15.8.16

encher o pensamento de calma
e desarmá-lo

14.8.16

...

não abre não abre não abre
certifica inclusive
que a chave está bem posicionada
dada as voltas
olha pela fresta
debaixo da porta
luz sombra caverna
não sabe
se se protege ou a quem protege
se se esconde ou a quem esconde
já não é medo
não abre não abre
gato mia miau
não sei quem é
não sei mais
até quem sou

tira a chave
não abre não abre
dada as voltas
tira a chave e olha
pelo buraco da fechadura
gato mia
miau
desfaz uma das voltas
miau
olha mais
bisbilhota
coloca o dedo na fechadura
sente o gelado do metal velho
gato mia não mia a língua miau
esse gato não mia nem quer que
não desfaço a outra volta

bota a chave
não pergunta
nem faz nem desfaz a volta
abandona a porta
até outra hora não volto
ao meu quarto
de Schrodinger.

13.8.16

atemporal

um milésimo de cada segundo
às vezes dois
o último ar aspirado
antes da primeira palavra pronunciada
de todo poema

é só pra ninguém
alguém

faz tempo

12.8.16

Fim de luta

como não me oponho
desde a lona vejo
sua reverência.



11.8.16

hum/or/amor

aquilo que
temos
de mais nosso
não é
nosso
se sustentará

como deus
o elo que pendura
a mágica que perdura
torto
todo e qualquer
quadro
sem moldura.

10.8.16

Ella

"[...]
Entre nós e as personagens que inventamos, que nossa fantasia lânguida consegue apesar de tudo inventar, nasce uma relação peculiar, terna e quase maternal, uma relação quente e umedecida de lágrimas, de uma intimidade carnal e sufocante. Temos raízes profundas e dolorosas em cada ser e em cada coisa do mundo, do mundo que se tornou repleto de ecos, de soluços e de sombras, ao qual somos ligados por uma devota e apaixonada piedade. Nosso risco então é naufragar num escuro lago de águas mortas e estagnadas, arrastando conosco as criaturas do nosso pensamento, deixando-as perecer conosco no abismo tépido e escuro, entre ratos mortos e flores apodrecidas. Diante das coisas que escrevemos, há um perigo na dor, assim como há um perigo na felicidade. Porque a beleza poética é uma mistura de crueldade, de soberba, de ironia, de ternura carnal, de fantasia e de memória, de clareza e de obscuridade e, se não conseguirmos obter todo esse conjunto, nosso resultado será pobre, precário, escassamente vital. 
E vejam bem, não é que se possa esperar da escrita um consolo para a tristeza. [...]"

Natalia Ginzburg

9.8.16

La materia de este mundo

"Mientras cepillo frente al espejo el pelo
sedoso de nuestra hija
veo los destellos grises del mío,
la sirvienta canosa detrás de ella. Por qué será
que justo cuando empezamos a irnos
ellas empiezan a llegar, que el pliegue en mi cuello
se hace más visible cuando los bellos huesos de sus
caderas se afilan? Cuando mi piel muestra
sus cicatrices secas, ella se abre como una flor
húmeda y precisa en la punta de un cactus;
cuando mis últimas oportunidades de concebir un hijo
se sueltan de mi cuerpo, entre ellas las fallidas,
su pequeña cartera llena de huevos, redondos y
firmes como emas, está a punto de
desabrocharse como un chasquido. A la hora de dormir,
cepillo su pelo enredado y fragante. Es una vieja
historia - la más vieja del mundo -
la historia de la sustitución."

Sharon Olds

8.8.16

La primera

"La primera pesadilla lejos de tu casa y de tu familia, tu primera noche en la academia, todo eso ha existido siempre: el sueño es que te despiertas de un sueño  profundo, te despiertas de repente sudando y aterrorizado y te sientes abrumado por la sensación imprevista de que a tu lado hay una destilación de mal absoluto en esta residencia desconocida y a oscuras, esa esencia y centro de mal está aquí mismo, en esta habitación, ahora mismo".

David Foster Wallace - La broma infinita

7.8.16

e a mão afasta
acabou
a festa anunciada fica
para daqui uns anos, tá?
como quem fecha
a porta pra sempre

o nosso amor, uma porta
anti-fogo
mas que não adianta
forçar a barra


6.8.16

Destiempos

"Recuerdo tus ojos,
esa furia rápida
con que aquellos
canarios imposibles
devoraron mis manos.

No tuve cómo retenerte.
En vano muñones
y tendones trataban
de asir tu presencia
a la materia sin tiempo,

a ese espacio este
en que devoras
el dorso de mi tacto
y en los poemas
siempre partes".

Manuel Colina

5.8.16

season #

são dois controles
um em cada casa
e uma sorte de zapping
espaço e tempo
os fazem parar
no mesmo canal
assistimos ao mesmo fim de série
mas ouvimos falar
em outra temporada.


4.8.16

sob o sol


no outro dia,
abandonou a casa e voou sobre o mar
sem mais derramar
mar.

Ellen Maria

3.8.16

Obvious child

Recitar um poema como uma prece para qual não se espera resposta.

"Existe algo que não ama o muro. Que envia ondas geladas sob ele, que esparrama os pedregulhos ao sol. Avisei meu vizinho além monte. Um dia nos encontraremos para caminhar e para erguer o muro entre nós de novo. Antes de erguer o muro, eu me perguntarei se eu estou me fechando, ou fechando o outro e a quem eu poderia ofender. Existe algo que não ama o muro e quer derrubá-lo."

(Wish I was here - dir. Zach Braff, 2014).

2.8.16

meu corpo
minha jaula
de vidro trincada
sem nenhuma
fera dentro.



1.8.16

Sem atalho

"Assusto o silêncio que me é imposto
... posto após posto posto em holocausto...
de custos e medo existo assim composto
como um suposto rosto em riste e exausto

de vagar p'las ruas como se mendigo,
de contar as luas, os sóis ao relento...
eu quero é amor, este lindo abrigo,
esta linda casa; humano sentimento...

... ajusto a tristeza num riso vasto
gasto o amor em cada flor que degusto (...)
arbusto firme sou pássaro casto
no nefasto sol padrasto e injusto...

S'a moda muda, conservo o conteúdo,
me desligo num sono profundo
enquanto renasço anjo, anjo miúdo
indo e vindo no lindo findo mundo..."

Octaviano Joba