se incha o algodão de sangue antes do sangue
antes de cair
uma só gota se incha o algodão
de sangue.
Ellen Maria
7.5.16
6.5.16
Em forma mais feliz
"em forma mais feliz e produtivo
satisfeito
nada de beber demais
exercício regular na academia (3 vezes por semana)
lidar melhor com seus colegas de trabalho na empresa
em paz
comer bem (nada de jantar de microondas e gorduras saturadas)
motorista melhor e paciente
carro mais seguro (bebê sorri no banco de trás)
dormir bem (sem sonhos ruins)
sem paranoia
cuidadoso com os animais (nunca mandar aranhas pelo ralo)
manter contato com velhos amigos (um drink de vez em quando)
sempre checar a conta (buraco no muro) no banco (de boas ações)
favor com favor
afetuoso não apaixonado
caridade por débito automático
compra de mês no domingo
(nada de matar mariposas ou ferver formigas)
lava-rápido
não ter mais medo de escuro
ou de sombras ao meio-dia
é tão ridículo adolescente & desesperado
tão infantil
num ritmo melhor
mais lento e calculado
sem chance de fuga
agora autônomo
preocupado (mas impotente)
membro capaz & informado da sociedade (pragmatismo não idealismo)
não chorar em público
menor risco de doença
pneus de chuva (foto do bebê com cinto no banco de trás)
boa memória
ainda chora num bom filme
ainda beija com saliva
não mais vazio nem fora de si
como um gato
preso a um pau
que se crava no
cocô gelado de inverno (a habilidade de rir nas fraquezas)
calmo
em forma, mais saudável e produtivo
um porco
numa jaula
sob antibióticos."
Thom Yorke
Tradução: Dirceu Villa
satisfeito
nada de beber demais
exercício regular na academia (3 vezes por semana)
lidar melhor com seus colegas de trabalho na empresa
em paz
comer bem (nada de jantar de microondas e gorduras saturadas)
motorista melhor e paciente
carro mais seguro (bebê sorri no banco de trás)
dormir bem (sem sonhos ruins)
sem paranoia
cuidadoso com os animais (nunca mandar aranhas pelo ralo)
manter contato com velhos amigos (um drink de vez em quando)
sempre checar a conta (buraco no muro) no banco (de boas ações)
favor com favor
afetuoso não apaixonado
caridade por débito automático
compra de mês no domingo
(nada de matar mariposas ou ferver formigas)
lava-rápido
não ter mais medo de escuro
ou de sombras ao meio-dia
é tão ridículo adolescente & desesperado
tão infantil
num ritmo melhor
mais lento e calculado
sem chance de fuga
agora autônomo
preocupado (mas impotente)
membro capaz & informado da sociedade (pragmatismo não idealismo)
não chorar em público
menor risco de doença
pneus de chuva (foto do bebê com cinto no banco de trás)
boa memória
ainda chora num bom filme
ainda beija com saliva
não mais vazio nem fora de si
como um gato
preso a um pau
que se crava no
cocô gelado de inverno (a habilidade de rir nas fraquezas)
calmo
em forma, mais saudável e produtivo
um porco
numa jaula
sob antibióticos."
Thom Yorke
Tradução: Dirceu Villa
5.5.16
Breve relato mitológico inspirado en las tareas del hogar
"Pasa el polvo
y el polvo vuelve.
Progresión geométrica
a su alrededor
en las opciones del desorden.
La suciedad se aparta, se destruye
y regresa.
Cada día en la ropa
nuevas manchas
de dificil limpieza.
Etc."
Sandra Santana
y el polvo vuelve.
Progresión geométrica
a su alrededor
en las opciones del desorden.
La suciedad se aparta, se destruye
y regresa.
Cada día en la ropa
nuevas manchas
de dificil limpieza.
Etc."
Sandra Santana
4.5.16
O que vale
"Eu vou dizer, não há nada muito importante. A vida é só uma vinheta, um haikai perto da eternidade. Então talvez o que valha mesmo no fim das contas são os segundos que você passa apreciando uma gravura do Hopper ou aquela gota de suor que escorre pro umbigo da mulher que você ama. O que vale são os pequenos detalhes. O que vale não é o poema, é o verso que resume todo o poema. O que vale não é a peça de teatro que escrevi. É ficar esperando a peça inteira para dizer aquela fala. A fala exata, aquela que eu sempre quis dizer, e por isso acabei escrevendo uma peça inteira só pra poder dizer."
Mário Bortolotto
3.5.16
Ainda é cedo
olho pro céu buscando algo
me escapa o nome daquilo que sobra do cigarro
seja o que é
jogo longe
estou em terra nova de cinquenta estrelas
faz frio mas ainda não tremo
e não conheço ninguém por mais de vinte e quatro horas
um rosto
no entanto
na fumaça que sopro se volta
com certa familiaridade
que sinto ter em situações de tímido desespero
brando (alguma vez já te aconteceu isso?)
e quando me vejo incapaz de seguir
olho pra ele
e ainda é cedo
falta mais música
a dança
uns tragos
canções em guitarra
o corpo aguenta muito sem filtro
até que a noite pertença somente aos gatos
olho pra ele sem desculpa
(te tive aí, por uns segundos, em pause)
e de repente, vem o nome:
bituca
guimba
(como será que diz em tua outra língua?)
e já é hora de voltar
ao ponto
de partida.
Ellen Maria
me escapa o nome daquilo que sobra do cigarro
seja o que é
jogo longe
estou em terra nova de cinquenta estrelas
faz frio mas ainda não tremo
e não conheço ninguém por mais de vinte e quatro horas
um rosto
no entanto
na fumaça que sopro se volta
com certa familiaridade
que sinto ter em situações de tímido desespero
brando (alguma vez já te aconteceu isso?)
e quando me vejo incapaz de seguir
olho pra ele
e ainda é cedo
falta mais música
a dança
uns tragos
canções em guitarra
o corpo aguenta muito sem filtro
até que a noite pertença somente aos gatos
olho pra ele sem desculpa
(te tive aí, por uns segundos, em pause)
e de repente, vem o nome:
bituca
guimba
(como será que diz em tua outra língua?)
e já é hora de voltar
ao ponto
de partida.
Ellen Maria
2.5.16
Durante tantos años tuve hambre
"Durante tantos años tuve hambre-
Hasta que llegó mi mediodía - mi hora de comer -
Temblando me acerqué a la mesa -
y probé el vino extraño -
Era lo que había visto sobre otras mesas -
Cuando volvía, hambirenta, a casa
y veía por las ventanas la opulencia
que no podía pretender para mí -
No reconocí la abundancia del pan -
Tan diferente de las migajas
que los pájaros y yo compartíamos
en el comedor de la naturaleza -
La plenitud me lastimó - era algo tan nuevo -
Que me sentí enferma - y rara -
como un fruto del árbol montañés -
transplantado al camino.
Tampoco estaba hambrienta ya - descubrí
que el hambre - es algo que sienten
aquellos que miran por las ventanas desde afuera -
y que, entrando, lo pierden."
Emily Dickinson
Traducción: Isaías Garde
Hasta que llegó mi mediodía - mi hora de comer -
Temblando me acerqué a la mesa -
y probé el vino extraño -
Era lo que había visto sobre otras mesas -
Cuando volvía, hambirenta, a casa
y veía por las ventanas la opulencia
que no podía pretender para mí -
No reconocí la abundancia del pan -
Tan diferente de las migajas
que los pájaros y yo compartíamos
en el comedor de la naturaleza -
La plenitud me lastimó - era algo tan nuevo -
Que me sentí enferma - y rara -
como un fruto del árbol montañés -
transplantado al camino.
Tampoco estaba hambrienta ya - descubrí
que el hambre - es algo que sienten
aquellos que miran por las ventanas desde afuera -
y que, entrando, lo pierden."
Emily Dickinson
Traducción: Isaías Garde
1.5.16
El pacto
"Si me enciendes, no aguardes
de mí un lenguaje al uso,
los desgastados ritos del amor,
las consabidas normas,
los burdos reglamentos
que matemáticamente predicen
cómo todo se teje y se desteje.
Si me prendes,
no dejes leña para un día
que acaso nunca ha de llegar,
y arriésgate al juego prohibido
que ignora la aritmética y el cálculo.
No te cubras, no conserves:
organiza tu vida para el fuego.
Este es el pacto: si me incendias,
arde conmigo."
Alfonso Brezmes
de mí un lenguaje al uso,
los desgastados ritos del amor,
las consabidas normas,
los burdos reglamentos
que matemáticamente predicen
cómo todo se teje y se desteje.
Si me prendes,
no dejes leña para un día
que acaso nunca ha de llegar,
y arriésgate al juego prohibido
que ignora la aritmética y el cálculo.
No te cubras, no conserves:
organiza tu vida para el fuego.
Este es el pacto: si me incendias,
arde conmigo."
Alfonso Brezmes
30.4.16
Envidia de los poemas ajenos
"En una versión de la leyenda las sirenas no saben cantar.
Que sepan hacerlo era solo una historia de marineros.
Así que Odiseo, atado al mástil, sufre el tormento
de una música que no oye - el chapoteo del mar,
el cambio del viento, el apetito costero de las aves -
y las calladas mujeres que recogen algas para abonar su jardín,
al verle forcejear con el cordaje, al ver en sus ojos
tan tremendo deseo, quedan transformadas para siempre
en el badío rocoso de su isla por lo que imaginan
que él imagina que es la canción que no han cantado nunca."
Robert Hass
Traducción: Andres Catalán
Que sepan hacerlo era solo una historia de marineros.
Así que Odiseo, atado al mástil, sufre el tormento
de una música que no oye - el chapoteo del mar,
el cambio del viento, el apetito costero de las aves -
y las calladas mujeres que recogen algas para abonar su jardín,
al verle forcejear con el cordaje, al ver en sus ojos
tan tremendo deseo, quedan transformadas para siempre
en el badío rocoso de su isla por lo que imaginan
que él imagina que es la canción que no han cantado nunca."
Robert Hass
Traducción: Andres Catalán
29.4.16
Soneto 29
"Cuando, castigado por la fortuna y los hombres,
en soledad lamento mi condición de paria,
y con mi llanto en vano molesto al sordo cielo,
y me paro a mirarme, y maldigo mi suerte,
y deseo el futuro de alguún afortunado,
y su punto de fama, y su copia de amigos,
y ansío de este el arte y de aquel sus recursos
con lo que más disfruto aún menos satisfecho;
mas cuando al borde me hallo ya des desdén propio,
pienso felizmente en ti, y me ánimo, entonces,
parecido a la alondra que con el alba se alza
de la tierra, canta himnos a las puertas del cielo;
recordar tu tierno amor supone tal fortuna
que ni el lugar de los reyes cambio por el mío."
William Shakespeare
Traducción: Andres Catalán
en soledad lamento mi condición de paria,
y con mi llanto en vano molesto al sordo cielo,
y me paro a mirarme, y maldigo mi suerte,
y deseo el futuro de alguún afortunado,
y su punto de fama, y su copia de amigos,
y ansío de este el arte y de aquel sus recursos
con lo que más disfruto aún menos satisfecho;
mas cuando al borde me hallo ya des desdén propio,
pienso felizmente en ti, y me ánimo, entonces,
parecido a la alondra que con el alba se alza
de la tierra, canta himnos a las puertas del cielo;
recordar tu tierno amor supone tal fortuna
que ni el lugar de los reyes cambio por el mío."
William Shakespeare
Traducción: Andres Catalán
28.4.16
A propósito
Não sem mim
a dizer ao ouvido
de quem julgara
preparado
o avião de papel
uma lista de desejos
só voa quando
a janela é aberta.
Ellen Maria
a dizer ao ouvido
de quem julgara
preparado
o avião de papel
uma lista de desejos
só voa quando
a janela é aberta.
Ellen Maria
27.4.16
Alforria blues
"Espero a hora de dizer: o jeito que te vejo vivo em mim como um cavalo derrubando as paredes pelas escadarias.
O mar guardado em tuas gavetas."
**
"Espero la hora de decir: el modo que te veo vivo en mí como un caballo derribando las paredes por las escaleras.
El mar guardado en tus cajones."
Julia Hansen
Traducción: Ellen Maria
O mar guardado em tuas gavetas."
**
"Espero la hora de decir: el modo que te veo vivo en mí como un caballo derribando las paredes por las escaleras.
El mar guardado en tus cajones."
Julia Hansen
Traducción: Ellen Maria
26.4.16
Parto
Um tempo só
habitável
entre o engasgado
e o olho cheio d'água
grita o indizível:
O inefável nasce na entropia
de ao menos duas vidas.
Um rasgo
natural ou artifício
e apesar da chance
existência de algum amor
a luminosidade cega:
uma mulher será mãe
e a outra, algemada.
Ellen Maria
habitável
entre o engasgado
e o olho cheio d'água
grita o indizível:
O inefável nasce na entropia
de ao menos duas vidas.
Um rasgo
natural ou artifício
e apesar da chance
existência de algum amor
a luminosidade cega:
uma mulher será mãe
e a outra, algemada.
Ellen Maria
25.4.16
astronauta
o luto
daquilo que matei
não é mais brando
e do mesmo amargo
é o café
só
ou com açúcar.
há coisas e gestos
pessoas e corpos
tempos de foguetes
em que tudo se despedaça
menos o que se despede
este permanece
quente
no espaço.
no espaço.
Ellen Maria
24.4.16
Metereopatia
Noite de chuva,
pergunto às horas
e a forra me desapossa:
twent'and-tears nem é meia
noite ainda e me desfaleço em
choro
água
água
água água.
Ellen Maria
pergunto às horas
e a forra me desapossa:
twent'and-tears nem é meia
noite ainda e me desfaleço em
choro
água
água
água água.
Ellen Maria
22.4.16
Vero Nome
"Chamarei deserto a este castelo que tu foste.
Noite à tua voz, ausência à tua face,
E quando caíres sobre a terra estéril,
Chamarei nada ao raio que te trouxe.
Morrer é um país que tu amavas. E eu venho
Eternamente por teus sombrios caminhos.
Destruo teu desejo, tua forma, tua memória,
Sou teu inimigo que não terá piedade.
Chamar-te-ei guerra e sobre ti
Tomarei as liberdades da guerra. Terei então
Em minhas mãos o teu rosto, obscuro e traspassado,
E em meu coração o país que acende a tempestade.
Da crepitação noturna de uma terra supliciada,
Necessita a luz para surgir
E é de bosques tenebrosos que a flama salta.
O próprio verbo sonha a essência
Uma plácida margem além do canto.
Para que vivas, precisarás transpor a morte.
A mais imácula presença é um sangue entornado."
Yves Bonnefoy
Tradução: Lenilde Freitas
Noite à tua voz, ausência à tua face,
E quando caíres sobre a terra estéril,
Chamarei nada ao raio que te trouxe.
Morrer é um país que tu amavas. E eu venho
Eternamente por teus sombrios caminhos.
Destruo teu desejo, tua forma, tua memória,
Sou teu inimigo que não terá piedade.
Chamar-te-ei guerra e sobre ti
Tomarei as liberdades da guerra. Terei então
Em minhas mãos o teu rosto, obscuro e traspassado,
E em meu coração o país que acende a tempestade.
Da crepitação noturna de uma terra supliciada,
Necessita a luz para surgir
E é de bosques tenebrosos que a flama salta.
O próprio verbo sonha a essência
Uma plácida margem além do canto.
Para que vivas, precisarás transpor a morte.
A mais imácula presença é um sangue entornado."
Yves Bonnefoy
Tradução: Lenilde Freitas
21.4.16
Pedido
receba um pouco
deste peso da armadura, este corpo
defeituoso, olhos vermelhos, marcas de catapora,
inúmeras aftas, inflamações, sobrante ácido lático,
fantasmas em linhas tortas em pele calejada,
mas nada falta
nem uma unha, um punho, um dente, um queixo, um cacho,
deixa eu cair nuns braços por ao menos
mais um pouco
depois escorra o que resta,
joga no ralo, não se despeça,
este corpo só quer
fim de disputa.
Ellen Maria
deste peso da armadura, este corpo
defeituoso, olhos vermelhos, marcas de catapora,
inúmeras aftas, inflamações, sobrante ácido lático,
fantasmas em linhas tortas em pele calejada,
mas nada falta
nem uma unha, um punho, um dente, um queixo, um cacho,
deixa eu cair nuns braços por ao menos
mais um pouco
depois escorra o que resta,
joga no ralo, não se despeça,
este corpo só quer
fim de disputa.
Ellen Maria
20.4.16
Son(h)o
Não seria discussão
mas manha
na hora de dormir
um pouco mais, diria
e eu fechando os olhos
concordaria
um pouco mais
até que a respiração mais profunda
fizesse soprar
é noite, é noite
minha mão em seu rosto sente
você a colocou aí
e também fechou os olhos.
Ellen Maria
mas manha
na hora de dormir
um pouco mais, diria
e eu fechando os olhos
concordaria
um pouco mais
até que a respiração mais profunda
fizesse soprar
é noite, é noite
minha mão em seu rosto sente
você a colocou aí
e também fechou os olhos.
Ellen Maria
19.4.16
Indobrável
saudade dos dedos enrugados
dos remendos possíveis
e da velhice longínqua
passou o tempo
das piscinas de plástico
abre um vão
e a enxurrada no quintal
olho o céu
parece que ele não vem
também não tem
nem uma nuvem.
Ellen Maria
18.4.16
TV (ou marcas de poder)
veja com atenção:
eles homens sábios e sérios
estalam os dedos
pressionam as falanges assim
produzem um barulho que não se escuta
e as bordas das unhas contra a pele
desenham meia luas como chagas
agora levam um destes extremos à boca
mordem a beira do calo
com a ponta do dente
calmamente
e um movimento linguístico
lança o ínfimo excluído
pedaço de carne
para longe.
a câmera grava
e você
viu?
toda sua atenção em quase nada.
Ellen Maria
eles homens sábios e sérios
estalam os dedos
pressionam as falanges assim
produzem um barulho que não se escuta
e as bordas das unhas contra a pele
desenham meia luas como chagas
agora levam um destes extremos à boca
mordem a beira do calo
com a ponta do dente
calmamente
e um movimento linguístico
lança o ínfimo excluído
pedaço de carne
para longe.
a câmera grava
e você
viu?
toda sua atenção em quase nada.
Ellen Maria
17.4.16
El problema del duelo
"Una hormiga muere y nadie la llora
Un pájaro muere y nadie lo llora, salvo que se trate de un ibis nipón
Un mono muere, los monos lo lloran
Un mono muere, los hombres le levantan la tapa de los sesos
Un tiburón muere, y otro tiburón sigue surcando el agua
In tigre muere, un hombre lo llora, llorándose a sí mismo
Un hombre muere, hay quienes lloran y quienes no
Un hombre muere, hay quienen lo lloran y quienes aplauden
Una generación muere, y la próxima básicamente no la llora
Un país muere, y a menudo deja apenas historias controvertidas
Un país que no deja historias controvertidas no es un verdadero país
A menos que se trate de un verdadero país, un país muere y nadie lo llora
Nadie lo llora, quiere decir que el viento sopla en vano
Quiere decir que el río corre en vano, que en vano embiste las rocas
En vano brilla su oleaje, en vano produce espuma
El río muere, no corresponde a los hombres llorarlo
El viento y el río corren juntos hacia el océano, un océano vasto como en Zhuangzi
El océano vasto muere, y vos también tenés que morir
El rey dragón muere, vos también tenés que morir
La luna no se lamenta, porque en la luna no hay nadie
Las estrellas no se lamentan, no son de carne y hueso."
Xi Chuan, 1963.
Traduc. Miguel Angel Petrecca
Un pájaro muere y nadie lo llora, salvo que se trate de un ibis nipón
Un mono muere, los monos lo lloran
Un mono muere, los hombres le levantan la tapa de los sesos
Un tiburón muere, y otro tiburón sigue surcando el agua
In tigre muere, un hombre lo llora, llorándose a sí mismo
Un hombre muere, hay quienes lloran y quienes no
Un hombre muere, hay quienen lo lloran y quienes aplauden
Una generación muere, y la próxima básicamente no la llora
Un país muere, y a menudo deja apenas historias controvertidas
Un país que no deja historias controvertidas no es un verdadero país
A menos que se trate de un verdadero país, un país muere y nadie lo llora
Nadie lo llora, quiere decir que el viento sopla en vano
Quiere decir que el río corre en vano, que en vano embiste las rocas
En vano brilla su oleaje, en vano produce espuma
El río muere, no corresponde a los hombres llorarlo
El viento y el río corren juntos hacia el océano, un océano vasto como en Zhuangzi
El océano vasto muere, y vos también tenés que morir
El rey dragón muere, vos también tenés que morir
La luna no se lamenta, porque en la luna no hay nadie
Las estrellas no se lamentan, no son de carne y hueso."
Xi Chuan, 1963.
Traduc. Miguel Angel Petrecca
16.4.16
hoy
"Hoy que el dolor se empeña en ser caricia
en mi ciega costumbre de esperarte
siempre
como a escondidas
en este rincón húmedo
de tanta madrugada
viviendo en un reloj
que no se calla;
ahora que la luna se ha cansado
de buscarnos en abrazo y sin normas
-como también yo-
me atrevo a confesarte
que llorar no era un lujo para mí
ni todas estas tardes de diciembre,
tan largas.
Ahora he comprendido que es posible
tu boca sin la mía
y me retiro
antes de que conquistes nuevamente mi espalda
y a mí no me parezca suficiente."
Marianne Ruiz, España, 2014.
en mi ciega costumbre de esperarte
siempre
como a escondidas
en este rincón húmedo
de tanta madrugada
viviendo en un reloj
que no se calla;
ahora que la luna se ha cansado
de buscarnos en abrazo y sin normas
-como también yo-
me atrevo a confesarte
que llorar no era un lujo para mí
ni todas estas tardes de diciembre,
tan largas.
Ahora he comprendido que es posible
tu boca sin la mía
y me retiro
antes de que conquistes nuevamente mi espalda
y a mí no me parezca suficiente."
Marianne Ruiz, España, 2014.
15.4.16
Piada pronta
e depois da piada
disse o português
ao brasileiro
na língua dele:
- pois
vai
estar
tendo
troco.
Ellen Maria
disse o português
ao brasileiro
na língua dele:
- pois
vai
estar
tendo
troco.
Ellen Maria
14.4.16
Despedida (ou sistema anti-circular)
tem ar
e tem outra coisa
um vazio
que não faz eco
porque não tem voz
que entre
mas tem
também
mil gritos apertados
qual é mesmo a palavra
sufoco
não não
é mais esganado
se engana quem pensa que tem
não tem
não é presença
nem ausência
de som
só é
silêncio
expiro quando corro
sem voltar
escuto a caixa
no ouvido
não tem
pálpebras
nem cílios
inspiro
o que não é visto não existe
ou insiste
em ser lembrado
é isto
e aquilo
às vezes persiste mais
e sibila
acentuado
rouco
zumbido
e ressoa
até o infinito
mas às vezes nada.
um sistema anti-circular.
Ellen Maria
e tem outra coisa
um vazio
que não faz eco
porque não tem voz
que entre
mas tem
também
mil gritos apertados
qual é mesmo a palavra
sufoco
não não
é mais esganado
se engana quem pensa que tem
não tem
não é presença
nem ausência
de som
só é
silêncio
expiro quando corro
sem voltar
escuto a caixa
no ouvido
não tem
pálpebras
nem cílios
inspiro
o que não é visto não existe
ou insiste
em ser lembrado
é isto
e aquilo
às vezes persiste mais
e sibila
acentuado
rouco
zumbido
e ressoa
até o infinito
mas às vezes nada.
um sistema anti-circular.
Ellen Maria
13.4.16
Silêncio, agora
não se define
saudade
dizem que é impossível habitar
dois espaços ao mesmo tempo
ma(i)s que fumar no deserto
é isso.
Ellen Maria
saudade
dizem que é impossível habitar
dois espaços ao mesmo tempo
ma(i)s que fumar no deserto
é isso.
Ellen Maria
12.4.16
Terapia de choque
"A verdadeira escolha com relação ao trauma histórico não está entre lembrar-se ou esquecer-se dele: os traumas que não estamos dispostos a ou não somos capazes de relembrar assombram-nos com mais força. É necessário então aceitar o paradoxo de que, para realmente esquecer um acontecimento, precisamos primeiramente criar a força para lembrá-lo. Para responder a este paradoxo, devemos ter em mente que o contrário da existência não é a inexistência, mas insistência: o que não existe continua a insistir, lutando para passar a existir."
11.4.16
Desejo e experiência
"O desejo, ao contrário, pertence à categoria da experiência. 'Aquilo que desejamos na juventude, recebemos em abundância na idade madura', escreveu Goethe. Na vida, quanto mais cedo alguém formular um desejo, tanto maior será a possibilidade de que se cumpra. Quanto mais se protege um desejo distante no tempo, tanto mais se pode esperar por sua realização. Contudo, o que nos leva longe no tempo é a experiência que o preenche e o estrutura. Por isso o desejo realizado é o coroamento da experiência. Na simbólica dos povos, a distância no espaço pode assumir o papel da distância no tempo; esta a razão porque a estrela cadente, precipitando-se na infinita distância do espaço, se transformou no símbolo do desejo realizado. A bolinha de marfim rolando para a próxima casa numerada, a próxima carta em cima de todas as outras, é a verdadeira antítese da estrela cadente. O tempo contido no instante em que a luz da estrela cadente cintila para uma pessoa é constituído da mesma matéria do tempo definido por Joubert, com a segurança que lhe é peculiar: 'O tempo - escreve - se encontra mesmo na eternidade; mas não é o tempo terreno, secular... É um tempo que não destrói; aperfeiçoa, apenas.'"
10.4.16
9.4.16
proustiana
"e eis que
por falta de microondas
você requenta
um café com leite
numa panelinha
e seus avós
mortos
saem voando
pela cozinha
junto com a fumaça
açucarada
e pousam
aqui
bem
sobre
este
teclado."
Paloma Vidal
por falta de microondas
você requenta
um café com leite
numa panelinha
e seus avós
mortos
saem voando
pela cozinha
junto com a fumaça
açucarada
e pousam
aqui
bem
sobre
este
teclado."
Paloma Vidal
8.4.16
Conejo
"La soledad se escribe
cuando uno de los pies
vuela hacia delante del otro
cómo iremos a ese lugar
si sólo existe cuando sueñas
si no hay conejos en la calle
si los niños aprenden
a sacarse el corazón."
Hanna Figueroa
cuando uno de los pies
vuela hacia delante del otro
cómo iremos a ese lugar
si sólo existe cuando sueñas
si no hay conejos en la calle
si los niños aprenden
a sacarse el corazón."
Hanna Figueroa
7.4.16
dentes
"sonhei com dentes. de manhã perguntei ao grande oráculo o que quer dizer sonhar com dentes. leio: em serra leoa, kadhiatu abkar faz esculturas em dentes. pequenas paisagens, caveiras, animais, castelos. não em dentes caídos, em dentes vivos, ainda na boca. como se um elefante permanecesse com seu marfim esculpido. assim, ela diz, os sorrisos são mais frequentes. é como cortar os cabelos para mostrar brincos novos, exibir o corpo onde pousam novas tatuagens. fotos anônimas mostrando os sorrisos com as esculturas de kadhiatu foram expostas em 2011 num pequeno museu de makeni. kadhiatu, que perdeu todos os seus dentes ainda na adolescência, nunca sorri."
6.4.16
Realidade
e eu metida as piras das catástrofes
neta de quem sou
filha de quem diz
não vejo programa sensacionalista na tv
nem ouço rádio patrulha
mas penso
que se morrer na esquina
contra o poste do posto de gasolina
qualquer dia desses
vou deixar minha tese pela metade
nenhum filho no mundo
graças a deus
e no último segundo de sanidade
ou consciência
que deve ser a mesma coisa
minha cabeça vai explodir
de alegria
ufa! até aqui sobrevivi
como virgindade de vagalume.
Ellen Maria
neta de quem sou
filha de quem diz
não vejo programa sensacionalista na tv
nem ouço rádio patrulha
mas penso
que se morrer na esquina
contra o poste do posto de gasolina
qualquer dia desses
vou deixar minha tese pela metade
nenhum filho no mundo
graças a deus
e no último segundo de sanidade
ou consciência
que deve ser a mesma coisa
minha cabeça vai explodir
de alegria
ufa! até aqui sobrevivi
como virgindade de vagalume.
Ellen Maria
5.4.16
ou procrastinação
preparar a lista com esmero
e não cumpri-la
pela emoção de transgredir
e se arrepender
daquilo que
(sem querer querendo)
viveu
não vivendo.
Ellen Maria
e não cumpri-la
pela emoção de transgredir
e se arrepender
daquilo que
(sem querer querendo)
viveu
não vivendo.
Ellen Maria
4.4.16
retenidos y perdidos
cuando recuerdo no recuerdo
invento
una lista de cosas
yogurt
arvejas congeladas
cactus
libros
compu
balones
aguas
calefón
polvo
no me acuerdo del sexo
solo de los bailes
y las cahuamas
y las series con pizza
el diario en la radio
poesía poesía poesía
y nada
dos viajes
explosión de fuego
luna
medicinas
cafés
no me acuerdo del beso
lágrimas
fiebre
a veces creo que no hubo
más que esa lista
hasta que me acuerdo.
invento
una lista de cosas
yogurt
arvejas congeladas
cactus
libros
compu
balones
aguas
calefón
polvo
no me acuerdo del sexo
solo de los bailes
y las cahuamas
y las series con pizza
el diario en la radio
poesía poesía poesía
y nada
dos viajes
explosión de fuego
luna
medicinas
cafés
no me acuerdo del beso
lágrimas
fiebre
a veces creo que no hubo
más que esa lista
hasta que me acuerdo.
3.4.16
Crer-Sendo
"Preciso amar de menos
de menos a mim e mais atento
preciso amar atento
atento pra não ceder por dentro
por dentro que está
por dentro que palpita aqui por dentro
amar jamais será demais
e equilibrar
não há
não há porque viver
se não pra crer e ser crescendo sendo
não há
não há porque amar
se não pra semear conhecimento
preciso amar sabendo
sabendo que às vezes só eu só e só
preciso amar eu só
que é só que só me encontro dentro
por dentro que está
por dentro que walkie talkie por dentro
amar
e equilibrar."
Lucas Castello Branco
de menos a mim e mais atento
preciso amar atento
atento pra não ceder por dentro
por dentro que está
por dentro que palpita aqui por dentro
amar jamais será demais
e equilibrar
não há
não há porque viver
se não pra crer e ser crescendo sendo
não há
não há porque amar
se não pra semear conhecimento
preciso amar sabendo
sabendo que às vezes só eu só e só
preciso amar eu só
que é só que só me encontro dentro
por dentro que está
por dentro que walkie talkie por dentro
amar
e equilibrar."
Lucas Castello Branco
2.4.16
1.4.16
Preguntas
"Ya que navegas por mi sangre
y conoces mis límites,
y me despiertas en la mitad del día
para acostarme en tu recuerdo
y eres furia de mi paciencia para mí,
dime qué diablos hago,
por qué te necesito,
quien eres, muda, sola, recorriéndome,
razón de mi pasión,
por qué quiero llenarte solamente de mí,
y abarcarte, acabarte,
mezclarme en tus cabellos
y eres única patria
contra las bestias del olvido."
Juan Gelman
y conoces mis límites,
y me despiertas en la mitad del día
para acostarme en tu recuerdo
y eres furia de mi paciencia para mí,
dime qué diablos hago,
por qué te necesito,
quien eres, muda, sola, recorriéndome,
razón de mi pasión,
por qué quiero llenarte solamente de mí,
y abarcarte, acabarte,
mezclarme en tus cabellos
y eres única patria
contra las bestias del olvido."
Juan Gelman
31.3.16
Diário de viagens
alargam-se os meses
rios que secam
e as pessoas encostadas
é falta de nuvem
pensam
mas uma bruta chuva do outro lado me confessa
aqui também finco
na preguiça
não excederá pão enquanto transbordar fome.
Ellen Maria
rios que secam
e as pessoas encostadas
é falta de nuvem
pensam
mas uma bruta chuva do outro lado me confessa
aqui também finco
na preguiça
não excederá pão enquanto transbordar fome.
Ellen Maria
30.3.16
O estado das coisas
revi aquele filme
do wim wenders
onde a filmagem para no meio
do filme
porque acaba a renda
lado a lado com aquele
que outro dia me perguntou
vamos encomendar um filho
olhei assustada
sem renda para ir ao cinema
baixei da internet
o filme
e do filho
escrevi o roteiro
a filmagem para
antes mesmo de começar
não nasce um mito
hoje
nem outro diabo.
Ellen Maria
do wim wenders
onde a filmagem para no meio
do filme
porque acaba a renda
lado a lado com aquele
que outro dia me perguntou
vamos encomendar um filho
olhei assustada
sem renda para ir ao cinema
baixei da internet
o filme
e do filho
escrevi o roteiro
a filmagem para
antes mesmo de começar
não nasce um mito
hoje
nem outro diabo.
Ellen Maria
29.3.16
28.3.16
ele
descansa os lábios
por um instante
pensa
a vida encerra peças
debaixo do taco
parece
não há quebra-cabeça
suficiente para dar conta
do espaço reservado
não desiste
quieto
até que encontra
cela estes lábios
por um instante.
Ellen Maria
por um instante
pensa
a vida encerra peças
debaixo do taco
parece
não há quebra-cabeça
suficiente para dar conta
do espaço reservado
não desiste
quieto
até que encontra
cela estes lábios
por um instante.
Ellen Maria
27.3.16
jornada adicional
Guardar todos os sonhos úmidos
das tristezas extraordinárias
restar só suores noturnos
das turbulências imaginadas
resguardar certos perigos
das luas cheias
sustentar a cabeça e às vezes
esvaziá-la
sem direito a férias
o labor de oito horas
é compensado com um ou outro
banho de sol
e em algumas manhãs
perfumado e maciota
o travesseiro descansa.
Ellen Maria
das tristezas extraordinárias
restar só suores noturnos
das turbulências imaginadas
resguardar certos perigos
das luas cheias
sustentar a cabeça e às vezes
esvaziá-la
sem direito a férias
o labor de oito horas
é compensado com um ou outro
banho de sol
e em algumas manhãs
perfumado e maciota
o travesseiro descansa.
Ellen Maria
26.3.16
25.3.16
A idade
De repente a gente envelhece
o cabelo afina
e cai
as orelhas prestam atenção
e caem
a pele arde
e cai
amor e tristeza ao redor dos olhos
óculos escuros
não são vaidade da idade
a discussão afina
e cai
as lágrimas prestam atenção
e caem
o peito arde
amor e tristeza dentro dos olhos
a voz fica pouca
a vontade de libertá-la
vira vontade
de calar
e cair
mais vezes
a gente prioriza outras coisas
ao envelhecer.
Ellen Maria
o cabelo afina
e cai
as orelhas prestam atenção
e caem
a pele arde
e cai
amor e tristeza ao redor dos olhos
óculos escuros
não são vaidade da idade
a discussão afina
e cai
as lágrimas prestam atenção
e caem
o peito arde
amor e tristeza dentro dos olhos
a voz fica pouca
a vontade de libertá-la
vira vontade
de calar
e cair
mais vezes
a gente prioriza outras coisas
ao envelhecer.
Ellen Maria
24.3.16
23.3.16
Llorar a lágrima viva
"Llorar a chorros.
Llorar la digestión.
Llorar el sueño.
Llorar antes las puertas y los puertos.
llorar de amabilidad y de amarillo.
Abrir las canillas,
las compuertas del llanto.
Empaparnos el alma,
la camiseta.
Inundar las veredas y los paseos,
y salvarnos, a nado, de nuestro llanto.
Asistir a los cursos de antropología,
llorando.
Festejar los cumpleaños familiares,
llorando.
Llorar como un cacuy,
como un cocodrilo...
si es verdad
que los cacuyes y los cocodrilos
no dejan nunca de llorar.
Llorarlo todo,
pero llorarlo bien.
Llorarlo con la nariz,
con las rodillas.
Llorarlo por el ombligo,
por la boca.
Llorar de amor,
de hastío,
de alegría.
Llorar de frac,
de flato, de flacuta.
llorar improvisando,
de memoria.
Llorar todo el insomnio y todo el día!"
Oliverio Girondo
Llorar la digestión.
Llorar el sueño.
Llorar antes las puertas y los puertos.
llorar de amabilidad y de amarillo.
Abrir las canillas,
las compuertas del llanto.
Empaparnos el alma,
la camiseta.
Inundar las veredas y los paseos,
y salvarnos, a nado, de nuestro llanto.
Asistir a los cursos de antropología,
llorando.
Festejar los cumpleaños familiares,
llorando.
Llorar como un cacuy,
como un cocodrilo...
si es verdad
que los cacuyes y los cocodrilos
no dejan nunca de llorar.
Llorarlo todo,
pero llorarlo bien.
Llorarlo con la nariz,
con las rodillas.
Llorarlo por el ombligo,
por la boca.
Llorar de amor,
de hastío,
de alegría.
Llorar de frac,
de flato, de flacuta.
llorar improvisando,
de memoria.
Llorar todo el insomnio y todo el día!"
Oliverio Girondo
22.3.16
si se ha...
"Si se ha de escribir correctamente poesía
no basta con sentirse desfallecer en el jardín
bajo el peso concertado del alma o lo que fuere
y del célebre crepúsculo o lo que fuere.
El corazón es pobre de vocabulario.
Su laberinto: un juego para atrasados mentales
en que da risa verlo moverse como un buey
un lector integral de novelas por entrega.
Desde el momento en que coge el violín
ni siquiera el Vals Triste de Sibelius
permanece en la sala que se llena de tanto.
Salvo las honrosas excepciones las poetisas uruguayas
todavía confunden la poesía con el baile
en una mórbida quinta de recreo,
o la confunden con el sexo o la confunden con la muerte.
Si se ha de escribir correctamente poesía
en cualquier caso hay que tomarlo con calma.
Lo primero de todo: sentarse y madurar.
El odio prematuro a la literatura
puede ser de utilidad para no pasar en el ejército
por maricón, pero el mismo Rimbaud
que probó que la odiaba fue un ratón de biblioteca,
y esa náusea gloriosa le vino de roerla.
Se juega ajedrez
con las palabras hasta para aullar.
Equilibrio inestable de la tinta y la sangre
que debes mantener de un verso a otro
so pena de romperte los papeles del alma.
Muerte, locura y sueño son otras tantas piezas
de marfil y de cuerno o lo que fuere;
lo importante es moverlas en el jardín a cuadros
de manera que el peón que baila con la reina
no le perdone el menor paso en falso.
Quienes insisten en llamar a las cosas por sus nombres
como si fueran claras y sencillas
las llenan simplesmente de nuevos ornamentos.
No las expresan, giran en torno al diccionario,
inutilizan más y más el lenguaje,
las llaman por sus nombres y ellas responden por sus
nombres
pero se nos desnudan en los parajes oscuros.
Discursos, oraciones, juegos de sobremesa,
todas estas cositas por las que vamos tirando.
Si se ha de escribir correctamente poesía
no estaría de más bajar un poco el tono
sin adoptar por ello un silencio monolítico
ni decidirse por la murmuración.
Es un pez o algo así lo que esperamos pescar,
algo de vida, rápido, que se confunde con la sombra
y no la sombra misma ni el Leviatán entero.
Es algo que merezca recordarse
por alguma razón parecida a la nada
pero que no es la nada ni el Leviatán entero,
ni exactamente un zapato ni una dentadura postiza."
Enrique Lihn
no basta con sentirse desfallecer en el jardín
bajo el peso concertado del alma o lo que fuere
y del célebre crepúsculo o lo que fuere.
El corazón es pobre de vocabulario.
Su laberinto: un juego para atrasados mentales
en que da risa verlo moverse como un buey
un lector integral de novelas por entrega.
Desde el momento en que coge el violín
ni siquiera el Vals Triste de Sibelius
permanece en la sala que se llena de tanto.
Salvo las honrosas excepciones las poetisas uruguayas
todavía confunden la poesía con el baile
en una mórbida quinta de recreo,
o la confunden con el sexo o la confunden con la muerte.
Si se ha de escribir correctamente poesía
en cualquier caso hay que tomarlo con calma.
Lo primero de todo: sentarse y madurar.
El odio prematuro a la literatura
puede ser de utilidad para no pasar en el ejército
por maricón, pero el mismo Rimbaud
que probó que la odiaba fue un ratón de biblioteca,
y esa náusea gloriosa le vino de roerla.
Se juega ajedrez
con las palabras hasta para aullar.
Equilibrio inestable de la tinta y la sangre
que debes mantener de un verso a otro
so pena de romperte los papeles del alma.
Muerte, locura y sueño son otras tantas piezas
de marfil y de cuerno o lo que fuere;
lo importante es moverlas en el jardín a cuadros
de manera que el peón que baila con la reina
no le perdone el menor paso en falso.
Quienes insisten en llamar a las cosas por sus nombres
como si fueran claras y sencillas
las llenan simplesmente de nuevos ornamentos.
No las expresan, giran en torno al diccionario,
inutilizan más y más el lenguaje,
las llaman por sus nombres y ellas responden por sus
nombres
pero se nos desnudan en los parajes oscuros.
Discursos, oraciones, juegos de sobremesa,
todas estas cositas por las que vamos tirando.
Si se ha de escribir correctamente poesía
no estaría de más bajar un poco el tono
sin adoptar por ello un silencio monolítico
ni decidirse por la murmuración.
Es un pez o algo así lo que esperamos pescar,
algo de vida, rápido, que se confunde con la sombra
y no la sombra misma ni el Leviatán entero.
Es algo que merezca recordarse
por alguma razón parecida a la nada
pero que no es la nada ni el Leviatán entero,
ni exactamente un zapato ni una dentadura postiza."
Enrique Lihn
21.3.16
ilhas
Um sorriso cheio de dentes
de maresia
umas bochechas que quer morder
pão de cará
e uns olhinhos pequenininhos
brigadeiro da Itanhaém
na Rochinha tem também
e uns cabelos grisalhos
piscina que se vê o fundo
e mergulha
primeiro a mão
pra ver se descobre
se dá pé
um sonrisal escorrega na beira
e a gente se esburracha
na frente do azul
o aquário te dou a outra mão
pra levantar e me despedir
atravesso a balsa
sem voltar
estarei do lado
de lá
(de binóculo).
Ellen Maria
de maresia
umas bochechas que quer morder
pão de cará
e uns olhinhos pequenininhos
brigadeiro da Itanhaém
na Rochinha tem também
e uns cabelos grisalhos
piscina que se vê o fundo
e mergulha
primeiro a mão
pra ver se descobre
se dá pé
um sonrisal escorrega na beira
e a gente se esburracha
na frente do azul
o aquário te dou a outra mão
pra levantar e me despedir
atravesso a balsa
sem voltar
estarei do lado
de lá
(de binóculo).
Ellen Maria
20.3.16
Teu nome
"aonde anda a onda
a onda ainda
ainda a onda"
Bandeira
seu arcanjo
um trono sem dono
Ninguém doma um nome
que sono
que sonho
nomear a onda que chega
um nome para cada onda
A história finita de cada
onda
espuma
homem
não há nome
que permaneça.
Ponho um nome para cada onda
que atravesso
que me atravessa
Depois ando
um pouco
e esqueço
e a onda esquece.
Ellen Maria
19.3.16
desglutição
"que é que é isso
ora em crescendo ora em diminuendo entre a abóbada
palatina e o tapete vermelho
que é que é
isso que nos instantes que nomeiam
alegria
por ela devemos servir
mas é de bom grado no tempo que dominam
as nomenclaturas de tristeza
perguntarmos antes de encher o pote
oh bom senhor
quanto disto deseja
não sei
qual o gosto disso
uma mesma via
de lamber o gosto
de dizer o gosto
materna ou segunda ou
pode ser
carne ou não
mas e lacuna vazia
pode ser também até bifurcada tem
ou uma insônia
tipo um dormir ao contrário
e tem quem fala dormindo
ou traduções
a hora errada no seu relógio de pulso
é a certa de outro braço
em outro lugar de mundo ou pedaço de
adiantamento ou atraso é uma outra
que inventamos para dizer
mapa
me encontra na latitude tal
longitude essa
coordenada é uma outra que inventamos
para dizer
casa
as linhas que seguram e as que traçam
palavra
não são a dita ela mesma
mas dizer isso é já uma outra
falar
que dó
em áfrica ou qualquer outra embaixada
não trava paz entre as minas terrestres
e as pernas amputadas
diplomacia é uma outra que inventamos
para dizer
deserto
fazer o bem sem olhar a quem
mas com data local platéia e parafernália
abutres alimentando pombos
cobrar os créditos é uma outra que inventamos
para dizer
caridade
que pode ou não ser sazonal
que pode ou não ser teoria do benefício
uma lista de expressões estereotipadas
tem a
maior que a boca
mas é uma
ferina
deu com a
nos dentes
é uma outra que inventamos
para dizer
dicotomia
e ou parâmetro do humano
não saber guardar
segredo que todo mundo já sabe
a bola é minha joga quem eu quiser
é uma outra que inventamos
para dizer
lirismo
na foto de nove soterrados contar dez
no texto pensar
será que erramos aqui
é uma outra que inventamos
para dizer
empatia
encostar sem tocar na caixa
perceber a acústica torácica e seu altifalante
indefinidas polegadas
é mais outra que inventamos
para dizer
auscultar
interface de descoisar
aquilo que vai aí e cá dentro
que é que é isso
langue parole ou burburinho
uma língua
é uma língua e
outra coisa é outra cousa."
Ricardo Escudeiro
ora em crescendo ora em diminuendo entre a abóbada
palatina e o tapete vermelho
que é que é
isso que nos instantes que nomeiam
alegria
por ela devemos servir
mas é de bom grado no tempo que dominam
as nomenclaturas de tristeza
perguntarmos antes de encher o pote
oh bom senhor
quanto disto deseja
não sei
qual o gosto disso
uma mesma via
de lamber o gosto
de dizer o gosto
materna ou segunda ou
pode ser
carne ou não
mas e lacuna vazia
pode ser também até bifurcada tem
ou uma insônia
tipo um dormir ao contrário
e tem quem fala dormindo
ou traduções
a hora errada no seu relógio de pulso
é a certa de outro braço
em outro lugar de mundo ou pedaço de
adiantamento ou atraso é uma outra
que inventamos para dizer
mapa
me encontra na latitude tal
longitude essa
coordenada é uma outra que inventamos
para dizer
casa
as linhas que seguram e as que traçam
palavra
não são a dita ela mesma
mas dizer isso é já uma outra
falar
que dó
em áfrica ou qualquer outra embaixada
não trava paz entre as minas terrestres
e as pernas amputadas
diplomacia é uma outra que inventamos
para dizer
deserto
fazer o bem sem olhar a quem
mas com data local platéia e parafernália
abutres alimentando pombos
cobrar os créditos é uma outra que inventamos
para dizer
caridade
que pode ou não ser sazonal
que pode ou não ser teoria do benefício
uma lista de expressões estereotipadas
tem a
maior que a boca
mas é uma
ferina
deu com a
nos dentes
é uma outra que inventamos
para dizer
dicotomia
e ou parâmetro do humano
não saber guardar
segredo que todo mundo já sabe
a bola é minha joga quem eu quiser
é uma outra que inventamos
para dizer
lirismo
na foto de nove soterrados contar dez
no texto pensar
será que erramos aqui
é uma outra que inventamos
para dizer
empatia
encostar sem tocar na caixa
perceber a acústica torácica e seu altifalante
indefinidas polegadas
é mais outra que inventamos
para dizer
auscultar
interface de descoisar
aquilo que vai aí e cá dentro
que é que é isso
langue parole ou burburinho
uma língua
é uma língua e
outra coisa é outra cousa."
Ricardo Escudeiro
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