- você sabe
que a gente
é o sonho
de alguém?
- é impossível
ter certeza.
paloma vidal
8.7.17
6.7.17
cirugía de invierno
Lo dicho queda, cala,
corroe la leve pulpa que otro construye a solas,
como en la fronda que el otoño ataca.
Porque el otoño seca las hojas
de manera bellísima:
deja en el aire las puras nervaduras,
ésas casi invisibles
en las que reparábamos apenas
y evapora esa verde sustancia que era,
para nosotros, hoja.
Así de pronto terminan los verdores.
Hay que arrastrar cadáveres amados
y consentir el lujo
de la infinita dilación indecisa
y el filo que mutila la voz, la tolerancia.
Ida Vitale
(puta poema)
corroe la leve pulpa que otro construye a solas,
como en la fronda que el otoño ataca.
Porque el otoño seca las hojas
de manera bellísima:
deja en el aire las puras nervaduras,
ésas casi invisibles
en las que reparábamos apenas
y evapora esa verde sustancia que era,
para nosotros, hoja.
Así de pronto terminan los verdores.
Hay que arrastrar cadáveres amados
y consentir el lujo
de la infinita dilación indecisa
y el filo que mutila la voz, la tolerancia.
Ida Vitale
(puta poema)
5.7.17
4.7.17
Impaciente
"El impaciente se ríe de sí mismo porque no aparece
lo real. Cuando se le aparezca, reirá?
La enloquecida por falta de mirada,
no de amor: de mirada, porque ser amado
es ser mirado, hoy por hoy, hay miradas,
se diría que es todo lo que hay. O nos miran
o morimos no mirados, sin ser vistos
en la vastedad que no distingue miradas,
ciudad o no ciudad, sin cuidados.
La mirada, imagen gen-
era, hería en los ojos, heráldica de casa real,
erinia, erinia, caza mayor."
Eduardo Milán.
(no hay mayor)
lo real. Cuando se le aparezca, reirá?
La enloquecida por falta de mirada,
no de amor: de mirada, porque ser amado
es ser mirado, hoy por hoy, hay miradas,
se diría que es todo lo que hay. O nos miran
o morimos no mirados, sin ser vistos
en la vastedad que no distingue miradas,
ciudad o no ciudad, sin cuidados.
La mirada, imagen gen-
era, hería en los ojos, heráldica de casa real,
erinia, erinia, caza mayor."
Eduardo Milán.
(no hay mayor)
3.7.17
Haja
Calma
Não fale mais que
Hoje, só faz o teu
Mesmo quando pareça
que nada acontece
que hoje é sempre
gastura
riso e lágrima
rojão e luto
teu tempo não é teu tempo
calma
que teu tempo vai chegar
Não fale mais que
Hoje, só faz o teu
Mesmo quando pareça
que nada acontece
que hoje é sempre
gastura
riso e lágrima
rojão e luto
teu tempo não é teu tempo
calma
que teu tempo vai chegar
2.7.17
Um animal passeia nas montanhas.
Arranha a cara nos espinhos do mato, perde o fôlego
mas não desiste de chegar ao ponto mais alto.
De tanto andar fazendo esforço se torna
um organismo em movimento reagindo a passadas,
e só. Não sente fome nem saudade nem sede,
confia apenas nos instintos que o destino conduz.
Puxado sempre para cima o animal é um ímã,
numa escala de formiga, que as montanhas atraem.
Conhece alguma liberdade, quando chega ao cume.
Sente-se disperso entre as nuvens,
acha que reconheceu seus limites. Mas não sabe,
ainda, que agora tem de aprender a descer.
Leonardo Froes
Arranha a cara nos espinhos do mato, perde o fôlego
mas não desiste de chegar ao ponto mais alto.
De tanto andar fazendo esforço se torna
um organismo em movimento reagindo a passadas,
e só. Não sente fome nem saudade nem sede,
confia apenas nos instintos que o destino conduz.
Puxado sempre para cima o animal é um ímã,
numa escala de formiga, que as montanhas atraem.
Conhece alguma liberdade, quando chega ao cume.
Sente-se disperso entre as nuvens,
acha que reconheceu seus limites. Mas não sabe,
ainda, que agora tem de aprender a descer.
Leonardo Froes
1.7.17
Cautiverio
Esta cueva es mi casa
esta lentitud y esta métrica
para caminar entre las cáscaras
es mi diálogo con el bosque
mi forma de no olvidar el regreso.
El sendero original estará lleno de maleza
Habrán levantado una fábrica, un templo
una antena provisoria
que baje el mundo a las alturas
Soy la bestia en un rectángulo
que podría ser la habitación de un hombre
donde entran él y su cama
y con suerte una silla
Dar el zarpazo a la mosca atraída
por la corpulenta pasividad y el encanto
de la antigua destreza
Pensar en ella como en el salmón
que se entrega manso
lejos del chorro
Pero es tan solo una mosca
disputándome el azúcar
que un niño nos arroja.
Llueve en esta jaula
comida por los homigueros
El agua del hipopótamo se ha llenado de hojas
Una tortuga ha quedado suspendida
en un alto del cemento
Quien dice que los animales no sufren senilidad
extrañeza, estreñimiento?
Qué hace a este lugar distinto a un hospital
o a una cárcel?
Quien puede asegurar
que esa tortuga a la orilla del piletón
como ese viejo recostado en el arco del geriátrico
no esperan
a costa de ahogarse
la corriente milagrosa
que los devuelva al mar.
Laura García del Castaño
esta lentitud y esta métrica
para caminar entre las cáscaras
es mi diálogo con el bosque
mi forma de no olvidar el regreso.
El sendero original estará lleno de maleza
Habrán levantado una fábrica, un templo
una antena provisoria
que baje el mundo a las alturas
Soy la bestia en un rectángulo
que podría ser la habitación de un hombre
donde entran él y su cama
y con suerte una silla
Dar el zarpazo a la mosca atraída
por la corpulenta pasividad y el encanto
de la antigua destreza
Pensar en ella como en el salmón
que se entrega manso
lejos del chorro
Pero es tan solo una mosca
disputándome el azúcar
que un niño nos arroja.
Llueve en esta jaula
comida por los homigueros
El agua del hipopótamo se ha llenado de hojas
Una tortuga ha quedado suspendida
en un alto del cemento
Quien dice que los animales no sufren senilidad
extrañeza, estreñimiento?
Qué hace a este lugar distinto a un hospital
o a una cárcel?
Quien puede asegurar
que esa tortuga a la orilla del piletón
como ese viejo recostado en el arco del geriátrico
no esperan
a costa de ahogarse
la corriente milagrosa
que los devuelva al mar.
Laura García del Castaño
30.6.17
Pequeno tratado de estética indígena
aquele que vê um índio
à luz de um outro luar
a pele exposta ao fogo
traçados de muitas cores
cocares, penas de aves
adornos por todo o corpo
os guizos e os maracás
a música que o envolve
e pensa: ele está nu
não tem olhos para ver
não tem ouvidos que ouçam
a pele exposta ao fogo
traçados de muitas cores
cocares, penas de aves
adornos por todo o corpo
os guizos e os maracás
a música que o envolve
e pensa: ele está nu
não tem olhos para ver
não tem ouvidos que ouçam
aquele que vê um índio
e pensa onde estão as roupas
não sabe o que são as coisas
vestindo este mundo infindo
e pensa onde estão as roupas
não sabe o que são as coisas
vestindo este mundo infindo
Leandro Durazzo
26.6.17
fatou
Parece um jogo
uma dança
uma prosa
um filme
ainda que não pareça
o que é
é o que sobra das horas
no tempo das catástrofes
sereno apocaliptico
um frio
que afoga
apenas um escasso intento
de manter-se.
uma dança
uma prosa
um filme
ainda que não pareça
o que é
é o que sobra das horas
no tempo das catástrofes
sereno apocaliptico
um frio
que afoga
apenas um escasso intento
de manter-se.
22.6.17
21.6.17
Exercício de mendicância
Nos vestimos com roupas sujas e rasgadas, tiramos os sapatos, emporcalhamos o rosto e as mãos. Vamos para a rua. Ficamos parados, esperando.
Quando um oficial estrangeiro passa na nossa frente, levantamos o braço direito para cumprimentar e estendemos a mão esquerda. Quase sempre, o oficial passa sem se deter, sem nos ver, sem nos olhar.
Finalmente, um oficial para. Diz qualquer coisa numa língua que não compreendemos. Ele nos faz perguntas. Nós não respondemos, quedamos imóveis, um braço levantado e o outro estendido. Então ele remexe nos bolsos, coloca uma moeda e um pedaço de chocolate em nossas mãos sujas e vai embora balançando a cabeça.
Continuamos esperando.
Passa uma mulher. Estendemos a mão. Ela diz:
- Pobres meninos. Não tenho nada para dar a vocês.
Ela nos faz uma carícia na cabeça.
Nós dizemos:
- Obrigado.
Uma outra mulher nos dá duas maçãs e uma outra, ainda, biscoitos.
Uma mulher passando. Estendemos a mão. Ela para e diz:
- Não têm vergonha de mendigar? Venham à minha casa que eu tenho uns trabalhinhos fáceis para vocês. Rachar lenha, por exemplo, ou limpar o terraço. Já são grandinhos e fortes para isso. Depois, se trabalharem bem, eu dou sopa e pão.
Nós respondemos:
- Não temos vontade de trabalhar para a senhora, nem queremos comer sua sopa, nem seu pão. Nós não temos fome.
Ela pergunta:
- Então, por que estão mendigando?
- Para saber qual é o efeito que isso faz e para observar a reação das pessoas.
Ela vai embora gritando:
- Vagabundinhos de merda! E impertinentes ainda por cima!
Na volta para casa, atiramos nas touceiras que ladeiam a estrada as maçãs, os biscoitos, o chocolate e as moedas.
A carícia nas nossas cabeças é impossível jogar fora.
(de Um caderno e tanto) - Agota Kristof
Quando um oficial estrangeiro passa na nossa frente, levantamos o braço direito para cumprimentar e estendemos a mão esquerda. Quase sempre, o oficial passa sem se deter, sem nos ver, sem nos olhar.
Finalmente, um oficial para. Diz qualquer coisa numa língua que não compreendemos. Ele nos faz perguntas. Nós não respondemos, quedamos imóveis, um braço levantado e o outro estendido. Então ele remexe nos bolsos, coloca uma moeda e um pedaço de chocolate em nossas mãos sujas e vai embora balançando a cabeça.
Continuamos esperando.
Passa uma mulher. Estendemos a mão. Ela diz:
- Pobres meninos. Não tenho nada para dar a vocês.
Ela nos faz uma carícia na cabeça.
Nós dizemos:
- Obrigado.
Uma outra mulher nos dá duas maçãs e uma outra, ainda, biscoitos.
Uma mulher passando. Estendemos a mão. Ela para e diz:
- Não têm vergonha de mendigar? Venham à minha casa que eu tenho uns trabalhinhos fáceis para vocês. Rachar lenha, por exemplo, ou limpar o terraço. Já são grandinhos e fortes para isso. Depois, se trabalharem bem, eu dou sopa e pão.
Nós respondemos:
- Não temos vontade de trabalhar para a senhora, nem queremos comer sua sopa, nem seu pão. Nós não temos fome.
Ela pergunta:
- Então, por que estão mendigando?
- Para saber qual é o efeito que isso faz e para observar a reação das pessoas.
Ela vai embora gritando:
- Vagabundinhos de merda! E impertinentes ainda por cima!
Na volta para casa, atiramos nas touceiras que ladeiam a estrada as maçãs, os biscoitos, o chocolate e as moedas.
A carícia nas nossas cabeças é impossível jogar fora.
(de Um caderno e tanto) - Agota Kristof
20.6.17
"e Júpiter — o maravilhoso — entrou agora pouco no signo de Escorpião. adeus equanimidade libriana! nós agora vamos aprofundar no intenso, denso e aquático viver da regeneração. é tempo de transformação psíquica, espiritual e emocional — coisas que podem doer, mas é pra expurgar os venenos. afinal, Escorpião enfrenta qualquer coisa que for podre pra purificá-la em poder vital.
a última vez que Júpiter esteve em Escorpião foi entre o fim de outubro de 2005 e o fim de novembro de 2006, mas a configuração era muito mais restritiva do que agora, já que na época tal Júpiter quadrava Saturno em Leão e Netuno em Aquário.
pessoas com fortes presenças em signos de água tendem a ser beneficiadas pela sorte e também a desaguar os mundos fecundos que existem em si. pra todo mundo as intensidades psíquicas e emocionais se tornam os lugares pra gestar as transformações. paixões, pulsões e desejos vão se amplificar — nem que seja pra nos fazer morrer e nascer de novo. é tempo de excessos emocionais. quem gosta de emoções e sentimentos leves vai ter um longo ano pela frente...
Júpiter em Escorpião sabe que há algo de enigma e mistério em tudo e a gente se aproxima com paixão: e essa aproximação não desfaz o enigma, pelo contrário, é tempo de viver com força o que não será necessariamente e nem precisa ser revelado.
Júpiter desta vez fica em Escorpião até o dia 8 de novembro de 2018 — quando adentra sua morada sagitariana.
— quem tem desejo tem coragem."
Julia Hansen
19.6.17
Sintoma
qual o nome
disso
festa despertando
o cheiro
que ainda
não sentido
confinado na minha
teu hálito pré dormido
assim um
nome não dito
um lábio semi
vai chegando
dois
teu dedo cru
saindo do bolso
ardia suor
antes de cair
e do lado de dentro,
a espera
qual o nome disso?
a carne cheia
de desejo amanhecido:
esta noite vou te ver.
disso
festa despertando
o cheiro
que ainda
não sentido
confinado na minha
teu hálito pré dormido
assim um
nome não dito
um lábio semi
vai chegando
dois
teu dedo cru
saindo do bolso
ardia suor
antes de cair
e do lado de dentro,
a espera
qual o nome disso?
a carne cheia
de desejo amanhecido:
esta noite vou te ver.
18.6.17
A arte de perder
A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.
Elizabeth Bishop
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.
Elizabeth Bishop
17.6.17
16.6.17
Persona non protagona
Até quando vou sentir-observando?
uma ação a distância
que vive-e-vê
duvide-o-dó.
uma ação a distância
que vive-e-vê
duvide-o-dó.
15.6.17
nada do que eu disser vai dar conta
o efeito quer o excesso
mas só tem falta
faz acontecer a sua
mas como
tem volta a volta
ou só preenche os cantos
sem desborde
que o desenho é de outro
se não disparo
morro na praia
espremo o cisto
tímido
e tremo
a arte de explodir
por estagnação
ao menos na minha cabeça.
o efeito quer o excesso
mas só tem falta
faz acontecer a sua
mas como
tem volta a volta
ou só preenche os cantos
sem desborde
que o desenho é de outro
se não disparo
morro na praia
espremo o cisto
tímido
e tremo
a arte de explodir
por estagnação
ao menos na minha cabeça.
14.6.17
13.6.17
contrição de nascença
as pessoas acham tudo
que eu sei o que estou fazendo.
mas só quem sabe mesmo é Ernesto.
desde o dia em que eu o conheci,
toda vez que a gente se fala,
ele me diz:
você está fazendo merda.
nunca achei ofensa.
sempre baixei os olhos e me calei
como quem diz
eu sei, eu sei.
que eu sei o que estou fazendo.
mas só quem sabe mesmo é Ernesto.
desde o dia em que eu o conheci,
toda vez que a gente se fala,
ele me diz:
você está fazendo merda.
nunca achei ofensa.
sempre baixei os olhos e me calei
como quem diz
eu sei, eu sei.
12.6.17
5.6.17
"vamos colocar isso
em termos de natação.
é como se na vida eu estivesse
nadando, nadando, nadando
enfrentando ondas muito altas
a piscina me salva
de muitas situações opressoras
tem situações que são
enlouquecedoras
se a gente sabe nadar
é só nadar 200, 300 metros
que aí já não sente mais nada
não fica triste, não precisa chorar
é como se tivesse lavado
o cérebro por dentro"
nora ronai
em termos de natação.
é como se na vida eu estivesse
nadando, nadando, nadando
enfrentando ondas muito altas
a piscina me salva
de muitas situações opressoras
tem situações que são
enlouquecedoras
se a gente sabe nadar
é só nadar 200, 300 metros
que aí já não sente mais nada
não fica triste, não precisa chorar
é como se tivesse lavado
o cérebro por dentro"
nora ronai
4.6.17
ao calor que almejo
fartam-me o armário casacos usados
poucas vezes para cada tipo
de frio tenho um
o frio fresco
chuvoso
com riscos de tempestade
o frio que me é familiar
e aquele que vem do estrangeiro
para aqueles dias de nevasca que aqui nem cai
guardo um especial
provo todos os invernos
em todas as estações
depois guardo-os e observo
entre todos
sempre me parece faltar
o casaco perfeito
ideal para o dia
e para a noite
em que me despirei dele
e do resto,
aos poucos
também.
poucas vezes para cada tipo
de frio tenho um
o frio fresco
chuvoso
com riscos de tempestade
o frio que me é familiar
e aquele que vem do estrangeiro
para aqueles dias de nevasca que aqui nem cai
guardo um especial
provo todos os invernos
em todas as estações
depois guardo-os e observo
entre todos
sempre me parece faltar
o casaco perfeito
ideal para o dia
e para a noite
em que me despirei dele
e do resto,
aos poucos
também.
25.5.17
- ¿Existe alguna vinculación -interrogó Will- entre lo que ha estado diciendo y lo que vi en el templo de Siva*? [ Refiriéndose a un rito comunitarió bajo los efectos de los hongos moksha que nuestro protagonista Will presenció]
- Por supuesto -admitió ella-. La medicina moksha lleva al mismo sitio al que se llega por la meditación.- Y entonces, ¿para qué molestarse en meditar?- Lo mismo daría preguntar: "¿Para qué molestarse en cenar?".- Pero según ustedes en este caso la medicina moksha es la cena.
- Es un banquete -replicó la señora Rao con énfasis-. Y precisamente por eso hace falta la meditación. No se pueden hacer banquetes todos los días. Son demasiado suculentos y duran demasiado. Aparte de que los banquetes son proporcionados por un proveedor; uno no participa para nada en su preparación. Para la dieta cotidiana, en cambio, tiene que cocinar uno mismo. La medicina moksha es un festín ocasional.
- En término teológicos -dijo Vijaya-, la medicina moksha lo prepara a uno para la recepción de las gracias gratuitas: las visiones premísticas o las plenas experiencias místicas. La meditación es una de las formas en que uno colabora con esas gracias gratuitas.- Es un banquete -replicó la señora Rao con énfasis-. Y precisamente por eso hace falta la meditación. No se pueden hacer banquetes todos los días. Son demasiado suculentos y duran demasiado. Aparte de que los banquetes son proporcionados por un proveedor; uno no participa para nada en su preparación. Para la dieta cotidiana, en cambio, tiene que cocinar uno mismo. La medicina moksha es un festín ocasional.- En término teológicos -dijo Vijaya-, la medicina moksha lo prepara a uno para la recepción de las gracias gratuitas: las visiones premísticas o las plenas experiencias místicas. La meditación es una de las formas en que uno colabora con esas gracias gratuitas.
Huxley, mais uma vez.
- Por supuesto -admitió ella-. La medicina moksha lleva al mismo sitio al que se llega por la meditación.- Y entonces, ¿para qué molestarse en meditar?- Lo mismo daría preguntar: "¿Para qué molestarse en cenar?".- Pero según ustedes en este caso la medicina moksha es la cena.
- Es un banquete -replicó la señora Rao con énfasis-. Y precisamente por eso hace falta la meditación. No se pueden hacer banquetes todos los días. Son demasiado suculentos y duran demasiado. Aparte de que los banquetes son proporcionados por un proveedor; uno no participa para nada en su preparación. Para la dieta cotidiana, en cambio, tiene que cocinar uno mismo. La medicina moksha es un festín ocasional.
- En término teológicos -dijo Vijaya-, la medicina moksha lo prepara a uno para la recepción de las gracias gratuitas: las visiones premísticas o las plenas experiencias místicas. La meditación es una de las formas en que uno colabora con esas gracias gratuitas.- Es un banquete -replicó la señora Rao con énfasis-. Y precisamente por eso hace falta la meditación. No se pueden hacer banquetes todos los días. Son demasiado suculentos y duran demasiado. Aparte de que los banquetes son proporcionados por un proveedor; uno no participa para nada en su preparación. Para la dieta cotidiana, en cambio, tiene que cocinar uno mismo. La medicina moksha es un festín ocasional.- En término teológicos -dijo Vijaya-, la medicina moksha lo prepara a uno para la recepción de las gracias gratuitas: las visiones premísticas o las plenas experiencias místicas. La meditación es una de las formas en que uno colabora con esas gracias gratuitas.
Huxley, mais uma vez.
21.5.17
(…) haveria algo como o silêncio, ou como a gagueira, ou como o grito, algo que escorreria sob as redundâncias e as informações, que escorraçaria a linguagem, e que apesar disso seria ouvido. Falar, mesmo quando se fala de si, é sempre tomar o lugar de alguém, no lugar de quem se pretende falar e a quem se recusa o direito de falar. O sindicalista Séguy é boca aberta quando se trata de transmitir ordens e palavras de ordem. Mas a mulher com a criança morta também é boca aberta. Uma imagem se faz representar por um som, como um operário por seu sindicalista. Um som toma o poder sobre uma série de imagens. Então, como chegar a falar sem dar ordens, sem pretender representar algo ou alguém, como conseguir fazer falar aqueles que não têm esse direito, e devolver aos sons seu valor de luta contra o poder? Sem dúvida é isso, estar na própria língua como um estrangeiro, traçar para a linguagem uma espécie de linha de fuga.(conversações, p.56) (…) Às vezes se age como se as pessoas não pudessem se exprimir. Mas de fato, elas não param de se exprimir. Os casais malditos são aqueles em que a mulher não pode estar distraída ou cansada sem que o homem diga: “O que você tem? Fala … “, e o homem sem que a mulher … , etc. O rádio, a televisão fizeram o casal transbordar, dispersaram-no por toda parte, e estamos trespassados de palavras inúteis, de uma quantidade demente de falas e imagens. A besteira nunca é muda nem cega. De modo que o problema não é mais fazer com que as pessoas se exprimam, mas arranjar-lhes vacúolos de solidão e de silêncio a partir dos quais elas teriam, enfim, algo a dizer. As forças repressivas não impedem as pessoas de se exprimir, ao contrário, elas as forçam a se exprimir. Suavidade de não ter nada a dizer, direito de não ter nada a dizer; pois é a condição para que se forme algo raro ou rarefeito, que merecesse um pouco ser dito. Do que se morre atualmente não é de interferências, mas de proposições que não têm o menor interesse. Ora, o que chamamos de sentido de uma proposição é o interesse que ela apresenta, não existe outra definição para o sentido. Ele equivale exatamente à novidade de uma proposição. Podemos escutar as pessoas durante horas: sem interesse … Por isso é tão difícil discutir ‘ por isso não cabe discutir, nunca. Não se vai dizer a alguém: “o que você diz não tem o menor interesse”. Pode-se dizer: “está errado”. Mas o que alguém diz nunca está errado, não é que esteja errado, é que é bobagem ou não tem importância alguma. É que isso já foi dito mil vezes. As noções de importância, de necessidade, de interesse são mil vezes mais determinantes que a noção de verdade. De modo algum porque elas a substituem, mas porque medem a verdade do que digo. Mesmo em matemática: Poincaré dizia que muitas teorias matemáticas não têm importância alguma, não interessam. Não dizia que eram falsas, era pior) Se se trata de reconstituir transcendências ou universais, de restabelecer um sujeito de reflexão portador de direitos, ou de instaurar uma intersubjetividade de comunicação, não estamos diante de uma grande invenção filosófica. Quer se fundar um “consenso”, mas o consenso é uma regra ideal de opinião que nada tem a ver com a filosofia. Dir-se-ia que se trata aí de uma filosofia-propaganda .(…) Toda criação tem um valor e um teor políticos. Mas o problema é que ela se concilia mal com os circuitos de informação e de comunicação, que são circuitos inteiramente preparados e degenerados de antemão. Todas as formas de criação, inclusive a eventual criação na televisão, encontram aqui seu inimigo comum. É sempre uma questão cerebral: o cérebro é a face oculta de todos os circuitos, que podem fazer triunfar os reflexos condicionados mais rudimentares, tanto quanto dar uma oportunidade a traçados mais criativos, a ligações menos “prováveis”. O cérebro é um volume espaço-temporal: cabe à arte traçar nele novos caminhos atuais. A filosofia não é comunicativa, assim como não é contemplativa nem reflexiva: ela é, por natureza, criadora ou mesmo revolucionária, uma vez que não pára de criar novos conceitos. A única condição é que eles tenham uma necessidade, mas também uma estranheza, e eles as têm na medida em que respondem a verdadeiros problemas (…) os professores pagam suas viagens com palavras, experiências, colóquios, mesas-redondas, falar, sempre falar. Os intelectuais têm uma cultura formidável, eles têm opinião sobre tudo. Eu não sou um intelectual, porque não tenho cultura disponível, nenhuma reserva. O que sei, eu o sei apenas para as necessidades de um trabalho atual, e se volto ao tema vários anos depois preciso reaprender tudo. É muito agradável não ter opinião nem idéia sobre tal ou qual assunto. Não sofremos de falta de comunicação, mas ao contrário, sofremos com todas as forças que nos obrigam a nos exprimir quando não temos grande coisa a dizer. Viajar é ir dizer alguma coisa em outro lugar, e voltar para dizer alguma coisa aqui. A menos que não se volte, que se permaneça por lá. Por isso sou pouco inclinado às viagens; é preciso não se mexer demais para não espantar os devires.(…) me parece interessante nas vidas, os buracos que elas comportam, as lacunas, por vezes dramáticas, mas às vezes nem isso. Catalepsias ou uma espécie de sonambulismo por vários anos, é isto que a maioria das vidas comporta. É talvez nesses buracos que se faz o movimento. A questão é justamente como fazer o movimento, como perfurar a parede para não dar mais cabeçadas. Talvez não se mexendo demais, não falando demais: evitar os falsos movimentos, residir onde não há mais memória. Escreve-se em função de um povo por vir e que ainda não tem linguagem. Criar não é comunicar mas resistir.(…) O que para mim substitui a reflexão é o construcionismo. E o que substitui a comunicação é uma espécie de expressionismo.(…) E quais verticalidades, as que nos dão algo para contemplar, ou então as que nos fazem refletir ou comunicar? Ou não será preciso justamente suprimir toda e qualquer verticalidade como transcendência, e nos deitarmos sobre a terra e abraçá-la, sem olhar, sem reflexão, privados de comunicação? E temos ainda conosco o amigo ou já estamos sós, Eu=Eu, ou somos amantes, ou ainda outra coisa, e quais os riscos de trair a si mesmo, de ser traído ou de trair? Não há um momento em que é preciso desconfiar até do amigo?(…) Creio que à filosofia não falta público nem propagação, mas ela é como que um estado clandestino do pensamento, um estado nômade. A única comunicação que poderíamos desejar, como perfeitamente adaptada ao mundo moderno, é o modelo de Adorno, a garrafa atirada ao mar, ou o modelo nietzscheano, a flecha lançada por um pensador e recolhida por um outro.(…) Talvez a fala, a comunicação, estejam apodrecidas. Estão inteiramente penetradas pelo dinheiro: não por acidente, mas por natureza. É preciso um desvio da fala. Criar foi sempre coisa distinta de comunicar. O importante talvez venha a ser criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle.(…) É difícil “se explicar” – uma entrevista, um diálogo, uma conversa. A maior parte do tempo, quando me colocam uma questão, mesmo que ela me interesse, percebo que não tenho estritamente nada a dizer. As questões são fabricadas, como outra coisa qualquer. Se não deixam que você fabrique suas questões, com elementos vindos de toda parte, de qualquer lugar, se as colocam a você, não tem muito o que dizer. A arte de construir um problema é muito importante: inventa-se um problema, uma posição de problema, antes de se encontrar a solução. Nada disso acontece em uma entrevista, em uma conversa, em uma discussão. Nem mesmo a reflexão de uma, duas ou mais pessoas basta. E muito menos a reflexão. Com as objeções é ainda pior. Cada vez que me fazem uma objeção, tenho vontade de dizer: “Está certo, está certo, passemos a outra coisa.” As objeções nunca levaram a nada. O mesmo acontece quando me colocam uma questão geral. O objetivo não é responder a questões, é sair delas. Muitas pessoas pensam que somente repisando a questão é que se pode sair delas (…) é preciso falar com, escrever com. Com o mundo, com uma porção de mundo, com pessoas. De modo algum uma conversa, mas uma conspiração, um choque de amor ou de ódio. Não há juízo algum na simpatia, mas conveniências entre corpos de toda natureza. “Todas as sutis simpatias da alma inumerável, do mais amargo ódio ao amor mais apaixonado.” É isso agenciar: estar no meio,sobre a linha de encontro de um mundo interior e de um mundo exterior. Estar no meio: “O essencial é tornar-se perfeitamente inútil, se absorver na corrente comum, tornar-se novamente peixe e não bancar os monstros (…)
GDCP
22.3.17
27.2.17
lluvia
hoy llueve mucho, mucho,
y pareciera que están lavando el mundo
mi vecino de al lado mira la lluvia
y piensa escribir una carta de amor/
una carta a la mujer que vive con él
y le cocina y le lava la ropa y hace el amor con él
y se parece a su sombra/
mi vecino nunca le dice palabras de amor a la
mujer/
entra a la casa por la ventana y no por la puerta/
por una puerta se entra a muchos sitios/
al trabajo, al cuartel, a la cárcel,
a todos los edificios del mundo/ pero no al mundo/
ni a una mujer/ni al alma/
es decir/a ese cajón o nave o lluvia que llamamos así/
como hoy/que llueve mucho/
y me cuesta escribir la palabra amor/
porque el amor es una cosa y la palabra amor es otra cosa/
y sólo el alma sabe dónde las dos se encuentran/
y cuándo/y cómo/
pero el alma qué puede explicar/
por eso mi vecino tiene tormentas en la boca/
palabras que naufragan/
palabras que no saben que hay sol porque nacen y
mueren la misma noche en que amó/
y dejan cartas en el pensamiento que él nunca
escribirá/
como el silencio que hay entre dos rosas/
o como yo/que escribo palabras para volver
a mi vecino que mira la lluvia/
a la lluvia/
a mi corazón desterrado
Juan Gelman
y pareciera que están lavando el mundo
mi vecino de al lado mira la lluvia
y piensa escribir una carta de amor/
una carta a la mujer que vive con él
y le cocina y le lava la ropa y hace el amor con él
y se parece a su sombra/
mi vecino nunca le dice palabras de amor a la
mujer/
entra a la casa por la ventana y no por la puerta/
por una puerta se entra a muchos sitios/
al trabajo, al cuartel, a la cárcel,
a todos los edificios del mundo/ pero no al mundo/
ni a una mujer/ni al alma/
es decir/a ese cajón o nave o lluvia que llamamos así/
como hoy/que llueve mucho/
y me cuesta escribir la palabra amor/
porque el amor es una cosa y la palabra amor es otra cosa/
y sólo el alma sabe dónde las dos se encuentran/
y cuándo/y cómo/
pero el alma qué puede explicar/
por eso mi vecino tiene tormentas en la boca/
palabras que naufragan/
palabras que no saben que hay sol porque nacen y
mueren la misma noche en que amó/
y dejan cartas en el pensamiento que él nunca
escribirá/
como el silencio que hay entre dos rosas/
o como yo/que escribo palabras para volver
a mi vecino que mira la lluvia/
a la lluvia/
a mi corazón desterrado
Juan Gelman
12.2.17
11.2.17
Esse olhar que vara o crisântemo
esse olhar é meu.
Esse olhar que vara o amarelo
esse olhar é meu.
Esse olhar que de noite
perpassa
a noite
o amarelo
o crisântemo
o olhar mesmo
esse é meu olhar.
Vem embebido
do dono
mas é seu próprio
é sozinho.
Esse olhar não tem
dono ou base:
o Monte Ajusco
a Cordilheira do Atlas.
Esse olhar vara
por si:
a flor varada
depois dele
desfolha-se.
Horácio Costa
esse olhar é meu.
Esse olhar que de noite
perpassa
a noite
o amarelo
o crisântemo
o olhar mesmo
esse é meu olhar.
Vem embebido
do dono
mas é seu próprio
é sozinho.
Esse olhar não tem
dono ou base:
o Monte Ajusco
a Cordilheira do Atlas.
Esse olhar vara
por si:
a flor varada
depois dele
desfolha-se.
Horácio Costa
7.2.17
Não vamos ao enterro do amor
Não vamos
Não vamos ao velório não há velas suficiente
não há horas não há lágrimas que me façam
acreditar que tal falecimento seja possível
Não vamos sentar na poltrona confortável ao lado do morto
que me faça ter vergonha de estar esperando sentada
a que me sirvam condolências de estranhos
familiares e parentes solitários que esperaram a vida inteira
por este momento
aquele segundo de vitória, eu reconheço, de eu vim, vi e venci, eu fui mais forte
que o amor
sempre tão débil e prepotente esse seu viver
não vamos, já disse, não vamos
não vamos receber abraços frios de pessoas frias
nem abraços quentes de pessoas quentes que deveriam estar em outro lugar
que gostariam de estar em outro lugar
me recuso a acreditar que deixaram de ir
para vir até aqui
por que? por que se ele nunca te amou, se ele nunca
por que
não vamos
não vamos esperar as moscas chegarem
não vamos esperar mais flores
não vamos aumentar o ar condicionado aumentar o chumaço de algodão nas narinas aumentar o tule
não vamos ouvir a missa não vamos mais ouvir um só eu sinto muito
por sua perda
não queremos mais ouvir um pio
não vamos nos agachar nos rebaixar a isso tomar um punhado de pedras
e terra não vamos selar o selado
atire você a primeira pedra
não vamos chorar
pelo leite derramado
dar outros passos em direção ao caixão e dizer adeus
não nos despediremos
não
eu digo que não vamos
eu me recuso a dizer fim.
Não vamos
Não vamos ao velório não há velas suficiente
não há horas não há lágrimas que me façam
acreditar que tal falecimento seja possível
Não vamos sentar na poltrona confortável ao lado do morto
que me faça ter vergonha de estar esperando sentada
a que me sirvam condolências de estranhos
familiares e parentes solitários que esperaram a vida inteira
por este momento
aquele segundo de vitória, eu reconheço, de eu vim, vi e venci, eu fui mais forte
que o amor
sempre tão débil e prepotente esse seu viver
não vamos, já disse, não vamos
não vamos receber abraços frios de pessoas frias
nem abraços quentes de pessoas quentes que deveriam estar em outro lugar
que gostariam de estar em outro lugar
me recuso a acreditar que deixaram de ir
para vir até aqui
por que? por que se ele nunca te amou, se ele nunca
por que
não vamos
não vamos esperar as moscas chegarem
não vamos esperar mais flores
não vamos aumentar o ar condicionado aumentar o chumaço de algodão nas narinas aumentar o tule
não vamos ouvir a missa não vamos mais ouvir um só eu sinto muito
por sua perda
não queremos mais ouvir um pio
não vamos nos agachar nos rebaixar a isso tomar um punhado de pedras
e terra não vamos selar o selado
atire você a primeira pedra
não vamos chorar
pelo leite derramado
dar outros passos em direção ao caixão e dizer adeus
não nos despediremos
não
eu digo que não vamos
eu me recuso a dizer fim.
5.2.17
Fernanda
Para se viver no presente, e para que esse presente contenha alguns germes de futuro,
é preciso esquecer.
Não digo perder a memória, mas seleccioná-la, distanciá-la, acomodá-la à necessidade
que todos temos de
saborear o presente, de manter indemnes as possibilidades de novos começos. Mas
quando a memória nos
cai em cima como um dilúvio, quando o passado nos submerge e afoga, estamos perdidos.
Sobrevivemos
entre sombras, somos almas penadas, entregues ao desespero e à cólera. Vivemos no inferno,
pois inferno é
a ausência de quem amamos.
É disso que este livro trata. Disso e da passagem da saudade à solidão.
Ernesto Sampaio
Não digo perder a memória, mas seleccioná-la, distanciá-la, acomodá-la à necessidade
que todos temos de
saborear o presente, de manter indemnes as possibilidades de novos começos. Mas
quando a memória nos
cai em cima como um dilúvio, quando o passado nos submerge e afoga, estamos perdidos.
Sobrevivemos
entre sombras, somos almas penadas, entregues ao desespero e à cólera. Vivemos no inferno,
pois inferno é
a ausência de quem amamos.
É disso que este livro trata. Disso e da passagem da saudade à solidão.
Ernesto Sampaio
4.2.17
patuá
conheci um cara
um fica que o acusa
luvas e sapatilhas
no dia em que a conheci
vestígios de lágrimas, lenços
saudações & serpentinas
eu vestia branco e verde e ela
vermelho e cinza
até hoje(
dragões serpentes entrelaçados
quadros emoldurados
espada que voa
sinto que ainda não o conheço
nem isso
para tudo um começo e um
nem precisa pedir
mas vai além
valer-se de um símbolo
é pouca matéria
mais vale levar dentro um
mútuo
todas as cores se encontram num ponto perfeito depois do preto e)
infinito
Ellen Maria
um fica que o acusa
luvas e sapatilhas
no dia em que a conheci
vestígios de lágrimas, lenços
saudações & serpentinas
eu vestia branco e verde e ela
vermelho e cinza
até hoje(
dragões serpentes entrelaçados
quadros emoldurados
espada que voa
sinto que ainda não o conheço
nem isso
para tudo um começo e um
nem precisa pedir
mas vai além
valer-se de um símbolo
é pouca matéria
mais vale levar dentro um
mútuo
todas as cores se encontram num ponto perfeito depois do preto e)
infinito
Ellen Maria
10.1.17
"Tal como señaló Ralph Waldo Emerson, cuando uno patina sobre hielo fino, la salvación es la velocidad. Cuando la calidad no nos da sostén, tendemos a buscar remedio en la cantidad. Si el “compromiso no tiene sentido” y las relaciones ya no son confiables y difícilmente duren, nos inclinamos a cambiar la pareja por las redes. Sin embargo, una vez que alguien lo ha hecho, sentar cabeza se vuelve aún más difícil (y desalentador) que antes —ya que ahora carece de las habilidades que podrían hacer que la cosa funcionara-. Seguir en movimiento, antes un privilegio y un logro, se convierte ahora en obligación. Mantener la velocidad, antes una aventura gozosa, se convierte en un deber agotador. Y sobre todo, la fea incertidumbre y la insoportable confusión que supuestamente la velocidad ahuyentaría, aún siguen allí."
Zygmunt Bauman
Zygmunt Bauman
15.8.16
14.8.16
...
não abre não abre não abre
certifica inclusive
que a chave está bem posicionada
dada as voltas
olha pela fresta
debaixo da porta
luz sombra caverna
não sabe
se se protege ou a quem protege
se se esconde ou a quem esconde
já não é medo
não abre não abre
gato mia miau
não sei quem é
não sei mais
até quem sou
tira a chave
não abre não abre
dada as voltas
tira a chave e olha
pelo buraco da fechadura
gato mia
miau
desfaz uma das voltas
miau
olha mais
bisbilhota
coloca o dedo na fechadura
sente o gelado do metal velho
gato mia não mia a língua miau
esse gato não mia nem quer que
não desfaço a outra volta
bota a chave
não pergunta
nem faz nem desfaz a volta
abandona a porta
até outra hora não volto
ao meu quarto
de Schrodinger.
certifica inclusive
que a chave está bem posicionada
dada as voltas
olha pela fresta
debaixo da porta
luz sombra caverna
não sabe
se se protege ou a quem protege
se se esconde ou a quem esconde
já não é medo
não abre não abre
gato mia miau
não sei quem é
não sei mais
até quem sou
tira a chave
não abre não abre
dada as voltas
tira a chave e olha
pelo buraco da fechadura
gato mia
miau
desfaz uma das voltas
miau
olha mais
bisbilhota
coloca o dedo na fechadura
sente o gelado do metal velho
gato mia não mia a língua miau
esse gato não mia nem quer que
não desfaço a outra volta
bota a chave
não pergunta
nem faz nem desfaz a volta
abandona a porta
até outra hora não volto
ao meu quarto
de Schrodinger.
13.8.16
atemporal
um milésimo de cada segundo
às vezes dois
o último ar aspirado
antes da primeira palavra pronunciada
de todo poema
é só pra ninguém
alguém
faz tempo
às vezes dois
o último ar aspirado
antes da primeira palavra pronunciada
de todo poema
é só pra ninguém
alguém
faz tempo
12.8.16
11.8.16
hum/or/amor
aquilo que
temos
de mais nosso
não é
nosso
se sustentará
só
como deus
o elo que pendura
a mágica que perdura
torto
todo e qualquer
quadro
sem moldura.
temos
de mais nosso
não é
nosso
se sustentará
só
como deus
o elo que pendura
a mágica que perdura
torto
todo e qualquer
quadro
sem moldura.
10.8.16
Ella
"[...]
Entre nós e as personagens que inventamos, que nossa fantasia lânguida consegue apesar de tudo inventar, nasce uma relação peculiar, terna e quase maternal, uma relação quente e umedecida de lágrimas, de uma intimidade carnal e sufocante. Temos raízes profundas e dolorosas em cada ser e em cada coisa do mundo, do mundo que se tornou repleto de ecos, de soluços e de sombras, ao qual somos ligados por uma devota e apaixonada piedade. Nosso risco então é naufragar num escuro lago de águas mortas e estagnadas, arrastando conosco as criaturas do nosso pensamento, deixando-as perecer conosco no abismo tépido e escuro, entre ratos mortos e flores apodrecidas. Diante das coisas que escrevemos, há um perigo na dor, assim como há um perigo na felicidade. Porque a beleza poética é uma mistura de crueldade, de soberba, de ironia, de ternura carnal, de fantasia e de memória, de clareza e de obscuridade e, se não conseguirmos obter todo esse conjunto, nosso resultado será pobre, precário, escassamente vital.
E vejam bem, não é que se possa esperar da escrita um consolo para a tristeza. [...]"
Natalia Ginzburg
9.8.16
La materia de este mundo
"Mientras cepillo frente al espejo el pelo
sedoso de nuestra hija
veo los destellos grises del mío,
la sirvienta canosa detrás de ella. Por qué será
que justo cuando empezamos a irnos
ellas empiezan a llegar, que el pliegue en mi cuello
se hace más visible cuando los bellos huesos de sus
caderas se afilan? Cuando mi piel muestra
sus cicatrices secas, ella se abre como una flor
húmeda y precisa en la punta de un cactus;
cuando mis últimas oportunidades de concebir un hijo
se sueltan de mi cuerpo, entre ellas las fallidas,
su pequeña cartera llena de huevos, redondos y
firmes como emas, está a punto de
desabrocharse como un chasquido. A la hora de dormir,
cepillo su pelo enredado y fragante. Es una vieja
historia - la más vieja del mundo -
la historia de la sustitución."
Sharon Olds
sedoso de nuestra hija
veo los destellos grises del mío,
la sirvienta canosa detrás de ella. Por qué será
que justo cuando empezamos a irnos
ellas empiezan a llegar, que el pliegue en mi cuello
se hace más visible cuando los bellos huesos de sus
caderas se afilan? Cuando mi piel muestra
sus cicatrices secas, ella se abre como una flor
húmeda y precisa en la punta de un cactus;
cuando mis últimas oportunidades de concebir un hijo
se sueltan de mi cuerpo, entre ellas las fallidas,
su pequeña cartera llena de huevos, redondos y
firmes como emas, está a punto de
desabrocharse como un chasquido. A la hora de dormir,
cepillo su pelo enredado y fragante. Es una vieja
historia - la más vieja del mundo -
la historia de la sustitución."
Sharon Olds
8.8.16
La primera
"La primera pesadilla lejos de tu casa y de tu familia, tu primera noche en la academia, todo eso ha existido siempre: el sueño es que te despiertas de un sueño profundo, te despiertas de repente sudando y aterrorizado y te sientes abrumado por la sensación imprevista de que a tu lado hay una destilación de mal absoluto en esta residencia desconocida y a oscuras, esa esencia y centro de mal está aquí mismo, en esta habitación, ahora mismo".
David Foster Wallace - La broma infinita
David Foster Wallace - La broma infinita
7.8.16
6.8.16
Destiempos
"Recuerdo tus ojos,
esa furia rápida
con que aquellos
canarios imposibles
devoraron mis manos.
No tuve cómo retenerte.
En vano muñones
y tendones trataban
de asir tu presencia
a la materia sin tiempo,
a ese espacio este
en que devoras
el dorso de mi tacto
y en los poemas
siempre partes".
Manuel Colina
esa furia rápida
con que aquellos
canarios imposibles
devoraron mis manos.
No tuve cómo retenerte.
En vano muñones
y tendones trataban
de asir tu presencia
a la materia sin tiempo,
a ese espacio este
en que devoras
el dorso de mi tacto
y en los poemas
siempre partes".
Manuel Colina
5.8.16
season #
são dois controles
um em cada casa
e uma sorte de zapping
espaço e tempo
os fazem parar
no mesmo canal
assistimos ao mesmo fim de série
mas ouvimos falar
em outra temporada.
4.8.16
3.8.16
Obvious child
Recitar um poema como uma prece para qual não se espera resposta.
"Existe algo que não ama o muro. Que envia ondas geladas sob ele, que esparrama os pedregulhos ao sol. Avisei meu vizinho além monte. Um dia nos encontraremos para caminhar e para erguer o muro entre nós de novo. Antes de erguer o muro, eu me perguntarei se eu estou me fechando, ou fechando o outro e a quem eu poderia ofender. Existe algo que não ama o muro e quer derrubá-lo."
(Wish I was here - dir. Zach Braff, 2014).
2.8.16
1.8.16
Sem atalho
"Assusto o silêncio que me é imposto
... posto após posto posto em holocausto...
de custos e medo existo assim composto
como um suposto rosto em riste e exausto
de vagar p'las ruas como se mendigo,
de contar as luas, os sóis ao relento...
eu quero é amor, este lindo abrigo,
esta linda casa; humano sentimento...
... ajusto a tristeza num riso vasto
gasto o amor em cada flor que degusto (...)
arbusto firme sou pássaro casto
no nefasto sol padrasto e injusto...
S'a moda muda, conservo o conteúdo,
me desligo num sono profundo
enquanto renasço anjo, anjo miúdo
indo e vindo no lindo findo mundo..."
Octaviano Joba
... posto após posto posto em holocausto...
de custos e medo existo assim composto
como um suposto rosto em riste e exausto
de vagar p'las ruas como se mendigo,
de contar as luas, os sóis ao relento...
eu quero é amor, este lindo abrigo,
esta linda casa; humano sentimento...
... ajusto a tristeza num riso vasto
gasto o amor em cada flor que degusto (...)
arbusto firme sou pássaro casto
no nefasto sol padrasto e injusto...
S'a moda muda, conservo o conteúdo,
me desligo num sono profundo
enquanto renasço anjo, anjo miúdo
indo e vindo no lindo findo mundo..."
Octaviano Joba
31.7.16
Expansão da Arte
"A arte incorpora algo como liberdade no seio da não-liberdade. O fato de, por sua própria existência, desviar-se do caminho da dominação a coloca como parceira de uma promessa de felicidade, que ela, de certa maneira, expressa em meio ao desespero. mesmo nas peças de Beckett, a cortina se levanta como num cenário de Natal."
Adorno
Adorno
30.7.16
insídia
não é o tempo inimigo
senão minado
de esperança míngua
a emoção sentida
o tempo não retorna
tudo é entropia
já dizia
Ellen Maria
senão minado
de esperança míngua
a emoção sentida
o tempo não retorna
tudo é entropia
já dizia
Ellen Maria
Assinar:
Postagens (Atom)
