.
A mensagem na camiseta deve valer alguma coisa.
O placar da última rodada?
E a minha família sempre unida?
Minha última viagem para a praia?
Minha vida passada a limpo?
Quantos? Quantos?
Deve valer alguma coisa.
É claro que deve valer alguma coisa."

Bruno Brum

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Un círculo imaginado

Magia.
Una pareja de manos se dibuja
y se adora infinitamente
al sonido de cuartetos y boleros.
Él debe saber a azúcar quemado,
como la voz del cantante que me envía
Una verdad no se escribe con versos,
balbucia, es un baile entorpeciente
contieniendo dosis flameantes al oído.
Te huelo salado en mis sueños, susurra,
contando los pasos que empiezo a dar
hacia ti, lejano poema,
que me toma tímido con vermut,
y después desea los ojos a besos
el cuerpo vibra solo
y me invita a la errancia que ronda
el explote del sol y el temblor de la tierra
No se despierta ni envidia
lo tiene todo en su palabra
por hora caramela mañana
quién sabe
como el alcohol evapora.


Ellen Maria

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

declama e ouvido

teu texto não fragmento
não fujo ainda que agora
doa, é sofrimento
ausência 
de um bocado de explicações
escuto
tua língua afila
mas é um manto de feltro
verde que me cobre
um rio doce que chora e lava
e
meu olho suga 
um pedaço de outra dimensão

que se sustenta

meu sorriso te anuncia
não estou mais só
teu olhar afirma
desadoeceu um buraco negro 
por dentro
a natureza devora
tudo que brilha
e devolve em silêncio
tempo
tempo que implora
um pouco mais de tempo (respira)
dentes em parassintética sintonia
isto é, poesia em expansão.


Ellen Maria