sexta-feira, 8 de julho de 2016

[...]

"[...]
As crianças que há no mundo, vindas de lunações de objectos
potentes, fechados,
pulsando,
suspensas pela alumiação que as toma braço a braço;
que têm a despontar nas costas
um astro de basalto do seu tamanho.
Refulgem pela boca, ouvem vozes.
Devoram um alimento ardente.
Dormem.
Só é preciso pensá-las, vê-las, pô-las
à mesa com as mãos sobre a toalha, entre facas,
louça, carne
tóxica. Ousoprá-las para que divaguem numa força de ar.
Transmutavam-se.
Que transparência no sono, que ciência.
Alguém as encontrou, não falam, queimam-nas
o combustível astral, a nutrição
violenta. A sua arte monstruosa
é a atenção nos dedos:
separar pelas fendas os planetas,
torso mais torso, membros altos, o cérebro selados de todos
os mortos. Mostram
isso: que a arte que dá a vida
mata.
Ininterruptas. Assombrosas. Contempladas.
[...]".

Herberto Helder

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