quarta-feira, 20 de maio de 2015

Diagnosis

(para Djanira e Elza)

Qual flor
desperta cedo
e sem sair do lugar
perambula por aí
respirando a curiosidade
dos que velhinhos
veem tudo como a primeira
e a última vez

Depois segue
recordando a vida
crianças pequerruchas
que se encondem debaixo da saia
da mãe e do pai
sentem medo
mas saltam no pescoço
agarrando sonhos
recolhendo os trapos e as roupas
pedaços de traumas
estendidos no varal

Caminha pela sala
o campo verde
lagos
busca o sol
dá a volta ao mundo
sem quase sair do eixo
girassol

Depois esquece
vegeta vendo televisão
repete qualquer coisa
sobre o artista da novela
parece que se alimenta de luz
pergunta sobre o que vai ter no almoço
e come pouco

Sofre arrancando os lábios
toma os remédios
morde com medo de morrer
sofre mastigando os dentes
sofre devorando o medo
e às vezes vomita
e briga com a morte
murcha

se banha vagarosamente
acariciando os infinitos lábios
que seu corpo enrugado construiu
escala montanhas com os dedos
a pele fina das pétalas

se perfuma
e cheira as costas da mão alheia
que lhe ajuda e lhe beija
veste algodão e agradece a noite
é hora das lágrimas escorrerem pela terra
hidratando os corações-sementes

dorme e sonha com os netos
imaginários
e algum fantasma

Parece que vai viver para sempre

e vai.

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