terça-feira, 14 de julho de 2015

Prólogo

" Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho..."
Luís Vaz de Camões

Quando as noites ganharam patas
e deixaram de rastejar pela beira
respirando cada vez menos dentro d'água
enfiando seu focinho gelado pelo lodo
e abrindo a boca atrás de outras criaturas
que, como elas, já sobreviviam fora do rio
eu deixei de amar você.
Isso foi quando estas já não discutiam se os homens
eram seres inteligentes ou somente os predadores mais ferozes dos últimos tempos
capazes de causar tempestades químicas com a mesma paixão
que aplaudiam um teatro de fantoches
quando às religiões convinham conter a verdade ou à natureza das coisas
e era patrimônio imaterial da humanidade a cultura da memória
Depois, tudo foi epílogo.


Ellen Maria

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