sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Eu sou o cara que você ama odiar

"eu sou o cara
que você ama odiar
morando numa das favelas
da cidade fantasma
trenchtown
back o'wall
sem roupas
para esconder minha nudez
sujeiras e mosquitos cheirando
mordendo 400 anos de carne negra
marcada por açoite e vara
eu sou o cara
trancado a cadeado
nos seus pesadelos
de medusas e górgones
crenças religiosas insustentáveis
que perfuram a lateral
do seu jesus no céu
seu vinagre virou sangue
sua água virou lodo
crucifixo
estrangulando a sua vida
de posturar neocoloniais
é, eu sou o cara
que saiu da
fumaça da ganja
te sufocando ao limite
sem te matar
meus olhos
vendo um deus negro
pondo em dúvida
o que você pensa
desse seu ser espiritual escondido
sombras negras
lançando imagens claras
de uma existência
afogada em
falsas realidades
o negro era belo
até o dia que andei
com meus pés descalços
por essas suas ruas de asfalto
calor sádico

você teria me aceitado
se me reconhecesse pela
time
ou vogue
se você experimentasse
a vida
além dos
portões da classe média
eu sou o cara
que você ama odiar
olha
eu sou agora
o seu novo vizinho de porta."

Mutabaruka.
Tradução: Thadeu C. Santos

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