domingo, 28 de abril de 2013

Musa globalizada

Quando ela chegou vestida mini-blusa e um short colorido me pareceu um pouco infantilizada, eu achei muito estado-unidense da parte dela.
Quando ela pediu pra colocar uma mesa na calçada para poder fumar me pareceu um pouco exagerada, eu achei muito argentino da parte dela.
Quando ela pediu um café pure, um croissant e manteiga extra me pareceu um pouco afetada, eu achei muito francês da parte dela.
Mas quando ela molhou o croissant no café, e quase metade do folhado amanteigado caiu dentro da xícara, ela ficou tirando com a colher e comendo como um mingau me pareceu muito desajeitada, eu achei a parte brasileira do pouco dela.
Fiquei louco e disse, em pleno português: Che, I love you, e tasquei-lhe um beijo francês.

Ellen Maria

sábado, 27 de abril de 2013

Ausência

"Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços,
Que rio e danço e invento exclamações alegres,
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim."

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O que é angústia?

"Um rapaz fez-me essa pergunta difícil de ser respondida. Pois depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusive, é palavra que se orgulham de pronunciar como se com ela subissem de categoria – o que também é uma forma de angústia.

Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. Ou não se confessar nem a si próprio. Ou não ser o que realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem de ter angústia – e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.


Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração entenda..."

Clarice Lispector, "A Descoberta do Mundo"

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Mandáme una postal antes de partir

y no pongas fecha.


Babel Brasil Dadá Collage

Nasci e falei português
e do francês só entendo um pouco.
Minha língua preferida é o espanhol.
Eu tenho um avô que se chama Israel.

Dizem que o melhor chocolate é o suíço. 
Duvido.
Comi um paraguaio que estava demais.
Um dos homens de meus sonhos é mexicano.
E meus sucrilhos vêm dos Estados Unidos.

Meu melhor amigo é colombiano.
Gosto do cine coreano.
Fui casada com um argentino.
Fui apaixonada por um italiano.

Quando estou no trem, 
ouço música balcânica.
Uma vez no metrô,
conheci uma angolana.
Tenho roupa made in Tailândia,
Vietnam, Coreia e China.

Meu irmão arranha no japonês,
além de ler Shakespeare no original.
Minha mãe há dois anos estuda alemão
e ainda me perguntam 
por que não sambo no carnaval.

Ellen Maria

terça-feira, 23 de abril de 2013

"Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares."


Hilda Hilst

sábado, 20 de abril de 2013

Retrato de Ellen Maria por Dezenove de Abril


(ou o dia em que se converteu em si mesma).

Acordou às cinco e meia, tomou banho, escovou os dentes debaixo da ducha e deixou a pasta dental escorrer pelo seu corpo junto com a água, como faz todos os dias pela manhã. Ela não tem muitas atitudes sensuais no seu cotidiano, mas essa visão de ver a espuma branca escorrer pelo seu corpo enquanto a água quente lhe aquece, lhe parece definitivamente sexy e lhe ajuda a acordar.
Enquanto tomava seus dois copos de água e comia uma maçã às seis e dez da manhã, ligou o computador para ler seu horóscopo e ver se tinha algum e-mail importante. Ninguém lhe havia escrito desde a noite anterior, e seu horóscopo lhe dizia que até seu aniversário, que datava para dentro de dois meses, ela passaria por um período de reclusão e meditação, ideal para por ideias e prioridades em ordem, além de seguir sua intuição e concretizar objetivos. Pensou no seu mestrado e em conseguir mais alunos particulares. Pensou que precisava comprar uma bota nova e ver seu pai com mais frequência. Já estava vestida para o dia. Sóbria, se viu, examinando-se no espelho. Que adulta séria, disse para si mesma. Decidiu sair às seis e meia de casa, mesmo sabendo que era muito cedo ainda.
Tomou o ônibus em menos de cinco minutos, e surpreendentemente, estava vazio. Havia lugar para sentar e se sentou, ainda que não estivesse cansada. Relaxou. Pensou que como estava adiantada, poderia não descer na estação de trem mais próxima, no qual tomava o trem sempre cheio, mas ir até a estação seguinte, já que o ônibus também passaria por lá. Além disso, da segunda estação, sai um trem vazio a cada cinco minutos... poderia ir sentada até o trabalho, coisa que nunca acontecia durante a semana. Só tinha um porém de tomar aquela decisão: a outra estação de trem é a mesma que seu ex namorado desce para ir trabalhar. Ex esse que não era visto desde julho do ano anterior. Ex esse que pediu distância eterna. Eis que... havia que pensar.
Raciocínio lógico: o horário dele entrar no trabalho era às sete. Por consequência, ele teria que passar pela estação ao menos cinco minutos antes, para bater o cartão no horário correto. Ela, de dentro do ônibus, ainda em condições de descer na primeira estação de trem, olha para seu relógio de pulso. Pelo cálculo, chegaria à segunda estação de trem as sete e dez. Portanto, não encontraria com ele e ainda conseguiria ir sentada, chegando com folga em seu trabalho. Ok, decisão tomada.
Ela chegou à segunda estação de trem às sete e nove. O coração acelerou um pouco. Entrou na estação olhando para todos os caras que saíam dela, passou o cartão, girou a catraca, se dirigiu à escada rolante. Pé direito para subir. Olhou para cima, para o fim da escada rolante, muita gente, e para a escada em sentido contrário, a que descia. E lá no topo estava ele. Seu ex, mexendo no celular. Resolveu olhar para o outro lado até dar tempo dele passar por ela, em direção oposta. Passou, ela sentiu, ela continuou subindo, e ele seguiu descendo. Agora já podia acompanhá-lo com seus olhos, a velha jaqueta de couro caramelo, o cabelo raspado, costas largas. Ela saiu da escada e foi caminhando lentamente pelo corredor até chegar à plataforma. Sentou esperando o trem chegar.
Tremia. Suava. Ofegava. Não se sentia muito bem. Não sentia nada. Estava emocionada? Não sabia. Ainda o amava? Ainda o queria? Não. Já não era nada? Não sabia nada. Mas estava angustiada. O trem chegou, ela entrou e novamente sentou. E pensou em mandar uma mensagem para sua melhor amiga para avisar que o havia visto. Desistiu. Tocou seu celular. Mensagem da melhor amiga pedindo a senha do seu facebook. De certo, queria procurar o ex dela também. Passou-lhe a senha, mas não escreveu sobre o que acabara de passar. Resolveu prestar atenção nas pessoas de pé.
Chegou à estação em que descia para ir trabalhar. Ainda lhe faltava meia hora até a hora de aparecer na recepção da empresa e se anunciar. Sentou, em um banco na plataforma, e resolveu ler. Precisava fugir. Precisava parar de pensar que o viu... O viu! Ironicamente, o livro que levava na bolsa se chamava Realidade. Leu e sublinhou frases por meia hora e foi trabalhar: como sempre, centrada, com humor e planejamento. Seu aluno particular, um executivo estrangeiro, ao final, lhe agradeceu a aula em portunhol e lhe desejou um bom fim de semana.
Ela esperou o elevador chegar pensando que diabos faria no sábado e no domingo, além do costumeiro estudar e ver filmes em casa. Sentiu que envelhecia a cada andar que o elevador baixava. Tomou o trem outra vez e foi até o centro. Precisava comprar um livro num sebo para seu mestrado. Perto do coração selvagem.
Aproveitou para passar na loja de um e noventa e nove. Fazia tempo que queria comprar uma nova colher de pau. A sua já tinha pegado gosto de molho de tomate e brigadeiro. Além de nunca parecer limpa o suficiente. Que pensamento de dona de casa, achava. Na loja, tocava Roberto Carlos, o seu mais novo sucesso. Cantou a música inteirinha junto com a atendente do caixa. Sentiu-se pobre e brega. De fato, era.
Olhou vitrines. Botas. Bolsas. Perfumes. Roupas. Decidiu entrar em uma loja onde sempre encontrava vestidos baratos nos fundos. E outra vez, seguindo a intuição, os encontrou. O mais lindo e barato não tinha seu número. Resolveu experimentar um número maior, mas já sabia que não o levaria. Depois do vestido, largo e grande, olhou-se no espelho da cabine, só de calcinha e sutiã. Sentiu que se parecia à sua mãe. Vestiu sua roupa. Camisa preta, calça jeans e bota cano curto. Cinto. Camisa para dentro da calça. Olhou-se no espelho outra vez. Sim, ela era a imagem da sua mãe. Tentou lembrar-se desde quando começou a usar a camisa pra dentro da calça.
Recebeu, por celular, o convite de almoçar com três amigos. Aceitou, para recusar o que tinha pensado para sua tarde solitária: ler e se deprimir. Com seus amigos, iria rir, comer bem, e de certo, tomar uma cerveja. Inclusive ia contar que viu o ex, mentindo que não sentiu nada, que tudo já passou há muito tempo, que haveria de ocorrer? E como previa, se divertiu e passou a tarde e parte da noite com eles, falou bobagens, contou velhas histórias, relembrou anedotas. Um de seus amigos, o mais antigo, resolveu acompanhá-la até sua casa. Assim, jantariam juntos, e ele poderia dormir no sofá, como outras vezes. Ela sentiu que ele não a queria deixar sozinha.
Pediram pizza. Os dois sabores que ela gosta. Comeram em casa. Ela tomou vinho, um que já o tinha aberto há uma semana, para tomar enquanto via filmes de chorar. Ele tomou cerveja. Ela estranhou ter visita em casa em uma sexta à noite. Estranhou estar em casa com a televisão desligada. Ele disse que era melhor ouvir música e colocou um cd de trilhas sonoras. Ela ligou a TV mesmo assim, mas deixou no mudo. Passava um programa sobre tecnologia e coisas virtuais. Jantaram conversando e, depois, cada um ligou seu computador. Em dez minutos, ele desligou o seu, deitou no sofá e dormiu.  Ela buscou seu melhor edredom e o cobriu. Apagou a luz da sala para que ele dormisse melhor. Sentiu que essas eram atitudes muito maternas.
Resolveu ir para seu quarto, depois de escovar os dentes. Soltou o cabelo. Tirou seu relógio de pulso. Meia noite e meia. Tirou suas botas. Sua camisa e sua calça. Tirou tudo de dentro da bolsa. Carteira, óculos de grau, uma bala de framboesa, celular, guarda-chuva, casaquinho, agenda e caneta. Uma lixa de unha no bolso de fora. Colocou uma calça de moletom cinza, uma camiseta de manga comprida cinza, um par cinza de meias. Pela última vez no dia se olhou no espelho. Já era hora de dormir, e se reconheceu. 

Ellen Maria

Tan solo

"...Tan sólo una mirada,
una pupila sólo para todas las cosas.
Para la aurora y el ocaso,
para el amor y el odio,
para el amante y el verdugo,
la paloma y la víbora,
la estrella y la luciérnaga.

Solamente unas manos
para el cáliz y el látigo,
para la rosa y para el cacto.
Solamente unas manos
para la arena y el rocío,
para mecer la cuna,
y acariciar la sien del esperado,
y abrir el último agujero.

Una boca tan sólo
para el beso y el grito
y para la oración y la blasfemia.
Para el suspiro y la mentira,
para el perdón
y la condena.

Y tan sólo una sangre
para escuchar el tiempo,
para regar los sueños,
para comprar la herida y la agonía,
y destilar las lágrimas.

Ah, tan sólo una sangre
una boca, unas manos,
una mirada solo."


Josefina Plá

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Hai-cai para Dercy

Humo
Todo ese frío
y mi lengua quema.


Ellen Maria

terça-feira, 16 de abril de 2013

perder sentidos

pendiendo la cabeza a un      lado
por la sordera del oído      izquierdo
quedó más cerca el      beso
del cachete      derecho.
delante de su      contacto
la miró      sorprendido
y se puso      mudo.

Ellen Maria

domingo, 14 de abril de 2013

Partilha

"Na separação, 
eu e o cachorro ficamos com meu pai;
 minha irmã e o gato, com minha mãe. 
E cada um de nós passou a ser só metade. "
(José Rezende Jr)


quinta-feira, 11 de abril de 2013

Sem prescrições

Você, minha espinha interna,
que não se vê, 
mas se sente,
que quanto mais aperto
mais presente,
que deixa minha pele dormente 
e é pior que dor de dente,
quando eu penso 
que foi de vez,
aparece outra vez.
Mas não tem mal iminente
que dura eternamente,
já descobri a cura.
chama-se hirudoide.

Ellen Maria

terça-feira, 9 de abril de 2013

Mudanza

"A fuerza de mudarme
he aprendido a no pegar
los muebles a los muros,
a no clavar muy hondo,
a atornillar sólo lo justo.
He aprendido a respetar las huellas
de los viejos inquilinos:
un clavo, una moldura,
una pequeña ménsula,
que dejó en su lugar
aunque me estorben.
Algunas manchas las heredo
sin limpiarlas,
entro en la nueva casa
tratando de entender,
es más,
viendo por dónde habré de irme.
Dejo que la mudanza
se disuelva como una fiebre,
como una costra que se cae,
no quiero hacer ruido.
Porque los viejos inquilinos
nunca mueren.
Cuando nos vamos,
cuando dejamos otra vez
los muros como los tuvimos,
siempre queda algún clavo de ellos
en un rincón
o un estropicio
que no supimos resolver."

Fabio Morábito

domingo, 7 de abril de 2013

Um brinde

Caro leitor, tenho uma novidade para dar-lhe: Nunca tive tantos copos. Talvez meus copos não façam nenhuma diferença transcendental na sua vida, não façam nenhum sentido mágico pra você ou nem te interessem, mas a minha descoberta desta noite me surpreendeu, e me deixou feliz ao tal ponto, que preciso compartilhar com meu Microsoft Word 2007 e com você.
Não, eu não do tipo sou materialista, que se vangloria da quantidade de objetos que compra, guarda e tem. Muito menos faço o gênero colecionista. Tanto que meus copos têm tamanhos e formas de forma totalmente aleatória. Tanto que nem sei exatamente quantos copos eu tenho. Mas a questão é que nunca tive tantos copos e explico porque esta constatação me parece de veras importante.
Talvez você não saiba, mas há exatos sete anos saí de casa. Em 2006, ingressei no curso de Letras, na USP e por isso, me mudei de Santos a São Paulo. Desde o dia que as aulas começaram até 6 de abril do mesmo ano, morei na casa da minha tia. Neste dia, que não coincidentemente, era aniversário da minha tia (e da irmã gêmea dela, a minha mãe), decidi que queria ir morar numa república e procurar um emprego para me sustentar.
Eleito isso, morei em várias casas/apartamentos/repúblicas nos anos seguintes. Com mais três pessoas, mais seis, mais duas, mais uma, mais quatro. Neste tempo, de zero copos passei a alguns, e de alguns a zero outra vez: meus pais me doaram uns, uns amigos me presentearam outros, cheguei a comprar uns outros. Mas, por alguma razão, eles se iam, se rompiam, se despedaçavam, e aqueles que eram de plástico, ficavam velhos, feios e com cheiro estranho depois de meses, e eram jogados fora.
Quando resolvi morar só com meu namorado - depois de dividir a casa com tanta gente amiga e nem tão amiga assim - e como manda a tradição da convivência, compramos juntos copos novos. Dez copos, iguais, tamanho tulipa, como aqueles de chopp, marca de hipermercado barato. 
Esses copos, assim como nós dois como casal, tiveram História: Brindaram várias festas, estavam presentes em dias ruins, como quando soubemos que ele tinha perdido o emprego, e em dias bons, quando depois de alguns meses, ele foi contratado por uma grande empresa... além de vitórias e derrotas do Brasil e da Argentina na Copa de 2010, e nos almoços e jantares cotidianos. Foram bons copos.
Meu namoro-casamento durou dois anos e três meses. E, no final dele, para a não surpresa minha, só haviam sobrado no armário dois copos. Sim, alguns haviam sido acidentalmente suicidados nesta trajetória. Culpa de mãos escorregadias, água ou sabão demais, e pura distração. Já outros foram provocadamente arremeçados, e não, não fui eu que os lancei à morte. Mas foi o assassinato dos copos, ação cometida com o intuito de descarregar más energias e finalizar discussões amorosas, um dos feios motivos de minha separação. Pois é, com o homicídio serial dos copos, meu amor também foi morrendo, na mesma progressão aritmética. Ele saiu da casa onde morávamos, levando os dois copos sobreviventes, mas me deixou outros seis, novos, para começar minha vida, pela primeira vez, morando sozinha.
Faz um ano e três meses que estou nesta situação: morando sozinha. Do estado anterior, além da mesma casa, mantive também alguns velhos costumes. Como o de almoçar pão de forma com maionese e milho, e jantar pão de forma com requeijão e geleia de goiaba nos dias e noites preguiçosos. Mas como um estado novo exige algumas mudanças estruturais, acabei criando também novos hábitos. Como o de guardar os copos de plástico de requeijão e os copos de vidro das geleias, depois, claro, de devidamente esvaziados e limpos.
Os copos de plástico (e suas tampas) serviram para fazer, finalmente, meu kit-tempero. Agora tenho orégano, manjericão, ervas finas, curry, canela, noz moscada e outros condimentos, cada um em seu copinho de plástico, transparente e com a tampa azul, designado por um adesivo com seu respectivo nome. Já os copos de vidro de geleia se uniram aos outros seis resistentes copos de vidro no armário, separados de suas tampas de metal, que foram lavadas e jogadas no lixo reciclável.
Hoje, após secar a louça do escorredor e guardar todos os copos no armário, me dei conta que já não tenho espaço para novos. Quer dizer, cheguei à capacidade máxima de armazenamento de copos. 
Isso significa que: 1. Terei que encontrar um novo fim à atividade de guardar copos, o que pode ser o começo de um novo hábito, como pintá-los e presenteá-los, ou doá-los a quem não tem ou perdeu os seus. 2. Estou mais atenta para não cometer erros do passado (como agarrar um copo com a mão frouxa na hora de lavar a louça e não namorar alguém que destrua as pequenas coisas). 3. Sou responsável e dona daquilo que conservo (sejam meus potes de requeijão ou manias tolas). 4. Valorizo aquilo que conquistei (desde um copo até meu amor próprio). 

Pode não ser muita coisa pra você, mas a partir de hoje, vou abrir meu armário da mesma maneira como me olho no espelho: sorrindo.

Ellen Maria

é... II

Carta a senhorita Ekaterina Fiodorovna Iunge¹

Petersburgo, 11 de abril de 1880.

[...] Permita-me que lhe ofereça um conselho que vem direto de meu coração: dedique-se à sua arte com mais empenho ainda do que até hoje pode dar. Sei, por ter ouvido de terceiros (não tome isso como algo ruim de minha parte) que a senhorita não é feliz. Viver sozinha e remoer continuamente as feridas de seu coração, residindo em meio às suas memórias, pode transformar sua vida algo difícil demais para suportar. Há apenas uma cura possível, um refúgio: a arte, a atividade criativa.

Fiódor Dostoiévski.


¹Ekatehina Fiodorovna Iunge (1843-1913), artista plástica russa, filha do pintor russo Fiódor Robertson Tosltói.

sábado, 6 de abril de 2013

La tienda del Museo

está abierta.
Vendemos
calendarios
marcadores de libros
mousepads
imanes
estuches
carteras
ojotas
relojes
en platos de porcelana
biromes
porta biromes
llaveros
camisetas
réplicas
bolsas
paráguas
lápices
gomas
No se borra el arte al consumirla.
Compra tres lleva cuatro
retratos
anillos
vasos porta vasos
caramelos
juegos de memoria
cerámicas
muñecas
agendas
tarjetas
lleva tres paga dos
postales
cartas
miniaturas
pelotas
ebooks
Encuéntranos en facebook.

Ellen Maria

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A dor e a alegria da chave nova.

             Na lista das coisas que mais gosto de fazer de vez em quando é procurar apartamento. É bem difícil fazer com que a agenda da corretora de imóveis se encaixe com o seu, fazer com que o porteiro do prédio abra a porta ou que o dono do apartamento esteja disponível para liberar a chave. Ainda tem aqueles que só permitem que faça visitação em horário comercial, hora aquela que você também está trabalhando, mas tudo bem, quando o contrato de um aluguel está por vencer, a gente dá um jeitinho de fugir mais cedo, entrar mais tarde e vai procurar apartamento. Eu, você, a gente... muita gente já passou por isso nessa vida.
             O legal de procurar um apartamento pra morar está desde a compra do jornal, a compra da caneta vermelha para circular aquele classificado que te interessa, manter o telefone do lado, fazer ligações, perguntar preços, formas de pagamento, quantos cômodos, se tem garagem, quanto está o condomínio, se o local é iluminado à noite, se está vazio ou mobiliado, etc., etc.
              Aí você vai ver o apartamento. Ver se tem luz, se tem gás encanado, se tem chuveiro, armário embutido, pia, torneira, quantas tomadas, ventilador de teto, infiltração, chaves nos quartos, nos banheiros, varal na área de serviço, se está pintado, cheirando mal, se a descarga funciona, se tem proteção nas janelas, trilho pra cortina, marcas de prego, rodapé, carpete, taco de madeira ou piso frio na sala, buraco para ar condicionado, box no banheiro, lâmpadas queimadas.
              Que nem filme: o corretor vai dizendo as qualidades e as peculiaridades do apartamento e do prédio e você vai escutando, fazendo que sim com a cabeça. Depois, a voz vai sumindo, ficando em segundo plano, enquanto sua cabeça deixa de acenar e começa a pensar, a desenhar maquetes de arquiteto e planos originais de decorador. Aqui vai aquele quadro que ganhei de Natal, ali entra a mesa de jantar, aqui fica bom o guarda-roupa, ali entra a máquina de lavar. Enquanto o corretor fala que este apartamento vai sair rapidinho, porque aquela zona é bem procurada e o apartamento está bem localizado, você vai pensando onde ficaria o sofá, a cama, se vai poder comprar aquele sofá-cama pra hóspedes, se vai ter hóspedes, se vai finalmente tirar a TV da sala para ligá-la menos, ou se cabe um tapete, que você nunca teve, mas sempre quis ter.
             Vai pensando em móveis novos, sabendo que não vai dar pra comprar nos três primeiros meses, por causa do seguro fiança. Vai pensando em contas. Vai pensando nas reuniões com amigos, que você nunca tem tempo de vê-los. Vai pensando se poderia pintar uma parede de azul ou verde, ou ao menos fazer uma textura. Se colocar o micro-ondas num suporte ou em cima do armário. Se melhor luz amarela ou fria.
              É preciso dar a resposta em cinco dias úteis. Se não, tenho que deixá-lo ir, que encontre seu dono. Mas essa sala ficaria boa com meus velhos móveis, poderiam estar de uma forma “x” e quando eu quisesse fazer limpeza em casa e mudar tudo de lugar, ainda tem a forma “y” e “z” que ficariam boas. Quais mesmo as vantagens e as desvantagens deste apartamento? É débito em conta, boleto ou tenho que ir todo mês à imobiliária? Fiador ou seguro fiança?
              É preciso ver outros apartamentos. Em prédios de três andares sem elevador, em prédios de dezoito andares com piscina, prédios de nove andares com sala de jogos e playground, prédios de cinco andares com garagem privativa, prédios de treze andares com coleta seletiva de lixo, prédios em subidas, descidas, avenidas, esquinas, ruas desertas, ruas que enchem, prédios do lado de uma escola, de uma academia, encima de um bar, de um cabeleireiro, longe do meu trabalho e mais ou menos dez minutos caminhando.
             Enfim, contrato assinado. Definitivamente, procurar E encontrar um apartamento estão na lista das coisas que mais gosto de fazer. Chave na mão. E a sensação maravilhosa de entrar em seu novo apartamento. Vê-lo vazio te esperando ansioso para novas histórias. Serei feliz ali? Chorarei muito? Cozinharei para quantos amigos? O que será que as paredes poderão contar depois de mais um contrato de trinta meses? E o que será que as paredes me contarão dos antigos moradores? Haverá fantasmas presos ali? Será que foram felizes? Fecho a porta feliz.
            Daí, chego a minha antiga casa, aquela que o contrato está finalizando, onde tenho que me despedir em uma ou duas semanas e me lembro: agora vem uma das coisas que menos gosto de fazer: empacotar tudo para fazer a mudança.

Ellen Maria

[siempre] De Cuerpo Entero

"Confesarte todas las soledades de este grito a medias para salvar la distancia del no insistas precedido de aquel abrazo que retuviste lo suficiente, porque buena cuenta me di de ese te amo pero ni modo, despacito y pausado, igual que este callarse, junto al café pretexto de me quita el sueño o el cigarrillo que te recuerda lento al consumirse entre el sí y el no me olvides coctel margarita, deshojando una a una tus partes y abarcándote a través de tus cosas que en fila, como esperando turno, se deslizan entre mis dedos provocándome hasta la hora en que el despertador, puesto a la media para la clase de ocho, se levanta y pone en su lugar mis pensamientos.
Y ya en la escuela, jugando a la estudiante que siempre has soñado, aparezcas nuevamente, precisa, justa, acondicionada a mi rutina de pensarte, de situar tu ritmo en las mil y una ondas que planeamos y que de la noche a la mañana, plaf, no quiero ni verte, me enervas, no lo entiendes?, eres, te haces, te hicieron o así naciste. Y mi mente con las pinche mil referencias puestas a tu alcance, desde lejos, desde este caigo en la cuenta que te amo a cienta ochenta por hora margarita infraccionaria, coctel margot de primerísima línea, casi mía.

(...)
Y todo porque qué sabes tú, margarita bonita, de éste deslizar de ojos lejos de otros ojos que observan, o de ese recurrir al magazín del día y agazaparse tras la lectura esperando el momento de saltar y huir de los orostros que acechan cada una de las acciones. Qué sabes de encender un cigarrillo, no para llenarme de ti como camilo sesto, sino para imaginar que la presencia de los demás se congela, y entones, lentamente, como sin mirar mirando acercarse a la primera esquina y correr para olvidar el ángeluz de la media noche y del recuerdo, para luego, ya cansado, regresar al lugar de los hechos, a la misma acera y al mismo miedo. Y ser uno mientras de algún radio lejano se escucha el sabor a tí y a mí y a toda esa sangre que ya no es sangre porque la lluvia arrecia. Entonces la fiebre se va acumulando entre el deseo de escapar o el de plantarse de cara a la circunstancia que aparentemente data de horas, sabiendo que la realidad es otra y que la noche se agranda más allá de su horizonte, más allá de esas líneas rojas entre cielo y tierra confundidos con la sangre asfalto de los alrededores y de julio en esta ciudad que se abre al filo de la navaja o bayoneta, o al ruido particular de la ventidós al corte de un cartucho.
(...)
Qué sabes de esto y de lo otro, de mí y de tí si solamente te ocupaste del sabor a nosotros, irma-margarita-dorantes, y mientras nuestras almas se acercaban más y más, tú solo pensabas en fabricar suspiros.
Y ahora las cabañuelas de mía en septiembre, al parejo de julio, repercutiendo. Yo aquí hermitaño o esperándote a la salida del venite, para luego mirarte del brazo y por la calle, a la hora de la lluvia y con maestro de botánica que también pinta además de matar y de hacer el amor de vez en cuando, a la antiguita.
Hermitaño yo, tú gaviota y margarita a la vez, esparciendo el guerlein de cuadra en cuadra y alegrándote de que no hay tiempos mejores, simplemente casualidades y lo nuestro eso, santito viejo dónde te pondré, estampita en blanco y negro pasada de moda, descontinuada. No, margarita, no te dejes llevar por la corriente, tan siquiera acomoda mi foto autografiada en ese valle de tus misterios ruega por mí.

(...)
Tú margot, gaviota sin hojas y sin alas, en busca de una nueva pose mientras yo aprendo a ser libre y comienzo a dibujarte de acuerdo a mi silencio, casi a oscuras, imaginándote."

Alberto Enriquez

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Argumento

"Y qué tiene de malo
si amo a alguien que no tengo,
que no puedo tener,
que tal vez nunca pinchi vea cara a cara otra vez?
Qué, qué?
Si el destino, la utilidad, la felicidad se joden cada día
dejenme a mí al menos estas pequeña felicidad
y no iré quejándome
que hay dolor. Pues sí! Dónde no?
Por qué el suyo sería más real o fundado que el mío?
Por qué mi felicidad sería absurda, aunque lo sea si lo es
si al fin de cuentas es mía
y si esto para algunos es cerrarse
por qué no dejar que me abra
así sea locura?
Y si es locura
qué amor no es mitad locura?
Y cuál cordura de razón sería la que me descalificara
si de tanto comer, tener y desechar el mundo se pudre ahora?
Y si el mundo están tan jodido
pues me dejamos en paz
que al fin de cuenta el amor será la fuerza
para repararlo.
Y además, la amo y punto,"

Francisco Alonso