domingo, 31 de janeiro de 2016

Dióspiro

"depois do almoço
quando arrastamos a cadeira
um pouco para trás
uma sonolência morna
entrelaçada de luz
entra pelas janelas
ludibria as cortinas
e difusa poisa no vinho

é nessa altura que dizemos:
vou comer este dióspiro
antes que apodreça."


Francisco Duarte Mangas

sábado, 30 de janeiro de 2016

Poemas inéditos

"Siempre me piden poemas inéditos.
Nadie lee poesía
pero me piden poemas inéditos.
Para la revista, el periódico, el performance,
el encuentro, el homenaje, la velada:
un poema, por favor, pero inédito.
Como si supieran de memoria lo que he escrito.
Como si estuviera colmado de mi poesía
y ahora necesitaran algo inédito.
La poesía siempre es inédita, dijo el poeta en un poema,
pero ellos lo ignoran porque no leen poesía,
sólo piden poemas inéditos."

**

Sempre me pedem poemas inéditos.
Ninguém lê poesia
mas me pedem poemas inéditos.
Para a revista, o jornal, a performance,
o encontro, a homenagem, o sarau:
um poema, por favor, mas inédito.
Como se soubessem de cor tudo o que escrevi.
Como se estivessem cheios de minha poesia
e agora precisassem de algo inédito.
A poesia é sempre inédita, disse o poeta em um poema,
mas eles o ignoram porque não leem poesia,
só pedem poemas inéditos.


Fábio Morábito
Tradução: Ellen Maria

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

"Rumor dos fogos"

"se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude visse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição."

Al Berto.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

la ubicación

"1.
Que alguna vez,
aunque sea
una sola e inconfundible vez,
te sea dada
la claridad
de dos
que al pensarse
se sonríen.

33.
Tanto cuidado, tanto ensayo,
tanto planear los bordes de la huida,
tanto escondite gris de refugiada,
no hicieron más que enfurecer la forma
en que me fue lanzado.
Sin piedad, como una jabalina,
el universo me arrojó el amor.
Y yo estaba,
ay Dios mío,
ahí."

**

1.
Que alguma vez,
mesmo que seja
uma só e inconfundível vez,
lhe seja alcançada
a claridade
de dois
que ao pensar-se
sorriem.

33.
Tanto cuidado, tanto ensaio,
tanto planejar as margens da fuga,
tanto esconderijo cinza de foragida,
não fizeram mais que enfurecer a forma
em que foi a mim direcionado.
Sem piedade, como um dardo
o universo me lançou o amor.
E eu estava,
ai meu Deus,
aí.


Valeria Pariso
Tradução: Ellen Maria

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

"Real é a palavra mais bela deste reino em ruínas"

Se o mundo fosse acabar em setembro,
eu continuaria regando minhas plantas
colocando-as ao sol da manhã
seguiria coando e tomando meu café
traduzindo poetas latino-americanos
por gosto puro
rabiscando uns poemas
escrevendo a dissertação
eu definitivamente pararia
de pensar em amor.


Ellen Maria

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Homem-hombre

"Una vez quise ser hombre
para casarme con mi hermana
que ya lleva tres divorcios.
Para amar a mis amigas
que en cada relación mueren un poco.
Quise ser hombre
para fecundar sus vientres,
no de hijos, sino de poesía,
vino tinto, relojes parados,
unicornios azules.
Para decirle a Josefina
cuanto admiro su forma de entregarse.
Para escribirle a Rosi
esas cartas que no llegan nunca.
Llamar por teléfono a Pilar
que espera tantas tardes.
Llenar de caricias prolongadas
el espacio de Beatriz,
que vive sola
y le tiene miedo a los temblores.
Quise ser hombre,
para amarlas a todas y no sentir más
el frío de sus lágrimas en mi playera,
ni mirarlas apagarse,
ni presenciar sus funerales
en sus ataúdes de treinta años.
Quise ser hombre
para invitarlas a volar el periférico,
a bailar descalzas porque el América
le ganó al Guadalajara,
para llevarlas del brazo hasta una cama
donde no tengan que fingir orgasmos.
Pero soy mujer y, aunque puedo
compartir con ellas la poesía,
escribirles cartas,
llamarlas por teléfono,
llenarlas de caricias prolongadas,
volar el periférico,
bailar descalzas,
secar su llanto,
tocar su alma...
No es suficiente.
No les alcanza.
Porque, desde niñas, aprendieron
que los hombres son un premio al que hay que amar,
sin importar si ellos las aman."

**

Ao menos uma vez queria ser homem
para me casar com a minha irmã
que já passou por três divórcios
Para amar minhas amigas
que em cada relação morrem um pouco.
Queria ser homem
para fecundar seus ventres,
não de filhos, mas de poesia,
vinho tinto, relógios parados,
unicórnios azuis.
Para dizer a Josefina
o quanto admiro sua forma de se entregar.
Para escrever a Rose
essas cartas que não chegam nunca.
Ligar para o telefone da Pilar
que espera tantas tardes.
Encher de carícias preguiçosas
o território de Beatriz,
que mora sozinha
e que tem medo de terremotos.
Queria ser homem
para amar a todas e não sentir mais
o frio de suas lágrimas na minha blusa,
nem vê-las apagar
nem presenciar seus funerais
em seus caixões de trinta anos.
Queria ser homem
para convidá-las a voar por aí,
a dançar descalças porque o Cruzeiro
ganhou do Galo,
para levá-las pela mão até uma cama
onde não tenham que fingir orgasmos.
Mas sou mulher, e ainda que possa
compartilhar com elas a poesia,
escrever cartas,
fazer chamadas,
enchê-las de carícias preguiçosas,
voar por aí,
dançar descalça,
secar seu pranto,
tocar sua alma...
Não é suficiente.
Não lhes alcança.
Porque desde pequenas aprenderam
que os homens são um prêmio ao que há de amar,
sem importar se eles as amam."


Rosa María Roffiel
Tradução: Ellen Maria

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Horizonte

"Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa -
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade
Buscar na linha do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade."

Fernando Pessoa

domingo, 24 de janeiro de 2016

Mergulho impossível

Tem um pouco de lava
Tem um pouco de gelo
lava endurecida
gelo derretido
e o silêncio das pedras reina
na encubadora das perguntas
sobre o início e o fim de tudo.


Ellen Maria

sábado, 23 de janeiro de 2016

Dizer amor...

"dizer amor e
despertar o ciclo corrosivo
dos átomos, dos adeuses
dos vermes, versos
carbonos e costuras
nas comissuras dos lábios

a cidade diz: - anda rápido!
mas o sol languidesce a vontade
há sempre homens nas esquinas
- fedendo a álcool, tabasco, urina -
que capacitam os insectos para feridas
para necroses ápteras, uterinas

uma umidade imigrante
asila-se debaixo das minhas unhas
cultivo azáleas e chuvas
espinhos fêmeas
- de cor vermelha -

 no con't'ato com o mundo

uma mulher gira a saia
em sombras e sálvias
em sorrisos adulterados pela solidão
calcula o espaço
com músculos e música
é que aqui não tem mar
e a poesia vacila
entre as tíbias
possibilidades do dia."

Carla Carbatti

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Átomos

"La materia se compone de átomos que nunca se tocan
7,000,000,000,000,000,000,000,000,000 en un cuerpo adulto
entre más cercanos
más se alejan
incluso cuando te sientas en una silla
no la tocas
flotas sobre ella a una distancia minúscula
suspendido por la fuerza con la que
esos átomos se rechazan entre sí
esa fuerza separa y se interpone entre todo
fín de la lección
ahora piensa en ella
y piensa en ti
y piensa en sexo abisal
entre cosas que nunca se tocan
ni se tocarán."

**

A matéria se compõe de átomos que nunca se tocam
7,000,000,000,000,000,000,000,000,000 em um corpo adulto
quanto mais próximos
mais se afastam
até quando você senta em uma cadeira
não a toca
flutua sobre ela a uma distância minúscula
suspenso pela força com a que
esses átomos se repelem entre si
essa força separa e se interpõe entre tudo
fim da lição
agora pensa nela
e pensa em si mesmo
e pensa em sexo abissal
entre coisas que nunca se tocam
nem se tocarão.


Ismael Velásquez Juárez
Tradução: Ellen Maria

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Como nasce um minotauro

"A ideia inicial
era o espaço
livre
vista completa
a todo horizonte possível.

Mas a vertigem
a vertigem levou-me ao chão.

Ergui a primeira parede.

Escorado nela
de costas
admirei fundamente
o espaço:
deu vontade de caminhar.

Mas a vertigem
a vertigem de novo deu-me rasteira.

Mais duas paredes
ergui o primeiro corredor.

Ao fim de toda segurança necessária
foi difícil achar a saída."

**

Como nace un minotauro

El proyecto inicial
era del espacio
libre
vista abierta
a todo horizonte posible.

Pero el vértigo
el vértigo me derrumbó en el piso.

Levanté la primera pared.

Apoyado en ella
de espaldas
admiré afistuladamente
el espacio:
me dieron ganas de caminar.

Pero el vértigo
el vértigo de nuevo me dio un traspié.

Dos paredes más
levanté el primer pasillo.

Al fin de toda la seguridad necesaria
me hizo difícil encontrar la salida.


Andre Argolo
Traducción: Ellen Maria

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Sobre Partir Para os Finalmentes

Já vai tarde quando
o adeus veio antes
Já vai tarde
quando o tempo faltou corda
entrou água
o vidro do relógio aberto
Já vai tarde
quando por insistência própria
ficou tanto quanto achava que tinha que
mas não tinha que nada
Não é dever se não infringimento
de um direito de ir-se
Tem certas coisas que valem a pena
desistir no meio:
uma frase
uma palavra
uma falsa modéstia
vergonha de dizer a verdade
enterrada num poema realmente qualquer
nunca é tarde
para calçar sapatos velhos e partir
para um novo manifesto.


Ellen Maria

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Fui lá comprar mais cigarros e (não) volto já.

Eu presumo que
vamos conversar
na verdade o assunto é
não vamos mais conversar
Eu pressinto que
quero te ver
é um título
do qual o subtítulo é
para dizer que não quero mais te ver
daí eu pito meu cigarro imaginário
engulo seco a fumaça da certeza
e escrevo esse poema que termina antes
do fim    da bituca acesa.
Tudo está dito.


Ellen Maria

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Esfinge

"Não há perguntas. Selvagem
o silêncio cresce, difícil."

Orides Fontela

domingo, 17 de janeiro de 2016

Fala

"Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)"

Orides Fontela

sábado, 16 de janeiro de 2016

Chaves

Não foi mentira a tua pressa, a ansiedade
a suadeira nos segundos antecedidos
à boca tremendo
o beijo molhado
não foram mentira tuas palavras
falamos a mesma língua até
que o caos
que o mundo guardava
que conhecíamos
que ignorávamos
tomou conta de tudo
e fechamos as portas
e as janelas
e sem querer
querendo
nos calamos.


Ellen Maria

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Bird girl (ou o meu poema do dia)

"O papo sobre o boom estava um saco". "Vamos mais além", você me disse, séria, e sentou num banco na parte mais escura da praça. Eu pensei: "Vamos, noite linda". "Queria ser Manuel Puig". Eu ri do alto da fumaça do haxixe. "Não use drogas", eu disse. "Culturas Híbridas é só mais uma pergunta retórica". E lá se vai o meu barato, razor love.


Ellen Maria

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Ávore genealógica

meter um martelo no quarto
um apito no chaveiro
alguns bilhetes nos casacos
dentro de velhos bolsos notas de cem
esconder de quem as memórias
um sabonete entre as roupas
chocolate alpino em uma caixa de joia
uma barra de ferro atrás da porta
inseticida
um pacote de giz de cera
e livros para colorir
esconder de si mesmo parte de si
taças de cristal
cds de bailinho
um vinho caro
um sapato nunca usado para garantir
o que?
pata de coelho
todas as cartas em uma pasta sem elástico
inclusive aquela
que borrada pela chuva
não se entende uma só palavra.


Ellen Maria

The future will be [confusing]

Na porta da entrada
sento à borda da cadeira
enquanto espero
alguém que entre
antes que eu mude
de ideia.


Ellen Maria

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Parnasiano

De tudo aquilo que fugia na cidade
buscava fazer no campo:
Montar em cavalo bravo
Levar coice de vaca
exceto pisar na merda
era mesmo sorte
viver com os porcos.


Ellen Maria

Tres lombrices en la pileta hacen en el fondo un cuadro abstracto

"Esa vez que intenté romper
el domingo en dos
y en la mitad
del peor temporal
bajo la flecha que parte la noche, agita
sus criaturas,
quise pisar la tormenta,
los pies desnudos en el pasto
el cuerpo a la espera de agua ajena

hasta recordar
lo que sale a flote:

lombrices
que tras el diluvio los pájaros
bajan a devorar,
levanté un pie
volví a los saltitos
hacia la zona de confort
bajo las tejas

llovía, llovía en serio
la lluvia no era fílmico
anuncio de otra cosa."

**

Três minhocas na piscina criam no fundo um quadro abstrato

Essa vez que tentei partir
o domingo em dois
e na metade
do pior temporal
sob a flecha que rasga a noite, estremece
suas criaturas,
quis pisar a tempestade,
os pés descalços no mato
o corpo à espera de água alheia

até lembrar
o que brota à tona:

minhocas
que pelo dilúvio os pássaros
rasam a devorar,
levantei um pé
voltei aos pulinhos
até a zona de conforto
debaixo das telhas

chovia, chovia deveras
a chuva não era fílmico
anúncio de outra cosa.


Silvina López Medin
Tradução: Ellen Maria

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Decreação

Uma alma covarde corre em silêncio
ou se espalha em gritaria mentirosa
atua bem que deveras sente
ataca à defensiva
julga ser humilde, mas humilha tudo o que vê
baixinho, aos céus, agradece
por não ser como os outros
e se esconde atrás de um copo
e lida com a vertigem de nariz em pé
(mas sua
quando se olha no espelho
e lhe perguntam o que viu
ofega, sem resposta, e bebe outro gole).
Sabe que nunca foi nada, ou nem isso,
Não pede nada
à estrela cadente
porque não acredita no que vê:
lá se vai mais uma alma morta.
Exige o que não cumpre
berra contra máscaras culpando a violência
& a falta de limpeza do umbigo
Abusa da hipocrisia sem se dar conta
da dívida. Até que um açoite de chuva fria
até que
Já era tempo.
Decomposição.

**

Irony and God
Quis fugir, mas era tarde.
Não haveria teta de vaca suficiente
para tanto copo que queria tomar.
Alma não precisa de férias.
Vergonha não se mata com auto piedade.
trabalhou em manter as mãos ocupadas a diário
e os ouvidos.
Aprendeu a palavra: Decreação
e nunca mais escreveu em primeira pessoa
(mas os pronomes reflexivos no gran cânion)
Ainda falta muito para ela.
Ainda pasta.
E convocadas outras liras
sente baixinho tímida e ainda incerta
pela primeira vez
necessidade
de orar.


Ellen Maria

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Libertad según Quijote

Los días son largos como uñas
pienso que debo hacer algo
la gente corre con pantalones gruesos y muchas capas de camisas
mucha gente corre por correr, veo por la ventana
mucha gente ve por la ventana
y debe pensar lo mismo
mientras comen las uñas.
El albedrío siente frío y se protege,
abandona las palabras.


Ellen Maria

Diarios

"(...) los nombres de los pájaros son tu nombre, y la noche su único canto. Ahí me quedo, ahí aprendo casi todo sobre tu cuerpo cubierto de aves. Me pasa durante la noche, despertar con la cabezza llena de insectos, de zumbidos espantosos, luminosidades aladas, pequeños astros de arena circulando terriblemente deprisa. Me asusto, me quedo tranquilo después, entiendo que todo esto es el alimento que los pájaros defienden, y que el susto es la sustancia fantástica de la que está hecha la noche. entonces, me siento en la cama, cierro los ojos y espero que el blanco de la madrugada coagule en mis párpados, inmovilizado durante horas el hilo, allá fuera el día calienta bajo el resplandeciente sol, medito, programo fugas, planeo la manera más facil de evadirme de esta celda, sin herirme. recojo la ceniza incandescente de la noche, palpo el cuerpo, despierto lentamente, me junto a él y al latir del corazón, me levanto y abro la ventana, ensayo los gestos que utilizaré durante el día, remiendo la máscara que me esconde y que cada noche se rasga, avanzo, avanzo hacia el espejo, recompongo el rostro - como el pintor compone una naturaleza muerta - sin prisa, me reconozco, grito sin soltar ni un solo ruido, hablo sin pronunciar palabra, me interrogo hasta que el día ocupa la superficie del espejo y mi imagen coincide conmigo, desaparece del espejo, cautelosamente, junto a las paredes, camino dentro de mí con la certeza de que la máscara se adhiere con perfección al rostro que se abre al mundo y lo niega."

Al Berto
Traducción: María Mercromina

domingo, 10 de janeiro de 2016

Raízes escuras

acreditar no amor
novamente
ainda é desacreditar
acreditar no amor
novamente
é tornar-se loira.


Ellen Maria

poesia menor

Quando estou meio cheia
uso canudos em casa
Bolhinhas no fundo do copo
de requeijão

E a certeza íntima
E a dúvida exposta
Parte de mim, líquida
Outra, gasosa.


Ellen Maria

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

um gesto de estranhamento

conto a história para ela
e ela ri
principalmente quando digo
aquela parte que não tem graça
todo mundo que conto a história
acha que me conhece
mas só eu sei
o que dela não conto
para ninguém
e é o segredo o que no fundo
faz com que ela seja tão boa
começo a desconfiar
que todo mundo sabe
que no fundo
eu guardo a melhor parte
só para mim
e ninguém liga
porque todo mundo também tem dessas histórias
é o segredo pactuado
que ninguém fala.

Ellen Maria

Caminho

Uma arrancada brusca revelaria pressa
em iniciar viagem
Três segundos depois gritava             Inexperiência!
Era a primeira vez que girava aquela chave solitária
pressionando pedais, empunhando o volante
como em uma foto,
posando dentes alinhados para ninguém
um transporte de carga levava sonhos
de uma zona a outra             da cidade
este carro fazia ruídos
Mas a motorista não se importa
Ela arma um quebra-cabeças          com as ruas que percorre
cruzando linhas novas e informações       que já sabe
para chegar finalmente à casa
de seu amado
Uma freada brusca revelaria pressa
e dessa vez, acerta:
Ela para o carro
e corre aos seus braços.


Ellen Maria

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Entre linhas

a mão no rosto tece
movimento de descoberta
frente ao espelho
nasce outra pele

a segunda mão se despede
daquela que negra
em finos pedaços
cai em aceno

não precisou de muito tempo
uma semana
e tudo parece
ano novo.

Ellen Maria

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Palimpsesto

O chão de terra marca passos que não são meus.
Não sei quem mais anda por este caminho todos os dias antes de mim.
São linhas de botas secas e largas digitais
haverá quem pisa forte para lembrar o caminho de volta?
Trato de deixá-lo intacto
e avanço ao lado com coração e pés de bailarina
acompanhando a marcha         com uma contra dança.
Achará o dono destes traços
que faço eu o verso e estas curvas?
Saberá quem sou?
Se não fosse a falta de chuva
indícios do real se perderiam como memória alagada
Se não fosse a falta de chuva
que lindo e borroso dia hoje seria
mas o chão de terra grita
não estou sozinha
nem ele está.

Ellen Maria

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

2 brazadas

"Al sacar la cabeza del agua
recobrás aire y recobrás parte de lo que suena afuera: viento, el golpe
de unos postigos que se cierran. Al sacar
el cuerpo del agua ves en el verano
en el centro mismo del verano
bajos los árboles
hojas secas.

*

Has llegado al final de otra pileta, has vuelto
a apoyar las manos para alzarte. Qué esperabas,
los brazos no responden.

Ahora andás bajo el agua, sin estilo
en busca del brillo metálico de la escalera."


Silvina López Medin