quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Ella

"[...]
Entre nós e as personagens que inventamos, que nossa fantasia lânguida consegue apesar de tudo inventar, nasce uma relação peculiar, terna e quase maternal, uma relação quente e umedecida de lágrimas, de uma intimidade carnal e sufocante. Temos raízes profundas e dolorosas em cada ser e em cada coisa do mundo, do mundo que se tornou repleto de ecos, de soluços e de sombras, ao qual somos ligados por uma devota e apaixonada piedade. Nosso risco então é naufragar num escuro lago de águas mortas e estagnadas, arrastando conosco as criaturas do nosso pensamento, deixando-as perecer conosco no abismo tépido e escuro, entre ratos mortos e flores apodrecidas. Diante das coisas que escrevemos, há um perigo na dor, assim como há um perigo na felicidade. Porque a beleza poética é uma mistura de crueldade, de soberba, de ironia, de ternura carnal, de fantasia e de memória, de clareza e de obscuridade e, se não conseguirmos obter todo esse conjunto, nosso resultado será pobre, precário, escassamente vital. 
E vejam bem, não é que se possa esperar da escrita um consolo para a tristeza. [...]"

Natalia Ginzburg

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