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14.6.20

OVNIs

O complexo de águas termais de Vitória está fechado. Três cachorros de rua dormem sobre as pedras brancas na frente da entrada. A guarita com a bilheteria está vazia e um velho cartaz diz que naquele dia o parque permanecerá fechado ao público. Não nos importa porque só estamos parados ali para estacionar o carro. A pousada onde vamos ficar se localiza atravessando a estradinha, uns duzentos metros para dentro no campo. O caminho é na verdade uma rua de terra que parece mais um pântano, por causa das últimas chuvas, e o dono nos aconselhou que fôssemos andando a pé para lá desde aquele ponto.
Mal deixamos o carro e uma nuvem de mosquito cai sobre nós. Como temos as mãos ocupadas com nossas coisas, só nos resta mexer o corpo e cabeça, como epilépticos, para assustá-los com o movimento. 
Viemos a Vitória para conhecer o Museu OVNI. Deixamos nossas coisas na pousada e voltamos a caminhar os duzentos metros até o carro. Nos recomendaram um restaurante de frutos do mar no porto. Comemos pasteis de pescado e um peixe chamado piapara, na brasa. Fazemos hora até a hora do museu abrir. Pelo menos é o que verifiquei na internet, que, aos sábados, só abre às quatro da tarde. Mas sei lá, vai saber, me disse o cara da pousada: às vezes abre, às vezes não. Quando estamos chegando, me acelera o coração: armei essa expedição só para vir ao Museu OVNI, e se está fechado, a viagem, os mosquitos, o lamaçal, e tudo o mais não será nada além de um tremendo incômodo, para absolutamente nada. Alguém corre na frente e da esquina nos diz aliviado: está aberto.
Silvia, a diretora do museu, é uma mulher de uns setenta anos, com o cabelo tingido de loiro e com óculos de armação bem grossa. Ela nos recebe em uma mesa e nos cobra 35 pela entrada, a cada um. Nos adverte que antes de qualquer coisa, vai nos exibir um vídeo institucional e pede que sentemos em umas cadeira diante de uma TV de plasma. Coloca o dvd e nos deixa com uma filmagem copiada do telejornal do canal de Crespo, onde ela mesma é entrevistada. Da TV nos explica por que existe o museu, por que os extraterrestres escolheram a cidade de Vitória, porque ela escolheu deixar todas as comodidades de uma vida de mãe e esposa junto a um engenheiro em Vila Devoto para se mudar para aqui, com uma mão na frente e outra atrás. Enquanto ela conta, a música dos Expedientes X toca de fundo e às vezes até assume o primeiro plano cobrindo sua voz. Quando termina o vídeo, estamos liberados para percorrer as instalações: é a garagem de uma casa e um pouco mais: as paredes cheias de recortes de jornais, fotos de animais com as tripas para fora, círculos secos nas plantações, pedaços de metal, e uma dramatização com bonecos de tamanho natural do caso Roswell.
Quando saímos, começa a entardecer e vamos até o morro da Matanza. De lá, de frente para a Lagoa do Pescado, dizem que é possível ver as luzes, é o lugar das visões e das aparições. O céu está alaranjado e vai escurecendo tom a tom, até se fazer de noite. Vemos uma luz se levantar sobre a lagoa e se mover de um lado para o outro, por momentos parece até vir em direção a nós e depois volta a se afastar.
Maxi, que já veio várias vezes, nos conta que aqui Silvia festeja todos os seus aniversários, em dezembro. Costuma vir uns cem ou duzentos ufólogos de todas as partes, amizades que ela foi fazendo em seus anos de encontros e de aparições. Uma vez ele mesmo veio. A festa parecia uma rave rural, infestada de personagens estranhos, todos bebendo cerveja e vinho, alguns tocando violão. Em um determinado momento, ele foi buscar mais uma cerveja, e encontrou a Silvia, encostada no balcão, de costas para a festa, tomando uma lata de Brahma, em uma aparição íntima, cerimoniosa, só para ela.

Selva Almada
Tradução: Ellen Maria

13.9.17

tenho medo...

tenho medo de matar
as plantas
construí pra elas um pequeno deck
do lado da janela
mas talvez o sol 
não seja suficiente aqui
explico pra elas que a palavra
“mudança”
em português
tem um sentido duplo
concreto e metafórico 
que roland barthes diria
que isso é uma sorte
uma “boa disposição”
essa mesma que nós
elas e eu
devemos ter 
os meninos sobreviverão 
o gato sobreviverá 
mas elas
elas precisam me ajudar

Paloma Vidal

12.9.17

“De verdad esto no nos lleva a ningún lado. 
Si supieras lo que de verdad vale el tiempo no lo usarías para esto”

Samanta Schweblin

4.9.17

Fantasma Q & A

Q     como você sabe que é um fantasma?
A      porque eu deslizo
Q      se parece com dormir?
A      se parece com ceifar
Q      você se sente velho ou jovem?
A      tempo e espaço estão errados
Q      você come? há comida desse lado?
A      o deslizar afeta os meus nervos
Q      e sobre o lá em cima e o lá embaixo?
A      são só vetores
Q      existe um idioma?
A      como acha que eu falo com você
Q      quer dizer uma gramática?
A      o verbo
Q      isso é uma contradição?
A      não não é
Q      só testando
A      eu já tive esse sonho antes?
Q      mas você também está acordado
A      eu me contradigo o tempo todo
Q      você vê pessoas? você pode me ver?
A       se você fechar seus olhos
Q      existem estados de espírito?
A      as extremidades estão congelando
Q      e isso é bom?
A      sim
Q      aí está muito cheio?
A      você está brincando?
Q      há outros fantasmas neste lugar?
A      a maioria dos objetos aqui são fantasmas
Q      sério
A      você já esteve em Paris?
Q      não
A      Paris é um fantasma
Q      não não é
A      você já leu Thomas Pynchon?
Q      nós estamos mudamos de assunto
A       um fantasma não tem ângulos retos
Q      como você descansa?
A      nadando
Q      quem é aquele homem?
A      ele faz os zeros
Q      você disse mesmo nadando?
A      eu vi você no mercado uma vez comprando maquiagem no meio da noite
Q      não era eu
A      foi na mesma noite do piso molhado
Q      não
A      você não pode colocar um até que tire outro
Q      um que?
A      zero
Q      seu cabelo vai seguir crescendo?
A      sim mas são maçãs

***

GHOST Q & A


Q      how do you know you’re a ghost
A      it’s the sliding
Q      is it like sleep
A      like scything
Q      do you feel old or young
A      space and time are wrong
Q     do you eat, is there food
A      the sliding affects my nerves
Q      what about up and down
A      just vectors
Q      do you have language
A      aren’t I talking to you
Q      I mean grammar
A      the verb
Q      that is a contradiction
A      no it isn’t
Q      just testing
A      have I had this dream before
Q      yet you’re also awake
A      I contradict myself all the time
Q      do you see people can you see me
A      if you close your eyes
Q      what about moods
A      the edges are freezing
Q      is that good
A      yes
Q      is it crowded
A      are you joking
Q      are there ghosts in this room
A       most of the objects here are ghosts
Q      really
A      have you been to Paris
Q      no
A      Paris is a ghost
Q      no it’s not
A      have you read Thomas Pynchon
Q      but we digress
A      a ghost has no right angles
Q      how do you relax
A       swimming
Q       who is that man
A       he does the zeroes
Q      did you say swimming
A      I saw you at Saks once buying makeup in the middle of the night
Q      wasn’t me
A      it was the night the counter flooded
Q      no
A      you can’t put one in till you take one out
Q      one what
A      zero
Q      does your hair keep growing
A      yes but it is apples

Anne Carson
Tradução: Ellen Maria

31.8.17

"ruas
tocar a morte no mínimo
umas duas
ainda que dessas do tipo
num era pra ser
até reconhecer a saliva de cada bicho tocar
tambor numa rua vazia
acordar quem te faz dormir é preciso
dançar com aquele cego às duas
cegos num olham só pro próprio
escuta
uma umbigada de resistência
toca o tambor feito de pele de rua vazia
de ferocidade e simetria
e de cesuras e de sintomas
a linha a grade
a mão que em braile embala o arame a farpa
que pega pela mão e carrega
a estrada
de meio fio a meio fio de sono a sono
luz arrastada de calçada até portas
o som do fóton no tapete de boas chegadas
antes e depois
os meios os muros que dizer
as fachadas
também é perguntar isso é entrada ou isso é saída
a simples sustentação de falas cognatas

num tinha um poste aqui
bandeira de luz fincada ou uma catraca
demarcações
que nos vinculam"

Bruna Mitrano e Ricardo Escudeiro

27.8.17

"É dito: pelo chão você não pode ficar
Porque lugar de cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
Pelas paredes você também não pode
Pelas camas também você não vai poder ficar
Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
Porque lugar de cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo"

"reino do bichos e dos animais é o meu nome,  Stela do Patrocínio.

22.8.17

"El amor tiene necesidad de realidad. ¿Hay algo más tremendo que descubrir un día que se ama a un ser imaginario a través de una apariencia corporal? Es mucho más tremendo que la muerte, porque la muerte no impide al amado haberlo sido.
Ese es el castigo consistente en haber alimentado al amor con la imaginación".
Simone Weil

15.8.17

"Tienes que aprender tu cuerpo. Y tu cuerpo, a su vez, tiene que aprender.
Poco a poco, a lo largo de interminables días y noches, comienzas a aprender.
De hecho, surge una cuestión absolutamente importante: tienes que tener humor, y tienes que tener aplomo.
Pues deberás mirar de reojo —nunca de frente. No podrías.
El que hubieras estado toda tu vida en contigüidad con la muerte no te sirve de nada, 
y solo te infunde de una falsa seguridad y te pierde,
en momentos de supremo terror, que son momentos decisivos en el aprendizaje,
cuando miras de cerca a la muerte y cuando de pronto la identificas físicamente y ves la clase de persona que es,
en momentos en que precisamente no existe defensa alguna, como no sea el humor y el aplomo."
Jaime Saenz

9.8.17

queima de arquivo

"minha avó tinha uma ilha/ nada para se vangloriar/ dava-se uma volta nela numa hora/ ainda assim era um paraíso/ um verão fizemos uma visita e descobrimos que o lugar estava infestado por ratos/ chegaram num barco de pesca e passaram a se alimentar de coco/ minha avó me ensinou como se livrar dos ratos de uma ilha/ enterramos um barril e o deixamos aberto/ depois colocamos um coco como isca/ os ratos foram em busca do coco e caíram no barril/ depois de um mês prendemos todos os ratos/ mas não jogamos o barril no oceano nem o queimamos/ deixamo-lo ali/ os ratos começaram a sentir fome/ e um a um passaram a se devorar/ até que só restaram dois/ os dois sobreviventes/ pegamos e os soltamos nas árvores/ mas agora eles não comem mais coco/ agora eles só comem ratos"


Evelyn Blaut-Fernandes

30.7.17

"Sei o que quero fazer da minha vida, e tudo isso é tão simples, mas era tão difícil para mim no passado. Quero dormir com muitas pessoas - quero viver e ter ódio de morrer - não vou lecionar, nem fazer o mestrado depois da graduação... Não pretendo deixar que o meu intelecto me domine e a última coisa que quero é cultuar o conhecimento ou pessoas que têm conhecimento! Não dou a mínima para o acúmulo de fatos de ninguém, exceto quando se trata de uma reflexão sobre a sensibilidade elementar, de que eu de fato preciso... Quero fazer tudo... Ter um modo de avaliar a experiência - se me causa prazer ou dor, e tenho de ser muito cuidadosa quanto a rejeitar a dor - tenho de perceber a presença do prazer em toda parte e encontrá-lo também, pois ele está em toda parte! Quero me envolver completamente... Tudo é importante! A única coisa a que renuncio é a capacidade de renunciar, de recuar: a aceitação da mesmice e do intelecto. Eu estou viva... Eu sou linda... O que mais existe?"

Susan Sontag

17.7.17

"Porque sua camiseta secou ao sol ela tem a cor do sol
porque seus cabelos secaram ao vento seus pensamentos têm
a velocidade do vento
porque você disse “noite” sua boca 
terá o gosto do mar noturno
porque você não conheceu meu avô você me amará menos
porque não te conheci quando criança eu te amarei mais
porque você conheceu os meus livros antes de me conhecer
você nunca vai me conhecer"

ana martins marques

13.7.17

segunda vez

En el acto ingenuo
de tropezar dos veces
con la misma piedra
algunos perciben
tozudez
Yo me limito a comprobar
la persistencia de las piedras
el hecho insólito
de que permanezcan en el mismo lugar
después de haber herido a alguien.
Cristina Peri Rossi

10.7.17

libro de horas

Desde la ventana observo la plaza: a los plátanos
les quedan cuatro hojas exhaustas que no
se deciden a emprender el último vuelo. Cuatro
son también los días que cuelgan del calendario,
a punto para caer cuando nadie mire. Todo
acaba desprendiéndose y volviendo a tierra
con la fría ventada de la estación
desfavorable. El proceso es lento, casi
imperceptible. Hay que estarse noches enteras
acostumbrando la mirada a la quietud
antes de advertir cómo la vida pierde los pétalos,
pierde los días, pierde el oxígeno, pierde las aves,
pierde los cuerpos y pierde las respuestas. También los muertos
celebran la Navidad, sentados alrededor
de los juguetes. Tras la ventana pienso
en ellos, que es una manera de pensar en mí.
Y la vida pierde las hojas, indiferente
a todo, como un inmenso árbol caducifolio.
Gemma Gorga

8.7.17

- você sabe
que a gente
é o sonho
de alguém?
- é impossível
ter certeza.

paloma vidal

6.7.17

cirugía de invierno

Lo dicho queda, cala,
corroe la leve pulpa que otro construye a solas,
como en la fronda que el otoño ataca.
Porque el otoño seca las hojas
de manera bellísima:
deja en el aire las puras nervaduras,
ésas casi invisibles
en las que reparábamos apenas
y evapora esa verde sustancia que era,
para nosotros, hoja.
Así de pronto terminan los verdores.
Hay que arrastrar cadáveres amados
y consentir el lujo
de la infinita dilación indecisa
y el filo que mutila la voz, la tolerancia.

Ida Vitale
(puta poema)

1.7.17

Cautiverio

Esta cueva es mi casa
esta lentitud y esta métrica
para caminar entre las cáscaras
es mi diálogo con el bosque
mi forma de no olvidar el regreso.
El sendero original estará lleno de maleza
Habrán levantado una fábrica, un templo
una antena provisoria
que baje el mundo a las alturas
Soy la bestia en un rectángulo
que podría ser la habitación de un hombre
donde entran él y su cama
y con suerte una silla
Dar el zarpazo a la mosca atraída
por la corpulenta pasividad y el encanto
de la antigua destreza
Pensar en ella como en el salmón
que se entrega manso
lejos del chorro
Pero es tan solo una mosca
disputándome el azúcar
que un niño nos arroja.
Llueve en esta jaula
comida por los homigueros
El agua del hipopótamo se ha llenado de hojas
Una tortuga ha quedado suspendida
en un alto del cemento
Quien dice que los animales no sufren senilidad
extrañeza, estreñimiento?
Qué hace a este lugar distinto a un hospital
o a una cárcel?
Quien puede asegurar
que esa tortuga a la orilla del piletón
como ese viejo recostado en el arco del geriátrico
no esperan
a costa de ahogarse
la corriente milagrosa
que los devuelva al mar.

Laura García del Castaño

21.6.17

Exercício de mendicância

Nos vestimos com roupas sujas e rasgadas, tiramos os sapatos, emporcalhamos o rosto e as mãos. Vamos para a rua. Ficamos parados, esperando.
Quando um oficial estrangeiro passa na nossa frente, levantamos o braço direito para cumprimentar e estendemos a mão esquerda. Quase sempre, o oficial passa sem se deter, sem nos ver, sem nos olhar.
Finalmente, um oficial para. Diz qualquer coisa numa língua que não compreendemos. Ele nos faz perguntas. Nós não respondemos, quedamos imóveis, um braço levantado e o outro estendido. Então ele remexe nos bolsos, coloca uma moeda e um pedaço de chocolate em nossas mãos sujas e vai embora balançando a cabeça.
Continuamos esperando.
Passa uma mulher. Estendemos a mão. Ela diz:
- Pobres meninos. Não tenho nada para dar a vocês.
Ela nos faz uma carícia na cabeça.
Nós dizemos: 
- Obrigado.
Uma outra mulher nos dá duas maçãs e uma outra, ainda, biscoitos.
Uma mulher passando. Estendemos a mão. Ela para e diz:
- Não têm vergonha de mendigar? Venham à minha casa que eu tenho uns trabalhinhos fáceis para vocês. Rachar lenha, por exemplo, ou limpar o terraço. Já são grandinhos e fortes para isso. Depois, se trabalharem bem, eu dou sopa e pão.
Nós respondemos: 
- Não temos vontade de trabalhar para a senhora, nem queremos comer sua sopa, nem seu pão. Nós não temos fome.
Ela pergunta:
- Então, por que estão mendigando?
- Para saber qual é o efeito que isso faz e para observar a reação das pessoas.
Ela vai embora gritando:
- Vagabundinhos de merda! E impertinentes ainda por cima!
Na volta para casa, atiramos nas touceiras que ladeiam a estrada as maçãs, os biscoitos, o chocolate e as moedas.
A carícia nas nossas cabeças é impossível jogar fora.

(de Um caderno e tanto) - Agota Kristof

20.6.17

"e Júpiter — o maravilhoso — entrou agora pouco no signo de Escorpião. adeus equanimidade libriana! nós agora vamos aprofundar no intenso, denso e aquático viver da regeneração. é tempo de transformação psíquica, espiritual e emocional — coisas que podem doer, mas é pra expurgar os venenos. afinal, Escorpião enfrenta qualquer coisa que for podre pra purificá-la em poder vital.
a última vez que Júpiter esteve em Escorpião foi entre o fim de outubro de 2005 e o fim de novembro de 2006, mas a configuração era muito mais restritiva do que agora, já que na época tal Júpiter quadrava Saturno em Leão e Netuno em Aquário.
pessoas com fortes presenças em signos de água tendem a ser beneficiadas pela sorte e também a desaguar os mundos fecundos que existem em si. pra todo mundo as intensidades psíquicas e emocionais se tornam os lugares pra gestar as transformações. paixões, pulsões e desejos vão se amplificar — nem que seja pra nos fazer morrer e nascer de novo. é tempo de excessos emocionais. quem gosta de emoções e sentimentos leves vai ter um longo ano pela frente...
Júpiter em Escorpião sabe que há algo de enigma e mistério em tudo e a gente se aproxima com paixão: e essa aproximação não desfaz o enigma, pelo contrário, é tempo de viver com força o que não será necessariamente e nem precisa ser revelado.
Júpiter desta vez fica em Escorpião até o dia 8 de novembro de 2018 — quando adentra sua morada sagitariana.
— quem tem desejo tem coragem."

Julia Hansen

18.6.17

A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

Elizabeth Bishop

5.6.17

"vamos colocar isso 
em termos de natação.
é como se na vida eu estivesse 
nadando, nadando, nadando 
enfrentando ondas muito altas
a piscina me salva 
de muitas situações opressoras
tem situações que são 
enlouquecedoras
se a gente sabe nadar 
é só nadar 200, 300 metros 
que aí já não sente mais nada 
não fica triste, não precisa chorar 
é como se tivesse lavado 
o cérebro por dentro"

nora ronai