sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Do que eu falo quando falo sobre tênis

Saí para comprar um tênis daqueles que possuem fissuras para não derrapar, lona impermeável, cores da terra, sabendo que ia gastar uma fortuna, mas que valeria muitas trilhas, caminhadas, ilhas desertas. Um tênis que sempre quis ter, quase um ser vivo que acompanharia minhas aventuras, quase um livro de histórias. Um tênis que passei anos dizendo que um dia compraria. Faltava grana e coragem. Até que juntei tudo, saí e encontrei. Encontrei e era perfeito. E encontrei também um bem mais barato, preto e rosa, semi permeável, com umas fissuras diferentes, um outro estilo, mas que igualmente parece servir para o objetivo. É, serve. Comprei esse. Não é exatamente como eu queria, mas comprei. Ainda não usei, mas é lindo. E não consigo parar de pensar porque eu não pedi o meu número, porque pedi um número maior, este é um número maior. E cada vez que vou usá-lo, penso que é um número maior. E não o calço, fico olhando pra ele como se ele fosse me dizer alguma coisa, como se estivesse também olhando pra mim, e acabo indo fazer outra coisa, o deixo sem prova. Mas isso também foi antes. Hoje estou saindo para uma trilha nova, uma viagem daquelas. Vou caminhar quilômetros, encontrar cachoeiras, muita terra, mato, serras. Estou ansiosa. Estou ansiosa para estreá-lo na viagem perfeita. Ele é um número maior, é semi permeável, tem umas fissuras diferentes. Mas não tem nenhum problema. Porque entendi uma coisa. Comprei um tênis que vai me lembrar que às vezes quando a gente espera muito tempo para encontrar o que quer, quando encontra, a gente já quer outra coisa.

Ellen Maria

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