quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Os sentidos

Para Mila Dias

nós sempre nos encontramos de vez em quando em restaurantes baratos. o abraço sempre cheira a ervas, camomila, capim limão, uns matos que eu não sei o nome, ela me ensina. somos só duas amigas que se querem de imediato como tomate cereja e berinjela cozida. costuma durar três horas em média, o fogo é lento, porque assim podemos observar também a paisagem: as pessoas aqui não jantam com tanta pressa, sobra gentileza pelos funcionários, o dinheiro mal pesa no bolso, ninguém reclama. todos e nós nadamos borboleta em uma piscina de águas claras à vista enquanto conversamos. há cumplicidade no gesto líquido de ouvir a outra. tem ciscos no olho caindo como chuva de coentro e orégano na salada, gosto de choro, enquanto bocas se abrem como quem descasca um alho, o riso solto. o coração é de alcachofra e tem sabor a vinho e sopa quente no inverno, sanduíche de shitake no verão. é uma delícia. a fome é sincera, mais que a saciedade. ninguém sente que a noite chega. nós temos que ser avisadas. "já encerramos o expediente". é, sem dúvida, o pequeno fim do melhor das horas e das folhas do calendário. as palavras de sobremesa acabam sendo na porta da entrada. e não há saída: ficamos entre nós por muitos dias seguintes. é que a amizade é assim como um doce que nunca enjoa.

Ellen Maria

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