sábado, 2 de julho de 2016

ela

"tenho visto cada vez mais nos meus pés os pés da minha mãe, suas mãos nas minhas. nos meus gestos de cortar, misturar vegetais: ela. tenho medo e me assombro. quanto do que sou sou eu e quanto do que sou é esta antiga linhagem que em mim se prolonga e atravessa? mãe, avós e uma das bisavós conheci. algumas tias, uns tios. e os que vieram antes de mim, os que mal sei? cada pedaço meu é de um outro? um quebra-cabeça que também eu preencho ou só faço recompor, agora que é minha vez, num eterno montar e desmontar reorganizando as peças? fomos sempre as mesmas peças? e em que momento a matéria orgânica enfim respira e admira as folhas que caem, o sol que nasce, a dor do outro. em que momento vira mão da mãe nos acariciando o rosto na hora da febre? desde sempre na minha mão, a mão dela, como um segredo: dentro."


v. paulics

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