sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Carta-Resenha

"Aracaju, 8/11/2015.

Minha cara Ellen Maria,

Acabo de ler, neste domingo ensolarado de Aracaju, o seu 'Chacharitas & gambuzinos' e, de fato, me 'foi leve a sua leitura', como desejara você no autógrafo que foi dado no dia 29/10 lá naquele bar na cabeça da av. Paulista que o Eduardo Lacerda converte em animado escritório da Patuá.

Minha prezada, é tão bom quando a gente encontra poesia num livro de poemas. Não me estranhe a afirmação com cara de óbvia. É que as coisas nem sempre têm sido como manda a obviedade: há muitos poemas, e livros de, que se apartam enormemente da poesia - e não me tome também por afetado, elitista ou coisa que o valha.

Diferentemente de quem escreve 'poemas sem poesia' - uns meros pastiches de fenos verbais -, você tem prumo. Senta muito bem à beira deste penhasco. Tem sal, pimenta, olho de lince, grude bom. Maneja o verbo, as emoções, os sentimentos e, gera, como me disse a mim quando era eu adolescente neste negócio o CDA, um grave sentimento de mundo'. Ou, como diz o Gullar, flerta com o espanto eterno em face da vida. Das coisas dela.

E, no seu caso, com um dado mais saliente e plenamente gratificante: você cospe na cara da monotonia. Não é uma poeta protocolar, com tabela de cossenos, carta ao senhor diretor. Ao contrário, tem verve-viva. Sempre revelada em sua iconoclastia que queima feijão, que guarda dinheiro nos tênis, que peida, que fode, que bate punheta, que rememora a família, a casa em que se nasce, que caminha por essa cidade-mundo que é SP, onde há amor e olor de medo e de alegria.

Desde o bar, diante da leitura apressada de 'Teoria do Cansaço' e da 'Insustentável delicadeza do ser', eu já manifestara o meu prazer em lhe ver enunciando o que era pra ser 'sentido com sentido' - você segurou a mesma pisada no resto do livro.

Sim, porque perdoem-me alguns poetas, aqueles 'Brotos de coxa flava e verso manco' e os 'poetas de barba-colar e velutínea' de que fala o mesmo CDA em seu 'Apelo aos meus dessemelhantes em favor da paz', um poema tem que dizer. É da sua natureza: nasce condenado a dizer. Um poema é o carbono do poeta, da vida.

Tem de dizer mesmo que 'o nada', mas no 'nada' ele deve bater na titela do leitor com a lógica do 'sentir' do interlocutor de que fala Octávio Paz - e entender não é o axial. Senti-lo, sim. E você nos faz, mais do que 'sentir', 'entender', e muito, em sua visão, sempre incômoda, irônica, abusada. Diria lírica, do ato de existir.

De um lirismo ácido-moleque que toma pé na tradição jocosa dos 70. Dos 70 de Cacaso, de Ledusha, de Waly Salomão. Leminski? Vom o sabor de o sê-lo via uma guria de pouca barba. Nem prestei atenção em seus flertes com outras línguas para além do espanhol. Vi o que de lusitanamente me disse, e me disse bem. Achei que deveria ter mais cuidado na pontuação de alguns poemas, e senti falta de um índice.

Isso não é uma resenha. É um rascunho de leros para a uma colega 'de profissão', se escrever poesia fosse uma profissão. Daí que eu não saia a catar verso a verso os momentos mais altos da sua poesia. O livro está disponível na Patuá, este grande laboratório do Eduardo. Quem quiser pode beber direto da fonte. Adquiri-lo e lê-lo.

Sem kkks, diria que para ser uma poeta maior e mais completa, só lhe faltaria chamar-se Ellen Maria Martins de Vasconcellos.

Ao ler o poema 'A casa', me chamou a atenção como você e eu tratamos de um mesmo tema com olhar diferente, e lhe passo o que escrevi aqui, no dia 5/6/2014, e que está no meu quinto livro, 'Ainda os Lobos', que a Patuá pretendo publicar. Um beijo, e escreva mais e sempre mais.

Jozailto Lima.

CARPINTARIA

preso à casa; aos olhos
dela. soterrado sob
o caixão da porta principal.

sinto os pregos. a força
dos martelos, a ação
dos homens da carpintaria
e de seus serrotes. o espirro
do barro; os oleiros.

ali, a vida flui e não passa.

as diversas luas e sóis
vão e vêm - e eu lá,
no fundo da madeira, do barro.

cada vez que a casa abre
e fecha, abro e fecho
com ela. movo-me parado.

junto a mim, no fundo do barro
ao calor dos adobes
ao cheiro das madeiras
ao azinhavre dos pregos,
afago a memória
e a anatomia de todas as coisas
que vieram antes,
as que haverão de vir

sem que ninguém jamais
sonhe que naquela portada
há um alguém
que é e está entre argila,
pregos.entre madeiras.

e nada apodrece. tudo
persiste. tudo vivifica,
dá nome a todos os seres
e não distingue a muda das estações.

e ninguém sabe que esse alguém
que sou, emparedado, jamais serei eu."

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