segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Não se nasce mulher, torna-se.

Simone de Beauvoir estava certa. Nasce-se do gênero feminino, mas ser mulher é uma ação (/estado/essência) que precisa de tempo, consciência, e vários outros fatores, internos e externos. É questão de sentir, lutar e conquistar esse direito. Uma das coisas que me fez pensar nisso essa semana foi um momento ínfimo e discreto na faculdade. Uma discussão tomou forma na aula do mestrado, e entre os dois professores e os quatro alunos, duas posições diferentes foram levantadas. Eu tomei um partido, e outra aluna, aparentemente da mesma idade que eu, tomou outro. A discussão ficou bastante interessante, com argumentos sérios de ambos lados, até que depois de uma fala um pouco confusa da moça, levantei a mão e disse: "Mas aí você está se contradizendo". E comecei a discorrer meu ponto de vista. Ela que, visivelmente, levou para o lado pessoal, fechou a cara e a partir desse momento, passou a contestar qualquer coisa que eu dizia, até bobagens que nem faziam parte do assunto coletivo.
Tornar-se mulher também é tornar-se adulta. Descobri nesse instante: quando percebi que era capaz de não alterar minha postura nem ficar ofendida com ela, quando percebi que não estava interessada em responder as grosserias da menina, que mesmo sendo da minha idade, ainda precisava se afirmar na sala de aula, diante dos outros, e eu já não senti necessidade de nada disso. Saí da sala me sentindo mais velha que ela e também adulta, por fim.
No corredor ainda, quando acabou a aula, me lembrei de um episódio que aconteceu num simpósio anos antes, quando vi uma conferência de um espanhol e uma argentina, ambos já conceituados na área acadêmica. O espanhol levantou hipóteses em sua fala que a mim e a outros na platéia (vi pela cara que uns faziam) pareciam absurdas; eu, na cadeira, comecei a me exaltar, mesmo em silêncio, (já que não podia participar), e entrei em pânico querendo estar no lugar da argentina, para responder de imediato as ideias incoerentes do homem. No entanto, a argentina, mais velha e mais experiente que eu, deixou ele falar o quanto quisesse, e depois, mesmo não concordando em absolutamente nada que ele postulou, respondeu num tom ameno, usando palavras muito educadas, e soube se posicionar num ato de tamanha elegância e que me deixou de boca aberta: ela falou tudo o que eu queria falar, mas da melhor forma possível, e ainda falou de muito mais, que eu não fazia ideia. Saí do simpósio, ao final da conferência, confessando a uma colega que eu nunca poderia ter esse tipo de atitude que a argentina teve, que na verdade eu tinha tido uma vontade louca de pular no pescoço do espanhol, pra mostrar pra ele que era uma loucura tudo aquilo que ele tinha dito. O que minha colega respondeu que um dia eu iria conseguir reacionar como a argentina, e "colocá-lo no lugar dele", disse, que só me faltava mais maturidade e paciência, mas que o tempo se encarregaria de me formar. Na época pensava que minha colega estava enganada, que era alguma coisa de personalidade, que eu sempre seria explosiva e defenderia com unhas e dentes minha opinião.
É... o tempo me mostrou que a enganada era eu. Hoje, ao menos, compreendo, que ser adulta não é só ter correspondência chegando em meu nome, não ter vergonha de comprar camisinha e absorvente na farmácia, decidir meu voto e se esse mês vou menstruar ou juntar uma cartela de pílula com outra. Ser adulta é resolver não comprar uma briga, quando não tem importância, ou saber comprá-la, sem cair do salto.

Ellen Maria

Um, dois,

Te chamo pra festa,
tímido você titubea
mas avança.
Me gira com graça,
me abraça sem pressa
me ergue e balança.
Me pede uma pausa
(sei que essa coisa
de salsa te cansa)
e uma proposta te lanço:
Me leva pra casa
te ensino uma valsa
onde você me alça
e eu te canso.
Aceita ser meu par
em mais essa
contradança?

Ellen Maria

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

banho, mesa e cama.

casa limpa
lençol trocado
unha feita
cabelo lavado
calcinha nova
saia passada
feijão no fogo
carne assada
tevê ligada
te espero sentada
te espero sentada
te espero sentada...

Ellen Maria

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Mujer, a poco.

No hago caso
si me equivoco
me importo poco
si te incomodo.

De mi carga
me encargo
desde la cama
hasta el orgasmo.

Ellen Maria


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Questão de Ordem

Mas quando a casa
cai, o mascarado
descarado
quer emprestado
uma cara
a tapa, coitado
quem usa máscara,
do meu pão, não
merece a casca.

Ellen Maria

silêncio & som

Se o que sinto
é sincero
não minto
berro.
se meu ouvido
ouvir meu eco
não carece!
volta pra mim
o que quero dar
a quem merece.


Ellen Maria

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Qué es un amor merecido?

Qué es un amor merecido?
un amor multiplicado
o un amor dividido?
un amor sembrado
o un amor florido?
un amor abortado
o un amor parido?
un amor atrapado
o un amor huído?
un amor diseñado
o un amor cosido?
un amor declarado
o un amor prohibido?
un amor perfumado
o un amor hedido?
un amor soñado
o un amor vivido?
un amor de paso
o un amor marido?
un amor desnudo
o un amor vestido?
un amor sólido
o un amor líquido?

Ellen Maria

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

geléia viva

sedenta
ela fez toda
uma festa
ele era todo
bem-vindo
até que o fim foi vindo
até que o fim foi sendo
e a festa dela
que não queria acabar
não pode durar
e o que era muito
virou pouco
e acabou
cedendo.


Ellen Maria

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

ele/ela

"Flávia? Oi. Vc tá falando com quem? Com o Alan. Hummm... Pergunta se ele vai no Belas Artes. Ele disse que vai. Ta, deixa eu falar com ele depois. Alô, Alan. Fala Juliano! Então você vai no belas artes? Vou sim. Vamo aê? Ah então, não vou. Mas queria que vc me fizesse um favor meio estranho. Fale. Então... preste atenção lá. Se você ver uma garota baixinha e com cara de brava, pergunte se o nome dela é Ellen. Se for, fale que o Juliano mandou um abraço!... ou melhor, um abraço só não. Um abraço e um belo de um beijo, ok?... Como assim? Haha, então, preste atenção apenas. Beleza.
Será que é ela. Ah, desencana. Se bem que parece. Parece com aquela foto em que ela está de cabelo molhado. Nossa, bonita ela. Mas não deve ser. To olhando e ela não faz nada. Desencana. Não. Ai. Juliano! Tá na hora! Vamo pro milo ou não? Vamo, vamo. Não. Vai lá, porra. A Megera Domada. 2005. Direção de Davi Richard e lembrou dela. Fale que você outro dia ouviu kings of convenience e lembrou dela. Tímido. Oi, seu nome é Ellen? Encabulado. Tudo bem? Confuso. Não me lembro que se foi assim que cumprimentei. Rápido. Confuso. Quente. Ela estava suando. Achei engraçado, mas quando olhei eu também estava. Molhado. Foi bom. Bem bom. Cheguei em casa, exausto. Estou exausto. Durmo ou não durmo? Não dormi. Não na hora. Fui na padaria primeiro. Comprei e comi pão de queijo. Agora sim durmo."

Juliano Domingues

domingo, 13 de outubro de 2013

perjuicio de clase

La gente cool apesta
pero apuesta en la buena esencia
su estética se vende en dolar
su perfume se compra en Francia.
Paga mucho por la alta costura
y hace de su terapia,
tema de literatura
se analisa porque confunde
antojo con locura
cocaína con morfina
comedia con tragedia
o con otro género de aventura.
Y detesta fritura,
sea de vaca o gallina,
pero si le da la gana,
come guano
o lo que sale de la tina.
La masa para ella
es pura basura
solo lo que considera
arte es su cultura pura
lo resto es mera
imitación, mierda, usura.
Pero silencio, criatura!
la gente cool censura
y adoctrina
(aunque con fina blandura)
espejo de su cara
clásica, plástica
estúpida y cretina.

Ellen Maria

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

ser nieta

Nunca pude saber
si su padre quiso ser mi abuelo
porque su hijo nunca quiso ser
mi padre.

Ellen Maria

domingo, 6 de outubro de 2013

último deseo

un pedazo de carne
un trago de vino
un trozo de pan
un sorbo de agua
si el asado es un pecado
y la gula es mi condena
del chorizo más un bocado
voy al infierno de panza llena.

ellen maria