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14.6.20

OVNIs

O complexo de águas termais de Vitória está fechado. Três cachorros de rua dormem sobre as pedras brancas na frente da entrada. A guarita com a bilheteria está vazia e um velho cartaz diz que naquele dia o parque permanecerá fechado ao público. Não nos importa porque só estamos parados ali para estacionar o carro. A pousada onde vamos ficar se localiza atravessando a estradinha, uns duzentos metros para dentro no campo. O caminho é na verdade uma rua de terra que parece mais um pântano, por causa das últimas chuvas, e o dono nos aconselhou que fôssemos andando a pé para lá desde aquele ponto.
Mal deixamos o carro e uma nuvem de mosquito cai sobre nós. Como temos as mãos ocupadas com nossas coisas, só nos resta mexer o corpo e cabeça, como epilépticos, para assustá-los com o movimento. 
Viemos a Vitória para conhecer o Museu OVNI. Deixamos nossas coisas na pousada e voltamos a caminhar os duzentos metros até o carro. Nos recomendaram um restaurante de frutos do mar no porto. Comemos pasteis de pescado e um peixe chamado piapara, na brasa. Fazemos hora até a hora do museu abrir. Pelo menos é o que verifiquei na internet, que, aos sábados, só abre às quatro da tarde. Mas sei lá, vai saber, me disse o cara da pousada: às vezes abre, às vezes não. Quando estamos chegando, me acelera o coração: armei essa expedição só para vir ao Museu OVNI, e se está fechado, a viagem, os mosquitos, o lamaçal, e tudo o mais não será nada além de um tremendo incômodo, para absolutamente nada. Alguém corre na frente e da esquina nos diz aliviado: está aberto.
Silvia, a diretora do museu, é uma mulher de uns setenta anos, com o cabelo tingido de loiro e com óculos de armação bem grossa. Ela nos recebe em uma mesa e nos cobra 35 pela entrada, a cada um. Nos adverte que antes de qualquer coisa, vai nos exibir um vídeo institucional e pede que sentemos em umas cadeira diante de uma TV de plasma. Coloca o dvd e nos deixa com uma filmagem copiada do telejornal do canal de Crespo, onde ela mesma é entrevistada. Da TV nos explica por que existe o museu, por que os extraterrestres escolheram a cidade de Vitória, porque ela escolheu deixar todas as comodidades de uma vida de mãe e esposa junto a um engenheiro em Vila Devoto para se mudar para aqui, com uma mão na frente e outra atrás. Enquanto ela conta, a música dos Expedientes X toca de fundo e às vezes até assume o primeiro plano cobrindo sua voz. Quando termina o vídeo, estamos liberados para percorrer as instalações: é a garagem de uma casa e um pouco mais: as paredes cheias de recortes de jornais, fotos de animais com as tripas para fora, círculos secos nas plantações, pedaços de metal, e uma dramatização com bonecos de tamanho natural do caso Roswell.
Quando saímos, começa a entardecer e vamos até o morro da Matanza. De lá, de frente para a Lagoa do Pescado, dizem que é possível ver as luzes, é o lugar das visões e das aparições. O céu está alaranjado e vai escurecendo tom a tom, até se fazer de noite. Vemos uma luz se levantar sobre a lagoa e se mover de um lado para o outro, por momentos parece até vir em direção a nós e depois volta a se afastar.
Maxi, que já veio várias vezes, nos conta que aqui Silvia festeja todos os seus aniversários, em dezembro. Costuma vir uns cem ou duzentos ufólogos de todas as partes, amizades que ela foi fazendo em seus anos de encontros e de aparições. Uma vez ele mesmo veio. A festa parecia uma rave rural, infestada de personagens estranhos, todos bebendo cerveja e vinho, alguns tocando violão. Em um determinado momento, ele foi buscar mais uma cerveja, e encontrou a Silvia, encostada no balcão, de costas para a festa, tomando uma lata de Brahma, em uma aparição íntima, cerimoniosa, só para ela.

Selva Almada
Tradução: Ellen Maria

4.9.17

Fantasma Q & A

Q     como você sabe que é um fantasma?
A      porque eu deslizo
Q      se parece com dormir?
A      se parece com ceifar
Q      você se sente velho ou jovem?
A      tempo e espaço estão errados
Q      você come? há comida desse lado?
A      o deslizar afeta os meus nervos
Q      e sobre o lá em cima e o lá embaixo?
A      são só vetores
Q      existe um idioma?
A      como acha que eu falo com você
Q      quer dizer uma gramática?
A      o verbo
Q      isso é uma contradição?
A      não não é
Q      só testando
A      eu já tive esse sonho antes?
Q      mas você também está acordado
A      eu me contradigo o tempo todo
Q      você vê pessoas? você pode me ver?
A       se você fechar seus olhos
Q      existem estados de espírito?
A      as extremidades estão congelando
Q      e isso é bom?
A      sim
Q      aí está muito cheio?
A      você está brincando?
Q      há outros fantasmas neste lugar?
A      a maioria dos objetos aqui são fantasmas
Q      sério
A      você já esteve em Paris?
Q      não
A      Paris é um fantasma
Q      não não é
A      você já leu Thomas Pynchon?
Q      nós estamos mudamos de assunto
A       um fantasma não tem ângulos retos
Q      como você descansa?
A      nadando
Q      quem é aquele homem?
A      ele faz os zeros
Q      você disse mesmo nadando?
A      eu vi você no mercado uma vez comprando maquiagem no meio da noite
Q      não era eu
A      foi na mesma noite do piso molhado
Q      não
A      você não pode colocar um até que tire outro
Q      um que?
A      zero
Q      seu cabelo vai seguir crescendo?
A      sim mas são maçãs

***

GHOST Q & A


Q      how do you know you’re a ghost
A      it’s the sliding
Q      is it like sleep
A      like scything
Q      do you feel old or young
A      space and time are wrong
Q     do you eat, is there food
A      the sliding affects my nerves
Q      what about up and down
A      just vectors
Q      do you have language
A      aren’t I talking to you
Q      I mean grammar
A      the verb
Q      that is a contradiction
A      no it isn’t
Q      just testing
A      have I had this dream before
Q      yet you’re also awake
A      I contradict myself all the time
Q      do you see people can you see me
A      if you close your eyes
Q      what about moods
A      the edges are freezing
Q      is that good
A      yes
Q      is it crowded
A      are you joking
Q      are there ghosts in this room
A       most of the objects here are ghosts
Q      really
A      have you been to Paris
Q      no
A      Paris is a ghost
Q      no it’s not
A      have you read Thomas Pynchon
Q      but we digress
A      a ghost has no right angles
Q      how do you relax
A       swimming
Q       who is that man
A       he does the zeroes
Q      did you say swimming
A      I saw you at Saks once buying makeup in the middle of the night
Q      wasn’t me
A      it was the night the counter flooded
Q      no
A      you can’t put one in till you take one out
Q      one what
A      zero
Q      does your hair keep growing
A      yes but it is apples

Anne Carson
Tradução: Ellen Maria

27.4.16

Alforria blues

"Espero a hora de dizer: o jeito que te vejo vivo em mim como um cavalo derrubando as paredes pelas escadarias.

O mar guardado em tuas gavetas."

**

"Espero la hora de decir: el modo que te veo vivo en mí como un caballo derribando las paredes por las escaleras.

El mar guardado en tus cajones."


Julia Hansen
Traducción: Ellen Maria

1.2.16

Siesta

"Nos dávamos as costas
esse som afogado
mãe, o que era:
pela primeira vez escutava você chorar,
fiquei quieta
apertei o travesseiro contra a orelha
o travesseiro com cheiro do seu cabelo
não perguntei
não me virei
esperei que passasse mas crescia
seu pranto
entre as duas.
Fizemos o que podíamos, ficamos
cada uma em seu lugar
e em algum momento, dormimos."

**

"Nos dábamos la espalda
ese sonido ahogado
madre, qué era:
por primera vez te escuchaba llorar,
me quedé quieta
apreté la almohada contra la oreja
la almohada con el olor de tu pelo
no pregunté
no me di vuelta
esperé que pasara pero crecía
tu llanto
entre las dos.
Hicimos lo que pudimos, quedamos
cada una en su lugar
y en algún momento dormimos."

Silvina López Medin
Tradução: Ellen Maria

30.1.16

Poemas inéditos

"Siempre me piden poemas inéditos.
Nadie lee poesía
pero me piden poemas inéditos.
Para la revista, el periódico, el performance,
el encuentro, el homenaje, la velada:
un poema, por favor, pero inédito.
Como si supieran de memoria lo que he escrito.
Como si estuviera colmado de mi poesía
y ahora necesitaran algo inédito.
La poesía siempre es inédita, dijo el poeta en un poema,
pero ellos lo ignoran porque no leen poesía,
sólo piden poemas inéditos."

**

Sempre me pedem poemas inéditos.
Ninguém lê poesia
mas me pedem poemas inéditos.
Para a revista, o jornal, a performance,
o encontro, a homenagem, o sarau:
um poema, por favor, mas inédito.
Como se soubessem de cor tudo o que escrevi.
Como se estivessem cheios de minha poesia
e agora precisassem de algo inédito.
A poesia é sempre inédita, disse o poeta em um poema,
mas eles o ignoram porque não leem poesia,
só pedem poemas inéditos.


Fábio Morábito
Tradução: Ellen Maria

26.1.16

Homem-hombre

"Una vez quise ser hombre
para casarme con mi hermana
que ya lleva tres divorcios.
Para amar a mis amigas
que en cada relación mueren un poco.
Quise ser hombre
para fecundar sus vientres,
no de hijos, sino de poesía,
vino tinto, relojes parados,
unicornios azules.
Para decirle a Josefina
cuanto admiro su forma de entregarse.
Para escribirle a Rosi
esas cartas que no llegan nunca.
Llamar por teléfono a Pilar
que espera tantas tardes.
Llenar de caricias prolongadas
el espacio de Beatriz,
que vive sola
y le tiene miedo a los temblores.
Quise ser hombre,
para amarlas a todas y no sentir más
el frío de sus lágrimas en mi playera,
ni mirarlas apagarse,
ni presenciar sus funerales
en sus ataúdes de treinta años.
Quise ser hombre
para invitarlas a volar el periférico,
a bailar descalzas porque el América
le ganó al Guadalajara,
para llevarlas del brazo hasta una cama
donde no tengan que fingir orgasmos.
Pero soy mujer y, aunque puedo
compartir con ellas la poesía,
escribirles cartas,
llamarlas por teléfono,
llenarlas de caricias prolongadas,
volar el periférico,
bailar descalzas,
secar su llanto,
tocar su alma...
No es suficiente.
No les alcanza.
Porque, desde niñas, aprendieron
que los hombres son un premio al que hay que amar,
sin importar si ellos las aman."

**

Ao menos uma vez queria ser homem
para me casar com a minha irmã
que já passou por três divórcios
Para amar minhas amigas
que em cada relação morrem um pouco.
Queria ser homem
para fecundar seus ventres,
não de filhos, mas de poesia,
vinho tinto, relógios parados,
unicórnios azuis.
Para dizer a Josefina
o quanto admiro sua forma de se entregar.
Para escrever a Rose
essas cartas que não chegam nunca.
Ligar para o telefone da Pilar
que espera tantas tardes.
Encher de carícias preguiçosas
o território de Beatriz,
que mora sozinha
e que tem medo de terremotos.
Queria ser homem
para amar a todas e não sentir mais
o frio de suas lágrimas na minha blusa,
nem vê-las apagar
nem presenciar seus funerais
em seus caixões de trinta anos.
Queria ser homem
para convidá-las a voar por aí,
a dançar descalças porque o Cruzeiro
ganhou do Galo,
para levá-las pela mão até uma cama
onde não tenham que fingir orgasmos.
Mas sou mulher, e ainda que possa
compartilhar com elas a poesia,
escrever cartas,
fazer chamadas,
enchê-las de carícias preguiçosas,
voar por aí,
dançar descalça,
secar seu pranto,
tocar sua alma...
Não é suficiente.
Não lhes alcança.
Porque desde pequenas aprenderam
que os homens são um prêmio ao que há de amar,
sem importar se eles as amam."


Rosa María Roffiel
Tradução: Ellen Maria

22.1.16

Átomos

"La materia se compone de átomos que nunca se tocan
7,000,000,000,000,000,000,000,000,000 en un cuerpo adulto
entre más cercanos
más se alejan
incluso cuando te sientas en una silla
no la tocas
flotas sobre ella a una distancia minúscula
suspendido por la fuerza con la que
esos átomos se rechazan entre sí
esa fuerza separa y se interpone entre todo
fín de la lección
ahora piensa en ella
y piensa en ti
y piensa en sexo abisal
entre cosas que nunca se tocan
ni se tocarán."

**

A matéria se compõe de átomos que nunca se tocam
7,000,000,000,000,000,000,000,000,000 em um corpo adulto
quanto mais próximos
mais se afastam
até quando você senta em uma cadeira
não a toca
flutua sobre ela a uma distância minúscula
suspenso pela força com a que
esses átomos se repelem entre si
essa força separa e se interpõe entre tudo
fim da lição
agora pensa nela
e pensa em si mesmo
e pensa em sexo abissal
entre coisas que nunca se tocam
nem se tocarão.


Ismael Velásquez Juárez
Tradução: Ellen Maria

21.1.16

Como nasce um minotauro

"A ideia inicial
era o espaço
livre
vista completa
a todo horizonte possível.

Mas a vertigem
a vertigem levou-me ao chão.

Ergui a primeira parede.

Escorado nela
de costas
admirei fundamente
o espaço:
deu vontade de caminhar.

Mas a vertigem
a vertigem de novo deu-me rasteira.

Mais duas paredes
ergui o primeiro corredor.

Ao fim de toda segurança necessária
foi difícil achar a saída."

**

Como nace un minotauro

El proyecto inicial
era del espacio
libre
vista abierta
a todo horizonte posible.

Pero el vértigo
el vértigo me derrumbó en el piso.

Levanté la primera pared.

Apoyado en ella
de espaldas
admiré afistuladamente
el espacio:
me dieron ganas de caminar.

Pero el vértigo
el vértigo de nuevo me dio un traspié.

Dos paredes más
levanté el primer pasillo.

Al fin de toda la seguridad necesaria
me hizo difícil encontrar la salida.


Andre Argolo
Traducción: Ellen Maria

13.1.16

Tres lombrices en la pileta hacen en el fondo un cuadro abstracto

"Esa vez que intenté romper
el domingo en dos
y en la mitad
del peor temporal
bajo la flecha que parte la noche, agita
sus criaturas,
quise pisar la tormenta,
los pies desnudos en el pasto
el cuerpo a la espera de agua ajena

hasta recordar
lo que sale a flote:

lombrices
que tras el diluvio los pájaros
bajan a devorar,
levanté un pie
volví a los saltitos
hacia la zona de confort
bajo las tejas

llovía, llovía en serio
la lluvia no era fílmico
anuncio de otra cosa."

**

Três minhocas na piscina criam no fundo um quadro abstrato

Essa vez que tentei partir
o domingo em dois
e na metade
do pior temporal
sob a flecha que rasga a noite, estremece
suas criaturas,
quis pisar a tempestade,
os pés descalços no mato
o corpo à espera de água alheia

até lembrar
o que brota à tona:

minhocas
que pelo dilúvio os pássaros
rasam a devorar,
levantei um pé
voltei aos pulinhos
até a zona de conforto
debaixo das telhas

chovia, chovia deveras
a chuva não era fílmico
anúncio de outra cosa.


Silvina López Medin
Tradução: Ellen Maria

24.12.15

A dura matéria do pensamento

"Estar sola me hace pensar
en el realismo de las cosas quietas

soy objetiva:
                             las cosas están quietas
porque nadie las mueve

son obedientes y serviles.

*

Me siento en la cocina en un banquito
como si me sentara en una piedra
y me sostengo la cabeza con el puño de una mano
pero no soy el hombre que piensa:

tenso el cuerpo es tiempo de la fruta
que madura se deja caer como una idea:

si hubiera una justa medida del peso
la cabeza pesaría menos."

**

Estar só me faz pensar
no realismo das coisas paradas

sou objetiva:
                          as coisas estão paradas
porque ninguém as move

são obedientes e servis.

*

Sento na cozinha em um banquinho
como se me sentasse em uma pedra
e me sustento a cabeça com o punho de uma mão
mas não sou o homem que pensa.

tenso o corpo é tempo da fruta
que madura se deixa cair como uma ideia:

se houvesse uma medida exata do peso
a cabeça pesaria menos.


Liliana García Carril
Tradução: Ellen Maria

30.11.15

Psycho Killer

"Ese mosquito que maté
- y que vos bautizaste Psycho Killer,
por la acritud de su aguijón y la temeridad
con que logró eludir las palmas de la muerte
en la hora lenta en que la noche se recorta
inmóvil en su cima
antes de despeñarse con callada furia
contra la madrugada
y nos sopló al oído el cuerno del insomnio
hasta dejar, al fin,
sobre el revoque blanco de ese cuarto prestado
una gota escarlata - era el vehículo para un pacto de sangre

          que prometía que
- a pesar del nomadismo,
el pánico a deshoras,
la alergia desgranada entre las sábanas,
los ciclos del deseo,
la división social del trabajo doméstico,
los breves ramalazos
de la felicidad- habría para nosotros,
en la deriva del amor, un techo,
unos tabiques:
       límites precisos

donde apilar en sucesión los días."

**

Esse mosquito que matei
- e que você batizou de Psycho Killer,
pela acritude de seu ferrão e a temeridade
com a que conseguiu esquivar das palmas da morte
na hora lenta em que a noite se recorta
imóvel em seu cume
antes de despencar-se com calada fúria
contra a madrugada
e nos soprou ao ouvido a trombeta da insônia
até deixar, enfim,
sobre o reboco branco deste quarto precário
uma gota escarlate- era o veículo
para um pacto de sangre

          que prometia que
-apesar do nomadismo,
o pânico a desora,
a alergia debulhada entre os lençóis,
os ciclos do desejo,
a divisão social do trabalho doméstico,
os breves surtos
de felicidade- haveria para nós,
na deriva do amor, um teto,
uns tapumes:
            limites precisos

onde empilhar, em sucessão, os dias."


Ezequiel Zaidenwerg
Tradução: Ellen Maria

23.11.15

Los dinosaurios

"Esperando que la aspirina empiece a trabajar,
que acomode los cuartos, que revuelva el café
y que traiga a mi madre, fresca
a esta tarde de agosto
hojeo revistas estúpidas, escucho discos viejos
me pregunto en qué momento
los dinosaurios sintieron
que algo andaba mal."

**

Esperando que a aspirina comece a trabalhar,
que arrume os quartos, que faça o café
e que traga minha mãe, ainda fresca
a esta tarde de agosto
folheio revistas estúpidas, escuto velhos discos
me pergunto em que momento
os dinossauros sentiram
que algo não cheirava bem.


Fabián Casas
Tradução: Ellen Maria

8.9.15

Noticia

As acácias

Passeando já faz uns anos
Por uma rua cheia de acácias em flor
Soube por um amigo bem informado
Que você tinha acabado de se casar.
Respondi acertadamente
Que eu não tinha nada a ver com isso.
Mas mesmo nunca tendo te amado
- Isso você sabe melhor do que eu -
Cada vez que florescem as acácias
- Imagina só -
Sinto de novo o que senti
Quando me atiraram à sangue frio
A notícia mais desoladora
De que você tinha se casado com outro.

***

"Los aromos

Paseando hace años
Por una calle de aromos en flor
Supe por un amigo bien informado
Que acababas de contraer matrimonio.
Contesté que por cierto
Que yo nada tenía que ver en el asunto.
Pero a pesar de que nunca te amé
- Eso lo sabes tú mejor que yo -
Cada vez que florecen los aromos
- Imagínate tú -
Siento la misma cosa que sentí
Cuando me dispararon a boca de jarro
La noticia bastante desoladora
De que te habías casado con otro."

Nicanor Parra
Tradução: Ellen Maria

25.7.15

Su teoría ha detectado un problema y debe cerrarse

"Ayer quise escribir un poema llamado "Las margaritas mutantes de Fukushima"
justo antes de dormir.

Me mordió la música
y luego la imagen
capaz de construir cientos de escenarios
poblados con belleza deforme
y peligrosa. Una metáfora perfecta
de la poesía (pensé).

Tenía ya la estructura del texto cuando descubrí que su extrañeza no se debía a la
radiactividad
"sino una condición del crecimiento llamada fasciación, por la que el meristema apical del tallo se alarga de forma perpendicular en vez de crecer en un solo punto para generar las habituales formas
circulares".

Entonces todo se arruinó.

Quizás hay ciertas cosas de las cuales es mejor no escribir
porque no dan para tanto
o las metáforas son máquinas inservibles.

Sólo sé que ahora mismo
las margaritas mutantes de Fukushima escriben un poema
sobre un humano monstruo
y encuentran justamente lo que quieren decir."

**

Sua teoria detectou um problema e deve ser finalizada

Ontem eu quis escrever um poema chamado "As margaridas mutantes de Fukushima"
um pouco antes da hora de dormir.

Me fisgou a música
e logo a imagem
capaz de construir centenas de cenários
povoados com beleza deformada
e perigosa. Uma metáfora perfeita
da poesia (pensei).

Tinha já a estrutura do texto quando descobri que sua estranheza não se devia à
radioatividade
"mas sim a uma condição de crescimento chamada fasciação, pela qual o meristema apical do talo se
alonga de forma perpendicular em vez de crescer em um só ponto para gerar as habituais formas
circulares".

Então tudo se arruinou.

Talvez haja certas formas as quais é melhor não escrever
porque não dão para tanto
ou as metáforas são máquinas inservíveis.

Só sei que agora mesmo
as margaridas mutantes de Fukushima escrevem um poema
sobre um humano monstro
e encontram justamente o que querem dizer.


Luis Eduardo García
Tradução: Ellen Maria

25.6.15

Poca cosa en el mundo

"Poca cosa en el mundo con utilidad
todavía: la luna, María. Una
sobre otra con su luz vacía, el cuarto
menguante cada vez con menos cosas, los
muslos menguantes cada vez con menos manos, el
óvalo del rostro que rueda por la sombra. "Espérame
un año y verás: será distinto por la estrella el
destino". Luna de estío, estilo de brillar barroco, el
hueco de la noche se hace día, dices. Pero lo que no
dices y tal vez deberías es que no hay talismán que
frene el maleficio de no estar contigo, aquí
en la maleza de sonidos voló el ave que consuela."

**

Pouca coisa no mundo com utilidade
ainda: a lua, Maria. Uma
sobre a outra com sua luz vazia, o quarto
minguante cada vez com menos coisas, as
coxas minguantes cada vez com menos mãos, o
óvalo do rosto que roda pela sombra. "Espera por mim
um ano e verá: será distinto pela estrela o
destino". Lua de estio, estilo de brilhar barroco, o
oco da noite se faz dia, diz. Mas o que não
diz e talvez deveria é que não há talismã que
freie o malefício de não estar com você, aqui
na maleza de sons voou a ave que consola.

Eduardo Milán
Tradução: Ellen Maria

24.6.15

Mudar de casa

"É bom mudar de casa, de janela,
arrumar de outra maneira as ilusões,
tratar de coisas puras como tintas
e sofás, pôr ordem entre os livros
e a vida, simular a liberdade.
Parece-nos possível voltar a acreditar
na mão que nos estende um pé de salsa,
na pechincha da beleza, quando passa
no poente da razão.
Apetece cometer uma loucura,
comprar um telescópio, decorar
o canto nono dos Lusíadas,
subir umas escadas do avesso,
pensar que nunca mais teremos frio."

**

Hace bien mudarse de casa, de ventana,
arreglar de otra manera las ilusiones,
tratar de cosas puras como tintas
y sillones, poner el orden entre los libros
y la vida, simular la libertad.
Nos parece posible volver a creer
en la mano que nos extiende un pie de perejil,
en la bargaña de la belleza, cuando pasa
en el poniente de la razón.
Nos apetece cometer una locura,
comprar un telescopio, memorizar
el canto noveno de los Lusíadas,
subir unas escaleras al revés,
pensar que nunca más tendremos frío.


José Miguel Silva, Ulisses já não mora aqui, 2002.
Traducción: Ellen Maria

16.6.15

Generación

"La madurez?
- esa posibilidad de acertar en lo correcto
comprender que ya basta de equivocarse-:
no es posible."

***

A maturidade?
- essa possibilidade de acertar em cheio
compreender que já chega de se equivocar - :
não é possível.

Carlos Martínez Rentería
Tradução: Ellen Maria

24.5.15

Signo

"Cuando ya no hay qué
decir, decirlo. Dar
una carencia, un hueco en la conversación,
un vacío de verdad: la flor,
no la idea, es la diosa de ahí."

***

Quando já não há que
dizer, dizê-lo. Dar
uma carência, um vácuo na conserva,
um vazio de verdade: a flor,
não a ideia, é a deusa dali.

Eduardo Milán
Tradução: Ellen Maria

16.4.15

Resumen / Resumo

"Mis años sin ti se resumen:
comer macaronis and cheese
carne congelada
dunkin' donuts cuando cruzo a San Ysidro
lavar ropa sólo los domingos
ir a la librería
espiar a la vecina.
Mis días sin ti:
sucesión de imágenes nuestras por madrugada
la boda que nunca llegó
tu padre bebiendo vino
mi cuerpo sobre el tuyo
tus cabellos en mi rostro.
Mis horas:
lecturas interminables
chicas que aparecen y se van
jamás volver a pisar una sala de cine
ver el deterioro de mi cuerpo.
Y así
hasta encontrarte."

***

Meus anos sem você se resumem a:
comer miojo com queijo
carne congelada
dunkin' donuts quando cruzo San Ysidro
lavar roupa só aos domingos
ir à livraria
espiar à vizinha.
Meus dias sem você:
sucessão de imagens nossas pela madrugada
o casamento que não chegou nunca
seu pai bebendo vinho
meu corpo sobre o seu
seus cabelos na minha cara.
Minhas horas:
leituras intermináveis
garotas que vêm e vão
jamais pisar numa sala de cinema
ver a deterioração de meu corpo.
E assim
até te encontrar.


Jesús García Mora
Tradução: Ellen Maria

10.4.15

NFL

"Jamás aprendí a defender _ siempre en offside
siempre queriendo adelantar líneas
con esperanza de saciar esta ansiedad que aprieta mis tachones.
Así como en el amor luché por cada balón suelto
por cada despedida
arriesgando el cuerpo
mi sexo que se raspa sobre nieve.
Volé más de tres veces y nunca te alcancé
siempre me gustó ser el último
el que te espera a pesar de que el juego ha terminado."

**

Nunca aprendi a defender _ sempre em offside
sempre querendo adiantar linhas
com a esperança de saciar essa ansiedade que comprime minhas rasuras.
Assim como no amor lutei por cada bola livre
por cada despedida
arriscando o corpo
meu sexo que se raspa sobre a neve.
Voei mais de três vezes e nunca te alcancei
sempre gostei de ser o último
o que te espera apesar do fim do jogo.

Jesús García Mora
Tradução: Ellen Maria