terça-feira, 28 de outubro de 2014

Cinema e Renascimento

Querido Mark, Querida Mania,

Assim como vocês, escrevo em minha língua materna. Não é meu idioma preferido, nem o qual creio que escrevo melhor, mas há certas tradições a manter quando se escreve uma carta. 
Assisti o filme A vida pode ser (Life May Be) há menos de uma semana, numa sexta-feira a noite, sozinha, embora acompanhada de pessoas desconhecidas em uma sala de cinema na cidade de São Paulo. Todos muito bem vestidos. Todos em silêncio. Nem riram da propaganda que passou antes do filme começar sobre um jornal da cidade que diz dar espaço para todas as opiniões que divergem das escolhas políticas do jornal. Em outras sessões, as pessoas riram. Muros.
Quando o filme começou, ouvi sua voz entre névoas, Mark. Sua voz me hipnotizou. Ouvir você foi aprender inglês instantaneamente. Nem mesmo Frank Sinatra tem melhor dicção. Consegui imaginar suas cordas vocais abrindo e vibrando, fazendo o mesmo movimento que as nuvens da imagem que você gravava a Mania Akbari, enquanto sua boca articulava todas as letras e sibilava os poucos esses na leitura da primeira carta. Um espelho da alma.
As montanhas da Escócia também me hipnotizaram, Mark. E os outros cem lugares onde você esteve também. Cada céu, cada chuva e estrada me transportaram a um lugar, e também a um não lugar. Fico imaginando os postos de gasolina em que você esteve, os restaurantes de estrada. Você já reparou como eles são impessoais, Mark? Como uma torta de mirtilos pode ser deliciosa e ao mesmo tempo não ter gosto de nada? O que faz esse pedaço ser só seu e ser de qualquer um? Qual será o ingrediente? Imaginei como você lavava seu rosto e as mãos na pia desses restaurantes, Mark, e depois as esfregava, uma com a outra, para se aquecer.
Os vi em fotos, os vi deitados, em pé, em movimento, observando, viajando, escrevendo. Ouvi suas vozes, suas queixas, comentários, acentos e sotaques. Nunca tinha ouvido ninguém falar em persa. Nunca fiquei íntima de um irlandês. Nunca pensei que iria participar de um road-movie.
Os centro comerciais de Dubai eram tão estrangeiros para mim quanto os memoriais da Lituânia. Hoje não. Os conheci por uma janelinha. Mas não como um turista que enxerga tudo da lente de sua câmera, ou que visita Paris desde a poltrona de um barco pelo Sena. É a fascinação da forca e a consternação do silêncio. Não sei bem como explicar. Os conheci pela dor que rasga a leitura, pela verdade que desaba, ainda que o exterior permaneça intacto. Eu poderia passar horas conversando com vocês sobre os olhares das manequins do shopping e das estátuas do monumento aos mortos.
Assim como analisar em cada cena, cada traço de Martin Scorcese, Abbas Kiarostami, Virginia Woolf, Forough Farrokhzad, e outros cineastas e escritores de quem vocês beberam, e eu beberico. Nomes que me deixaram arrependida de não ter levado um caderninho para anotar todas as referências ditas e escondidas nas entrelinhas. Minha memória não é boa. A caixa é preta. Meu nome não é Pandora.
Mania, depois de vê-la na banheira, e Mark, depois de vê-lo completamente nu, consegui sentir mais a vontade com meu próprio corpo. Foi estranho. Foi incrível. A medida que eu ouvia você, Mania, e a via, tocando suas pernas, era como se estivesse eu com as luvas ensaboadas de espuma. A medida que eu via você, Mark, e ouvia, parecia que era eu que caminhava sem roupa por um quarto de hotel e sentia a cerveja circulando em minhas veias. Deixe-nos acreditar que está começando uma temporada fria. Agora tenho vontade de arrancar meu vestido em qualquer lugar que eu vá. Não o faço. A polícia pensa em grades, os advogados em leis, eu penso em peles. Graças a vocês.
O cinema e a literatura, as artes plásticas, a escultura e a arquitetura, cada minuto seu, Mania, foi poesia para todos os meus sentidos. Assistir com os olhos é bom, mas descobri outros poros abertos, espalhados, assombrados, aturdidos. Maravilhados, prestando atenção nas palavras suas e pausas. Não vi outro filme dirigido por você, Mania. Não conheço One2One, nem 20 fingers, ainda. Conhecerei. As suas cartas acompanhadas de vídeo, áudio e emoção fizeram que a solidão da escritura epistolar ganhasse outras proporções. Eu também estava vendo um ensaio, um documentário. Também estava vendo ficção. Todos em primeira pessoa. A paisagem é real. A solidão é real. O exílio é real. Mas a ausência não. Irã está presente em você, Mania. Foi o que eu mais senti. Você pode morar na ilha britânica de fumaça prateada, você pode visitar o Brasil, Irã a acompanha, não importa onde esteja, como um tapete persa de dois metros, mágico e voador.  Irã está em seus olhos, em sua doença, em sua cura. Irã a acompanha nas cartas a Mark Cousins.
Queria confessar a vocês que a troca de cartas que fizeram tivera mais de um destinatário. Talvez por engano, talvez por intenção. Acho até que já desconfiam. Tive a impressão de que estava vendo um filme feito por amigos, vocês dois, Mark e Mania. Amigos e amantes, de longa data e meus também. E com um amor tão retrato e sem moldura... que embora eu não os conheça, já me sinto da casa, de confiança. Já me sinto recém nascida, outra vez. Obrigada por serem meus Adão e Eva.

Ellen Maria.

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