sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Escudo humano

Ele chega sozinho e ela se assusta, mas não muito. Não é a segunda nem a terceira vez que ela o vê circulando por ali. Mas é a primeira que ele desce do carro. Caminha em sua direção com peito estufado. Típico. Gira a chave do carro entre os dedos até guardá-la no bolso quando está há poucos passos dela. Mesmo vestido de civil, ela sabe bem o que ele é.
Ele a encurrala, ela não foge. Pede um beijo, o que ela nega, voltando a cabeça para o outro lado, dura. Sem morder os dentes.
Ainda nessa posição, ela pede para que ele não faça nada com ela.
Ele a mede de cima a baixo em silêncio, um de seus braços esticado à parede, ela não sabe se mantém a cabeça abaixada ou se já o encara; e com os olhos ainda oscilando entre suas tetas e a mão esquerda no ar contornando as formas do corpo mas sem tangê-la, ele diz firmemente que ela então faça um agradinho em sua pistola, única condição para que você sabe né, uma lembrancinha em troca de uma noite tranquila de trabalho. Ela sabe bem do que ele está falando.
Ele tira a arma da cintura, puxa a alavanca de desmonte, arranca o cartucho de balas e a entrega pelo cano, se aproximando um pouco mais, movimento que ela não tem como retroceder.
Sem tirar os olhos dos olhos dele, ela deixa seus lábios entreabertos, sobe a saia na cintura, e enfia a arma entre as pernas, controlando o tanto que entra e que sai, sem demonstrar nenhuma emoção facial.
Ela repete o movimento até que percebe que começa a escorrer.
Sendo a única responsável pela velocidade a qual maneja o sobe e desce do ferro frio, sabe como fazer se molhar mais rápido.
Alguns segundos mais, e devolve a pistola ao homem.
Ele faz que vai cheirá-la, mas não cheira. Guarda. Sai sem falar nada.
Ela o segue com o olhar. Registra a placa, o carro, as costas, a cara. Quando entra no carro, ele abre a braguilha da calça; ela, na parede, abaixa a saia. Ele faz um gesto a ela, com a cabeça e a mesma mão esquerda de "passar bem".
Ela vai.
Passa o ponto para a próxima. E é a última que passa por isso.


Ellen Maria

Nenhum comentário:

Postar um comentário