31.7.13

ingravidez

O sol me queima na praia
perco o filho que nunca tive
me desespero
crendo que ninguém mais nascerá
que nada mais fertilizará

A maré o leva embora
anoitece
ninguém nunca nada
nem se afoga

e a maré o traz de volta
Me entrego a chuva
sangro
e volta o ciclo
A lua me testemunha

ainda que amanhecida
A areia molhada
no dia seguinte
não deixa secar
minha cansada
e ingrata

esperança.

osadía

"Escribir es mi única osadía:

bien vale dorar un cebolla,
un pedacito de cebolla morada,
desteñido en la manteca
para olerlo.

La soledad es mi única osadía:

bien vale estirar el mantel
sobre la mesa
preparar el plato azul
y los cubiertos

y masticar mirando la ventana".

Carina Sedevich

26.7.13

a poeta e a personagem

Só não doía enquanto dormia
e ela doía muito
e ela dormia pouco
Mas aí tinha pesadelos
e ela andava andava andava
e ela não sabia porque andava
Decidiu então encontrar alguém
e a encontrou
e a dor da vida passou.


Ellen Maria

21.7.13

Do meu frasco de segredos

Depois de um dia de muito calor, antes de tomar banho, passo o dedo indicador direito no meio dos seios, a palma da mão esquerda no pescoço, e coço o couro cabeludo com todas as unhas. E no nariz, quando levadas as extremidades dos membros superiores até ele, fica uma mescla de vários cheiros bons, e meus. Depois ela desaparece e quando saio da ducha, dentro do banheiro só sobra vapor e intimidade.


Ellen Maria
“El poema neutraliza (o cataliza) un sentimiento, una comunicación, un grito. Mediatiza, al prestarme por un instante esa jerarquía de observador que me da la impotencia necesaria para no participar (…) un filón de tiempo, un compás de espera. (…) consumo el espectáculo donde también soy parte (…) pero el sujeto se aleja y el texto queda debajo de mi mano. El texto y el sujeto intimidados ambos por una postura que los enfrenta, sobreviven cada cual a su manera”. 

Reina María Rodríguez.

18.7.13

Mi querido cuchillazo

"Ya no es mágico el mundo. Te han dejado. 
Ya no compartirás la clara luna
ni los lentos jardines. Ya no hay una
luna que no sea espejo del pasado,

cristal de soledad, sol de agonías.
Adiós las mutuas manos y las sienes
que acercaba el amor. Hoy sólo tienes
la fiel memoria y los desiertos días.

Nadie pierde (repites vanamente)
sino lo que no tiene y no ha tenido
nunca, pero no basta ser valiente

para aprender el arte del olvido.
Un símbolo, una rosa, te desgarra
y te puede matar una guitarra."



Jorge Luis Borges

10.7.13

Ay Cornelia...

"Cuando era niña se sentía viejísima. Trató de arrugarse la cara. 
Cuando era vieja se sintió muy joven y quiso desarrugarse, 
pero le sobró tanta piel que se mandó 
hacer otra persona que la destituyó."


Silvina Ocampo

4.7.13

Sobre o conteúdo, Depois de Clarice

O barulho do sol acordando
A voz da lâmpada acesa
E o amarelo derretendo em meus braços.

Ellen Maria

Sobre a forma, Depois de Clarice

O ovo cozido
A galinha no poleiro
e o milho preso no meu dente de trás.

Ellen Maria

3.7.13

La poesia vivirá

aunque nadie me escuche
y vea la oscuridad
aunque el agua siga subiendo
y me duela el cuerpo
aunque el rechazo se mezcle con el olvido
y nazcan ratas
aunque me pidan caos
y se haga un hoyo en el piso
aunque me muera en la fuga
y alguien me hable
aunque vea la luz
y el agua siga bajando
aunque me duela el alma
y el abrazo se mezcle con el recuerdo
aunque nazcan flores
y me piden silencio
aunque se haga el amor en el piso
y me muero en la espera
La poesia vivirá

Ellen Maria

Avião boliviano na Europa

E há quem acredita que já somos independentes.
E há quem acredita que ainda são colonizadores.
Quem duvida?
Há já morte em vida.
Há ainda vida na dúvida.
E um bom piloto, caso haja
pouso de emergência.

Ellen Maria

26.6.13

O professor

Era um daqueles mais conceituados em seu departamento. Bolsas de estudo lhe eram concedidas sem esforço e para seus orientandos, além de premiações diversas e alguns livros publicados. Um, inclusive, estava sendo traduzido. Tinha a vantagem de ser o primeiro professor da área a escolher a grade horária das matérias que lecionaria na graduação e na pós, e ainda com uma penca de alunos na lista de espera, ansiosos para assistí-lo ao menos uma vez por semana. Chamado para muitas reuniões e convidado para conferências em várias universidades no exterior, mal tinha tempo para tomar uma cerveja vendo uma partida de futebol ou beijar na boca. Quando se olhava pelo reflexo no vidro do carro, se via mais velho do que se sentia por dentro. Mas o cansaço sim era real. Alguns de seus companheiros já lhe perguntaram por que razão não tirava férias nunca, e outros mais chegados, se ele não tinha intenção de se casar de novo. Divorciado há mais de sete anos, com um filho que vivia com a ex mulher, na mesma cidade, em bairros próximos. Não o via com a frequência que queria, mas sabia que era um bom menino, estava feliz e que gostava de ler, apesar de tanto videogame. Não tirava férias porque não estava acostumado a isso. E já viajava o suficiente. E não, claro que não, ademais, casaria com quem? Algumas noites depois das aulas, lia os alemães. Outras, os russos. Acreditava que a mulher ideal era Kirillov, de saias, e com grandes lábios. Muitos papos sérios, chá à tarde e vodka à noite. Dispensava a literatura fantástica. Era ateu, mas gostava de pensar na ideia de Deus quando lhe convinha, e sabia que sua veia politizada se contentava nessa idade com uns artigos postados em seu facebook. As vezes, após o jantar, entrava na internet e buscava filmes antigos para ver no sofá. Anos 30, 40, 50. Depois imitava as grandes atrizes, gestos e trejeitos, e treinava seu melhor inglês americano no chuveiro. Espetáculos aquáticos para si mesmo. Seu espelhinho para fazer a barba servia de câmera. Uma mulher travestida de homem podia ser sexy, mas um homem vestido de mulher era cômico. Só de imaginar suas pernas peludas comprimidas por um vestido curto já ria de si mesmo e enquanto tinha imaginação suficiente para se masturbar sem apelar para a lembrança de suas belas alunas cruzando as pernas na sala de aula, aproveitava. Não, não queria passar a ser esse tipo de professor. Se secava e abrindo o guarda-roupa, buscando um pijama, fingia ser a super-mulher, o que uma vez pensou ser seu alter ego, a versão feminina do personagem de Nietzsche; que escolhia sua melhor peça, rodeada de plumas, subia de salto alto a montanha para meditar e ousava orgasmos só com o pensamento jedi que tinha. Todos os gaúchos tem um lado meio obscuro mesmo. É a proximidade com a fronteira. Apagava as luzes e dormia.

Ellen Maria

Movimento

Antes dela chegar, todos já sabem que virá. Porque antes dela se solidificar, seu perfume já lhes assoma e lhes presentea: paz; como um sorvete, que se chupa suave e de olhos fechados; como um cheiro morno de café com leite; uma brisa de campo outonal e também de terra quente. Assim, podem esperar por ela apenas vagamente surpresos, olhando pela porta, espiando pela janela até que...
Ela se apresenta tímida, vai cumprimentando a todos devagarinho, dedicando atenção a um, depois a outro. Todos sorriem com sua entrada, que floresce até aqueles mais escondidos, no canto da sala, do sótão e do porão; a amam, porque sentem sede de amor.
Com o passar do tempo, o sorriso apolíneo dela dá lugar à música guardada, a risa solta. O ambiente festivo libera outros perfumes que não só o dela, suores e sabores se mesclam liberadamente. Tudo o que era sólido e difícil começa a se dissolver sem dificuldade. Uma sobreabundância de fluidos, líquidos, ainda bem vindos. Ela parece estar na sua forma mais espontânea, genuína.
Até que essa sensação lânguida bruscamente se transforma em ameaça. Os olhos não se acomodam, e ela, ainda que bela, mostra seu lado bruto, masculino, até violento. Seus gestos são mais angulosos, sua voz passa a ser mais estridente; sua presença constante, aberta e ampla converte a normalidade em desconforto avergonhado aos convidados. Embora indecisos se derrotados ou compreensivos, fica impossível disfarçar a expressão de fatiga, por ela permanecer ali. Todos sabem não há como expulsá-la: é a natureza berrando aos quatro ventos, aquela energia contida pungente posta pra fora... mas é que ela provoca urgência a qualquer um que a vê!
Pouco a pouco, vai se acalmando, trazendo um alivio generalizado. Ao mesmo tempo, no fundo de cada um deles, há um sentimento sufocado por, ela, dessa vez, não ter cometido nenhum ato verdadeiramente potente; por dessa vez ela não ter trazido nenhum perigo real a eles, nenhum corte profundo. Afinal, ela, nesse momento pequena, bem poderia: ébria, é capaz de ser cruel até com a criatura que mais ama, se assim desejar. Mas esse segredo cambaleante segue aspirado. Se alguém falasse, desabaria. E ela está tão linda, recuada e primitiva.
Por fim, resolve se despedir. Seu perfume novamente exala sensibilidade e ninguém se sente habilitado em julgá-la; a observam ir, com ingênua saudade. Na verdade, sentirão envelhecidamente sua falta, e ansiarão incondicionalmente a próxima festa. Porque sabem que sem ela tudo seria seco, irremediavelmente seco, sério, falho, mudo.
Ela era essencial para que todos pudessem mentir, se exercitar, sentir fome e ser conscientes de si. Ela, doce, amarga, ácida e salgada, era a chuva que todos queriam ser.

Ellen Maria

24.6.13

A ti te gusta el sexo no a mí

Fantasia
é sentir poesia
fazendo sexo.
Valentia
é sentir sexo
lendo poesía.
(Ellen Maria Martins de Vasconcellos)

"Los juegos del destino: ella viene, tú estás, recorren un mismo espacio (deja el asiento, lo tomas; abres la puerta que acaba de cerrar; observan en tiempos distintos los detalles de un techo de cristal) sin conocerse y sin molestarse por ello. Se va pero en poco años vuelve (siempre volverá), se miran, hablan, beben, se besan y descubren que anteriormente –sin saberlo y sin haberles importado- han sentido sus olores. ¡Ah, qué extraño! ¡Sí! ¿También naciste el mismo día! No solo eso, tú me filmaste en el evento. Imposible. Te muestra un video donde casi que la ignoras con la cámara. Se siguen besando. Se aman. Furtivamente, es cierto, ninguno quiere y es mejor no aceptarlo, pero se aman.

Descubrimiento del cuerpo: no tiene mayor importancia volver a hacerlo una o diez o cien o mil veces más porque en lo que va de tu vida descubriste que hay cosas más placenteras que el sexo y creíste en ello aun antes de que otro lo dijera o lo leyeras en algún lado o simplemente imaginaste que un pensador importante profesaba lo mismo y te alegró la idea de no ser el único en sentir ese pequeño desprecio por el coito y asumiste una posición imposible de sostener después de haberla visto llegar al orgasmo tres veces consecutivas y sentir que a pesar de tu mal estado físico no querías dejar de sentir el calor de su espalda y la humedad de sus piernas ni abandonar sus pechos ni cintura o sus gemidos aun a costa de caer en el fracaso conceptual ideológico y epistémico que suponía tu incontrolable deseo de tenerla siempre desnuda.

Reflexión: consideras que sería bueno escribir al respecto, pero no sabes por dónde empezar. ¿Qué título le pondrías? ¿Cómo revelarás tu nueva perspectiva sobre el sexo sin ser tan estúpido de escribir en el encabezado algo que explicite: “Me gusta el sexo”? Comienza el desánimo. Dejas tu escrito a medias. Tranquilo, hombre, está todo bien. Piensa que es como el sexo: aburrido, no siempre llegas a terminar como quieres. Entonces observas que soy un pobre imbécil que nunca tuvo buen sexo y vuelves sobre el teclado. Tratas, pero no avanzas mucho. Oyes música y por azar llegas a un blog de poesía. Sin muchas ganas lees unos versos: funciona. Sigues leyendo y al poco tiempo encuentras un breve poema que te hace abrir los ojos y sonreír: acabas de hallar la punta que desenreda todo el ovillo que tienes en la cabeza. Improvisas un análisis a tu conveniencia. Decides que aquel poema será el epígrafe de tu "ensayo".

Exégesis a la medida: lo único que nos interesa señalar en nuestro análisis es la importancia del “sentir”, que finalmente es el verbo principal de todo el poema: para la voz lírica es fantástico (en la medida que sobrepasa los límites de lo común y lo normal) cuando se practica el sexo pero lo que siente es otra cosa: poesía. Esto nos permite deducir que el camino, el nexo o la conexión por la que podemos acceder a algo tan abstracto, intangible y sublime como la poesía, lo encontramos en algo tan concreto, palpable y físico como el sexo. Es decir que el sexo (el bueno, claro) es un camino de placer ascendente: va de lo terrenal a lo astral. Respecto de los demás versos diremos que en esta ocasión no aspiramos a agotar las posibilidades de análisis de un poema tan rico como este y hallamos conveniente concluir nuestra exégesis en este punto.

Secretos del analista: aunque te parezca vulgar y te avergüence admitirlo, sentiste – y más de una vez- ganas de conocer a la poeta y acostarte con ella. Aún ahora piensas: quien sugiere que el sexo se esgarza con la poesía, sin duda, debe tener el mejor sexo del mundo: el tipo de sexo que ahora en adelante siempre esperas tener: la segunda vez mejor que la primera y la tercera mejor que la segunda y así hasta no poder mover las piernas. Pero no te preocupes, quién te dice que un día no vas a Brasil, se conocen, te presentas como un admirador –aunque en el fondo sabes que eso de admirar es, más bien, un recurso bien sabido por ti para parecer simpático- y así ella accede a mostrarte ese maravilloso sendero por el que se llega a sentir la experiencia lírica en la propria carne.

Conclusión y protección: después de todo algo más te intriga y es que no sabes cómo hacer para que cuando publiques esto los demás no crean que fuiste tú quien lo escribió y sabes que eso de que el autor “real” y el narrador no son la misma persona no te va a funcionar con tanto cojudo suelto si ni siquiera los estudiantes de literatura entienden bien la diferencia menos lo entenderán tus padres o tu novia que seguramente pensará pero conmigo nunca ha tenido buen sexo quién es esa perra que le ha enseñado y se armará la grande pero en tus cincos minutos de genialidad se te ocurre valerte de un recurso estilístico bastante utilizado en toda la literatura de occidente y es casi ofensivo que solo se te ocurra esto pero no intentas hacer una revolución estética solo deseas evitar las explicaciones a la gente cercana que leerá tu texto incluso si algún día conoces a la poeta del epígrafe podrás decir que eso de tener sexo con ella solo fue parte de la ficción y con ese supuesto desinterés tuyo puede que generes cierto interés de su parte y terminen teniendo sexo como realmente quieres entonces la solución es tan buena y tan simple como crearme a mí a un narrador que rara vez abandone la segunda persona y de este modo hacer cargo al lector de un sentimiento de culpa o vergüenza que es solamente tuyo y entonces el incauto pensará en todas las veces que ha tenido malas relaciones y en la persona que por primera vez hizo que lo disfrutara y así olvidará que eres tú quien revela que apenas ha descubierto que el sexo es uno de los grandes placeres de la vida y no él ni yo y aunque me siento mal por ello no puedo hacer más que seguir obedeciéndote despiado escritor pero además como eres excesivamente desconfiado decides volver a quitar todos los signos de puntuación para distraer a cualquier lector experimentado que pueda descubrirte acusarte con tu novia y así arruinar tus planes y ese temor te hace pensar que para mayor distracción y confusión podrías seguir explicando lo que escribes como la aparente impertinencia del primer párrafo donde hablaste o me hiciste hablar de un supuesto amor pero todo esto ya te fatigó y finalmente piensas en el último elemento de tu jueguito dizque literario el cual consiste en  colocar en el título una afirmación que implica al lector y que supuestamente yo anuncio y tratas de convencerte de que con ello basta pero no logras ver en tu torpeza que el título va dirigido solo a ti porque todos sabemos que Manuel Acevedo no existe por ende el narrador tampoco y bien sabes que tu lector es apenas otra desesperada construcción ficcional lo cual finalmente comprueba que ninguno de nosotros gusta del sexo como tú.

Manuel Acevedo"

22.6.13

O fantasma (ou A sombra assombrosa da ditadura militar)

quanto mais reza
maior o fantasma
quanto mais se fala dele
maior o fantasma
quanto mais se pede pra não falar mais dele
maior o fantasma
quanto mais se roga para enterrar ele
maior o fantasma
quanto maior o fantasma
mais vivo ele está.

Ellen Maria

19.6.13

posición para iniciar vuelo

el pájaro
se levanta sin miedo de la caída patas alzadas
sobre los hombros las alas alcanzan
el mar por tiempo indefinido tus ojos
la respiración cierra mi grito
se estalla silencio en la niebla.

Ellen Maria

18.6.13

Los poetas nunca pecan demasiado

Mis ganas están en mirarte la boca 
hasta que te olvides del youtube y de los talibanes muertos destrozados,  
Mis ganas están en tomarte la boca 
hasta que te olvides de tu miedo de convertirse en un alcohólico tarado, 
Mis ganas están en lamerte la boca 
hasta que te olvides de todos los pilotos de moto velozmente estirados, 
Mis ganas están en comerte la boca 
hasta que te olvides de la imposibilidad de hacer tu soñado doctorado, 
Mis ganas están en morderte la boca 
hasta que te olvides de la cuenta que a tu ex novia has pagado, 
Mis ganas están en besarte la boca 
hasta que te olvides de todas las putas que te han chupado.

Y esas ganas se quedarán guardadas
quizás después olvidadas
De tanto poematizarlas
ya te fuiste,
y no tuve tiempo de concretizarlas.
Los poetas nunca pecan demasiado.

Ellen Maria

16.6.13

entonces

"Entonces hay un sigiloso instante
en que los ojos buscan en los ojos un vuelo de gaviotas,
algo que es suelo y señuelo, una consagración y un laberinto de murciélagos,
lo que en la oscuridad surgía como un planer tanteando,
una piel que se enfriaba y descendia, un ritmo roto,
se vuelve convivencia, santo y seña, arranque
del viento que se estrella contra la vela blanca,
el grito del vigía nos exalta,
corremos juntos hasta que la cresta
de la hola cenital nos arrebata
en una interminable hola de espumas,
y recomienzan los naufragios, la lenta natación hacia las playas,
el sueño boca abajo entre medusas muertas y cristales de sal donde arde el mundo."



Julio Cortazar, "Ultimo Round", 1969.

11.6.13

G.H.

Clarice me mata.
Mas não me deixa suicidar.
Peregrina pela via
crucis do meu corpo,
Faz de mim uma água viva
e da minha descoberta do mundo,
uma felicidade clandestina.
Arranca do lustre de casa, a hora da estrela
e da cidade sitiada observa
uma legião estrangeira.
Desata meus frágeis laços de família
e em um sopro de vida,
me transforma em bela e em fera.
Mas não importa onde estive a noite,
meu coração selvagem
permanece ainda seguro
tal qual uma maçã no escuro.

Ellen Maria

10.6.13

Querida eu

Querida eu, aos cinco anos,
Você acabou de aprender a ler. Parabéns! Nunca esqueça de agradecer a paciência da tia Cláudia e da tia Rosângela do jardim de infância.
Sua antipatia preliminar e desconfiança com qualquer ser vivo faz parte de você mesma: procure se aceitar, porque mesmo depois de grande, você vai continuar encontrando muita gente que te ache um porre por causa disso. Mas tudo bem... ajuda a selecionar seus poucos amigos na vida.
Você tem um sobrenome estranho e que é, ao mesmo tempo, o mais comum dos sobrenomes (Silva), mas não se apegue a ele: aos seis, você vai perdê-lo.
Não fique triste: você vai ganhar outro mais bonito (Vasconcellos), que vem junto com um pai novo, presente e apegado. O processo de adoção vai acontecer na sexta-feira que antecede o Dia dos pais, por ironia da vida, e você vai atuar como uma criança linda e meiga. Tente lembrar disso.
Seu novo pai vai usar barba a vida toda e vai te tratar não só como filha, mas como amiga, depois de seus dezoito anos. Seja atenciosa com ele.
As vezes, você vai fazer um esforço para tentar lembrar do velho pai (e só vai lembrar de seu bigode); vai ficar magoada e se sentir rejeitada pelo primeiro homem da sua vida; vai se preocupar se pode ter alguma doença genética vinda dele ou de sua família desconhecida... tente não ligar muito pra isso. Quase todas as doenças têm tratamento e cura. Quanto à ilusão de rejeição do seu pai biológico, ela te fará uma pessoa mais dura com todos os homens que passarem por você. Muitos deles vão reclamar, e alguns te chamarão de coração de pedra, mas uns poucos vão ver o quão especial você é, por essa mesma razão.
Você vai chegar aos dezoito anos e ainda estará na escola. Vai repetir o último ano de uma maneira ou de outra: brigas na escola, perseguição da professora, notas baixas em matemática, seu novo namorado, viagem de formatura antes da hora.... Então, aproveite e relaxe. Serão dois terceiros anos bem aproveitados. Só não coma tanta pizza de calabresa que vai te fazer mal.
Terá alguns namorados e vários casos não sérios. Será traída logo de cara, trocada pela melhor amiga bem rapidamente, escutará vários foras e desculpas esfarrapadas, presenciará brochadas e ejaculadas precoces, levará algumas porradas, e se sentirá às vezes a culpada de todos os males. Mas nada vai fazer você deixar de ser ansiosa para se apaixonar novamente. Será cada vez mais exigente, cada vez mais consciente, mas cada vez mais vai amar intensamente.
Ah! Claro... será poeta. Então todo drama ganha uma lágrima, toda tragédia ganha um poema. E pela mesma razão, toda sua prosa vira poética. Desista de uma vez de tentar ser jornalista. Você vai escrever, mas não será notícia. Publicará algumas crônicas em antologias, mas seu negócio mesmo é poesia. Vai demorar pra se lançar em livros só seus, mas calma lá, que sua hora vai chegar.
Você conhecerá muitas partes do mundo. Grande parte por mérito de seu estudo. Mas não se vanglorie! Você não é das mais inteligentes. Pena muito para aprender qualquer coisa, e várias vezes vai desistir na metade por causa disso (violino, tênis, escultura, equação da circunferência...), mas, ao contrário da galera, se alguma coisa realmente te prende, você se firma nela.
Aliás, "meta" é praticamente seu terceiro sobrenome. Nascida no mundo capitalista, ainda que numa família não abastada, você vai perseguir suas metas diárias e não se conformará se passar mais de três dias sem cumpri-las. Terá mania de organização e certa obsessão com calendários e horários. Nada doentio, mas certamente, irritante para os que te observam de longe e de perto. Serão elas que de alguma maneira te ajudarão a cumprir prazos e a conseguir bolsas de estudo. Só te peço que deixe um pouco de espaço para o improviso. Ainda que não o utilize quase nunca, você também é boa nisso.
Peço que você tenha cuidado com o excesso de bebidas alcoólicas (do segundo ao quarto ano da faculdade) e com todos os argentinos que ver pela frente (dos vinte e um aos vinte e cinco). E que meça as palavras com as meninas do ginásio e do colegial, porque elas podem fazer da sua vida um inferno, e, principalmente, que meça as palavras com a sua mãe, nos três primeiros anos da faculdade. Se não, você fará feridas na pessoa que mais te ama nesse mundo. De resto, você vai tirar de letra. Ou melhor, de letras!
Cuide-se bem e ande sem pressa.
Um abraço (porque beijo você só vai gostar de receber depois dos dezesseis),
Eu, aos vinte e seis.


Ellen Maria

Timón

tragedias humanas y dramas de verdad: no los viví.
los que pasé fueron realistas, pero no reales.
es más simple fingir vivir que vivir
porque aun así es verosímil.
Vivir exige mano firme.

Ellen Maria

7.6.13

Fantasia
é sentir poesia
fazendo sexo.
Valentia
é sentir sexo
lendo poesia.

para Armando Freitas Filho

Ellen Maria

6.6.13

Depois de Clarice (II)

Extenuada, Cícera saiu da sala procurando um abrigo. Doía-lhe o peito como se alguém lhe tivesse dado um abraço muito apertado. Também sentia o estômago revirado, como se ele tivesse tido uma discussão com o resto de seu organismo enquanto ela assistia a aula. Poucas dezenas de passos e chegou ao pátio da faculdade. Enquanto caminhava, buscou algum canto só seu, com os olhos, e já não aguentando parar sobre suas pernas, arreou-se, apoiando parte das costas numa árvore. Clarice lhe dilacerara. Antes de examinar se por perto havia formigueiros ou outros insetos que lhe causassem aflição, respirou fundo e relaxou também os braços. Por um instante, estava segura.

Ellen Maria

A abordagem

              Levantou, e antes que pudesse pensar no próximo passo, Armando lhe adiantou, perguntando que é que faria agora. Nisso ia começar a pensar, disse Eduardo sem pensar em ser simpático, tirando o celular do bolso; e por uns segundos, os dois permaneceram em silêncio, não para refletir sobre qual seria o seguinte movimento, mas para que passasse aquela pressa constrangida de Armando de enfrentar-lhe antes de qualquer possível ação. Com isso e mais o fato de apertar a própria mão direita, como um desses toques claros de nervosismo, Armando confessava tudo. Eduardo notara, desde a segunda aula, onde sentaram de frente um para o outro, naquele semicírculo proposto pela professora, que o olhar de Armando sobre ele era de curiosidade. Agora, na sexta aula, passada a etapa de reconhecimento de pequenos gestos e sinais na fala que convidava a expressão de sua homossexualidade, Armando, deixando de lado a timidez, como havia prometido a si mesmo antes de sair de casa, esperava uma resposta de Eduardo mais amena que Nisso ia começar a pensar. Eduardo então soltou um Não sei, acho que vou pra biblioteca bastante negligente, mexendo em algum aplicativo no celular e caminhando em direção à porta. Armando, não reparando na desatenção forçada de Eduardo, caminhando atrás dele, investiu todas as suas esperanças em Hoje é sexta, melhor vamos por uma cerveja?
                Há dois anos, Eduardo havia construído um estereotipo para os gays daquela faculdade: bêbados nas baladas, eram vagabundas, sóbrios na universidade, eram puras beatas, que não ousavam olhar nos olhos sem desviar depois de três segundos, nem muito menos chamar outro gay para fazer qualquer coisa. O convite inesperado de Armando fez com que a mirada de Eduardo largasse a tela de seu iphone para encará-lo, virando-se de frente. Armando lhe olhava fixamente. Eduardo por fim sorriu, e consentiu. Só então, Armando, com a mão direita, enxugou o suor de sua testa ansiosa e baixou os olhos; passou por Eduardo, ainda parado olhando-o, e se pôs a caminhar lentamente, como um gesto de alivio e triunfo. Eduardo então lhe examinou, de corpo inteiro. Era bonito, além. Foram juntos em direção à saída mais próxima.

Ellen Maria

5.6.13

Tango del tiempo globalizado

Llegó por último y a mi lado se sentó
Hizo ruido pero, aunque con descuido,
su cuaderno sacó;
A la pizarra digital empezó a copiar
al mismo tiempo que contestaba que no
a un mensaje del celular.

La chica parecía desearse,
mirando al señor
aquel chileno que hoy
lo llamamos de invitado profesor;
una alumna coqueta
que con todo concordaba
con la cabeza
mientras se armaba una trenza
que le quedaba bonita, decía
el espejo, que del bolso sacó sin pudor.

Después de comer una banana
hizo de su pupitre, su cama
se duerme y casi ronca
lo que a mí me dio bronca;
Le doy con el hombro un empujazo
ella se despierta de un cagazo,
y ya que no escuchó nada de la charla
baja la mirada y se levanta
sin ninguna verguenza sintiendo,
parte sonriendo.

y aunque me llamen de nerd o porteña
pesada, extremista
o falsa brasileña
no me importo!
Que me envien a la isla de Morel,
desde que no más encuentre
con una sola estudiante
que haga mal su sencillo papel.

Ellen Maria

4.6.13

Polisipo

afagando el enfado
hasta que se torne
fado.

Ellen Maria

30.5.13

uno

"Y para estar total, completa, absolutamente enamorado; 
hay que tener conciencia de que uno también es querido, 
que uno también inspira amor."


Mario Beneddetti

Poco se sabe

"Yo no sabía que
no tenerte podía ser dulce como
nombrarte para que vengas aunque 
no vengas y no haya sino
tu ausencia tan
dura como el golpe que
me di en la cara pensando en vos"

Juan Gelman

24.5.13

Hasta los árboles viven.

Diez mañanas se pasaron del día en que se comemora la libertación de los esclavos en Brasil. Y el veintitrés de mayo, ayer, después de muchos meses practicamente sin salir de mi casa, en lo que llamo de vida ermitaña por opción, por insistencia de varios amigos y amigas, intenté retomar a la que llaman Vida Social Académica (charlas con compas después de la clase y cerveza por la noche en la facultad), para volver a mostrarme, como me aconsejó mi madre. "Es hora de superar."
A principio, todo bien. Las tres primeras chelas con los amigos me hicieron recordar que salir con la gente a pavear puede ser divertido. Es chistoso ver la gente semi-feliz buscando temas para que la plática siga confortable, al mismo tiempo que los ojos miran a todos lados, buscando posibles almas gemelas o simplemente alguien con quien pasar un rato más íntimo.
En la cuarta chela, sin embargo, la cosa empieza a modificar. Unos empiezan a demostrar los primeros señales que al fin de la noche estarán borrachitos en algun rincón, mientras otros prefieren intentar con más voluntad el encontrar del Otro, mirando a todos lados, dando vueltas por todo el espacio, como el conejo de Alicia. No hay tiempo, no hay tiempo, parecen decir. También hay aquellos, y creo que me incluí en su grupo al menos anoche, que se ponen más honestos. Charlé con uno y después con otro así así más confianzudamente. Con João, por ejemplo, empecé a hablar de mi ex... claro. Y cuando vi que la charla me estaba poniendo desesperada y deprimida, sábiamente buscamos otra chela, y asuntos livianos volvieron a la superficie.
Hasta que llegó otro viejo compa de la facultad. Ese, también ya honesto, al verme se recordó de mi poca simpatía desde el primer año de la facultad con los vagos y los ruidosos, y de mi 'media-intolerancia' con los retrasados y con los que iban sin la lectura previa de los textos. 'Fuiste y sigues siendo la brasileña más porteña que conozco.' Mucha honestidad. Fui por otra chela. Y las horas fueron pasando...
A las dos y media, ya sin colectivos que me llevara de vuelta a mi hogar, tenía tres opciones: ir a la casa de un compa, que en el fondo de mi ser, sentía que intentaría algo más conmigo; a lo de João, este mi amigo con quien siempre acababa hablando de mi ex; y el crusp, o sea, la residencia estudantil de la facultad, donde una gran amiga vivía, y que siempre dejaba la puerta de su casa abierta, y que siempre me ofrecía para que durmiera allá cuando fuera necesario.
Fui por esta elección. Y la puerta estaba cerrada. La golpee, llamé a mi amiga por celular (apagado), la llamé por su nombre y nada. Sin ya la oportunidad de ir por una de las dos otras opciones, decidí esperar alguna salvación posible sentada en una silla en el pasillo del crusp... si nada apareciera, me quedaria ahi por tres horas y despues volverian a pasar los colectivos. Minutos después, no sé cuanto porque adormecí, surgió una amiga de mi amiga que la conocia de lejos. Me ofrecio el silloncito de su departamento y una frazada que los acepté de muy buen grado y ahí me quedé, medio dormida, medio despierta, pensando en la  vida social que me pidieron que volviera para superar mi "vejez anticipada".
Y sí, me sentí una vieja queriendo aplicar botox para revivir algo que ya había pasado. Me acordé de mis 19, veinte, veintidos años, como si fuesen siglos atras... ah, mi juventud... las fiestas semanales de la facu, sin miedo de andar sola, de volver por calles raras, haciendo raite por la ciudad universitaria, hablando con extraños, corriendo riesgos, tomando varias y de varios. Viejos tiempos que hoy más me parecen una rebeldía contenida, transgresiones adolescentes.  Y, a menos de un mes de cumplir ventiseis, me vi allá en el siloncito de alguien que mal conozco otra vez. Como en los viejos tiempos...
 A las seis me levanté y fui a mi casa. Y honestamente, volví ansiosa a mi hogar, sin ninguna prisa de salir de casa en los próximos meses. Y si con esta elección me salen con aquella frase que escuché hace dos meses ("No tenés novio, y encima, no salís a conocer chicos? No sos mujer, sos un árbol."), mejor cuidar bien de mis raíces y regar con cuidado mis propias flores.

Ellen Maria

22.5.13


Depois de Clarice

Me cansei desse teu lirismo que não liberta
Eu gosto de poesia mas na tua
não vejo nada que arte pela
arte ainda que trate
de mim.

Anda a procurar algo mais
que a tua voz que ecoa
no ouvido de todos/todas aqueles/aquelas
que te amam/te odeiam.

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Quero continuar lendo
as revistas que me revelam
na sala de espera
do dentista.

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Eles não me fazem nada
você também não
eles não sabem de nada
você só sabe me dizer não.

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teu perfume eu sinto
nas ruas no trem na faculdade no shopping nas lojas nos homens
no ônibus nas festas nos bares no trabalho na livraria nas viagens
nos amigos nas praças na avenida na perfumaria.
teu cheiro nunca mais encontrei.

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Brainstormes mostram
várias portas de saída
ao meu cérebro derretido.

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Lembra daquela noite que dormimos juntos
e ouvimos estrondos que pareciam tiros
e nos abraçamos e quase morremos

de medo?
Eu lembro direto.
Agora engulo o choro e aguento.

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Abrir bem os olhos não modifica o que eu vejo
mas me modifica aos olhos de quem me vê.

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A cadeira verde e fria em que fizemos amor
seus metais que nos apoiaram
servem hoje para apoiar a minha roupa.
Você levou o calor e os cabides.

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O maravilhoso mundo das árvores que chovem
e da graça que é receber um pingo delas.
Elas são lentas, mas chovem sempre.
A gente também chove
mas só quando há muita emoção
e isso acontece cada vez menos.
Nosso problema não
é velocidade, é frequência.

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(Pensamentos depois da leitura de "Onde estivestes a noite", de Clarice Lispector)

19.5.13

"Lo único superficial que me inspira un profundo placer, es el clítoris."
Xel-ha


18.5.13

ella

"no
las palabras
no hacen el amor
hacen la ausencia
si digo agua ¿beberé?
si digo pan ¿comeré?
en esta noche en este mundo
extraordinario silencio el de esta noche
lo que pasa con el alma es que no se ve
lo que pasa con la mente es que no se ve
lo que pasa con el espíritu es que no se ve

¿de dónde viene esta conspiración de invisibilidades?"

A. Pizarnik

7.5.13

chacharitas

colecionando cacarecos
bijuterias, bugigangas
e fazendo poesia.

Ellen Maria

4.5.13

Ouvidio e o dó

Ovídio era surdo de um zovido
e falava meio lento
que me dava até dó.

Ouvia a dupla
o Escupido e o Escarrado
e comia batatinha
que se esparramava pelo chão

Sua frase preferida, dizia:
Cuidado com a dor
que o santo é de barro.

Morreu de agonia
e só o seu irmão,
o segundo, morreu de velho.
Antes a tarde, do que nunca.

Ellen Maria

1.5.13

ela

"La verdad es que el amor físico no podría ser tratado ni como un fin absoluto ni como un simple medio; no podría justificar una existencia; pero no puede recibir ninguna justificación extraña. Lo cual quiere decir que debería representar en toda vida humana un papel episódico y autónomo. Lo cual quiere decir que, ante todo, debería ser libre."

Simone de Beauvoir

28.4.13

Musa globalizada

Quando ela chegou vestida mini-blusa e um short colorido me pareceu um pouco infantilizada, eu achei muito estado-unidense da parte dela.
Quando ela pediu pra colocar uma mesa na calçada para poder fumar me pareceu um pouco exagerada, eu achei muito argentino da parte dela.
Quando ela pediu um café pure, um croissant e manteiga extra me pareceu um pouco afetada, eu achei muito francês da parte dela.
Mas quando ela molhou o croissant no café, e quase metade do folhado amanteigado caiu dentro da xícara, ela ficou tirando com a colher e comendo como um mingau me pareceu muito desajeitada, eu achei a parte brasileira do pouco dela.
Fiquei louco e disse, em pleno português: Che, I love you, e tasquei-lhe um beijo francês.

Ellen Maria

27.4.13

Ausência

"Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços,
Que rio e danço e invento exclamações alegres,
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim."

Carlos Drummond de Andrade

26.4.13

O que é angústia?

"Um rapaz fez-me essa pergunta difícil de ser respondida. Pois depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusive, é palavra que se orgulham de pronunciar como se com ela subissem de categoria – o que também é uma forma de angústia.

Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. Ou não se confessar nem a si próprio. Ou não ser o que realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem de ter angústia – e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.


Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração entenda..."

Clarice Lispector, "A Descoberta do Mundo"

24.4.13

Mandáme una postal antes de partir

y no pongas fecha.


Babel Brasil Dadá Collage

Nasci e falei português
e do francês só entendo um pouco.
Minha língua preferida é o espanhol.
Eu tenho um avô que se chama Israel.

Dizem que o melhor chocolate é o suíço. 
Duvido.
Comi um paraguaio que estava demais.
Um dos homens de meus sonhos é mexicano.
E meus sucrilhos vêm dos Estados Unidos.

Meu melhor amigo é colombiano.
Gosto do cine coreano.
Fui casada com um argentino.
Fui apaixonada por um italiano.

Quando estou no trem, 
ouço música balcânica.
Uma vez no metrô,
conheci uma angolana.
Tenho roupa made in Tailândia,
Vietnam, Coreia e China.

Meu irmão arranha no japonês,
além de ler Shakespeare no original.
Minha mãe há dois anos estuda alemão
e ainda me perguntam 
por que não sambo no carnaval.

Ellen Maria

23.4.13

"Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares."


Hilda Hilst

20.4.13

Retrato de Ellen Maria por Dezenove de Abril


(ou o dia em que se converteu em si mesma).

Acordou às cinco e meia, tomou banho, escovou os dentes debaixo da ducha e deixou a pasta dental escorrer pelo seu corpo junto com a água, como faz todos os dias pela manhã. Ela não tem muitas atitudes sensuais no seu cotidiano, mas essa visão de ver a espuma branca escorrer pelo seu corpo enquanto a água quente lhe aquece, lhe parece definitivamente sexy e lhe ajuda a acordar.
Enquanto tomava seus dois copos de água e comia uma maçã às seis e dez da manhã, ligou o computador para ler seu horóscopo e ver se tinha algum e-mail importante. Ninguém lhe havia escrito desde a noite anterior, e seu horóscopo lhe dizia que até seu aniversário, que datava para dentro de dois meses, ela passaria por um período de reclusão e meditação, ideal para por ideias e prioridades em ordem, além de seguir sua intuição e concretizar objetivos. Pensou no seu mestrado e em conseguir mais alunos particulares. Pensou que precisava comprar uma bota nova e ver seu pai com mais frequência. Já estava vestida para o dia. Sóbria, se viu, examinando-se no espelho. Que adulta séria, disse para si mesma. Decidiu sair às seis e meia de casa, mesmo sabendo que era muito cedo ainda.
Tomou o ônibus em menos de cinco minutos, e surpreendentemente, estava vazio. Havia lugar para sentar e se sentou, ainda que não estivesse cansada. Relaxou. Pensou que como estava adiantada, poderia não descer na estação de trem mais próxima, no qual tomava o trem sempre cheio, mas ir até a estação seguinte, já que o ônibus também passaria por lá. Além disso, da segunda estação, sai um trem vazio a cada cinco minutos... poderia ir sentada até o trabalho, coisa que nunca acontecia durante a semana. Só tinha um porém de tomar aquela decisão: a outra estação de trem é a mesma que seu ex namorado desce para ir trabalhar. Ex esse que não era visto desde julho do ano anterior. Ex esse que pediu distância eterna. Eis que... havia que pensar.
Raciocínio lógico: o horário dele entrar no trabalho era às sete. Por consequência, ele teria que passar pela estação ao menos cinco minutos antes, para bater o cartão no horário correto. Ela, de dentro do ônibus, ainda em condições de descer na primeira estação de trem, olha para seu relógio de pulso. Pelo cálculo, chegaria à segunda estação de trem as sete e dez. Portanto, não encontraria com ele e ainda conseguiria ir sentada, chegando com folga em seu trabalho. Ok, decisão tomada.
Ela chegou à segunda estação de trem às sete e nove. O coração acelerou um pouco. Entrou na estação olhando para todos os caras que saíam dela, passou o cartão, girou a catraca, se dirigiu à escada rolante. Pé direito para subir. Olhou para cima, para o fim da escada rolante, muita gente, e para a escada em sentido contrário, a que descia. E lá no topo estava ele. Seu ex, mexendo no celular. Resolveu olhar para o outro lado até dar tempo dele passar por ela, em direção oposta. Passou, ela sentiu, ela continuou subindo, e ele seguiu descendo. Agora já podia acompanhá-lo com seus olhos, a velha jaqueta de couro caramelo, o cabelo raspado, costas largas. Ela saiu da escada e foi caminhando lentamente pelo corredor até chegar à plataforma. Sentou esperando o trem chegar.
Tremia. Suava. Ofegava. Não se sentia muito bem. Não sentia nada. Estava emocionada? Não sabia. Ainda o amava? Ainda o queria? Não. Já não era nada? Não sabia nada. Mas estava angustiada. O trem chegou, ela entrou e novamente sentou. E pensou em mandar uma mensagem para sua melhor amiga para avisar que o havia visto. Desistiu. Tocou seu celular. Mensagem da melhor amiga pedindo a senha do seu facebook. De certo, queria procurar o ex dela também. Passou-lhe a senha, mas não escreveu sobre o que acabara de passar. Resolveu prestar atenção nas pessoas de pé.
Chegou à estação em que descia para ir trabalhar. Ainda lhe faltava meia hora até a hora de aparecer na recepção da empresa e se anunciar. Sentou, em um banco na plataforma, e resolveu ler. Precisava fugir. Precisava parar de pensar que o viu... O viu! Ironicamente, o livro que levava na bolsa se chamava Realidade. Leu e sublinhou frases por meia hora e foi trabalhar: como sempre, centrada, com humor e planejamento. Seu aluno particular, um executivo estrangeiro, ao final, lhe agradeceu a aula em portunhol e lhe desejou um bom fim de semana.
Ela esperou o elevador chegar pensando que diabos faria no sábado e no domingo, além do costumeiro estudar e ver filmes em casa. Sentiu que envelhecia a cada andar que o elevador baixava. Tomou o trem outra vez e foi até o centro. Precisava comprar um livro num sebo para seu mestrado. Perto do coração selvagem.
Aproveitou para passar na loja de um e noventa e nove. Fazia tempo que queria comprar uma nova colher de pau. A sua já tinha pegado gosto de molho de tomate e brigadeiro. Além de nunca parecer limpa o suficiente. Que pensamento de dona de casa, achava. Na loja, tocava Roberto Carlos, o seu mais novo sucesso. Cantou a música inteirinha junto com a atendente do caixa. Sentiu-se pobre e brega. De fato, era.
Olhou vitrines. Botas. Bolsas. Perfumes. Roupas. Decidiu entrar em uma loja onde sempre encontrava vestidos baratos nos fundos. E outra vez, seguindo a intuição, os encontrou. O mais lindo e barato não tinha seu número. Resolveu experimentar um número maior, mas já sabia que não o levaria. Depois do vestido, largo e grande, olhou-se no espelho da cabine, só de calcinha e sutiã. Sentiu que se parecia à sua mãe. Vestiu sua roupa. Camisa preta, calça jeans e bota cano curto. Cinto. Camisa para dentro da calça. Olhou-se no espelho outra vez. Sim, ela era a imagem da sua mãe. Tentou lembrar-se desde quando começou a usar a camisa pra dentro da calça.
Recebeu, por celular, o convite de almoçar com três amigos. Aceitou, para recusar o que tinha pensado para sua tarde solitária: ler e se deprimir. Com seus amigos, iria rir, comer bem, e de certo, tomar uma cerveja. Inclusive ia contar que viu o ex, mentindo que não sentiu nada, que tudo já passou há muito tempo, que haveria de ocorrer? E como previa, se divertiu e passou a tarde e parte da noite com eles, falou bobagens, contou velhas histórias, relembrou anedotas. Um de seus amigos, o mais antigo, resolveu acompanhá-la até sua casa. Assim, jantariam juntos, e ele poderia dormir no sofá, como outras vezes. Ela sentiu que ele não a queria deixar sozinha.
Pediram pizza. Os dois sabores que ela gosta. Comeram em casa. Ela tomou vinho, um que já o tinha aberto há uma semana, para tomar enquanto via filmes de chorar. Ele tomou cerveja. Ela estranhou ter visita em casa em uma sexta à noite. Estranhou estar em casa com a televisão desligada. Ele disse que era melhor ouvir música e colocou um cd de trilhas sonoras. Ela ligou a TV mesmo assim, mas deixou no mudo. Passava um programa sobre tecnologia e coisas virtuais. Jantaram conversando e, depois, cada um ligou seu computador. Em dez minutos, ele desligou o seu, deitou no sofá e dormiu.  Ela buscou seu melhor edredom e o cobriu. Apagou a luz da sala para que ele dormisse melhor. Sentiu que essas eram atitudes muito maternas.
Resolveu ir para seu quarto, depois de escovar os dentes. Soltou o cabelo. Tirou seu relógio de pulso. Meia noite e meia. Tirou suas botas. Sua camisa e sua calça. Tirou tudo de dentro da bolsa. Carteira, óculos de grau, uma bala de framboesa, celular, guarda-chuva, casaquinho, agenda e caneta. Uma lixa de unha no bolso de fora. Colocou uma calça de moletom cinza, uma camiseta de manga comprida cinza, um par cinza de meias. Pela última vez no dia se olhou no espelho. Já era hora de dormir, e se reconheceu. 

Ellen Maria

Tan solo

"...Tan sólo una mirada,
una pupila sólo para todas las cosas.
Para la aurora y el ocaso,
para el amor y el odio,
para el amante y el verdugo,
la paloma y la víbora,
la estrella y la luciérnaga.

Solamente unas manos
para el cáliz y el látigo,
para la rosa y para el cacto.
Solamente unas manos
para la arena y el rocío,
para mecer la cuna,
y acariciar la sien del esperado,
y abrir el último agujero.

Una boca tan sólo
para el beso y el grito
y para la oración y la blasfemia.
Para el suspiro y la mentira,
para el perdón
y la condena.

Y tan sólo una sangre
para escuchar el tiempo,
para regar los sueños,
para comprar la herida y la agonía,
y destilar las lágrimas.

Ah, tan sólo una sangre
una boca, unas manos,
una mirada solo."


Josefina Plá

17.4.13

Hai-cai para Dercy

Humo
Todo ese frío
y mi lengua quema.


Ellen Maria

16.4.13

perder sentidos

pendiendo la cabeza a un      lado
por la sordera del oído      izquierdo
quedó más cerca el      beso
del cachete      derecho.
delante de su      contacto
la miró      sorprendido
y se puso      mudo.

Ellen Maria

14.4.13

Partilha

"Na separação, 
eu e o cachorro ficamos com meu pai;
 minha irmã e o gato, com minha mãe. 
E cada um de nós passou a ser só metade. "
(José Rezende Jr)


11.4.13

Sem prescrições

Você, minha espinha interna,
que não se vê, 
mas se sente,
que quanto mais aperto
mais presente,
que deixa minha pele dormente 
e é pior que dor de dente,
quando eu penso 
que foi de vez,
aparece outra vez.
Mas não tem mal iminente
que dura eternamente,
já descobri a cura.
chama-se hirudoide.

Ellen Maria

9.4.13

Mudanza

"A fuerza de mudarme
he aprendido a no pegar
los muebles a los muros,
a no clavar muy hondo,
a atornillar sólo lo justo.
He aprendido a respetar las huellas
de los viejos inquilinos:
un clavo, una moldura,
una pequeña ménsula,
que dejó en su lugar
aunque me estorben.
Algunas manchas las heredo
sin limpiarlas,
entro en la nueva casa
tratando de entender,
es más,
viendo por dónde habré de irme.
Dejo que la mudanza
se disuelva como una fiebre,
como una costra que se cae,
no quiero hacer ruido.
Porque los viejos inquilinos
nunca mueren.
Cuando nos vamos,
cuando dejamos otra vez
los muros como los tuvimos,
siempre queda algún clavo de ellos
en un rincón
o un estropicio
que no supimos resolver."

Fabio Morábito