31.5.15

Faço, fuço, forço

(truly, madly, deeply)

Conservo meu medo
de morrer de amor
e a dificuldade de ser morta
de medo
Liberto meu amor
do medo da morte
e da dificuldade de mantê-lo
aceso.


Ellen Maria

27.5.15

Ai se sesse

Quis fazer um poema que jorrasse
areia e pedra
e entupisse
o teu canal estreito
e sem saída
o gozo entrasse
e melasse
as tuas artérias
até que vazasse
pelo ouvido
e dessa maneira
cheio
de si
e sem fome
tu entendesse
o meu recado:
Eu nunca fui
pro teu bico.


Ellen Maria

24.5.15

Signo

"Cuando ya no hay qué
decir, decirlo. Dar
una carencia, un hueco en la conversación,
un vacío de verdad: la flor,
no la idea, es la diosa de ahí."

***

Quando já não há que
dizer, dizê-lo. Dar
uma carência, um vácuo na conserva,
um vazio de verdade: a flor,
não a ideia, é a deusa dali.

Eduardo Milán
Tradução: Ellen Maria

23.5.15

Caiçara

Uma vara de pescar tigre
bengalês pra peixe-boi dormir
com anzol de histórias

livre porque livro
coletânea de tudo que leu
(pelas mãos, bocas
olhos, ouvidos)
ocupação da mancha
no poema alheio

O jogo é sempre
verdade ou desafio
(caiçara nunca arrega)
joga desde a primeira gota
até a última garrafa

Na recusa de passar pelo outra vez
só nada em rio profundo
de correnteza
(e de preferência
sem boia)

Na recusa de envelhecer precocemente
de sentir o abismo se formando entre as sobrancelhas
não pergunta
E se a expansão leva ao deserto?
ser contido / conteúdo é não esquecer os medos
mas fingir não saber onde deixou a chave
da gaveta na qual eles (e os pesadelos)
estão guardados
e se molhar (só) até o pescoço
Como que se ama (só) um pouquinho?

Na recusa de ser constante
constrói sonhos de areia
e rega as expectativas com água do mar
Assim pode amar para sempre
(sem descanso na lua cheia)
tudo é trabalho
tudo dá trabalho
nada dá trabalho

nada é trabalho

Imagina um castelo com vista
à constelações que ainda falta descobrir
Imagina uma casa de pedras polidas
à prova de lobo-mau fugitivo

uma vara de pescar histórias

Caiçara nunca morre.



Ellen Maria

22.5.15

#poesiadobrasil

poderia estar matando
mas não sou dessas
de sair matando
todo mundo
bebendo na mesa de um bar
fechado
tomo cachaça
às vezes tomo dreher
e sou descolado
leio tarot e escrevo cartas
sou desbocado
perco o rim, o fígado e a piada
sou fundador do selfie da poesia
pobre

preguiça dos que são publicados
em revistas
falando mal dos outros
que são publicados
em editoras europeias
e vice-versa

e na contra-capa, havia uma pedra
havia uma pedra
um prêmio literário
na timeline das antologias
inveja de quem dança tango
no meio do caminho

parem tudo
parem de escrever
de ler
de babar ovo e puxar saco
de limpar merda de aquários
não parem por nada

os poetas batem punheta com o poema alheio
e limpam o gozo com manuel bandeira.


Ellen Maria

21.5.15

Aniversários

"Vinte Anos Depois é um romance de Alexandre Dumas
duas décadas não são nada
é a média de vida do homem primitivo do escravo romano
é a idade de um cão muito muito velho
é a média de glória de um artista maior
o tempo sem celulite de uma cortesã
o lapso de procriação depois do casamento
quatro ou cinco mandatos políticos   o auge de um império
vinte anos levou a Constantino reformar Bizâncio
vinte anos fizeram a fortuna de Frick Morgan e Du Pont
vinte anos entre a apresentação no Templo e a crucificação
vinte anos é a matéria dos memorialistas
vinte anos e o povo se cansa da Revolução
vinte anos depois Odette está casado e Mareei morto
a roda o computador pessoal a moda das perucas brancas se
popularizam em não mais de vinte anos
Quéfren e Miquerinos construíram suas pirâmides em vinte
curtos anos
vinte anos depois o cadáver está frio olvidadíssimo
vinte anos de exercício e o êxtase desce ao asceta
nada nada são duas décadas vinte vezes nada
a ponte nova entre aqui e ali está congestionada hoje
a então chamada ponde to futuro já não serve mais
agora quando estás nela também estás aqui
tinhas o cabelo solto tinhas a rédea solta
soltas tinhas as palavras
há vinte anos
entre aqui e ali".

Horácio Costa

20.5.15

Diagnosis

(para Djanira e Elza)

Qual flor
desperta cedo
e sem sair do lugar
perambula por aí
respirando a curiosidade
dos que velhinhos
veem tudo como a primeira
e a última vez

Depois segue
recordando a vida
crianças pequerruchas
que se encondem debaixo da saia
da mãe e do pai
sentem medo
mas saltam no pescoço
agarrando sonhos
recolhendo os trapos e as roupas
pedaços de traumas
estendidos no varal

Caminha pela sala
o campo verde
lagos
busca o sol
dá a volta ao mundo
sem quase sair do eixo
girassol

Depois esquece
vegeta vendo televisão
repete qualquer coisa
sobre o artista da novela
parece que se alimenta de luz
pergunta sobre o que vai ter no almoço
e come pouco

Sofre arrancando os lábios
toma os remédios
morde com medo de morrer
sofre mastigando os dentes
sofre devorando o medo
e às vezes vomita
e briga com a morte
murcha

se banha vagarosamente
acariciando os infinitos lábios
que seu corpo enrugado construiu
escala montanhas com os dedos
a pele fina das pétalas

se perfuma
e cheira as costas da mão alheia
que lhe ajuda e lhe beija
veste algodão e agradece a noite
é hora das lágrimas escorrerem pela terra
hidratando os corações-sementes

dorme e sonha com os netos
imaginários
e algum fantasma

Parece que vai viver para sempre

e vai.

O candidato

Passou com nota A
na prova teórica
pedagógica
específica
física
ortográfica
psicotécnica
na entrevista
dinâmica de grupo
verificação de documentos
sequência didática
no plano de metas
mapa de carreira
caderno de contabilidades
período de experiência
foi funcionário do mês
conheceu a diretora
reunião de três horas
estabeleceram a pauta
traçaram projetos
discutiram política
contaram piadas
confiaram segredos
tomaram café
recitaram poemas
sonharam viagens
marcaram cervejas
foi demitido
era perfeito demais
nenhuma empresa
aceita
tamanha lista
de perfeição
(três dias depois F. pulou da ponte e morreu nas pedras).

15.5.15

décimo andar - térreo

as britadeiras anunciam
madrugada
obra na avenida a essa hora
e abastecimento do posto de gasolina
movimento na biqueira
sobe e desce aviãozinho
de moto cento e cinquenta
o balanço do playground do prédio só se diverte
quando um vento
(criança) perde a vergonha
formigas se escorregam
no perfume do jasmineiro
canários de apartamento insones
estremecem
faz frio
aqui e nas salas alheias
de sacadas abertas
toda uma vida
da minha janela
te mando um beijo na orelha
porque você gosta
debaixo do lençol e do cobertor
em cima do tapete
avança o ar sobre seu pescoço
e você se arrepia
sei de tudo isso de olhos fechados
há vários quilômetros de distância
todo um sonho
fecho o vidro e a cortina
essa fome que não passa
o mundo acontece lá fora
ainda bem
amanhã vou dormir com você.

13.5.15

Distração

queimou
outra vez
meu feijão outra vez queimou
promessa: não deixar mais queimar feijão
não deixar a vida me virar para o outro lado
oferecer a outra face e ficar nessas de esquecer o feijão no fogo
queimou meu deus queimou outra vez
panela preta
feijão torrado
abre as janelas pro vento levar o queimado para o outro lado
que frustração
jogar fora quase meio quilo de feijão
tanto tempo no fogo
tanto gás gasto
tanto
jogado fora
agora é hora de pensar em outra refeição
que demore menos pra cozinhar
que já deu fome
que já deu ânsia
já encheu de água na boca
comer feijão e arroz num prato com farofa
bife ovo salada e batata frita
almoço com tudo que tenho direito
já não tem tempo
já não dá o tempo
mas fica a promessa
não deixar mais queimar feijão
não deixar de comer feijão
não deixar de valorizar o feijão
não deixar de amar o feijão
já não estou falando de feijão.
quer saber? por que a pressa?
Morreu quem morreu,
feijão outra vez no fogo
minhas mãos cheiram a fome
de refeição completa.


Ellen Maria

12.5.15

The shammer

up                                                                                                      shit
 (in                                                                                                  Chi  le)
      sh udd                                                                                    er ing  
        sh am                                                                                bl  ing
               and                                                                    shivering
                     sh                                                             e        
                          s         o          u           g          h          t
                                  and     shortly      s          h                                                          
                                                                                                                              (o)            t
                                                                                      t                   he
                                                                                                                         she(  )          riff
 
                                                                                      e .   e  .
                                                                                            c  u  m
                                                                                                        m
                                                                                                           i n g
                                  [shattering him]                                                       s
                              with                                    
                           s
                       u
                    r
                e                                  
         and
shameless



Ellen Maria

11.5.15

Uma didática da invenção

"I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com a faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

II
Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

(...)

X
Não tem altura o silêncio das pedras."

Manoel de Barros

7.5.15

Meu anúncio nos classificados, hoje cedo:

"troco
zona de conforto
acolchoada
por falta de gravidade,
negocio culpa."

Carmen Picos

4.5.15

entre sombras

ninguém me conhece
quando aviso aos meus medos que eles não existem
e saio a assoviar canções antigas em becos escuros
em noites escuras e chuvosas
cheios de bruxas soltas
ninguém me conhece
porque eu fecho os olhos
e depois abro e dou risada
de todas elas
quando eu digo séria
o olho brilha à pergunta que eu já sei a resposta
porque fui eu quem dá a resposta fazendo a pergunta
quer ser meu namorado?
vejo um filme de terror sozinha
e ele dorme ao meu lado
se esse tapete da sala falasse
ele diria que não houve noite mais longa
que as nossas últimas setenta e duas horas
juntos aos poucos vou reconhecendo
o que me define
entre as luzes da tv e essas pausas
no sono e nas conversas
cinema, música, literatura
as coisas vão muito bem
e um beijo de spider man faz esquecer o controle.

Ellen Maria

1.5.15

Prosa Desnuda

"antes nunca hubo
o fue imposible aún

ninguna inspiración
que hiciera piedra del instante
ni siquiera un interior
de un exterior

una y otra vez
no supe algo de poco

no di la pertinente
información
-anoche tomé las pastillas
nadie lavó los platos-

en tal condición precaria
la luna me ve girar

soy yo la que funda un cielo
de fase en fase".

María Negroni

30.4.15

discussão política

Faço a previsão de poucos assaltos
o soco espesso no espaço
na hora de escutar eu penso
depois desse jab
um passo para trás e a mão de defesa
assim o som não vem oco
assim volto logo pra casa
Não uso argumentos porque sou de direita.
Não uso luvas porque sou de esquerda.


Ellen Maria

29.4.15

Backup natural

Deletou as fotos
Bloqueou o perfil
Eliminou redes sociais
Excluiu os emails
Formatou o pen drive
Só faltou limpar a memória
mas essa não tem atalho
na área de trabalho.

Ellen Maria

La vuelta

Me dijiste tantas veces
que era mi casa
que el baño era mío
así como los platos sucios
y el té de tilo
me dijiste que podría leer todos los libros
que quisiera
ocupar tanto espacio como pudiera
hacer de la cama mi refugio
y sin fuga
poco tiempo después
fui expulsa
las pesadillas quedaron
las botas quedaron
los platos limpios
los apuntes
no cupieron en la maleta
no tuve tiempo de agarrar
también los últimos sueños
pero creo que nada de lo que llevé            te harás falta
quizás ni te darás cuenta
escondí una que otra poesía
entre mis medias
Hoy hace frío sin tu cobija
pero cuando desembarque de este avión
sé que estaré de vuelta a mi país tropical.

Ellen Maria

27.4.15

La verbena

"Cuando el bocado de los dioses se arrebola de triste
duele servir el café, persignarse antes del vino,
alzar la vista y contemplar, en un cielo escabroso,
la cena más enferma de los condenados.
De las batallas perdidas los corazones, la fe que mordisquean
las ex esposas y los hijos del viento, los fuegos artificiales,
las comas que trastabillan el futuro.
Cuando el vértigo de la resignación
se acurruca en las venas
se amanece entre lobregueces danzantes
que pronuncian en sus pasos
los motivos para resistirse a creer."

Antonio Constantino

saber esperar alguém

"Não há nada mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -----------------
-------------------------- até que a dor alegre recomece."

Maria Gabriela Llansol

24.4.15

what's up

O relógio é digital e luminoso
na tela do smarthfone
mas o tic tac
não vem do voo
das borboletas no estômago
eu sinto fome
e o tempo para
ouvir o bater das asas
você atende
diz que está chegando
depois chega
depois
sacia
e o tempo para
começar outra vez
...
e tudo perde a hora
chamadas perdidas
Hoje só estamos para nós.

Ellen Maria

20.4.15

O fio da história

A faca que corta
o instante da fome
é a mesma que separa
as sobras
da carne crua
da saciedade do presente.

já foi lavada
afiada
e repousa
seca
no gaveteiro.

Não anseia
pelo próximo uso.
Espera
a chegada da estação
das frutas
sem casca dura
que derretem na mão.

(quando eu penso que posso me machucar
é que estou apaixonada de novo).

Ellen Maria

19.4.15

Brisa

"Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.

Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina."

Manuel Bandeira

Fogo Encantado

Não mando recado
Não solto fumaça
Não uso o dedo
Não coço a garganta
Não meço caracteres
bafo quente
minha palavra
é dita de olhos fechados
nariz tapado
pulmão afogado
boca
que boca?
pena
que pena?
nada de word
ou megafone

Minha palavra
é descoberta
através da roda
fincada
no pé descalço
sem atalho
balbucio
ou papel passado
firmado
de joelhos caídos
no terreiro
dos afetos

Meu nome
entre a faca
o sangue
e os dentes
fica a critério
da oferenda
é só
o motor

A palavra
condensa
em marcas
onde já passou
a tempestade.

Ellen Maria

18.4.15

No cansarse

"Hay días, que aunque la tarea canse: uno debe mirar arriba: a las estrellas, esas luces que nos hacen sentir enormemente pequeños. Mirarlas nos da perspectiva, y nos recuerda que cada paso, cada instante son más significativos si comprendemos que en medio de la grandeza tenemos lugar y espacio, ese en donde estamos, y cada vez que miramos al otro somos más capaces de entender que todo es y funciona, cansarse no es opción."

Jocelyn Pantoja

17.4.15

El inevitable cansacio

"busco pájaro en cada cosa que muere
pienso ahora que los pájaros mueren volando
una implosión silenciosa de sus características convierte el horizonte."
María Mascheroni

"Há sempre mais promessas
do que pássaros no ar"
Juliana Frank


Hay algo de suicida en ser pájaro
no me gusta comer sola
cantar menos
y proyecto volar
pero solo voy hasta la esquina
hay un poco de melancolia
en ser pájaro
que duerme de pie
nunca abrazado
aunque odie esta palabra
hay un poco de erección en ser pájaro
siempre parado
- nunca vi el pito de un pájaro
no voy a morir
sus plumas negras
de gozo
de muerte
no me gusta platicar después
y hay una posibilidad
de ser eletrocutado
no huelo nada 
más allá de mis penas
quemadas
expulso toda la mierda
de una vez
no me sobra nada
vivo hambrienta
- todo es comida de pájaro
cualquier cosa alimenta
mis ojos
pequeños
de horizonte
hasta mis huesos son huecos
hay algo de humano
de alas rotas
en ser pájaro
hay algo suelto
que no entiendo
maldito miedo de la libertad
hay algo de peligroso en ser pájaro
hombres cobardes,
es verano.


Ellen Maria

Gotan

"Esa mujer se parecía a la palabra nunca,
desde la nuca le subía un encanto particular,
una especie de olvido donde guardar los ojos,
esa mujer se me instalaba en el costado izquierdo.


Atención atención yo gritaba atención
pero ella invadía como el amor, como la noche,
las últimas señales que hice para el otoño
se acostaron tranquilas bajo el oleaje de sus manos.


Dentro de mí estallaron ruidos secos,
caían a pedazos la furia, la tristeza,
la señora llovía dulcemente
sobre mis huesos parados en la soledad.


Cuando se fue yo tiritaba como un condenado,
con un cuchillo brusco me maté
voy a pasar toda la muerte tendido con su nombre,
él moverá mi boca por la última vez."


Juan Gelman

16.4.15

Veneno remédio

Meus amores não sobem a serra
rompem cadeiras
não tomam a pílula do dia seguinte
sorvem chá de sumiço
abandonam o caminho de volta
e obliteram o voo da conexão.
Só lembram dez anos depois
mas aí já é tarde.
Billie Holiday já os mandou
para as cucuias

Ellen Maria

The beginning of the time

Eis
que de repente
ex
Ficou difícil es
cre ver
em es
pañol,
crê ?
ser
também.

(mas a ma nhã com eço o in gl ês
com eco no etcétera).


Ellen Maria

Lumen Insan

Quando faz falta ver
e a boca beijar
é no segredo
do pedido
transmitido mentalmente
que a espera pousa

vai chegar

e eis uma resposta:
Foi engano.

Frustração é um substantivo próprio.


Ellen Maria

Resumen / Resumo

"Mis años sin ti se resumen:
comer macaronis and cheese
carne congelada
dunkin' donuts cuando cruzo a San Ysidro
lavar ropa sólo los domingos
ir a la librería
espiar a la vecina.
Mis días sin ti:
sucesión de imágenes nuestras por madrugada
la boda que nunca llegó
tu padre bebiendo vino
mi cuerpo sobre el tuyo
tus cabellos en mi rostro.
Mis horas:
lecturas interminables
chicas que aparecen y se van
jamás volver a pisar una sala de cine
ver el deterioro de mi cuerpo.
Y así
hasta encontrarte."

***

Meus anos sem você se resumem a:
comer miojo com queijo
carne congelada
dunkin' donuts quando cruzo San Ysidro
lavar roupa só aos domingos
ir à livraria
espiar à vizinha.
Meus dias sem você:
sucessão de imagens nossas pela madrugada
o casamento que não chegou nunca
seu pai bebendo vinho
meu corpo sobre o seu
seus cabelos na minha cara.
Minhas horas:
leituras intermináveis
garotas que vêm e vão
jamais pisar numa sala de cinema
ver a deterioração de meu corpo.
E assim
até te encontrar.


Jesús García Mora
Tradução: Ellen Maria

14.4.15

Vale a pena ver de novo

Você entra todos os dias em um ônibus lotado e espera para a porta de trás abrir para poder dar três passos em direção à saída. Consegue finalmente fincar os pés e afundar seus pensamentos em um banho terapêutico de lama em Araxá. Você aguarda pacientemente o ponto onde vai descer para ajeitar a gravata e caminhar duas quadras até o trabalho que não aceita que a felicidade esteja em outro lugar. Antes, observa as pessoas vidradas dentro de uma caixa móvel, elas estão presas em vários mundos de certa forma. O celular as transporta a outro lado enquanto o ônibus move seus celulares a um destino onde também não estarão. Seus dedos são mais hábeis que os olhos e não se importam se falta ar para um velho ou lugar para um cego com metade das janelas fechadas e todos os assentos ocupados por fones ambulantes. Você resolve descer e tomar o próximo. Não há nada de novo ali também. Mas nem é isso que você espera.

***

Você chega do trabalho
liga a televisão no seu canal favorito
se perde entre imagens do seriado
informações, novos personagens
uma boa trama

Você é o protagonista
luta contra o vilão, vários deles
conquista e beija a mocinha
até se excita
sem demonstrar

Depois da cena que a câmera não mostra
você volta para casa
exausto, frustado e carente
e liga a televisão
no seu canal favorito.


Ellen Maria

13.4.15

Inferência

Declarações provam palavras
Provas aclaram ações
dessa forma, deduzo
que dúvidas se esvaem
nas próprias proporções.

Ellen Maria

6 poemas de Alkaíd Marino

"Y si el fin ya te hubiera alcanzado
y no tuvieras la certeza de los días del ayer
y la sopa
tan deseada
no supiera más
a infancia?

qué habría en tu bolsillo
aparte de tu mano fría
y callosa
cuando pagues al pesero
dos asientos
el de tus huesos
y el de tu orgullo?"


***

"Puedes decir
que todo lo tienes
salud
dinero
y amor
pero todo esto sólo puedes presumirlo en una reunión de harpías
en navidad
o en un espejo

lo ves
sólo te queda tu silencio
tus triunfos mudos
sirviendo de pilares
para las telarañas
de aquella hombría
que olvidaste
en algún cumpleaños sin velas."


***

"En esta ciudad
todo se agusana

miente    besa   faja    coge
monta el viento y vete
no dejes que los gusanos te devoren
no hagas nido ni aúlles echado
a la luna
no redundes
tu estar pensando         y tu abrigo
de siempre y de nunca
que salga
a buscarte."


***

"Tú sabes muy bien de la relación amorosa
entre el hombre y el baño
sabes de mierda
como de soledad

sabes de esas lecturas hondas
y biodegradables
que no terminan de irse
aun
con ácido

sabes dónde pone sus huevos la mosca
dónde las cucarachas
dónde la vida

erudito
de etiquetas de shampoo
te purga
la idea
de que el mundo
es desechable."


***

"El tiempo ha pasado muy rápido
y es dificil saber dónde te encuentras

los días se yerguen uno a uno delante de ti
y la memoria es puerta trasera

todo
en tu existencia gime
en contra del reloj

ojalá no despiertes un día de estos
frente a tus ojos
suspendido
sobre el linóleo de una oficina."

***

"Siempre quisiste un buen empleo
dinero facil

eres cómplice de tu pereza

pero la vida te ha dado
un lugar
frente a una computadora y
te ha dado el plástico
suficiente
para hacer de ti
una deuda

tal vez no es esto
lo que hubieras querido
nunca
sabes lo que quieres        y eso
te mata

no sabes
recibir
y después
el silencio
burlón
de nada
en tu rostro."

Alkaíd Marino

12.4.15

O encontro / El encuentro

Vinte e uma horas de leitura
de um prefácio
que faz desconfiar que
este será o melhor livro 
de poesia
da minha biblioteca.

**

Veintiuna horas de lectura
de un prefacio
que hace desconfiar que
éste será el mejor libro
de poesía
de mi biblioteca.


Ellen Maria

10.4.15

NFL

"Jamás aprendí a defender _ siempre en offside
siempre queriendo adelantar líneas
con esperanza de saciar esta ansiedad que aprieta mis tachones.
Así como en el amor luché por cada balón suelto
por cada despedida
arriesgando el cuerpo
mi sexo que se raspa sobre nieve.
Volé más de tres veces y nunca te alcancé
siempre me gustó ser el último
el que te espera a pesar de que el juego ha terminado."

**

Nunca aprendi a defender _ sempre em offside
sempre querendo adiantar linhas
com a esperança de saciar essa ansiedade que comprime minhas rasuras.
Assim como no amor lutei por cada bola livre
por cada despedida
arriscando o corpo
meu sexo que se raspa sobre a neve.
Voei mais de três vezes e nunca te alcancei
sempre gostei de ser o último
o que te espera apesar do fim do jogo.

Jesús García Mora
Tradução: Ellen Maria

Geología Sentimental


Sería lindo si tú lo vieras
cómo se va partiendo
el suelo que yo creía pertenecer
a la era mesozoica
como la grieta se va
transformando
en abismo
las placas se mueven
diariamente
Intento
en vano
poner los ganchos
uno a cada lado
y pasar la cuerda
así puedes
cuando quieras
caminarla
cruzarla
y que yo pudiera
llegar hacia ti
pero es en vano
la tierra de uno de los lados
es muy
anti adherente
huidiza
no sedimentada
y silenciosa.
Así que me puse a pensar
en otras alternativas
equipos de montañismo
un avión
quizás un barco
en caso de inundación
pero después me di cuenta
que el otro lado se alejaba
aún más
cuanto más intentaba alcanzarlo
cuando yo trataba de encontrar formas
de estrechamiento
unirlos es nulo
No habrá crecida de agua
porque solo hay tiempo seco
y ninguna lágrima
No habrá pista de aterrizaje 
porque nadie quiere esperar
el trámite de la aduana
No habrá escalada
porque el miedo de altura
no lo permite.
Sería lindo si lo vieras
cómo se va partiendo
el precipicio
pero tú ya te fuiste
y sola
veo el paisaje 
desmoronando.


Ellen Maria

Fator RH

O fato
é que não morre
mas tampouco nasce
meu feto ficou retido
no departamento de RH.


Ellen Maria

9.4.15

Prótesis sentimental / Prótese sentimental

Hasta ayer creía
que nunca me recuperaría
que la vida no más luciría
que sería siempre una abierta
herida
pero hoy tuve noticias tuyas
me contaron de tu nuevo adorno
pirata sin loro
tu diente de oro
me devolvió brillo propio
(Gracias)
No me imagino con un hombre
desnudo y con sombrilla
y de sonrisa amarilla.

***

Até ontem achava
que não recuperava
que a vida nunca mais se iluminava
que seria sempre mais uma ferida
aberta
mas hoje tive notícias tuas
me contaram do teu novo adorno
pirata sem louro
teu dente de ouro
me devolveu brilho próprio
(Obrigada)
Não me imagino com um homem
pelado e de livro no prelo
com um sorriso amarelo.


Ellen Maria

8.4.15

A pata da donzela

"Porque os caubóis têm um menu. Modo trocista, modo culto, modo porno, modo tão filho da puta que só mesmo a morte por esmagamento de pata de elefante, ainda que, claro, na actual crise portuguesa não seja tão fácil arranjar elefantes como, digamos, em 1497, quando as naus saíam ali do Terceiro do Paço para meses de escorbuto e carne podre à procura da Índia."

Alexandra Lucas Coelho, O Meu Amante de Domingo.

Don't take me for granted

Sou a carne decompondo
por horas
atrás do teu último dente
esperando
você enfiar uma escova na boca
para te fazer vomitar.

Ellen Maria

Kalaf Ângelo e a borboleta

Meu menino de cor,
queria ver se você conseguiria
me ver daí
saber qual é a do dia
pensar em qual dor
é a minha preferida
fechar os olhos e beber
meus olhos uva
jabuticaba tem aí
fruta e flor
essa sua
gravata negra
borboleta
colorida que bonita está
sua poesia
chegou aqui
atravesso o mar voando
só pra ver você sorrir.

Ellen Maria

Descoberta do mundo

Vou descobrindo
mais coisas dentro de mim
que somando
os parto s
entre o céu e a terra.


Ellen Maria

7.4.15

Não

"Não menos longe
que dentro -
não menos perto
que além."

Robert Creeley
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Tradução

Tragamos um poema inteiro
e o versamos em todos os beijos
nas línguas outras que sabemos
Acabamos lendo mais do que devíamos
Vomitamos em prosa
e nos despedimos sem revisão.

Ellen Maria

O gato

"O gato
nunca é o gato
mas a ausência
domesticada
vê-se bem
felinamente
que de abstrato
só tem o dono
seu fruto/furto
maduro ou podre
é o salto
que interna-se
no próprio gato."

André Ricardo Aguiar

6.4.15

Caderno de dez matérias

"As linhas tortas escritas com paixão e sangue
naquele caderno de dez matérias
estampando o rosto da sharon stone
as placas indicando que o retorno é proibido
na rua onde te roubei o primeiro beijo
amores perdidos que amadurecem feito frutas feias
assim como livros que envelhecem
e ficam amarelos na árvore do tempo
cheio de galhos que pesam como
a lembrança do teu nome".

Diego Moraes

Otoño/Outono

"Otoño es un verso joven
que toma forma
en un paisaje
con pecas.
Una llovizna suave
desnuda la sangre
que hierve.
Unto el poema
en la libreta
de las noches
que aran mi frente.
La luna
alumbra tallos
a donde
caminan
mil criaturas
minúsculas".

***

Outono é um verso jovem
que ganha forma
em uma paisagem
com sardas.
Um chuvisco suave
despe o sangue
que ferve.
Unto o poema
no caderno
das noites
que aram minha face.
A lua
ilumina ramas
aonde
caminham
mil criaturas
minúsculas.

Andrés Nieva
Tradução: Ellen Maria

4.4.15

Indústria fraternal

para Graziela Lojor
Esvazie o balde
do teu peito cheio
carregado
Não é desperdício
Economia de palavras
Racionamento de lágrimas
nunca fez ninguém ficar sem luz.
Se preocupa não
o reservatório de energia
é renovável.
Banca o excesso
do teu corpo lâmpada
e beba água da fonte alheia.
A conta está paga
e a amiga abastecida.


Ellen Maria

3.4.15

Aula de desenho

Um corpo
lânguido
um corpo
invertido
um corpo
exótico
um corpo
mestiço
um corpo
rígido
um corpo
erótico
um corpo
cálido
um corpo
ao lado
uns corpos tão

o professor os apresenta
um estado
fundamental
depois, o êxodo da língua

não tiro os olhos
para
nada

morango uva melancia melões bananas
a caneta desenha
enquanto a fome
delirante se materializa

cactos marcas que se escondem
sombras cicatrizes unhas olheiras
geologias tatuagens
um coroa de espinhos sobre o útero
existem muitas maneiras de se expressar

depois troca grafite carvão lápis pincel
as mãos tremem
os dedos endurecem
(metonímia)
os rabiscos incertos
(não tiro os olhos para nada)

os modelos são fortes
as modelos são lindas
os modelos são lindos
as modelos são formas
mistura de traços na tela

os corpos não se mesclam
se entrelaçam
o meu olho compenetrado
(metonímia)
a mão está onde a cabeça quer

eu quero e desenho
eu quero e pinto
eu quero e balbucio
não teria coragem de pronunciar meu desejo
engulo a saliva em seco
(será possível?)

fingida mesquinhez
eles não me dizem
mas nem precisam
mirada de boneca inflável
(mas as musas também trepam
não trepam?)

me vem uma canção suja
eu quero te foder
eu quero te foder agora
bom dia para morrer
poderia morrer agora
ou amanhã de manhã
a letra intriga o mundo das ideias

faz tanto tempo que eu

uma hora e meia intervalo quinze uma hora
intervalo quinze
uma hora
e se me escapa a baba
agora sim

um café um cigarro uma coxinha
e vou para casa
deu por hoje meu deus
respira
que piração
quantas imagens

Foi uma tarde interminável
mas pressagio que terá uma noite

uma voz interna diz
que vou me olhar
melhor
ainda.


Ellen Maria